O destino fazendo o seu trabalho

 Jeon Jungkook

Dez anos antes...

Fazia muito calor naquele dia, o sol parecia querer castigar todos os habitantes da terra, pois mesmo que estivessem rodeados pelo mar, o calor estava intenso a ponto de alguns marujos passarem mal. Mas embora estivesse suado, ofegante e sentindo a gravidade lhe puxando para o chão, Jungkook focou sua atenção em seu duelo com Junghyun, que não estava pegando leve com ele naquele dia. Jungkook perdeu as contas de quantas vezes foi derrubado ou acertado pela espada de seu pai, fazendo-o resmungar toda vez que sentia a dor do impacto da bainha em alguma parte de seu corpo.

— Está ficando lento Jungkook — Junghyun disse rindo, acertando mais uma vez a bainha da espada em sua cabeça. Fazendo-o resmungar e esfregar a mão na parte atingida.

— Estou cansado e você está tirando proveito disso — disse com um bico nos lábios.

— Claro que estou, seu oponente não vai esperar você recuperar o fôlego, ele vai para cima de você para usar seu cansaço como vantagem — deixou a espada sobre os ombros, sorrindo enquanto via Jungkook fazer uma careta e curvar as costas, colocando as mãos sobre os joelhos enquanto apoiava a espada em uma delas. A máscara deixava tudo ainda mais quente.

— Você é um demônio — resmungou, fazendo seu pai soltar uma gargalhada alta. — Não cansa nunca, estamos debaixo de um sol escaldante e você sequer está ofegante, a única coisa que denuncia seu desgaste é o suor em sua testa. Você é realmente humano?

— Foram anos treinando Jungkook, meu corpo está acostumado a esse ritmo — deu de ombros. — Mais um pouco de treino e você ficará igual a mim, talvez assim você perca esses bracinhos finos e conquiste alguns músculos.

— Ei! — Jungkook fez um bico. — Meus bracinhos finos são parte do meu charme encantador e fofo!

— Você quer parecer fofo e eu quero ser sexy — seu pai segurou a espada pela bainha e mostrou os bíceps malhados, exibindo-os a Jungkook, que revirou os olhos com aquela exibição desnecessária. — Foi por isso que sua mãe se apaixonou por mim, olha só como seu sou impressionantemente malhado.

— Foi por causa dos seus músculos? — Jungkook riu. — Poxa pai, que pena, ela se apaixonou pelos seus bíceps, não por você.

— Ei! — Foi a vez de Junghyun fazer bico de indignação, arrancando uma gargalhada alta de Jungkook. — Sua mãe me ama porque eu sou incrível, tá? O melhor homem que ela já conheceu em toda a vida dela.

— Te ama? No presente? — Jungkook perguntou confuso, vendo seu pai franzir o cenho também de maneira confusa. — Ela está viva? — Quando Junghyun entendeu sobre o que estava falando arregalou os olhos. — Você falou como se ela estivesse viva, minha mãe não morreu?

— Droga Maria, porque você tinha que ensinar o Jungkook tão bem? — Murmurou baixinho, suspirando em seguida. — Vem comigo.

Junghyun deixou a espada de lado e Jungkook fez o mesmo com a sua, deixando-a sob um barril do Nevrine e seguiu seu pai até a borda do navio, vendo-o se sentar ali e fez o mesmo, encarando-o com expectativa. Junghyun nunca falou sobre sua mãe e Jungkook não o cobrou sobre isso, como sua Mama Maria havia o criado, achou que sua mãe havia falecido e por isso não perguntou, não queria trazer lembranças dolorosas, mas a fala dele chamou sua atenção. Os dois naquele momento estavam sentados na borda do navio, vendo as ondas baterem contra a madeira, a água azul límpida e bonita era hipnotizante, teria se distraído olhando para ela se seu pai não tivesse começado a falar.

— Eu conheci a sua mãe na ilha de Mácua — ele disse olhando para o mar, divagando em suas próprias lembranças. — Eu estava lá com o Nevrine e a tripulação para falar com a Amélia sobre a minha próxima conquista, estava de noite e eu estava saindo da Taça de Safira quando eu a vi, ela estava na areia da praia, tomando banho de lua, não havia mais ninguém lá, somente nós dois. Ela estava tão linda... Ela é linda, a mulher mais encantadora que eu já tive o prazer de admirar. — Ele sorriu olhando para Jungkook. — Ela usava um vestido branco e quando olhou para mim eu paralisei por um momento, encantado por ela, estava esperando por mim.

— Esperando por você? — Franziu o cenho. — Ela te conhecia? — Seu pai negou.

— Amélia é sua protegida, sua mãe cuidou dela desde muito pequena e a ajudou a desenvolver seus dons, graças a Amélia sua mãe soube que eu cruzaria seu caminho e contou que eu estaria ali naquela noite, precisávamos nos encontrar, era predestinado sabe?

— Amélia, a bruxa? — Jungkook varreu sua memória atrás desse nome, já ouviu seu pai contando sobre ela algumas vezes. Era um nome conhecido na pirataria.

— Sim, Amélia era bem jovem na época, mas já era a bruxa mais poderosa que eu conhecia, ela sabia que eu encontraria sua mãe e a avisou, por isso ela estava lá naquela noite, para me encontrar — ele voltou a olhar para o mar. — Sua mãe é uma mulher encantadora, mas quando sorriu para mim naquela noite e eu senti algo... Eu me apaixonei à primeira vista, apenas com seu sorriso ela conseguiu o que nenhuma outra mulher conseguiu.

— Seu coração? — Jungkook perguntou com inocência, fazendo Junghyun o encarar com um sorriso meigo no rosto antes de assentir. — Como ela é? Fisicamente?

— Sua mãe tem longos cabelos prateados, lindos e ondulados, parecem refletir a luz da lua — ele olhou para o seu, vendo as nuvens e o céu azul. — Os olhos da sua mãe são tão azuis quando o céu sob nossas cabeças, ela é tão pequena e delicada, parece de porcelana, branca como um floco de neve. O que me assustou às vezes sabia? — Ele riu sozinho, acabando por arrancar um sorriso involuntário de Jungkook também. — Ela era muito branca, pálida, como se o sol nunca tivesse tocado sua pele. Quando dormimos juntos pela primeira vez, a respiração dela era tão suave que eu a acordei desesperado, balançando o corpo dela, achei que ela estava morta. — Jungkook gargalhou, imaginando a cena.

— Por que nunca me falou sobre ela? — Não estava magoado ou ressentido, apenas curioso.

— Não estava na hora — ele abaixou a cabeça com um sorriso pequeno. — Amélia contou que você a conheceria no momento certo, então aguarde ansiosamente por isso, quando você a ver vai entender tudo o que eu estou falando. — Ele lhe encarou com aquele sorriso bobo que não saía dos lábios dele desde que começou a falar sobre sua mãe.

— Qual é o nome dela?

— Mayim — o nome dela dançou com alegria por seus lábios. — Ela é uma mulher muito doce e meiga, boa demais para o próprio bem, ela é encantadora em todos os sentidos dessa palavra, até mais definições que não se encaixam nela. Mas também pode se tornar assustadora quando quer — ele abraçou o próprio corpo, lembrando-se de algo, mas não compartilhou a lembrança. — Quando você nasceu, ela estava encantada por você, mesmo que você não tivesse puxado muitos traços dela, para o seu azar, você nasceu igualzinho a mim.

— Poxa — fingiu decepção e seu pai riu.

— Mas você puxou o nariz e as sobrancelhas dela — disse analisando suas sobrancelhas e nariz com fascínio. — Ela tinha que partir, ficou furiosa comigo quando disse que não poderia levá-lo comigo para o Nevrine, nunca a vi tão brava, mas trazê-lo para o Nevrine era condenar uma criança a uma vida difícil — ele divagou, olhando para o horizonte. — Foi a primeira e última vez que eu pensei em desistir da pirataria, para cuidar de você já que ela não podia ficar, ela tinha um lugar para voltar e como eu, não podia ficar afastada de seu lar. Concordamos em deixá-lo sob os cuidados de Maria até que tivesse idade suficiente para ir buscá-lo.

— E agora eu estou aqui — Jungkook deduziu e Junghyun assentiu, sorrindo. — Então eu vou encontrá-la um dia?

— Vai — ele sorriu amplamente. — E você se apaixonará por ela também, verá que mesmo afastada ela nunca deixou de cuidar de você. A música que você vive cantando, foi ela que te ensinou, com a belíssima voz que ela tem, ninava você todas as noites com essa canção, era simplesmente lindo ver ela com você nos braços, ver um sorriso imenso em seus lábios enquanto você dormia calmamente.

— Você fala dela com tanta devoção... — Jungkook olhou em seus olhos. — É difícil não acreditar que ela é realmente encantadora como você diz, dá para ver a admiração e a paixão nos seus olhos.

— É porque não há outra como ela, Mayim é simplesmente extraordinária... — Olhou em seus olhos, mostrando que não havia outras palavras para descrevê-la. — Quando você a encontrar, diga a ela que eu a amo e que jamais esquecerei de seu sorriso.

— Por que você mesmo não diz? — Jungkook perguntou olhando para Junghyun.

Ele apenas sorriu e lhe abraçou, mas não respondeu sua pergunta.

(...)

Tempos atuais...

Jungkook se sentia diferente.

Depois que sentiu o mar como se fossem um só, a sensação não o deixou, parecia parte dele, como se sempre estivesse ali, mas nunca percebeu, porém agora era forte demais para ignorar. Conseguia sentir a correnteza, conseguia sentir as ondas batendo contra a Aurora e Marinna, sentia que com apenas um comando de sua mão ele poderia criar o maior maremoto que o mundo já viu, que engoliria tudo a sua volta, mas se ele realmente fizesse isso, seria inevitável levar a Aurora junto, por isso colocou sua mente para trabalhar em um plano que não causasse o naufrágio dos dois navios.

Yoongi, Hoseok, Lisa e os outros piratas que não ficaram muito feridos, estavam atirando nos corsários que tentavam fugir de Marinna.

— Afundar a Marinna? — Taehyung perguntou confuso, vendo Jungkook assentir. — E como você vai fazer isso?

— Eu... — Olhou para o mar e depois para a Marinna, vendo os corsários ainda vivos se esconderem atrás da proteção dos mastros e barris. Até que teve uma ideia e sua expressão suavizou antes de um sorriso surgir. — Solte a âncora da Aurora, posicione as velas à barlavento e gire o leme na direção oposta da Marinna.

— JK... — Taehyung disse receoso, olhando em volta.

— Confia em mim — Jungkook pediu olhando em seus olhos, sendo analisado pelo olhar cortante de Taehyung, que tentava ler suas expressões. Ele pareceu ver algo em seu olhar antes de soltá-lo e assentir, partindo em direção ao leme.

— DESÇAM A ÂNCORA! — Taehyung gritou, sendo atendido de imediato. — DIRECIONEM AS VELAS A BARLAVENTO! E SEGUREM-SE EM ALGUMA COISA!

No momento em que os tripulantes da Aurora começaram a seguir as ordens do Capitão, Jungkook soube que era hora de agir, não sabia do que era capaz, não sabia sequer se conseguiria fazer algo, mas moveu suas mãos e as águas seguiram seu comando, então apenas implorou para que conseguisse de fato afundar a Marinna. Jungkook fechou os olhos, não precisava segurar a runa, conseguia senti-la em seu peito, então deixou que as sensações novas o tomassem, deixou que aquilo o consumisse por completo e se sentiu flutuar com as sensações, mas havia uma amarra, sentia algo o segurando, um limite.

Jungkook colocou as duas mãos na madeira da Aurora e respirou fundo diversas vezes, sentindo-o e pedindo que o mar atendesse seus comandos, sentindo que ele estava começando a se moldar da forma que queria, mas sentia algo estranho, uma pressão, que aumentava a cada reviravolta que o mar dava conforme sua vontade. Quando abriu seus olhos, sentiu que estava fazendo uma força descomunal para controlar uma quantidade consideravelmente grande de água, pôde ver ela girar em volta da Marinna, se agitar e acelerar.

A força da corrente era tão forte que podia ver alguns peixes e algas sendo arrastados também, era lindo e assustador ver a magnitude do mar, ver que ele estava mudando para se adaptar aos seus comandos. Um buraco começou a se formar no centro da água, que se retorcia mais e mais, arrastando a Marinna para dentro dele, fazendo todos os tripulantes caírem no chão por conta da força da água. Marinna estava quase tombando, mas estava aguentando firme, sendo guiada para o centro da água em uma velocidade absurda. Podia sentir Aurora tremendo sob seus pés, querendo seguir a correnteza também.

A âncora e o vento estavam mantendo-os no lugar.

Jungkook podia ouvir vozes ao fundo, gritos, mas estava concentrado demais para entender o que diziam, seu olhar estava focado no grande redemoinho no meio do mar, que estava sugando Marinna para dentro dele, depois de alguns segundos entendeu que os gritos eram dos corsários, que imploravam para não morrerem. Jungkook sentiu um estalo forte em sua cabeça, fazendo-o gemer dolorido e perder a concentração por um momento, percebeu que isso fez a água parar de se mover, mas não podia parar, por isso ignorou a dor e continuou. Depois de alguns minutos a Marinna e todos que estavam nela estavam sendo engolidos pelo redemoinho.

Sua cabeça estava doendo e havia uma pressão extremamente forte em sua nuca, sentia todas as suas forças sendo drenadas para fora de seu corpo, a cada volta que o mar dava para manter o redemoinho, Jungkook sentia sua visão ficar turva. Forçou seus olhos a se abrirem novamente para tentar focar na Marinna, vendo um buraco do tamanho de três navios engolindo-a, estava tão perto que um descuido Aurora iria junto a ela. Jungkook não sabia qual era a profundidade do mar onde estavam, mas ao olhar para baixo, em direção ao fim do redemoinho, sua cabeça girou ainda mais.

Era uma profundidade tão grande que lhe deu vertigem.

Jungkook só parou quando viu o navio no fundo, deixando que a pressão se fosse como se uma corda tivesse se partido e o mar voltasse ao estado normal, a água se agitou e engoliu a Marinna, formando uma onda tão avassaladora sobre ela, que certamente não restaria nem a carcaça do navio para contar a história. O barulho das ondas, dos gritos e da madeira se partindo estavam abafados por conta de sua mente enevoada, pareciam ecos, mas eram altos demais para que pudesse simplesmente ignorar. Jungkook nunca viu um maremoto, mas tinha certeza que a destruição causada por ele era muito parecida com o que estava acontecendo agora, o oceano era lindo e extremamente perigoso.

O mar ainda estava agitado, voltando ao seu estado original com ondas fortes, balançando a Aurora e fazendo-o cambalear sobre a madeira, estava sem forças até mesmo para se segurar ou manter-se de pé, por isso quando cedeu, esperava sentir a dor da queda de seu corpo no chão, mas caiu nos braços de alguém. A pessoa que lhe segurava tomou cuidado para que os dois não fossem juntos ao chão, sentando-se sobre a madeira da Aurora e puxando seu corpo para junto do dele. Jungkook podia estar letárgico, mas reconheceu o perfume peculiar daquela pessoa, que agora o segurava contra o peito.

— Me diz que não é o Taehyung... — Jungkook resmungou com a visão turva, sua cabeça girava, mal conseguia manter os olhos abertos.

— É o Taehyung — ele disse com um toque de humor em meio a nítida preocupação, sentia a mão dele em sua bochecha. — Você está muito pálido e seu nariz está sangrando.

— Continuo bonito? — Tentou focar sua visão no rosto de Taehyung, enxergando-o com dificuldade através de manchas esbranquiçadas em sua visão.

— Bonito como um cadáver — riu, fazendo Jungkook dar um sorriso fraco também. — Acho que você se esforçou demais, consegue se levantar? Parece esgotado.

— E estou, não tenho forças para mover minhas pernas e braços — fez bico, sua visão estava um pouco turva, mas a pressão estava indo embora. — A Marinna já era?

— Só restou algumas madeiras e corpos boiando no mar agora.

— Todos da Aurora estão bem?

— Nem todos, alguns estão feridos e outros... — Sua voz ficou mais séria, o que fez um medo se instaurar sob seu corpo. — Vou levar você até Jimin, se preocupe consigo mesmo agora, quando estiver melhor suba e veja com seus próprios olhos.

— Tudo bem — apoiou sua cabeça no peito de Taehyung novamente quando ele o levantou sem qualquer esforço, sua mente girou e ele fechou os olhos, sentia-se mole como um macarrão cozido demais.

— Você é uma caixinha de surpresas hein gatinho — ouviu ele sussurrar enquanto caminhava.

— Capitão você está ferido?! — Ouviu a voz de Jennie a sua esquerda. — Está sangrando!

— O sangue não é meu — sua voz soou extremamente calma. — Por favor, pegue este saquinho do meu cinto e se livre dele, está sujando minhas roupas de sangue.

— Ok? — Ouviu os passos de Jennie se aproximando. — Tem uma energia muito estranha nesse saco Capitão, o que é isso?

— Abra e veja com os próprios olhos — Jungkook sentiu que eles haviam parado de caminhar, mas não abriu os olhos, estava confortável demais ali.

— ECA! Que isso?! — Jennie gritou enojada.

— A língua do Vernon — Taehyung disse voltando a caminhar. — Eu disse que iria arrancá-la.

— Ai que nojo — ela resmungou caminhando para longe.

— Obrigado por me defender Taehyung — Jungkook disse baixinho, sabia que ele havia feito aquilo por causa do que Vernon havia dito sobre ele.

— Não precisa me agradecer — sua voz rouca estava mais suave. — Eu sempre cumpro as minhas promessas.

Jungkook não respondeu, apenas continuou quieto, sentindo o cheiro de Taehyung tão perto de seu nariz, ele tinha um cheiro muito marcante, mas que o deixava extremamente relaxado. Estava tão absorto em seus pensamentos que se assustou um pouco quando foi colocado sobre uma das redes, relaxou ainda mais deitado sobre ela, suspirando, estava realmente esgotado. Podia ouvir a voz de Jimin, que agora conversava com Taehyung sobre algo que Jungkook não estava interessado em prestar atenção, seu corpo implorava por um pouco de sono e ele não iria ignorar o pedido dele.

Estava quase adormecendo quando sentiu algo gelado em contato com seu rosto, fazendo-o recuar um pouco pelo susto e abrir os olhos, vendo Taehyung com um pano molhado em mãos, ele sussurrou um "desculpe" antes de voltar a limpar o sangue de seu nariz. Jungkook ficou encarando-o enquanto ele passava com cuidado o pano úmido em seu nariz, Taehyung parecia um homem bruto quando o conheceu, parecia usar uma couraça de rigidez, mas ali, estava sendo tão delicado que Jungkook não conseguiu tirar os olhos dele. Sua feição não estava tensa ou assustadora, estava extremamente calma, suave e sem aquele olhar enigmático que sempre carregava.

Estava transparente ao que sentia, não se importava em ser lido, Jungkook não representava mais uma ameaça a ele.

— Você também é uma caixinha de surpresas Taehyung — ele sussurrou, vendo o olhar dele encontrar o seu. — Baixou a guarda comigo.

— Você salvou a Aurora, a minha tripulação e a mim Jungkook — ele disse seu nome bem baixinho, terminando de limpá-lo e recolheu o braço, encarando seus olhos. — Tenho uma dívida com você.

— Vou cobrar quando eu estiver de volta ao meu estado normal — fechou os olhos novamente, ainda estava com sono.

— Pode cobrar — sua voz grave estava ninando-o. — Tenho a impressão que eu não poderia recusar qualquer pedido seu de qualquer forma. — Ele sussurrou, como se não fosse para ele escutar.

Mas Jungkook escutou.

(...)

Jungkook despertou com o som de passos e vozes no teto, não eram muito altos, mas o suficiente para lhe tirar de seus sonhos, abriu os olhos e encarou primeiramente o tecido da rede onde estava deitado. Não havia mais ninguém com ele ali embaixo, apenas roupas sujas de sangue e botas jogadas por todos os lados, quando enfim ele tomou coragem para se levantar, sentiu seu corpo um pouco pesado, como se ainda estivesse cansado, mas estava completamente desperto. Mesmo que seu corpo implorasse para que ficasse deitado, levantou-se da rede e espreguiçou-se, sentindo todas as suas articulações estalarem.

Quando estava de pé ouviu e sentiu as ondas batendo contra a madeira da Aurora, aquilo era tão estranho e tão familiar, parece que sempre esteve ali, mas nunca havia parado para prestar atenção naquela coisa pulsante em seu peito. Sorriu, ele havia naufragado um navio usando o mar! Nunca sequer havia sonhado em fazer algo parecido, era loucura, quando estava no Nevrine com seu pai, viu e soube de coisas muito estranhas, mas definitivamente nada chegava perto daquilo, a partir daquele dia ele não duvidaria de mais nenhuma lenda. Saindo de seus devaneios ele caminhou até as escadas, para ir até o convés.

O sol já não estava tão forte quanto antes, deduziu que havia dormido por bastante tempo, o sol iria se pôr em pouco tempo, já que a escuridão estava se aproximando cada vez mais, estava tão absorto olhando para o céu que nem notou no silêncio absoluto que se formou assim que pisou no convés. Quando Jungkook olhou para os tripulantes, viu que todos haviam parado seus afazeres para encará-lo, aquilo ridiculamente fez suas bochechas corarem e ele conteve o ímpeto de abaixar a cabeça a sair de lá, mas se manteve firme e encarou a todos. Pensou que todos iriam tratá-lo com estranheza, mas de repente todos começaram a gritar, assustando-o.

— Nosso salvador! — Hoseok gritou se aproximando de Jungkook, que estava com os olhos arregalados. Quando estavam frente a frente, ele tirou uma pulseira do próprio pulso e colocou sobre sua palma.

— O que isso? — Jungkook perguntou olhando para a pulseira feita de conchas e ouro.

— Um presente, um tributo, um agradecimento — ele deu de ombros, sorrindo em sua direção. — Ele é o que você quiser que seja.

— Mas eu não posso...

— Não aceito um não como resposta — ele ergueu sua palma para interrompê-lo. — É seu. — Disse antes de se afastar e Jennie se aproximar.

— Eu sempre soube que havia algo diferente em você, mas não sabia decifrar o que era — ela sorriu, pegando um saco de moedas e colocando sobre sua palma, junto a pulseira que Hoseok lhe deu. — Sei que você guarda um segredo maior, mas sei também que todos aqui vão aceitá-lo, então pode confiar em nós, somos uma grande família.

Surpreso seria pouco para descrever o estado atual de Jungkook, vendo-a se afastar. Mas sua surpresa aumentou ainda mais ao ver Yoongi se aproximando com uma pistola dourada, ela era linda e bem trabalhada, tinha certeza que era de ouro a julgar pela cor, brilho e o cuidado que ele a segurava. Ele olhava em seus olhos, sem a raiva contida ou desdém que normalmente estaria em seu olhar, sua feição estava sóbria e Jungkook jurou ver a sombra de um pequeno sorriso em seus lábios, mas talvez fosse um delírio por causa de sua mente bagunçada e confusa. Quando ele ficou a sua frente estendeu a pistola, fazendo-o comicamente arregalar ainda mais os olhos.

— Obrigado por ter salvo minha vida JK — ele se curvou, como seu pai fazia quando agradecia alguém. Sabia que era da cultura asiática, por isso retribuiu, mostrando respeito. — Se você não tivesse me puxado naquela hora, eu certamente não estaria aqui para lhe agradecer.

— Não fiz nada de mais — disse segurando a pistola com timidez, sua voz soou um pouco mais baixa do que gostaria. Yoongi apenas sorriu.

— Você com certeza fez muita coisa JK — disse ao se afastar.

E assim cada um dos tripulantes foi deixando um tributo para Jungkook, que não sabia o que fazer com tanta coisa, ganhou ouro, prata, algumas moedas de bronze, botas, colares e mais um monte de coisas que não fazia a menor ideia de onde iria colocar. Taehyung foi o último da fila, ele esperou que todos entregassem o que queriam antes de se aproximar, seus passos eram calmos, mas seus olhos carregavam ferocidade. O tempo parou para Jungkook naquele momento, viu em câmera lenta o sorriso de Taehyung surgir em seu rosto quando notou que estava sendo observado, quando ele estava a sua frente, todos estavam em silêncio, encarando-os.

— Lhe darei algo não só material, como também sentimental, gatinho — disse sorrindo, pegando uma de suas mãos que não segurava seus diversos presentes, já que agora todos os bens recebidos descansavam no chão aos seus pés.

— Não sabia que você era um homem sentimental Capitão — Jungkook analisava seus movimentos, vendo ele acariciar sua mão antes de passar um anel por seu dedo anelar. O anel era o que Taehyung sempre usava, com uma Safira no centro, talhada a ouro branco e diamantes, o que o fez arregalar os olhos.

— Há muitas coisas que não sabe sobre mim gatinho — ele sorriu ainda mais, levando sua mão até os lábios e deixando um beijo sobre o anel. Jungkook estranhamente sentiu seu coração reagir, acelerando os batimentos e deixando seu peito uma bagunça de batidas aceleradas.

— Esse anel é um selo — ele disse ainda segurando sua mão, mas com o olhar fixo no seu. — De que você tem minha eterna lealdade, por ter salvo minha Aurora e minha querida tripulação. É uma dívida que eu pagarei pelo restante da minha vida, prometo a você.

"Eu sempre cumpro minhas promessas" lembrou-se do que Taehyung havia dito há algumas horas.

— Parece que você está se casando comigo... — Disse sentindo seu coração acelerado batendo contra sua caixa torácica com mais ímpeto. Será que estava com arritmia cardíaca?

— Não negaria se for isso que quer — seu sorriso aumentou e Jungkook sentiu suas pernas bambear.

— Onde estamos indo? — Mudou de assunto, olhando para o horizonte, cruzando olhares com alguns marujos, que desviaram seus olhos para outro lugar. Pegos no flagra bisbilhotando.

— Palaciana — ele disse vendo Jungkook lhe encarar com os olhos arregalados e assustados. — Ninguém sabe sobre sua identidade, não se preocupe, mas é o porto mais perto, precisamos consertar os danos causados na Aurora, abastecer e tirarmos uma pausa, perdemos muito. Precisamos nos fortalecer novamente, ficar no mar não nos ajudará com isso.

— Não sei se é uma boa ideia voltar lá Taehyung — disse inseguro, passara longe de Palaciana o máximo que pôde, voltar pode colocá-lo em risco. — Um passo em falso e minha identidade além de revelada será espalhada, nunca mais terei paz, isso se eu sobreviver. — Dizia em um sussurro, para que somente Taehyung escutasse.

— Você pode ficar comigo em meu bangalô, ninguém exceto eu e Jimin sabe onde fica — estranhamente ele não havia soltado sua mão, mas também não queria afastá-la. Taehyung entrelaçou seus dedos. — Nada fará mal a você lá, eu te prometo.

— Você faz muitas promessas Capitão — Jungkook disse olhando para suas mãos juntas, tentando entender o porquê daquilo não o incomodar.

— E todas serão cumpridas.

Por incrível que pareça, Jungkook acreditou nele, por isso levantou o olhar e o encarou, tentando ler suas expressões, pois talvez seus olhos não concordassem com suas palavras, mas tudo o que encontrou foi sinceridade pura. Junghyun o ensinou a ler a verdade e a mentira nas expressões das pessoas, mas talvez Jungkook não tenha sido um bom aprendiz, porque se Taehyung estivesse mentindo ou tentando manipulá-lo, ele conseguiria com êxito. Aquele medo e cautela que o cercava quando estava com Taehyung estava desmoronando, cada barreira que ergueu estava se desfazendo aos poucos.

— Tudo bem... — Jungkook disse olhando em seus olhos, deixando claro que estava lhe dando um voto de confiança. Taehyung sorriu tão grande que parecia ter ganhado o dia.

— Não vou trair sua confiança JK — ele disse, deixando mais um beijo sobre sua mão.

"Eu realmente espero que não Capitão" foi o que Jungkook pensou, mas não verbalizou.

(...)

Depois que Hoseok, Rosé e Jisoo ajudaram Jungkook a guardar seus novos pertences — que agora estavam em um baú só para ele — ele saiu para encontrar Jimin, precisava saber se Seokjin estava bem, pois não havia o visto ainda, ele não estava junto aos marujos que lhe deram tributos. Descobriu que Seokjin estava na cabine de Taehyung, dormindo em sua cama, pois seu ferimento havia sido grave demais, não podia fazer movimentos bruscos e dormir em uma rede em alto mar não ajudaria sua cicatrização. Perderam cinco piratas, incluindo um dos piratas que ajudou Taehyung a colocá-lo no calabouço do navio, Dino era um de seus homens de maior confiança, por isso ele estava bastante abalado com sua perda.

Aurora sofreu danos graves, um dos mastros estava inclinado, faltando pouquíssimo para cair, graças às diversas cordas que ligavam as velas e o restante dos mastros ela estava estabilizada. A lateral do navio estava em pedaços, Taehyung informou que levaria dias para consertar tudo, mas que por conta de suas conquistas no mar, não seria difícil de pagar por seu conserto, Jungkook disse que ajudaria a pagar, já que se sentia parcialmente responsável pelo o que houve, por conta de sua indesejável ligação com Vernon. Taehyung não recusou sua ajuda, não estava em posição de recusar nenhum auxílio naquelas circunstâncias, por isso apenas acenou em concordância com um sorriso fraco.

Quando chegaram a Palaciana, Taehyung atracou Aurora em uma costa um pouco afastada do centro do porto, longe de comerciantes e pescadores, para que ela não fosse furtada durante seus dias ali. Todos fizeram um voto de sigilo ao capitão, dizendo que manteriam o paradeiro da Aurora oculto de todos, pois ela era o lar de muitos ali, marcaram também de se encontrarem daqui cinco noites, para que discutissem sua próxima aventura. Taehyung disse que durante esse tempo, era para todos se recuperarem de seus ferimentos e decidirem se ainda gostariam de estar a bordo da Aurora quando ela fosse restaurada.

Passaram o dia velando e enterrando os membros mortos do confronto entre Aurora e Marinna.

Jungkook pensou que alguns iriam desistir depois daquilo, mas na realidade, todos apenas sorriram e tocaram os ombros de Taehyung ao passar por ele, com a promessa de que todos voltariam para Aurora com um sorriso no rosto. Taehyung e Jungkook foram os últimos a deixarem o navio, após trancarem todas as portas e alçapões, deixando todos os pertences e baús a salvo, agora iriam para o bangalô, já que Lisa e Jennie se voluntariaram para ir atrás de um carpinteiro junto a Hoseok, para restaurar a Aurora. Por isso, naquele momento, Jungkook andava lado a lado com Taehyung, em silêncio, apenas olhando para os lados, vendo árvores e mais árvores, estavam adentrando a floresta já fazia alguns minutos, seguindo uma trilha escondida.

— Você realmente queria privacidade para optado por se esconder no matagal — Jungkook disse olhando em volta, não havia qualquer sinal que alguém um dia já passou por ali. — Se não tivesse feito sua promessa, juraria que está me levando para a morte, aqui é um lugar perfeito para um assassinato. — Taehyung riu.

— Esse bangalô era para onde eu corria quando as coisas estavam muito ruins — ele parecia distraído, mas Jungkook não sabia dizer se era por conta das lembranças ou pela paisagem. — Foi aqui onde eu passei a maior parte do tempo juntando pistas para te encontrar.

— Ah — Jungkook não sabia o que dizer. — Escolheu Palaciana para procurar pistas, foi uma aposta esperta, mas eu deixei esse lugar quando tinha dezesseis anos, nunca mais voltei aqui. Não gosto desse lugar.

— Por causa do seu pai?

— Não só por causa dele, mas porque esse é um lugar de despedidas — Jungkook divagou, vendo ao longe um casebre de madeira. — Me despedi do meu pai aqui, me despedi do Jungkook aqui e me despedi da minha vida aqui também. Tudo o que eu perdi... Foi nesse lugar.

— Aqui te trás lembranças ruins — constatou o óbvio e Jungkook assentiu.

— Foi aqui onde eu fui traído pela primeira vez — lembrou-se de seu primeiro relacionamento com Eunji. — A primeira vez que tentaram me manipular para conseguir o mapa do meu pai. — Taehyung o encarou quando chegaram na varanda do bangalô.

— Era alguém próximo...? — Sua pergunta soou extremamente cautelosa, como se estivesse hesitante se deveria perguntar ou não.

— Ela usou o truque mais sujo possível para conseguir o que queria — Jungkook suspirou, entrando no bangalô assim que Taehyung abriu a porta.

— Que foi?

— Fez eu me apaixonar por ela — riu sem humor, olhando para Taehyung, que lhe encarava com um olhar banhado de um sentimento que não soube identificar. — Desde então não deixei ninguém se aproximar de mim o suficiente para isso acontecer novamente.

— Nem todos são como ela Jungkook.

— São sim, todos são capazes de fazerem as piores atrocidades para conseguir algo que sempre quiseram — Jungkook olhou profundamente nos olhos de Taehyung, deixando claro que apesar de tudo, sua guarda ainda estava alta com ele. — Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.

Eu não sou como ela — Taehyung disse com uma calma avassaladora, pois seus olhos mostravam a mais pura e genuína certeza.

— Não tenho como saber Taehyung — desviou o olhar, observando o lugar a sua volta. — Não o conheço bem o suficiente para isso, mas você é um pirata que passou anos me procurando, como posso saber se você não fará pior?

— Eu mostrarei a você que sou diferente — caminhou em sua direção, parando a alguns centímetros, fazendo com que inevitavelmente Jungkook o encarasse. — Porque ao contrário dela, eu não quero somente o tesouro do seu pai.

— O que mais você quer então, Taehyung? — Perguntou com os olhos conectados aos dele.

— Para alguém tão perspicaz você é um pouco lerdo às vezes Jungkook — Taehyung riu antes de se afastar e caminhar até as escadas no canto da pequena sala em que estavam. — Vou conferir o que temos e o que precisamos para sobreviver aqui nos próximos cinco dias.

Jungkook ficou parado vendo Taehyung caminhar para longe enquanto sua mente girava em torno do que ele havia dito, por que ele sempre ficava dizendo coisas confusas e de duplo sentido? Estava ficando confuso com o turbilhão de coisas que ele estava despertando em seu corpo e mente, Taehyung tinha que parar antes que as coisas começassem a dar errado, ele não podia se apaixonar por um pirata, simplesmente seria uma sentença de morte. Mas se ele continuasse com aqueles joguinhos, Jungkook iria acabar caindo em sua armadilha e seria devorado.

— Isso não vai acontecer de novo — Jungkook sussurrou, caminhando pelo bangalô.

O casebre era completamente de madeira, bem modesto, mas muito confortável, havia um tapete de pele na frente da lareira, um sofá, uma mesinha e vasos com flores. Havia quadros também, alguns eram de paisagens e outros com artes abstratas, mas havia um em especial que chamou a sua atenção, por isso se aproximou dele para observar melhor. Era Taehyung desenhado nele, ele segurava uma runa com a cor cobre com as mãos estendidas, mostrando-a, atrás dele havia um grande tubarão, os dois pareciam encarar Jungkook com intensidade. A julgar pelo cabelo e a maneira que as roupas foram pintadas, Taehyung estava debaixo d'água.

O tubarão atrás dele era imenso, maior que o próprio Taehyung, o quadro era grande o suficiente para caber os dois e mostrar a magnitude do tubarão, mas o que chamava sua atenção era a runa nas mãos dele. A runa não era como a sua, o desenho entalhado nela não era parecido, a cor não era parecida, somente o tamanho, a sua lhe dava o poder de controlar o mar, mas a do Taehyung lhe dava qual poder? Jungkook foi juntando as pecinhas em sua cabeça, olhando para os dois presentes no quadro e em seguida para a runa, chegou a uma conclusão, mas não estava totalmente certo sobre ela.

— Descobriu? — Jungkook se assustou quando Taehyung de repente se pronunciou atrás de si, fazendo-o dar um pequeno sobressalto. — O poder da minha runa?

— Eu tenho suposições — disse voltando a olhar para o quadro. — Mas nenhuma delas faz sentido.

— A sua runa é diferente das outras Jungkook, não use-a como referência — ele colocou-se ao seu lado. — Só existem mais três como a sua e são extremamente raras, dadas como um presente pelo próprio elemento.

— Como assim? — Perguntou confuso, virando seu olhar para Taehyung.

— Amélia me explicou uma vez, as runas são presentes, dados para pessoas especiais, por isso não são todas que tem e pode usá-las. A maioria são presentes de espíritos animais, mas a sua é uma rara, dada pelo elemento água — olhou em sua direção, como se quisesse ter certeza que estava prestando atenção. — Há também a runa de fogo, terra e ar, não sei como elas são entregue aos escolhidos, mas não é dado a qualquer um. Talvez seja porque você é um "filho do mar" como Amélia disse, você é diferente, especial.

— Eu recebi essa runa após eu me afogar no porto principal de Palaciana — Jungkook tirou sua runa de dentro da camisa e a encarou. — Ela estava com meu pai, era dele, no dia que eu a recebi eu soube que ele havia morrido. Eu tinha esperanças de que ele só tivesse se perdido no mar, mas quando eu acordei depois do meu afogamento e abri minhas mãos, ela estava lá, meu pai nunca a perderia.

— Eu sinto muito...

— Não sinta — guardou sua runa e levantou o olhar. — Meu pai morreu fazendo aquilo que ele amava, ele disse que um dia eu o entenderia, hoje eu entendo. Ele não podia ficar longe do mar, era o lar dele, tenho certeza que ele morreu feliz.

— Agora é a sua vez — Taehyung disse atraindo seu olhar para ele novamente. — Eu vi como você fica perto do mar Jungkook, você é como ele, atraído pelo oceano como se ele fizesse parte de você. No dia que você cantou aquela canção, eu fui atraído por ela, por causa da minha conexão com o mar, por causa da minha runa, foi como estar em transe. Você atraiu aqueles golfinhos, eles não estavam ali, você os chamou.

— Não foi a minha intenção, nem sei como eu fiz isso — franziu o cenho, olhando para baixo, até que sua curiosidade o tomou. — Por que você foi atraído Taehyung? Qual é a sua conexão com o mar?

— Lembra que eu disse a você que eu era um predador? — Disse tirando a runa que ele carregava em um colar de couro, escondido por dentro da camisa. — Eu realmente sou um, tenho as características de um, porque essa runa foi me dada por um tubarão. Por isso eu fico sedento por sangue e sinto prazer em vê-lo em minhas mãos, por isso sou mais forte e ágil que os outros, por isso que você se sentia amedrontado comigo, é o poder que ela me dá, eu sou um predador natural, como o tubarão que me presenteou. Ela me dá o poder de coagir minha vítima antes de eu atacar, eu quase nunca uso, mas às vezes é necessário.

— Você usa em mim o tempo todo, sem necessidade nenhuma, apenas por prazer — fez uma careta desacreditada e Taehyung riu.

— É mais forte que eu, suas reações são incríveis, eu sinto uma necessidade profunda de te provocar — disse com um sorriso sacana no rosto.

— Saiba que eu não sou a pessoa mais paciente do mundo, então não me provoque tanto ou eu irei acabar explodindo.

— Estou ansioso para quando isso acontecer — seu sorriso se possível aumentou ainda mais. — Mas voltando ao assunto, você precisa conversar com a Amélia, para entender melhor sua runa, acho que agora que você sabe qual é o poder dela, ela irá te instruir melhor.

— Tenho medo do que eu irei descobrir Taehyung — suspirou, revelando pela primeira vez o motivo que o deixava tão receoso na presença de bruxas. — Tem coisas que é melhor não sabermos.

— Não está curioso para descobrir o porquê você cruzou meu caminho?

— O que? — Perguntou confuso, franzindo o cenho.

— Coincidências demais são duvidosas Jungkook, tudo bem acontecer uma ou duas vezes, mas foram diversos fatores que o trouxeram até mim — seus olhos transmitiam curiosidade e novamente aquele sentimento que Jungkook não sabia identificar. — Amélia mencionou "o destino fazendo seu trabalho", não é algo que minha curiosidade consegue ignorar.

— Nem tudo precisa ter um significado.

— Você é irritantemente cético — sua expressão endureceu e ele revirou os olhos, fazendo Jungkook cruzar os braços. — Ignore os sinais que estão bem diante dos seus olhos, mas eu não farei isso, eu os seguirei e se o destino tem algo já traçado para mim, eu o aceitarei de boa vontade.

— O que quer dizer com isso?

— Que se você estiver interligado ao meu destino, eu não o deixarei escapar.

~🖤~

Eu deito para esse Taehyung, na moral, que homem perfeito.

Agora sim as coisas vão começar a andar, a partir do próximo capítulo estaremos indo rumo a verdadeira aventura!

Ninguém acertou o poder da runa do Tae hein? Chegaram nem perto kkkkk

O que estão achando a fic até aqui?

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