Dentes do Diabo

Jeon Jungkook

Alguns anos atrás.

— Está doendo muito? Se estiver, podemos parar... — Junghyun disse afastando, mas Jungkook negou veemente.

— Eu aguento, continua — disse após fechar os olhos, apertando as mãos em punhos sobre suas calças. Estava com lágrimas nos olhos, mas não queria que seu pai percebesse.

— Meu menino está virando um homem hm? Está até aguentando a agulha perfurando sua pele — riu, voltando a colocar a ponta do osso sobre a sua derme. — Mas sei que isto dói, não se esqueça, tenho várias espalhadas pelo corpo, por isso, não ultrapasse seu limite, se estiver doendo muito, paramos e terminamos amanhã.

— Está tudo bem pai, continue, eu sei o que isto significa para você — disse mordendo o lábio inferior em seguida.

— Jungkook, vire-se por um momento — sua voz soou mais séria que antes, o que o fez girar no banco de madeira do qual estava sentado. — Sabe o que é isso que estou tatuando em suas costas?

— O mapa do seu tesouro não é? — Perguntou confuso, inclinando seu pescoço. — A localização de suas riquezas.

— O destino deste mapa não leva somente a um baú de tesouros ou qualquer outro bem material filho — deixou o osso e as tintas de lado, encarando-o em seguida. — Além do ouro e todas as minhas conquistas, há algo que você precisa para entender a sua origem.

— Como assim?

— O maior tesouro que você encontrará lá Jungkook, será o conhecimento — disse sorrindo, cruzando os braços fortes e encostando na parede de madeira de sua cabine. — Meus maiores tesouros são pergaminhos e livros que recebi de Amélia, presentes de Hécate a ela.

— Hécate... A deusa mitológica? — Riu em descrença, fazendo seu pai rir também.

— Eu também era cético, assim como você, eu duvidei, desdenhei e ri quando me contaram essas histórias. Pensei serem mitos contados por marujos bêbados em tabernas — Junghyun divagou, olhando para o lampião aceso no canto de sua cabine. — Acreditei que todas essas "fantasias" não existiam, até encontrar sua mãe.

— Minha mãe? Por quê?

— Você descobrirá no futuro, você não é como as outras crianças Jungkook, assim como sua mãe não é como as outras mulheres — tocou a runa presa a seu pescoço. — Essa runa que carrego será sua depois que eu partir, ela foi um presente muito especial.

— Um presente da minha mãe? — Perguntou curioso, vendo seu pai assentir.

— É um presente que não se encontra em qualquer lugar e não é qualquer um que pode usá-la, por isso é tão especial — sorriu de uma maneira apaixonada, como sempre fazia quando falava sobre sua mãe. — Agora venha, irei aplicar um bálsamo em suas costas, amanhã terminamos a tatuagem.

— Por que você não fala muito sobre a minha mãe? — Perguntou enquanto se jogava na cama de seu pai, ficando de barriga para baixo. — A mama Maria também não falou muito sobre ela, disse ser apenas uma mulher muito bonita e doce.

— Maria estava certa, sua mãe é de fato uma mulher encantadora — caminhou até sua cômoda e pegou um pequeno pote de vidro, voltando-se em direção com ele nas mãos. — Mas quero que você veja isso pessoalmente, no dia que encontrá-la.

— Estou ansioso por este dia! — Se encolheu quando sentiu o bálsamo sobre as linhas de sua tatuagem recém feita, sua pele estava sensível e machucada por contas das linhas traçadas pelo osso.

— Espere realmente — deitou-se ao seu lado quando terminou de espalhar o bálsamo por suas costas. — Cante para mim?

— O que quer ouvir? — Deitou sua cabeça sobre o travesseiro, relaxando e fechando os olhos, estava cansado de treinar o dia inteiro.

— Cante a música dos filhos do mar que sua mãe lhe ensinou.

— Certo — sorriu, podia não ter lembranças do rosto de sua mãe, mas jamais se esqueceu da letra daquela canção. — Eu ouço sussurros do mar...

"Com o bater das ondas ele está a cantar

No meu ouvido o som adentrar, dizendo que à terra não é o meu lar"

"Sinto o meu peito se aquecer

E suas ondas me acolher

Talvez seja um chamado

Da correnteza que está ao meu lado"

"Juntos aos meus irmãos quero ir

Sentindo as ondas me engolir

Talvez meu lugar não seja aqui

Pois sinto as águas me invadir"

"Eu ouço sussurros do mar

dizendo que à terra não é o meu lugar

Que nas profundezas eu vou me encontrar

Pois sou o seu filho e lá é meu lar..."

Talvez fosse a maresia balançando o Nevrine, talvez a respiração e o calor de seu pai ao seu lado acalmando-o, ou fosse as vagas lembranças de sua mãe ninando-o durante as noites, mas estava extremamente sonolento ao terminar de cantar. Sentiu o colchão movendo-se ao seu redor e seu corpo sendo puxado para o abraço quente de seu pai, as batidas de seu coração estavam calmas e ritmadas, deixando-o ainda mais relaxado e sonolento. Sua mama Maria sempre o acalentava daquela maneira, embora o abraço dela fosse extremamente bom, os de seu pai era tão carinhoso quanto, imaginava se o de sua mãe eram da mesma maneira. Estava lentamente adormecendo sentindo os afagos de seu pai sobre seus cabelos.

— Você é o nosso tesouro mais precioso Jungkook...

(...)

Tempos atuais.

— Há um boato por aí de que os Dentes do Diabo foi um nome dado há uma coisa que pareça realmente os dentes do Diabo — Hoseok disse sentado no chão do convés. — Porque as duas provações realmente fizeram jus ao nome, não pareciam ser de fato um nome dado para assustar piratas.

— Jura? — Jennie desdenhou. — Nem percebi, ainda bem que você me falou sobre isso ou nunca teria passado pela minha cabeça.

— Às vezes eu me pergunto se sua mãe não o deixou cair quando era bebê — Lisa confessou, arrancando gargalhadas dos outros marujos. — Me pergunto se os deuses lhe presentearam com toda sua habilidade em lutas para compensar sua falta de intelecto.

— Podem continuar me chamando de burro — Hoseok deu de ombros. — Mas até agora não ouvi saindo da boca de vocês, autodenominados inteligentes, qualquer ideia boa para nos livrar da morte. Porque se fossem assim tão espertos, não teriam entrado nessa viagem suicida para início de conversa.

— Ele tem um ponto — Namjoon concordou, cruzando os braços.

— Os boatos que eu ouvi eram de tripulantes do Nevrine — Hoseok continuou, atraindo a atenção de Jungkook, que estava sentado em um banco de madeira perto do traquete. — Muitos se esquecem que o pai do JK não viajava sozinho, muitos dos marujos a bordo do Nevrine contavam as histórias de suas aventuras em tabernas para outros Piratas. E apesar deles terem ido à ilha do Tormento junto a Junghyun, ninguém ousou desafiá-lo para conseguir o tesouro ou se aventurou no mar do Diabo novamente sem o Capitão.

— Eles tentaram sim — Jungkook revelou, aquilo estava guardado consigo há muito tempo, mas nunca teve coragem de dizer. — Era por isso que eu não suportava a ideia de estar em um navio Pirata, não era somente por conta da morte de meu pai, mas sim porque os tripulantes do Nevrine não cumpriram com sua promessa, passando-me uma imagem errônea dos piratas.

— Como assim? — Taehyung perguntou curioso.

— Todo o tesouro que conseguiam era repartido entre todos do navio, todos gastavam com coisas supérfluas, como bebidas, ostentação e mulheres, mas meu pai não, ele os guardava — cruzou os braços, olhando para o chão, sem coragem de encarar Taehyung. — E foi assim durante anos, por isso o tesouro dele é tão cobiçado, ele os guardou. A promessa era de que os tripulantes não tocariam no que não lhe pertenciam, pois daquele ouro, todos tiveram a sua parte. Depois da morte de meu pai, eles deduziram que o tesouro dele estava em um lugar onde apenas ele conseguia alcançar, então navegaram até o cemitério dos Piratas, crentes que conseguiriam ultrapassá-lo como meu pai sempre fazia.

— Mas não conseguiram... — Yoongi contatou, fazendo Jungkook assentir.

— Nevrine era um navio tão ágil e resistente quanto Aurora, talvez até mais, aguentou as mais sangrentas batalhas e o mais agitado dos mares, era quase impossível que ele naufragasse. Mas o mar os castigou, tenho certeza que morreram não como heróis, ou como conquistadores, mas como traidores — ergueu seu olhar para Yoongi, que pareceu entender o porquê de odiar ser chamado daquilo. — Eles quebraram a sua promessa e pagaram o preço.

Um silêncio mórbido tomou o navio por alguns segundos, antes de Jungkook suspirar e continuar.

— Mas o que o Hoseok falou é verdade, não descartem só porque parece lorota, os Dentes do Diabo no mapa, são desenhados como imensas rochas pontudas e mortais — disse olhando para suas mãos. — Me preocupa como passaremos por elas.

— Nossos barcos foram destruídos, não temos como usá-los, teríamos que nadar ou atravessar com a Aurora — Jimin disse atraindo o olhar de Jungkook.

— Não creio que nadar seja a melhor solução... É perto da costa, um lugar repleto de rochas, seria uma morte dolorosa e agonizante bater nelas por entre a correnteza das ondas — Jungkook disse fazendo uma careta.

— Então o que faremos? — Namjoon perguntou.

— Rezar para que a Aurora consiga passar por entre as rochas — Taehyung respondeu de braços cruzados. — Vamos acreditar que o verdadeiro desafio seja, na verdade, para um bom navegador, então não teríamos de descer do navio, apenas confiar em sua navegação.

— Mas e se a Aurora não passar? — Yoongi perguntou ao Capitão, fazendo todos os marujos encará-lo.

— Iremos naufragar — suspirou, fazendo todos olharem uns para os outros com medo.

— Ou talvez eu possa-

— Não, você não pode — Taehyung interrompeu a fala de Jungkook. — Você quase morreu, não tentará novamente.

— Taehyung não teremos opção! — Disse com firmeza, vendo a expressão desgostosa do Capitão. — Se naufragados todos morreremos! Posso respirar debaixo d'água, mas e vocês?!

— O Tae não pode respirar debaixo d'água também? — Jimin perguntou olhando para o irmão, que negou.

— Apenas consigo prender a respiração por um tempo maior, mas ainda posso me afogar — suspirou.

— Taehyung, eu sei que preza pela minha segurança... — Jungkook disse olhando-o nos olhos. — Mas se eu tiver que me sacrificar para salvar as pessoas deste navio, eu o farei, pois vocês estão aqui por minha causa, não suportaria viver sabendo que todos morreram, sendo que eu poderia ter feito algo para impedir.

— Jungkook estamos aqui porque escolhemos nos arriscar, todos sabiam dos riscos, então arcaremos com as consequências — sua mão ergueu até tocar a bochecha de Jungkook, que sentiu seu coração acelerar com aquele ato. — Acredita que eu conseguiria viver sabendo que deixei que se sacrificasse quando eu poderia ter impedido? Imagine como eu me senti quando você pulou no mar, eu teria lutado com o Peixe do Diabo se fosse preciso, mas não deixaria você morrer lá. Então por favor, vamos pensar em um plano onde todos sairemos vivos...

Jungkook não teve como argumentar contra aquilo, por isso escolheu o silêncio.

— Iremos pedir para que você use sua runa apenas em último recurso — Namjoon disse lhe encarando. — Vimos o que acontecesse com seu corpo quando a usa demais, todos vimos Taehyung voltar ao barco com seu corpo desfalecido nos braços. Agradecemos que tenha se arriscado tanto para nos proteger, deixe-nos retribuir todas às vezes que nos salvou.

Jungkook viu que todos lhe encararam com gratidão explícita no olhar, o que o fez ridiculamente o sangue correr para suas bochechas, mas apenas abaixou a cabeça e assentiu. Depois que acordou na enfermaria, havia se passado mais de um dia, seu corpo se recuperou gradualmente, apesar da fraqueza, havia perdido as contas de quantos extratos de calêndula, camomila e gengibre, tudo para livrá-lo das dores, cansaço e náuseas. Taehyung não saiu de seu lado nem mesmo por um segundo, zelando por sua segurança, sentia suas mãos quentes em contato com sua pele durante os momentos que seu sono estava leve, checando sua temperatura, assim como panos unidos limpando seu suor quando a lareira havia comprido seu propósito.

Não conseguia manter contato visual, pois se lembrava de suas palavras antes de adormecer.

— Então estamos todos de acordo em tentar usar todos os métodos a nosso favor, visando não sobrecarregar ainda mais o JK? — Jimin perguntou, fazendo com que todos concordassem.

— Preciso de ajuda para fortalecer a Aurora, precisamos consertar os danos causados em sua estrutura — Hoseok disse se levantando do convés, sendo seguido por algumas pessoas.

— E eu preciso de ajuda na cozinha, por conta da movimentação muitas batatas e legumes acabaram movendo-se — Jin também se levantou. — Como minha ferida ainda não está completamente curada, preciso de ajuda para mover os sacos pesados.

— Eu lhe ofereço ajuda — Jimin se levantou e Lisa também, ambos caminhando até a cozinha.

— Temos comida suficiente para quantos dias Jin? — Taehyung perguntou.

— Uns quatro ou cinco dias, se racionarmos — respondeu, fazendo o Capitão assentir.

— Podemos abastecer quando chegarmos na Ilha do Tormento — Taehyung disse após levantar-se, olhando para Jungkook em seguida. — Podemos conversar? A sós?

— Certo... — Jungkook se levantou. Não poderia adiar aquela conversa por muito tempo de qualquer maneira, tinha perguntas a fazer e tinha certeza que o Capitão também.

Os dois caminharam até a cabine do Capitão, onde Taehyung segurou a porta para que Jungkook entrasse primeiro e a fechou atrás deles, o silêncio durou pouco, pois seu coração acelerou de uma maneira tão absurda, que tinha medo que todos na Aurora pudessem escutá-lo. Os braços de Taehyung estavam em volta de seu corpo, abraçando-o por trás, seu rosto estava afundado na curvatura de seu pescoço, respirando de maneira calma e suave sobre sua pele, arrepiando os pelos de todo seu corpo. Jungkook não soube como reagir, por isso após uma pequena letargia, levou suas mãos ao encontro das dele sobre seu abdômen, sentindo o calor de suas mãos juntas naquele ato um tanto íntimo demais, mas que por alguma razão, não lhe causava desconforto algum.

— Fiquei tão assustado — Taehyung sussurrou próximo a seu ouvido. — Pensei que eu o perderia.

— Devia saber que eu não sou vencido tão facilmente, afinal, eu sou filho do pirata mais temido dos sete mares — disse suavemente, sorrindo pequeno.

— Mas até mesmo você, pode perecer sob uma situação desvantajosa — seus braços seguraram seu corpo com mais firmeza. — Tome mais cuidado consigo mesmo, por favor, eu ficaria mais tranquilo se você se importasse um pouco mais com seu próprio bem-estar.

— Eu tentarei.

— Você promete? — Perguntou com os lábios próximos a seu ouvido direito.

— Eu prometo — respondeu com sinceridade, apenas de suas escolhas serem influenciadas pela situação do momento.

Taehyung afastou-se um pouco de seu corpo, girando-o no lugar e deixando-o de frente para seu corpo, como sempre ocorria quando fazia contato visual com o Capitão, seu coração palpitou mais intensamente em sua caixa torácica. Embora aquele medo estivesse em seu âmago, seu desejo por ele era deveras maior que sua hesitação, pois Taehyung havia tomado completamente sua mente, não dando nenhum espaço para pensamentos subjacentes. As mãos quentes e cheias de anéis do capitão passearam por suas bochechas, antes de acariciar suas têmporas e puxá-lo para um beijo delicado, puxando completamente qualquer mínima hesitação para fora de seu corpo.

Taehyung o beijava como se o mundo ao seu redor não existisse, fazendo-o sentir todas as sensações e sentimentos possíveis com aquele simples encostar de lábios, porém, aquilo não perpetuou, pois o Capitão se afastou minimamente, para olhar em seus olhos, antes de tomar seus lábios com mais fome. Jungkook suspirou, sentindo o corpo de Taehyung empurrar o seu em direção a parede da cabine, prendendo-o entre a madeira e a rigidez de seu peito e abdômen. O beijo se tornou mais intenso quando a língua do Capitão invadiu sua boca, tomando todos os seus suspiros para si, deixando-o completamente amolecido em seus braços ao ter o joelho dele pressionado entre suas pernas, sentia que teria uma taquicardia se a intensidade de Taehyung não diminuísse.

O beijo foi encerrado por Taehyung, que se afastou após um selar suave.

— Sinto que meu coração irá explodir em meu peito — Taehyung disse após um suspiro, deitando a cabeça sobre seus ombros. — Eu tô muito fodido.

— Por quê? — Perguntou, um tanto ofegante.

— Acabei de perceber a loucura que fiz por você — se afastou um pouco, segurando suas bochechas, encostando suas testas. — Eu me joguei no mar... No lar de uma criatura que só vemos em nossos pesadelos, desarmado e sem qualquer plano, tudo porque não suportei a ideia de perdê-lo.

— O que aconteceu após eu perder a consciência? Como conseguiu parar o Peixe do Diabo?

— Eu deduzi que por ele ser uma criatura marinha, ele não estava isento dos poderes da minha runa — desceu suas mãos, até entrelaçar seus dedos aos de Jungkook. — Mas eu não tinha ideia se iria funcionar ou não, eu não planejei, eu simplesmente me joguei e usei o poder que ela me deu no máximo. Eu consigo coagir qualquer ser vivo, basta olhá-lo nos olhos que eu o faço cair de joelhos, mas, não pensei que iria funcionar com um monstro marinho.

— Lembro-me de ter visto seus olhos completamente enegrecidos antes de ficar desacordado — olhou para baixo, incapaz de manter o contato visual. — Eu senti um pouco do medo que a criatura sentiu ao vê-lo daquela forma, foi... Paralisante, jamais senti nada tão perturbador.

— Me desculpe, tentei poupá-lo cobrindo seus olhos, mas mesmo assim, você ainda sentiria o peso do medo sobre seus ombros somente em estar sob minha presença — ergueu seu queixo, fazendo-o encará-lo. — Temo de ter sido a causa de seu desmaio, não somente sua fraqueza e indisposição.

— Salvou minha vida — sorriu, tentando tranquilizá-lo ao ver a culpa corroendo seus belos olhos cor de ébano. — Diria que está mais que perdoado.

— Jungkook... — Sussurrou, desviando o olhar por alguns segundos.

— Sim?

— Temo que eu esteja completamente apaixonado por ti — disse levantando os olhos para encontrar os seus novamente. Jungkook arregalou os olhos, tinha escutado ele confessar seus sentimentos a Jimin quando estava acamado, mas não sabia como responder. — Porém, não quero que se sinta pressionado, sei que não é fácil se abrir a um novo amor após ter seu coração feito em pedaços, mas espero que no futuro, você me dê a chance de consertá-lo.

Jungkook queria dizer estar se apaixonando por ele também, queria dizer que seus sentimentos eram recíprocos, que mesmo assustado, estava disposto a permanecer ao lado dele e arriscar entregar seu coração novamente... Mas, porque as palavras não saiam?

— Não precisa me responder agora — sorriu, acariciando suas bochechas com ternura. — Sei que seus sentimentos não são recíprocos ainda, que seu coração ainda não está pronto. Irei aguardar, não tenho pressa.

— Taehyung eu... — Jungkook olhou em seus olhos, mas as palavras estavam entaladas em sua garganta. — Eu...

— Está tudo bem — deixou um selar sobre seus lábios. — Serei paciente, irei esperar até que esteja pronto. — Jungkook queria dizer-lhe, estava torturando-se por dentro, mas as palavras não saiam. — Vamos nos juntar aos outros e nos preparar?

— Eu... — Abaixou a cabeça, após morder seu lábio inferior com força. Suspirou e apenas assentiu, fazendo Taehyung sorrir e puxá-lo pela mão, levando-o para fora da cabine.

"Covarde" Jungkook insultou-se, por ser incapaz de dizer o que estava entalado em sua garganta.

(...)

— Definitivamente é pior que imaginávamos — Namjoon disse olhando adiante, todos que estavam a bordo só podiam concordar.

Mais a frente havia enormes estruturas rochosas que se assemelhavam a montanhas pontudas, elas emergiram da água de maneira assustadora, suas pontas afiadas rasgaram a carne de qualquer ser humano com extrema facilidade. Não havia dúvidas que eram estalactites feitas de rochas vulcânicas e magma, a julgar por sua cor escura, mas o que preocupava Jungkook era a quantidade delas espalhadas pela entrada da ilha. Não havia muito espaço entre elas para um navio do tamanho da Aurora passar sem sofrer danos, eles certamente iriam naufragar ali, não havia como passar, teriam que descer e ir a nado ou com barcos pequenos, porém os do navio foram destruídos ou levados pela correnteza ao passar pelas provações.

— Nem mesmo o melhor dos navegadores conseguirá conduzir Aurora por entre as rochas — constatou Namjoon, olhando para o Capitão.

— Desçam a âncora, não podemos nos aproximar mais, não sabemos em qual profundidade estamos, podemos bater nas rochas submersas pelo mar — Taehyung disse para Lisa, que assentiu e gritou para que os marujos seguissem as ordens do Capitão.

Jungkook caminhou até o convés para ajudar os tripulantes a subir as velas e descer a âncora, estava recuperado, mas não fazia muito tempo que usou os poderes da runa, então sabia que não poderia fazer algo grande demais. Mas ao olhar adiante, o que fariam? Podia ouvir o som das ondas quebrando contra as pedras, a força da correnteza estava extremamente forte, não iriam sobreviver se pulassem no mar. Mesmo que respirasse debaixo d'água, se batesse contra as rochas, ele certamente morreria também, o que o levava a raciocinar enquanto puxava as cordas ligadas as velas da Aurora, como seu pai atravessou os Dentes do Diabo?

— O que faremos? — Ouviu Yoongi sussurrar próximo a si, o que o fez virar o pescoço para encará-lo.

— Eu não sei...

Aurora agora estava parada, todos estavam acima do convés, ao lado do leme, encarando as grandes rochas pontiagudas no caminho, Hoseok estava certo realmente, elas definitivamente pareciam os Dentes serrilhados do Diabo. O sol estava em seu pico no seu, Jungkook julgava ser entre meio-dia e uma hora da tarde, estava quente e abafado, a água límpida e azul estava bonita e calma onde estavam, mas alguns metros a frente podiam ver sua correnteza. A Ilha do Tormento não estava tão distante, podiam observar a praia e a grandeza de seu vulcão, que parecia estar ativo a julgar pela fumaça saindo de seu topo, deduziu que a distância entre a Aurora e a praia era de aproximadamente uns trezentos metros, perto o suficiente para enxergá-la, mas longe o bastante para matá-los no caminho.

— Olhe a força do oceano batendo contra as rochas... — Jennie disse olhando para os Dentes do Diabo de uma maneira hipnotizada.

— Não há como voltar... Assim como não há como prosseguir — exprimiu Jimin olhando adiante. — Estamos presos aqui.

— JK... — Hoseok o encarou, temendo dizer o que todos tinham vontade de proferir.

— Eu sei — falou Jungkook olhando para Taehyung em seguida, que o encarava com uma expressão triste. — Tenho que fazer isso...

— Você não irá suportar... — Fora a primeira vez que Jungkook pode sentir a dor dele através de suas palavras e voz.

— Talvez não, mas tenho que tentar ao menos salvar vocês — sentiu sua voz embargar, o que fez o semblante de Taehyung se entristecer ainda mais. — Eu irei criarei uma brecha para vocês passarem, daí quando vocês atravessarem eu...

— Não — Lisa o interrompeu, atraindo sua atenção. — Você atravessará conosco, não o deixaremos para trás, se tivermos que morrer, morreremos juntos. — Ela caminhou até Jennie, segurando sua mão com firmeza.

— Ela está certa — Yoongi disse cruzando os braços, apesar de a cicatriz lhe dar um ar mais duro, o sorriso que ele lhe ofereceu foi imensamente caloroso. — Não deixamos nossos parceiros para trás.

— Já nos arriscamos vindo até aqui de qualquer forma — Namjoon deu de ombros, entrelaçando seus dedos aos de Jimin. — Estou pronto para aceitar meu destino, seja ele qual for.

— Mas... — Jungkook tentou argumentar, mas seus lábios foram calados pelo indicador de Taehyung pressionando-o.

— Mesmo que você consiga abrir uma brecha e todos nós consigamos atravessar, você não terá força o suficiente para mantê-la aberta para si próprio — ele sorriu, apesar de seu sorriso não alcançar seus olhos. — Juntos teremos uma chance maior de sobreviver.

Jungkook queria argumentar contra, queria dizer que se estivesse parado e concentrado, talvez conseguisse canalizar suas forças, mas Taehyung estava certo, ele não teria forças para manter a passagem aberta para que conseguisse passar, ele seria engolido pelo mar e morreria nas rochas. Estava assustado, queria viver, queria poder encontrar sua mãe, descobrir os tesouros que seu pai lhe deixou, queria passar um tempo com sua mama Maria, queria ser um pirata por mais tempo, mas primeiramente... Queria ter um futuro com Taehyung. Por isso, apesar de saber que ele poderia ser mais útil ficando para trás no navio, queria viver também, almejava conhecer tudo aquilo que se privou por anos.

— Tudo bem — sentiu um bolo em sua garganta. — Irei nos levar ao outro lado em segurança, eu prometo!

Todos os tripulantes do navio sorriram, estava óbvio nas expressões de todos que estavam com medo, que a possibilidade de morrer era mais real e provável que das outras vezes, pois todos viram com os próprios olhos que Jungkook não era invencível. Mas apesar de todos os contras, todos estavam ao seu lado, como uma família, o que o deixava extremamente feliz e decidido, iria salvá-los, queria viver uma vida longa, mas se tivesse que morrer para protegê-los, faria isso sem hesitar. Jungkook instruiu que todos pulassem no mar, assim sentia-se mais seguro, pois se algo desse errado, eles estavam em seu domínio. Por isso todos pularam no mar, no final, foi a sua vez, em seguida a de Taehyung.

Quando sentiu a água fria adentrar suas roupas, afundou por alguns segundos, tentando enxergar o chão sob seus pés. Graças aos raios de sol, podia observar o chão, a profundidade ainda era muito grande, teria de usar uma força extrema para abrir um caminho pelo oceano e, ao emergir, viu os rostos repletos de expectativas da tripulação. Jungkook sentiu suas mãos tremerem com a enorme responsabilidade sobre suas costas, se falhasse, causaria a morte de diversas pessoas e talvez a sua própria, por isso não conseguiu conter o medo de atravessar seu peito. Mas relaxou um pouco ao sentir a mão de Taehyung encontrar a sua, fazendo que o encarasse, vendo um sorriso caloroso em seus lábios.

— Irá dar tudo certo, você conseguirá — disse com a voz amena, com um timbre suave, para acalmá-lo. — Eu não irei soltar sua mão, estarei ao seu lado até o final.

— Obrigado — Jungkook sorriu pequeno, feliz por ter alguém lhe dando força. Fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo, voltou a encarar os rostos da tripulação, notando que agora só quinze pessoas haviam sobrevivido até aquele momento. — Criarei um vácuo... Assim como fiz no lago dos ossos, para nos levar até o fundo do oceano, assim que estivermos sobre a areia, tentarei criar a abertura...

Esperava que não estivessem ouvindo seu coração acelerado ou vendo o quão trêmulas estavam suas mãos, por isso apertou os dedos de Taehyung nos seus, tentando manter-se firme ao ter tantas vidas sob sua responsabilidade.

— Confiamos em você — disse Jimin, sorrindo em sua direção, fazendo todos os outros concordarem.

Jungkook assentiu e respirou fundo, puxou o cordão que sua runa e a manteve entre seus dedos, segurando-a com força, fechou os olhos novamente e concentrou-se no vasto oceano à sua volta. A pressão foi pequena de início, conforme foi criando um vácuo e levando todos consigo, foram afundando todos juntos sem perderem o oxigênio. Foi assim durante todo o percurso até o fundo, assim que seus pés tocaram o chão, Jungkook abriu os olhos, vendo um vácuo em um formato cilíndrico de onde estavam, até a superfície. Os marujos olhavam para os lados de maneira temerosa e admirada, o oceano era de fato um lugar muito belo, mas extremamente perigoso também. Com sua mão junto de Taehyung, caminhou até o limite do vácuo, olhando adiante.

Havia um caminho por entre os rochedos, conseguiriam passar por eles a pé de maneira tranquila, por isso voltou a fechar os olhos. Jungkook sentia aquela pressão em sua cabeça, porém iria expandi-la exponencialmente, estava preparado para uma dor excruciante ao fazer o que tinha que fazer, por isso não esperou por mais, deixou que a força o atravessasse e metro por metro, dividiu o mar em dois. A cada centímetro que abria a pressão e a dor de cabeça aumentava, podia sentir cada força de seu corpo sendo drenada, a dor em sua cabeça estava aumentando até o momento que estava ficando insuportável. Jungkook gemeu de dor e curvou-se quando o primeiro estalo em sua cabeça surgiu, Taehyung o acudiu, passando seu braço esquerdo por seu pescoço, sustentando seu corpo.

Quando abriu seus olhos novamente, percebeu que havia parado de expandir o poder da runa, por conta da dor que sentiu, mas ignorou os avisos de seu corpo, expandindo-o ainda mais. Seu nariz voltou a sangrar, assim como sua visão começou a fuçar turva, sua cabeça parecia que iria explodir a qualquer segundo, quando sentiu que seu corpo iria colapsar chegou ao fim da abertura, alcançando a praia. Jungkook sentia-se tonto, estava fraco e a pressão estava tão forte a ponto de causar zunidos em seus ouvidos, seu corpo estava pesado, suava frio e tinha certeza que estava pálido. Taehyung apoiou seu corpo com mais firmeza, encarando-o com extrema preocupação, enquanto ficava que manter a abertura intacta, fazendo uma força extrema.

— V-Vão! — Jungkook conseguiu proferir. — Não conseguirei manter por muito tempo.

— Corram! Nós alcançaremos vocês! — Taehyung gritou, fazendo todos correrem. Jungkook observou Jimin hesitar, olhando para seu irmão. — Vá Chimmy, eu estarei logo atrás...

— Por favor... Não demore — Jimin pediu com lágrimas nos olhos antes de correr.

Jungkook deu seu primeiro passo, acompanhado por Taehyung, vendo todos correrem á plenos pulmões à sua frente, se distanciando cada vez mais dos dois. Deu mais cinco passos antes do segundo estalo em sua cabeça, fazendo-o curvar-se novamente e gemer de dor, sua visão escureceu por alguns segundos antes de voltar ao normal. Os paredões de água se comprimiram em direção a eles antes de Jungkook voltar a se concentrar, deu mais alguns passos com a ajuda de Taehyung, que não o soltou em nenhum momento. Após o terceiro estalo Jungkook não conseguiu manter-se de pé, era como se seu corpo estivesse rompendo cada fibra de seu corpo que o mantinha vivo, fazendo-o cair de joelhos. Não conseguiu gemer de dor, pois seu corpo expulsou o sangue entalado em sua garganta, impedindo sua respiração por um momento.

— Jungkook... — Seus ouvidos podiam estar zunindo, mas conseguiu identificar o choro na voz de Taehyung. — Você não irá suportar...

Queria dizer-lhe que conseguiria, queria muito poder dizer que ficaria melhor, mas nem sequer conseguiu mover seus lábios, sua cabeça doía demais, impedindo-o de conseguir formular uma frase. Estavam ajoelhados no chão, sentindo a areia molhada sobre seus joelhos fracos, sentia o sangue escorrendo por suas duas narinas, o que fez Taehyung tentar limpá-las. Jungkook não o enxergava com precisão, sua visão estava turva demais para tal, apenas sentia seus toques de uma maneira letárgica, ele realmente não suportaria, seu corpo pereceria ali. A dor excruciante que sentia era demais, ele não queria continuar, estava doendo demais, o que fez com que as lágrimas escorressem por suas bochechas.

— D-Dói — conseguiu formular aquela única palavra, sentindo o gosto ferroso em sua boca.

— Eu sei, eu sei — Taehyung chorou, acariciando suas bochechas. Jungkook engoliu o sangue e a saliva, tentando limpar sua garganta.

— Vá! — Disse com dificuldade, sentindo o quarto estalo, curvou-se sobre o chão, para cuspir o sangue que seu corpo insistia em expulsar.

— Eu não sairei daqui! — Disse puxando-o para um abraço. Apesar de sua visão borrada, conseguiu ver o paredão se estreitar ainda mais, naquele momento a tripulação já devia estar em segurança na areia da praia.

— V-vá! — Tentou sair de seu abraço, mas não conseguiu, apenas o cansou ainda mais, fazendo-o cair completamente sem forças no braço de Taehyung. — Por f-favor...

— Eu não sairei do seu lado! — Jungkook começou a chorar com o queixo encostado no ombro de Taehyung ao ouvir sua voz embargada.

Com o quinto estalo, Jungkook teve um espasmo, fazendo-o engasgar em seu próprio sangue, prova de que seus pulmões estavam falhando. O paredão se estreitou ainda mais, podia ouvir ao longe o grito dos marujos, pedindo para se apressarem.

— Me desculpe... — Taehyung chorou, abraçando-o com força. — Me desculpe por tê-lo trazido para cá, me desculpe...

Jungkook não conseguiu responder, pois seu corpo estava tendo diversos espasmos nos braços de Taehyung, que o abraçava com firmeza nos braços, chorando e soluçando alto. Estava conseguindo — de maneira extremamente dolorosa — manter os paredões de água parados, mas no sexto estalo tudo se desfez. Jungkook sentiu algo se partindo, como se a última fibra de sua força tivesse se cedido a pressão, como um interruptor, tudo havia se desligado, suas forças haviam acabado e a água agora não estava mais sendo contida. Se desesperou a ver que os paredões de água iriam engoli-los, mas quando tentou usar a runa uma última vez seus músculos enrijeceram sob sua pele, ao sentir a runa em pedaços entre seus dedos.

Começou a chorar copiosamente ao ter ciência que morreriam ali, talvez ele sobrevivesse, mas Taehyung não, por isso agarrou-se a camisa dele com a escassa força que lhe restava. O mar estava vindo com toda sua força, eles seriam esmagados pela fúria do oceano, podia sentir o corpo de Taehyung tremer junto ao seu, abraçando-o com toda sua força. Jungkook gritou, gritou o máximo que conseguiu, apertando os pedaços da runa sobre sua mão, tentando conter as maiores ondas que já viu em toda sua vida, mas nada acontecia. Ouviu os gritos dos tripulantes, o desespero de todos ao verem os dois ajoelhados sobre a areia, extremamente pequenos comparados às avassaladoras ondas que os matariam.

— Eu te amo Jungkook — Taehyung disse por entre o choro e sua voz embargada. — Ao menos irei partir sentido seu calor em meus braços...

Jungkook gritou ainda mais alto, um grito que parecia rasgar sua garganta.

— Não! — Gritou com toda sua força restante antes do oceano cobri-los.

~🖤~

EU ESCREVI ESSE CAPÍTULO EM UM DIA CARALHOOOO

Se eu não finalizar essa fic até amanhã eu não me chamo Alanis Gomes!

E então? Vocês estão bem? :)

Eu joguei a resposta que vocês tanto esperavam sobre a origem do JK, será que vocês pegaram?

Até amanhã na próxima att!

Tag da fic no twitter:
#dentesdodiabo



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