O Lago dos Ossos

Apresento a vocês... Mayim, mãe do Jungkook:

Essa é a aparência do Capitão Junghyun ao conhecer Mayim, antes de Jungkook nascer:

Lindos né? Meu deus, que obra prima eu fiz, omg.

(...)

Jeon Jungkook

Jungkook estava vivendo algum tipo de sonho.

Mesmo que muitos marujos tenham desistido de navegar com eles quando souberam para onde iriam, o navio estava animado, todos trabalhavam com um sorriso no rosto, como se não estivessem indo em direção a morte eminente. Taehyung em especial estava radiante, distribuindo sorrisos a torto e a direito, roubando seus beijos sempre que podia, sorrindo quadrado logo em seguida, como se aquele pequeno gesto fosse algo grandioso. Jungkook estava um tanto confuso sobre como reagir a essa felicidade, estava preocupado com o futuro que Jennie viu, mas queria entender como ninguém além dele estava também. Estavam indo em direção a morte, por que estavam tão felizes?

"Piratas são realmente estranhos" pensou.

Jungkook treinou arduamente, tentava encher o maldito cálice por horas, até conseguir fazer o ato sem sentir absolutamente nada, como se tivesse simplesmente movendo um membro, sem qualquer esforço. Quando finalmente conseguiu encher o cálice sem molhar Taehyung, ele sorriu, lhe dando um beijo como recompensa, deixando estupidamente envergonhado e feliz pelo reconhecimento do Capitão. Desde que mostrou o mapa a ele, Taehyung tem estado diferente, sorrindo mais frequentemente, beijando-o sempre que tinha a oportunidade, mantendo-se próximo sem invadir seu espaço, gestos pequenos que para Jungkook valiam muito mais do que qualquer tesouro.

Às vezes quando Taehyung lhe roubava um beijo, Jungkook olhava em volta, com medo de estarem olhando e julgando-o pelas costas, mas ninguém se importava com o fato de seu Capitão estar beijando um homem. Pelo contrário, notou que os tripulantes simplesmente não viam aquilo como algo errado, era natural, comum em suas vidas, assim como Namjoon e Jimin, que demonstravam afeto em público, Jennie e Lisa faziam o mesmo. Os corsários observavam os *sodomitas como algo nojento, assim como homens não podiam ficar juntos, mulheres também não, era anti-natural, anormal, contra as virtudes de uma tradicional família e bons costumes. A tribulação da Aurora se diferia deles, pois não se importavam, amor era amor, independente do gênero.

Por conta disso Jungkook sentia-se bem, acolhido, em casa.

— Está viajando — a voz de Taehyung atrás de si o assustou, fazendo-o sobressaltar-se e suspirar.

— Estava pensando em como as coisas estão diferentes desde que vim para cá — Jungkook disse apoiado na borda do navio, olhando para o pôr do sol no horizonte. — Eu nunca me senti assim desde que meu pai morreu.

— Assim como? — Ele se apoiou na borda também, ficando ao seu lado.

— Confortável... Feliz — disse olhando para suas mãos juntas. — Nunca pude ser eu mesmo quando estava em outros navios, nem mesmo no Nevrine. Eu precisava ser forte, o filho do capitão, eu só podia ser eu mesmo quando estava sozinho com meu pai.

— Aqui ninguém vai julgar você pelos seus momentos de fraqueza ou modos de agir, todos da Aurora são como uma família — Taehyung explicou, deixando um sorriso pequeno escapar. — Todos se respeitam e confiam uns nos outros, embora não haja laços sanguíneos, temos um forte conexão familiar, a maioria de nós não teve um passado acolhedor. — Ele desviou o olhar do mar para encará-lo. — Nós somos os pilares uns dos outros, a Aurora trouxe-nos uma liberdade que jamais tivemos, nos deu uma casa, uma família e um lugar para voltar quando tudo estivesse muito ruim.

— Eu nunca tive um lugar assim — Jungkook divagou, voltando a encarar suas mãos.

— Agora você tem — ele disse sorrindo em sua direção. — Aurora é sua casa também, até ela afundar.

— Não vai demorar muito se Ruth estiver certa — suspirou com preocupação. — Como você está tão tranquilo sobre isso? Nós estamos indo para o cemitério dos piratas, por que não está temendo o que encontraremos mais a frente?

— Jungkook se tem uma coisa que eu aprendi com as bruxas todos esses anos é o futuro ser mutável — Taehyung olhou para o horizonte, divagando em seus próprios pensamentos. — Você pode realmente nos levar aos confins do inferno, mas ela nunca disse que nós morreríamos lá. — O encarou após terminar suas divagações. — Jennie disse que o futuro ainda era incerto, que ele ainda estava se decidindo sobre o que fazer, o que significa que podemos mudá-lo.

— Você pode estar certo — concordou, mas em seguida o encarou novamente. — Mas e se não estiver?

— Morreremos fazendo o que gostamos, sendo sincero, não vejo jeito melhor de partir — deu de ombros.

— Queria ser despreocupado como você, mas infelizmente, não consigo me acalmar — suspirou.

— Posso te ajudar com isso — sorriu em sua direção. Ele se aproximou um pouco mais e segurou em sua mão. — Durma comigo hoje.

dormir? — Jungkook perguntou desconfiado, fazendo-o rir.

— Só dormir, prometo que não lhe tocarei com segundas intenções — levou as costas de sua mão até os lábios e deixou um selar sobre ela. — Vamos nos deitar um pouco, aproveitar o silêncio e relaxar, gosto de dormir abraçando algo. Precisa de um pouco de distração, você já treinou demais.

— Realmente — suspirou, sentindo Taehyung entrelaçar seus dedos. — Me sinto exausto.

— Ofereço meu corpo como travesseiro para você se apoiar — sorriu e Jungkook retribuiu seu sorriso.

— Então vamos? Eu realmente queria dormir um pouco — pediu, sentindo seu corpo implorar por um pouco de descanso. Taehyung assentiu e virou-se para trás, encarando Lisa, que estava ao lado de Jennie na proa do navio.

— Lisa! Você está no comando, irei descansar um pouco com Jungkook na cabine! — Gritou, para ela poder lhe ouvir.

— Sim, Capitão! — Ela respondeu.

— Qualquer sinal de terra ou perigo não hesite em me chamar — ele gritou, puxando Jungkook para irem em direção à cabine.

Lisa gritou uma resposta, mas Jungkook não prestou atenção, pois estava sentindo algo vindo do mar, não sabia dizer o que, mas enquanto Taehyung o puxava em direção a cabine ele olhava para a imensidão azul, sentindo algo estranho vindo dela. Durante os últimos dias que havia treinado, sua conexão com o oceano aumentou, podia senti-lo melhor, com mais intensidade, sentir cada onda e suas vibrações. Mas o que estava sentindo naquele momento era estranho, era como se estivessem prestes a entrar em águas mais densas, mais carregadas com algo que não soube nomear, mas era pesado a ponto de deixá-lo desconfortável.

— Está tudo bem? — Taehyung perguntou, puxando-o para a realidade novamente. Nem sequer percebeu que haviam parado diante da porta da cabine.

— Está sim, só... — Olhou para o oceano novamente, sem saber como explicar. — Não é nada, acredito que estou cansado.

Taehyung assentiu e abriu a porta da cabine, entrando junto a ele no pequeno espaço, soltando sua mão para tirar o chapéu, casaco, espada e suas botas. Jungkook não demorou a fazer o mesmo, se livrando do máximo de coisas que conseguia para dormir o mais confortavelmente possível, suspirando assim que tudo foi ao chão, sem se importar em guardar em algum lugar. Caminhou até a cama de Taehyung e se jogou sobre os lençóis, sentindo o cheiro dele invadir suas narinas, fazendo-o relaxar quase que imediatamente, ouvindo-o rir atrás de si.

Não demorou muito para Taehyung também se deitar junto a ele na cama, suspirando ao encostar a cabeça nos travesseiros, deitando de barriga para cima sobre seu braço e fechando os olhos após suspirar. Jungkook ficou observando-o por alguns segundos, pensando em tudo o que aconteceu nos últimos dias que o fizeram a se deitar ao lado de Taehyung sem temer que ele lhe fizesse algum mal, o que o fez rir, ele conseguiu de fato a sua confiança após anos tentando fugir de qualquer laço que pudesse prejudicá-lo futuramente, mas lá estava ele, deitado ao lado do homem que poderia lhe tirar tudo.

— Sei que ainda está hesitante comigo — Taehyung disse de repente, acordando-o de seus devaneios. — Mas até o final dessa aventura eu vou provar a você que não vou fazer nada que possa machucá-lo de alguma maneira. Sua confiança incondicional será a minha maior conquista, não o tesouro de seu pai.

— Sendo sincero — Jungkook fechou os olhos, um pouco sonolento. — Você não está muito longe de consegui-la por completo.

Jungkook ainda permanecia de olhos fechados, sentindo a calmaria do mar batendo contra a madeira da Aurora, mas abriu os olhos ao sentir Taehyung contornar os braços em sua cintura e puxá-lo para mais perto, abraçando-o. Em seu rosto havia um sorriso sincero e singelo, mas que transmitia as mais bonitas mensagens de agradecimento, o que o fez sorrir também, voltando a fechar os olhos e se aconchegar no peito dele, sentindo-se extremamente confortável e seguro. Naquele momento, Jungkook se sentiu finalmente acolhido após tanto tempo, a última vez que abraçou alguém, foi seu pai.

Dias antes dele partir e não retornar.

(...)

Jungkook estava extremamente confortável apesar da movimentação constante do navio, fazia anos que não ficava enjoado com a maresia, por isso não se incomodava tanto, porém, outra movimentação o fez despertar. Abriu os olhos ao sentir Taehyung se levantar da cama, coçou os olhos e se ergueu um pouco do colchão para encará-lo melhor, pela escuridão vinda da janela da cabine, a noite cobria o céu do lado de fora. Ficou confuso ao ver Taehyung caminhar até a janela, mas observou quieto, seus pés descalços não faziam barulho na madeira, sequer teria notado que ele se levantou se não estivesse abraçado ao corpo dele.

— Taehyung? — O chamou após coçar os olhos, mas franziu o cenho ao vê-lo abrir a janela. — O que está fazendo?

Taehyung não o respondeu, pelo contrário, pareceu ignorá-lo e continuar a fazer o que estava fazendo, Jungkook ficou ainda mais confuso, curvando o pescoço, mas arregalou os olhos ao perceber que Taehyung não o ignorou, ele sequer o ouviu. Levantou as pressas ao entender o que estava acontecendo, tentando alcançá-lo, mas não conseguiu chegar a tempo, esticou sua mão para segurá-lo, porém seus dedos não conseguiram tocá-lo antes que ele pulasse no mar. Jungkook viu de onde estava o corpo de Taehyung despencar e afundar no oceano, aquilo o desesperou de uma maneira insana, somente em imaginar que ele teria o mesmo fim que seu pai.

O afogamento.

Tomado pelo desespero, Jungkook apenas fez a primeira coisa que passou pela sua cabeça, deixou que aquele impulso recém-conhecido por si se libertasse e usou da força para fazer o mar se revolver. Estava tão assustado que a pressão em sua cabeça simplesmente não o incomodava, estava com tanto medo que qualquer outra sensação ou sentimento não lhe afetava. Ergueu sua mão com pressa novamente, gritando junto ao movimento por conta da força que fez, mas a água a acompanhou, lançando o corpo de Taehyung para fora do oceano com um jato extremamente forte. O corpo do Capitão entrou pela janela, passando ao seu lado e aterrissou no chão de maneira nada delicada, espalhando água do mar por todo lugar.

— Taehyung! — Jungkook correu em sua direção ao vê-lo tossir e a água borbulhar de sua boca. O ajudou a se sentar e eliminar toda água de sua garganta e nariz. — Ei! Respira devagar... — O capitão ainda tossia, se agarrando a camisa de Jungkook ao tentar respirar por entre as tosses. — Devagar... Isso... — Se acalmou ao vê-lo conseguir respirar fundo. — O que você estava tentando fazer?!

Estava desesperado, ainda tremendo por conta do susto que levou, Taehyung apenas se agarrava a sua blusa, se recuperando do seu quase afogamento, mas não lhe respondeu, pelo contrário, apenas se levantou quando parou de tossir, caminhando novamente para a janela. Quando percebeu o que ele faria novamente, correu para segurá-lo, entrando na sua frente e barrando sua passagem, vendo-o encará-lo com o olhar um tanto inexpressivo, tentando passar por si. Jungkook espalmou suas mãos no peito dele e o afastou da janela, fazendo-o caminhar para trás, ele deixou ser empurrado, mas tentava se desvencilhar para ir até à janela se parasse de caminhar.

— Você é sonâmbulo? — Perguntou sem esperanças de que ele fosse lhe responder, mas precisava externar aquela dúvida, vendo-o lhe encarar sem qualquer emoção.

— CAPITÃO! — Jungkook ouviu o grito de Lisa vindo do lado de fora da cabine, junto ao barulho de algo caindo no mar.

Jungkook segurou na mão de Taehyung e o puxou para fora da cabine, abrindo a porta e se deparando com a cena de Mingyu se jogando no mar, com Lisa segurando Hoseok e Yoongi pelos braços. Jungkook arregalou os olhos ao ver mais tripulantes subindo para o convés e caminhar até as bordas, subindo nelas para pular para o mar. Jennie, Rosé e Jisoo chegaram correndo e arregalaram os olhos ao ver a cena. Quando Jungkook notou que todos os marujos iriam pular no mar tentou pensar em algo, mas nada vinha a sua mente precisava ser rápido ou Mingyu e os outros se afogariam como Taehyung quase se afogou.

— Se segurem em algo e não os deixe chegar na borda do navio! — Jungkook gritou, empurrando Taehyung para o meio do convés. — Assim que todos estiverem no centro os amarrem!

Jungkook respirou fundo e fechou os olhos, sem esperar ele ergueu as mãos e as balançou, fazendo o mar se mover junto a elas. A Aurora balançou com as fortes ondas batendo nas bordas dela, tentou manter o equilíbrio enquanto continuava a fazer as ondas desestabilizarem o navio. Os marujos que tentavam pular do navio caíram, não conseguindo manter o equilíbrio e usando isso a favor delas, Lisa, Jennie, Rosé e Jisoo se apoiaram no que podiam e os arrastaram até o mastro, prendendo-os nas cordas. Jungkook parou de criar ondas assim que todos os marujos estavam amarrados em volta do mastro, sentiu uma pequena fraqueza junto a uma leve tontura, mas nada que não pudesse lidar, por isso correu e amarrou Taehyung também.

Mas ele não conseguiu impedir Mingyu de pular no mar.

— O Mingyu desapareceu no fundo do mar... — Rosé disse olhando na borda do navio.

— Mas o que diabos está acontecendo?! — Jungkook perguntou ao se aproximar delas, sentindo o peito apertar.

— Você não está ouvindo? — Jennie perguntou confusa e Jungkook franziu o cenho.

— Ouvindo o quê? — Perguntou. Jennie se aproximou e tocou em sua mão, segurando-a junto a sua.

— Feche os olhos e se concentre — mesmo nitidamente confuso Jungkook fez o que ela pediu.

De início não escutou absolutamente nada, apenas o som do mar e dos marujos tentando se soltar das cordas, mas após se concentrar um pouco mais notou um coral de vozes, gradualmente a intensidade foi aumentando, até que elas cobriram completamente outros sons. Jungkook abriu os olhos e encarou Jennie, que também parecia estar concentrada no som, Lisa, Rosé e Jisoo olhavam ao redor de maneira confusa, depois olhavam umas para as outras com os cenhos franzidos, aparentemente, elas não ouviam o que estavam ouvindo. Mas estava confuso, não sabia o que era aquilo, as vozes eram doces, suaves e um tanto hipnóticas, femininas.

— São sereias — Jennie esclareceu. — Elas estão atraindo todos os homens do navio para o mar, para afogá-los e devorá-los.

— Taehyung quase se afogou — olhou para o capitão, amarrado junto aos outros, tentando se soltar das cordas.

— Por que você não está sendo atraído como eles? — Rosé perguntou encarando-o.

— Não sei... Talvez devido à minha runa — buscou a única explicação plausível.

— Por que nós, não estamos sendo atraídas? — Jisoo perguntou confusa.

— Talvez porque nosso intelecto superior nos impeça de cair na hipnose delas — Lisa disse colocando a mão na cintura. — Homens são criaturas primitivas, mais fáceis de influenciar.

— Ou seja, idiotas — Jisoo completou e Lisa assentiu.

— Não sei se vocês se recordam, mas eu sou um homem — Jungkook disse colocando a mão em sua cintura, sentindo-se ofendido.

— Você é uma rara exceção Jungkook — Lisa completou.

Jungkook teria respondido, mas de repente Aurora se inclinou sobre o mar, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sobre a madeira, igualmente as meninas. Tentou se segurar em algo, enquanto rolava de uma extremidade a outra, os barris que estavam no convés começaram a rolar também, atingindo-o algumas vezes e fazendo-o parar de tentar segurar em algo para proteger sua cabeça. A água que estava em alguns dos barris derramaram sobre o chão do convés, molhando-o e consequentemente Jungkook também, mas nem sequer ligou para isso, pois as suas costas bateram contra a borda do navio com força. Sentiu muita dor com aquela colisão, mas mal teve tempo de se recuperar, pois, um barril vinha em sua direção rapidamente.

— Merda! — Se apoiou na borda e se levantou com pressa, conseguindo evitar que o barril o atingisse, mas ficar de pé foi uma péssima ideia.

Um baque forte no navio fez Jungkook cambalear para trás e acabar perdendo o equilíbrio, bateu o quadril na borda e seu corpo virou sobre ela, caindo da Aurora. Ouviu o grito das meninas enquanto seu corpo ia em direção a água, assim que suas costas quebraram o espelho d'água Jungkook prendeu a respiração, sentindo a água o engolir por completo. Mas não esperou nada o surpreender novamente, abriu os olhos com rapidez e as viu, as sereias estavam nadando em círculos em volta da Aurora, criando uma espécie de vórtice na água, fazendo o navio balançar. Rapidamente Jungkook nadou para a superfície, buscando por oxigênio. Assim que emergiu viu as meninas na borda do navio.

— Saiam daí ou vocês irão cair assim como eu! — Gritou, nadando para próximo do navio.

— Joguem a escada para ele! Rápido! — Lisa pediu e as outras três correram para fazer o que ela pediu.

Mas antes que pudesse chegar próximo a madeira do navio seu pé foi puxado para o fundo, fazendo-o afundar novamente, o desespero o tomou quando sentiu seu corpo sendo empurrado para as profundezas. Quando abriu seus olhos viu uma mulher extremamente bonita, empurrando-o para o fundo, observando a cauda dela nadando extremamente rápido, levando-o para cada vez mais longe da superfície. O canto das sereias se tornou mais alto conforme ia afundando, sentia seu peito se comprimir, a pressão estava começando a aumentar devido à profundidade e densidade da água, a escuridão estava ficando cada vez maior, o que estava deixando ele em pânico.

Jungkook se debateu, tentando se soltar, mas ela continuou empurrando-o, tentou novamente e quando estava quase conseguindo sair das garras dela, outra sereia apareceu e abraçou seu pescoço, puxando-o com mais rapidez. Em pouco tempo, várias sereias apareceram e todas lhe empurraram para o fundo, Jungkook sentia o desespero aflorar cada vez mais em seu âmago, pois seu fôlego estava acabando, por isso se debateu ainda mais. Sentia o peito doer e aquela desesperadora sensação que sentiu anos atrás quando se afogou, aquele pânico voltou com toda a sua intensidade, aquele desespero incontrolável e medo de sentir a água invadindo seus pulmões novamente.

Respire.

Jungkook arregalou os olhos ao ouvir a doce voz sussurrar em sua cabeça como um eco novamente.

Respire.

Ela repetiu, depois novamente, de novo e de novo, pedindo que ele respirasse, mas como ele poderia? O medo paralisante de sentir seu nariz e garganta arder por conta da água salgada invadindo-os impedia que ele fizesse isso. A sensação de se afogar era horrível, mesmo amando o mar, morrer nele era uma das piores formas de partir, pois, antes da água invadir suas vias respiratórias você se debatia e se desesperava, depois era atingido pela dor e pela agonia de procurar por oxigênio e não conseguir. Mas seu fôlego estava acabando, ele não conseguiria prendê-la por mais tempo, por isso olhou em desespero para a sereia que empurrava seu peito, vendo seus olhos castanhos claros encará-lo com intensidade.

Respire, confie em mim.

Jungkook queria poder entender o porque ele sentia que poderia confiar naquela voz que o ninava durante as noites, que cantava em seu ouvido em seus momentos de aflição e que o ajudava em momentos de tensão. Por isso, mesmo que o medo o dominasse, ele fechou os olhos com força e puxou o ar com o nariz, inspirando com vigor, sentindo a água adentrar suas vias respiratórias. Mas ao contrário do que imaginou, não se afogou, pelo contrário, conseguia respirar, por isso inspirou e expirou devagar, abrindo os olhos e encarando a sereia a sua frente, notando que ela estava tão confusa quanto ele ao observá-lo respirar embaixo d'água.

Não era a mesma coisa que respirar o ar límpido da superfície, era mais pesado, mas ainda assim, era melhor que morrer afogado, precisava apenas se acostumar com aquele oxigênio mais carregado. Quando seus olhos focaram na sereia a sua frente, ele sorriu, a intenção delas era matá-lo afogado, não conseguiu conter a satisfação de vê-las tão confusas por não conseguirem concretizar seus objetivos, por isso agora que o desespero do afogamento estava se dissipando ele podia agir. Quando suas costas bateram na areia no fundo do oceano, sentiu algumas coisas extremamente duras colidirem contra suas costas, tinha certeza que era alguma pedra.

Ou ossos.

Olhando para a sereia à sua frente — sem perder o sorriso — ele estendeu a mão e criou uma corrente de água, arrastando-a para longe dele e fez o mesmo com as outras. Jungkook sabia que na água ele não era tão rápido quanto elas, mas não hesitou em apoiar os pés na areia e tomar impulso para nadar para a superfície, criando correntes toda vez que uma sereia se aproximava demais, mas não conseguiu ver uma delas vindo por trás, ela o empurrou, tentando impedir que ele subisse para a superfície, o impacto doeu, pois, ela havia pegado velocidade antes de colidir em si. Jungkook praguejou e criou uma corrente ainda mais forte para levá-la para longe, vendo-a sendo arrastada com força, sem conseguir nadar contra a correnteza.

Seria extremamente difícil lidar com todas apenas criando correntes, mas não tinha ideia do que fazer, estava no ambiente delas, ele estava em desvantagem ali. Enquanto criava correntes, tentando impedi-las de se aproximar, ouviu ao longe um grito e o barulho de algo caindo no mar, o que o fez olhar para cima e ver que Taehyung havia pulado no mar novamente. Jungkook praguejou ao ver que as sereias haviam notado também, mudando de alvo, nadando em direção ao capitão, que parecia em transe na água, nadando cada vez mais para o fundo, esperando que algo o levasse. Sabia que ele não conseguiria chegar até Taehyung antes das sereias, por isso proferiu um palavrão antes de ter uma ideia.

Ele não sabia se o que faria daria certo, mas se ele estava em desvantagem na água, teria que deixá-las em desvantagem também, na terra elas não poderiam nadar, por isso estendendo as mãos, criou um vácuo em volta de Taehyung, fazendo-o cair na areia, sobre os ossos, a queda foi grande, tinha certeza que ele havia se machucado. Jungkook concentrou- se em deixar o vácuo aberto, alargando-o enquanto nadava em direção a ele, vendo o capitão tossir novamente, mas conseguindo respirar. As sereias pararam em volta do vácuo, sem adentrá-lo, pois não conseguiam nadar dentro dele sem água, teriam que se arrastar até Taehyung, então elas hesitaram, mas Jungkook não. Assim que conseguiu alcançar o vácuo, ele entrou nele, sentindo o oxigênio invadir seus pulmões novamente.

Não esperou que Taehyung se levantasse, se abaixou rapidamente e abraçou seu corpo, impedindo que ele se levantasse novamente. Jungkook estava com o cenho franzido, ainda tentando manter o vácuo aberto, concentrando-se ao máximo até pensar no que fazer a seguir. As sereias estavam em volta deles, encarando-o, Jungkook sentiu algo escorrendo por seu nariz, tinha certeza que era sangue, mas não ligou para aquilo, tinha outras coisas com a qual se preocupar. A sereia que estava a sua frente tinha cabelos pretos, pele negra e olhos castanhos e profundos, tão bonita que era desconcertante olhar para ela. A sereia se aproximou do vácuo e estendeu sua mão, atravessando-o, parecendo testar o vácuo.

Jungkook franziu o cenho e abraçou Taehyung com mais força quando ela bateu a cauda, passando primeiramente o torço e em seguida o restante do corpo. Ele jamais saberia colocar em palavras a cena belíssima das escamas da sereia sumindo gradativamente e da cauda se desfazendo em um denso vapor, dando lugar a uma pele negra, transformando-se em belas pernas. Jungkook ficou maravilhado, ela era uma mulher belíssima, caminhava com graça, parecia indiferente a sua nudez, como se aquilo não fosse absolutamente nada para ela. Seus longos cabelos pretos caíram sobre suas costas, pesados pela umidade, seu olhar intenso se fixou nele, encarando-o.

As escamas não haviam sumido completamente, brilhavam como cristais em sua pele.

— Como... — Jungkook ficou incrédulo, não sabia que sereias podiam se transformar em humanas.

— Podemos mudar nossos corpos, para podermos fugir dos homens que tentam nos levar — ela explicou. Sua voz era suave, agradável e serena.

— Posso ver, o quanto vocês estão em perigo — Jungkook disse olhando para o chão, observando a pilha de ossos espalhados por todo lugar.

— Eram eles ou nós — ela disse sem demonstrar nenhum remorso. — Perdi muitas irmãs para homens que nem ele. — Ela apontou para Taehyung. — Apenas aprendemos a nos defender.

— Que nem ele? — Jungkook franziu ainda mais o cenho.

— Homens navegando em grandes embarcações de madeira como aquela — apontou para cima, indicando a Aurora. — Eles são perigosos.

— O que me difere deles? — Apertou a camisa de Taehyung, sentiu o sangue em seu nariz escorrer e pingar na camisa branca dele. — Eu estou com ele também.

— Você não é um deles — ela se aproximou, o que fez Jungkook apertar Taehyung com mais força em seus braços. Ela se abaixou, olhando-o nos olhos antes de levar a mão fria até sua bochecha. — Você é um de nós. — Passou o polegar pelo sangue que escorria por seu nariz.

— O que...? — A cabeça confusa de Jungkook não conseguiu processar o que ela havia lhe dito.

— Você é um filho do mar — sorriu, embora ela tenha presas bem afiadas, seus dentes eram brancos e alinhados. Seu sorriso era extremamente bonito como ela, era desconcertante encará-la por muito tempo, tinha certeza que estava corado. — Nosso irmão.

Jungkook estava confuso, mas, ao mesmo tempo admirado, ela acariciou sua bochecha antes de se afastar e olhar para cima, vendo Lisa e as meninas jogarem uma corda para ele. A Aurora estava na beira do vácuo que criou, nem sequer notara haver criado um espaço tão grande a ponto de chegar a superfície, estava em uma espécie de espaço cilíndrico, que o protegia da água. Notou apenas naquele momento que a cantoria delas havia cessado, todas agora o observava ainda dentro d'água, não havia mais aquela tensão hostil, elas apenas pareciam extremamente curiosas. A sereia que estava a sua frente virou-se para retornar para a água, mas Jungkook a impediu.

— Espere! — Ele pediu, vendo-a parar e encará-lo. — Qual é o seu nome?

— Zuri — sorriu, virando-se para entrar na parede de água. — Espero vê-lo de novo herdeiro de Mayim.

Jungkook arregalou os olhos ao ouvir o nome de sua mãe, mas não teve tempo de perguntar como ela sabia o nome de sua progenitora, pois Zuri atravessou a parede de água e nadou junto às suas irmãs para longe. Jungkook ficou um tempo observando elas se afastarem, até que mais uma gota de sangue pingou de seu nariz, lembrando-o que precisava voltar para a superfície com Taehyung. Depois que as sereias partiram, ele se afastou um pouco de seu abraço para encará-lo, arregalando os olhos ao observar o sangue em seu nariz.

— Jungkook você está sangrando! — Taehyung disse segurando em seu rosto com as duas mãos, fazendo-o rir, havia sangue escorrendo pelo rosto dele também.

— Você também está — deitou a cabeça nos ombros do capitão. Agora que a tensão havia se dissipado, o cansaço o tomou. — Precisamos voltar, não vou conseguir manter o vácuo aberto por muito tempo.

Taehyung apertou seu corpo nos braços e o ajudou a se levantar, afastou-se um pouco dos braços do capitão para ele poder amarrar a corda em volta deles, para voltar a abraçá-lo novamente enquanto as meninas o puxavam para cima novamente. Jungkook embora estivesse cansado e aquela pressão que antes não o incomodava estivesse mais forte, se concentrou para que a água não os engolisse enquanto não estivessem a bordo novamente. Conforme iam subindo as vozes começaram, depois foram içados com mais rapidez.

Quando chegaram à borda do navio, os marujos os ajudaram a subir, o que fez Jungkook soltar aquela pressão e o vácuo no mar se desfazer, deixando-o agitado por alguns segundos, balançando a Aurora antes de voltar a ficar calmo novamente. Taehyung nem por um instante o soltou, mantendo-o em seus braços a todo momento, o que o fez suspirar em agradecimento, sentia-se um pouco fraco e cansado, se ele não estivesse segurando-o com tanto cuidado certamente estaria no chão, sem conseguir sustentar as pernas. Levantou o pescoço para encará-lo quando sentiu os dedos dele acariciarem seus cabelos.

— Você está bem? — Taehyung perguntou, olhando-o nos olhos. Jungkook assentiu, olhando para o machucado em seu supercílio, que sujou a lateral de seu rosto de sangue.

— E você?

— Melhor que nunca — sorriu, mas seus olhos baixaram para o sangue em seu nariz.

— Sente-se tentado? — Jungkook perguntou baixinho, ao notar que as pupilas dele dilataram.

— Talvez um pouco — respirou fundo e olhou em seus olhos novamente. — Mas eu preciso me controlar e cuidar de você. Você cuidou de nós, trabalhou duro, novamente.

Taehyung afastou seus cabelos e deixou um beijo gentil em sua testa, fazendo um sorriso genuíno surgir em seus lábios, sentiu-se tão bem que ficou envergonhado, deitando a cabeça nos ombros dele, fechando os olhos e deixando que ele o mantivesse em um abraço apertado. Seu coração estava acelerado, sentiu as tão famosas e conhecidas borboletas em seu estômago e praguejou, aquilo era um péssimo sinal, havia caído na armadilha. Acabou rindo de si mesmo por ser tão ingênuo, ele realmente pensou que conseguiria escapar do inevitável?

Estava definitivamente se apaixonando por Taehyung e todas as suas 'nuances' também.

— Lisa perdemos alguém? — Taehyung perguntou, ainda o mantendo em seus braços. Jungkook abriu os olhos para encará-la, vendo-a assentir e fazer uma expressão entristecida.

— Perdemos três pessoas — ela respondeu, fazendo-o arregalar os olhos. — Mingyu, Anthony e Bruce.

— Eu vi o Mingyu pulando... — Jungkook suspirou, sentindo o bolo em sua garganta. — Eu não consegui salvá-lo.

— Você fez o seu melhor, não se culpe — ele respondeu, sua voz apesar de firme, não escondia sua tristeza. Mingyu era próximo a ele, assim como Dino. Taehyung perdeu os dois.

— Alguém pode me explicar o que diabos aconteceu?! — Yoongi perguntou confuso.

— Eu também queria saber — Jimin disse de mãos dadas com Namjoon. — Foi como se eu estivesse sonâmbulo, estava consciente, mas sem controle algum do meu próprio corpo.

— Sereias — Jennie disse se sentando em um dos barris que haviam rolado. Ela parecia cansada, arregaçou as mangas de sua camisa e limpou o suor de sua testa. — Apenas nós não fomos afetadas. — Apontou para si mesma e para as outras. — E é claro, o Jungkook, que lutou com elas no fundo do mar.

— No fundo do mar?! — Jin quase gritou, fazendo Jennie assentir.

— Mais um super poder do nosso Poseidon de bolso — Namjoon disse fazendo Jungkook rir. — Vai me dizer que você vai criar guelras e botar ovos também?

— Eu espero que não, eca — Jungkook respondeu rindo ainda mais.

— Mas estarmos vivos significa que deu tudo certo? — Hoseok perguntou e todos o encararam. — Quer dizer que passamos pela primeira provação?

— Sim — Jennie confirmou e todos suspiraram aliviados.

O convés estava uma bagunça, mas isso não impediu de todos os tripulantes presentes se jogarem no chão de uma maneira um tanto dramática, parecendo que desligaram o botão da gravidade. Mas Jungkook não podia culpá-los, queria fazer o mesmo, queria se fundir ao chão naquele momento, estava cansado demais para ficar de pé por mais tempo e ao notar isso, Taehyung se sentou com ele no chão, deixando-o ficar entre suas pernas, com a cabeça em seu peito. Jungkook suspirou em alívio ao relaxar suas pernas, seus braços caíram ao lado de seu corpo, relaxados.

— Descanse um pouco, precisamos retirar as roupas molhadas antes que fiquemos doentes, então aproveite a pausa antes de irmos trocar nossas roupas molhadas por secas — Taehyung disse suspirando também.

— Certo... Tae — o chamou baixinho.

— Hm? — Sentiu o som reverberar pelo peito dele.

— Promete que não vai me deixar?

— Acredito que eu já te prometi isso não? — Perguntou confuso.

— Não me refiro a isso — se afastou um pouco, para encará-lo nos olhos. — Promete que não irá morrer.

— Sabe que não posso prometer isso gatinho — levou a mão direita até sua bochecha, acariciando-a com ternura. — Minha vida está em constante perigo nessa viagem, assim como a sua e de todos dessa tripulação.

— Mas se houver uma chance... De você sair vivo de alguma situação, por favor, escolha ela — pediu, sentindo um bolo em sua garganta ao se lembrar da sensação desesperadora de vê-lo quase se afogar. — Eu não posso perder você, não agora que eu...

— Que você...? — Ele instigou, olhando-o com uma intensidade que o deixava desnorteado.

— Agora que eu me afeiçoei a você...

— Afeição? — Riu de seu nervosismo. — Vou aceitar isso por enquanto.

— Como assim por enquanto? — Franziu o cenho.

— Eu não estou entrando no mar do diabo para conseguir somente a sua afeição gatinho, eu já deixei isso bem claro — sorriu, passando o polegar por seus lábios, seguindo-o com olhar. — Eu quero você por inteiro, seus lábios, seu corpo... — Seus olhos fixaram aos seus novamente. — E o seu coração.

Coração este que reagiu às palavras dele.

— Viva para tê-los então, pois se cumprir sua promessa e permanecer vivo, talvez eles sejam seus — desviou o olhar, não conseguindo aguentar a intensidade do olhar de Taehyung.

— Irei transformar esse "talvez" em um "com certeza" — ele levantou seu queixo com o polegar e o indicador. — Você será meu Jungkook. — O puxou para um beijo, tocando seus lábios com ternura.

"Talvez eu já seja" pensou, mas não teve coragem de verbalizar.

~🖤~

Amo criar essas tensões no fim KKKK

Preparados para o próximo destino? A Floresta Abissal?

Deixem o votinho de vocês se vocês gostaram por favor, eu levei muito tempo para escrever esse cap♥️

*Sodomita: De acordo com a definição dos dicionários de língua portuguesa, a sodomia é a prática de sexo anal entre um homem e outro homem ou uma mulher.

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#dentesdodiabo

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