A floresta Abissal

Jeon Jungkook

— Isso é humilhante — Jungkook disse com a cabeça pendurada para fora do navio.

— Você precisa ficar com a cabeça inclinada para frente, para que o sangue flua para fora das suas narinas e não obstrua suas vias respiratórias — Jimin explicou, enquanto tirava os curativos de Jin, para limpar suas feridas e trocar suas ataduras.

— Mas nessa posição? — Resmungou, estava praticamente pendurado na borda do navio, com a cabeça inclinada em direção ao mar, fazendo com que o sangue escorresse e caísse na água límpida do oceano.

Jungkook estava naquela situação comprometedora porque exigiu muito de seu corpo durante a madrugada, ao criar um vácuo no mar e manter Taehyung seguro das sereias, depois do que aconteceu e de algumas horas de descanso, todos voltaram a programação normal. Já havia amanhecido e o sol estava se tornando cada vez mais quente sobre suas cabeças, estavam navegando rumo a Floresta Abissal, o que estava deixando todos um pouco mais assustados. O conflito com as sereias levou três marujos, o que os deixou mais chocados foi que tudo aconteceu sem que eles sequer estivessem conscientes, eles morreriam sem nem mesmo ter ciência do perigo. Mas Jungkook estava um pouco mais confiante, embora tenha ficado fraco e seu nariz tenha sangrado, ele não desmaiou.

— Sim, nessa posição — Jimin lhe respondeu, fazendo-o suspirar. — Me avise quando parar de sangrar.

— Certo — ficou encarando as gotas de sangue pingar no mar. — Vai parar né? Tá sangrando desde o confronto com as sereias...

— É melhor que pare, ou talvez o problema não seja uma veia rompida — ele disse, limpando a ferida de Jin. — Talvez você esteja com uma hemorragia no cérebro e comece a sangrar pelo ouvido também, antes de você engasgar com o sangue e morrer. — Jungkook arregalou os olhos e o encarou em pânico.

— Ai meu deus, e se for isso? — Disse sentindo seu coração saltar em seu peito.

— Ele está brincando com você — Taehyung disse de repente, como sempre o assustando, caminhando em sua direção. O machucado em sua cabeça estava tratado, o corte não estava muito fundo, mas ainda estava vermelho e um pouco inchado. — Como você está se sentindo?

— Agora? Com medo — olhou para Jimin com os olhos assustados, vendo-o segurar o riso. — Mas fora isso, só meu nariz que não para de sangrar. — Como para provar seu ponto, o sangue escorreu, sujando sua boca com o líquido vermelho. Um pouco curioso, ele passou a língua pelo sangue, sentindo seu gosto peculiar.

— Está me provocando? — Taehyung perguntou com os olhos fixos no movimento de sua língua. Jungkook pode ver o momento exato em que as pupilas dele engoliram suas íris, dando-lhe aquele olhar predatório. — Porque está conseguindo.

— Estava curioso se realmente tem um gosto bom ou se é somente influência da runa sobre você — disse passando um paninho que Jimin lhe deu para limpar e estancar o sangue.

— E então? — Perguntou com um sorriso divertido.

— É influência da runa, com certeza — riu, retirando o pano e verificando se o sangramento tinha parado, a resposta foi não, ao senti-lo escorrer. — Não sei como você consegue, a runa muda seu corpo também?

— A runa me deu muitos dons, mas sempre há as suas desvantagens — ele disse levando suas mãos até os cabelos de Jungkook, fazendo um pequeno cafuné antes de fazê-lo abaixar a cabeça. — Mesmo que eu tenha todos esses dons, meu corpo continua o mesmo.

— Como assim? — Jungkook perguntou confuso, levantando o olhar o suficiente para vê-lo, mas ainda mantendo a cabeça inclinada.

Taehyung olhou para os lados, procurando por algo, caminhou até um canto próximo às escadas que levavam para baixo do convés, onde estavam as lenhas que Jin queimava para ascender a fornalha estavam empilhadas. Jungkook ficou confuso ao vê-lo pegar um dos pedaços de madeira e caminhar até ele novamente, ficando a sua frente com a lenha nas mãos. Ele olhou em seus olhos antes de simplesmente partir o pedaço grosso de madeira ao meio com uma facilidade absurda, fazendo várias farpas voarem e caírem no chão, antes de ele mesmo se livrar dos dois pedaços de madeira, jogando-os no canto onde os pegou. Deixando tudo ainda mais bizarro, a madeira bateu contra a borda da Aurora, despedaçando ainda mais a lenha já cortada.

Jungkook o encarou chocado, ele poderia partir seus ossos com a mesma facilidade?

— Se está pensando que eu provavelmente quebraria algo mais duro que madeira, a resposta é sim — Taehyung disse rindo de sua expressão de choque. — Graças a runa, eu possuo a mesma força que a mordida de um tubarão.

— Certo e onde está a desvantagem? Certamente a sua vítima que está em desvantagem nesta equação — disse ainda mais surpreso, o quão forte era a mordida de um tubarão?

— A desvantagem é essa — ele estendeu as mãos, mostrando a Jungkook arranhões e cortes, fora algumas farpas que haviam adentrado sua pele. — Possuo uma força sobre-humana, mas a estrutura do meu corpo não mudou.

— Então... Se você desse um soco muito forte em alguma superfície dura? — Jungkook largou seu lenço, preocupado com as feridas que haviam aberto na mão de Taehyung.

— Eu provavelmente quebraria os ossos da minha mão — disse com uma calma imensa, como se aquilo não fosse nada preocupante. — Não se preocupe, eu não saio por aí socando paredes.

— Acho bom — riu. — O que você pode quebrar sem se ferir?

— Pessoas — disse novamente com aquela calma assustadora. — Graças aos tecidos de seus corpos e músculos, são extremamente fáceis de quebrar.

— Quantas pessoas você já "quebrou"?

— Algumas — disse dando de ombros, fazendo Jungkook frisar o olhar, por conta de sua resposta esquiva. — Só uso minha força em casos extremamente necessários.

— Hm... — Várias imagens passavam por sua cabeça naquele momento. Sabia que o Capitão já havia matado pessoas, assim como ele mesmo já havia matado, às vezes realmente não tinham escolha e se não matassem, os mortos seriam eles. — Por favor, cuidado comigo então, minha runa não me dá força e agora eu me sinto extremamente frágil perto de você.

— Não se preocupe, gatinho — Taehyung sorriu, acariciando suas bochechas. — Eu jamais o machucaria, mesmo que me pedisse isso.

Taehyung se aproximou, deixando um beijo delicado sobre seus lábios, fazendo-o sorrir, por mais estranho que fosse, Jungkook amava quando ele lhe beijava daquela maneira, com tanto cuidado, com tanta ternura, por mais que não fosse realmente frágil, sentia-se precioso com todo aquele cuidado, como se ele realmente fosse de vidro. Passou a vida sendo ele e apenas ele a cuidar de si próprio, nunca dependeu de ninguém, por isso ficava extremamente feliz e entregue quando Taehyung lhe oferecia aquilo que nunca teve, alguém para se apoiar. Riu quando sentiu a língua dele passar por seus lábios, seguindo o rastro de seu sangue.

— Você realmente não consegue se conter, não é? — Disse abraçando seu pescoço, ainda sem tirar o sorriso dos lábios.

— Eu preciso? — Resvalou os lábios sobre os seus.

— Não — agarrou os fios castanhos de sua nuca e o beijou com vontade.

Nem ligava se seu nariz estava sangrando ou qualquer outra coisa, sua cabeça lhe mandava beijar Taehyung e seu coração também, sentia uma urgência em tê-lo próximo, sentir o calor dele junto ao seu e sentir o gosto de seus lábios. Só lembrava de se sentir assim uma única vez, há anos atrás, quando se apaixonou pela primeira vez, quando ansiava pela companhia de Eunji, pelos toques e pelos beijos... Jungkook sentiu o aperto de Taehyung aumentar em volta de seu corpo, puxando-o mais contra ele, fazendo seu coração saltar de alegria no peito, o que o fez se afastar um pouco, tanto para recuperar seu fôlego, tanto para recuperar sua racionalidade, mas ao observar os olhos castanhos dele lhe encarar com tanta ternura e desejo, sentiu seu estômago se revirar.

— Ai que droga — deixou escapar.

— O que foi? — Ele perguntou, olhando em seus olhos com uma mistura de confusão e ânsia.

— Acredito que estou-

— CAPITÃO! — Namjoon gritou do alto do leme, interrompendo-o. — Tem algo estranho mais a frente!

— Estou indo! — Taehyung gritou, voltando a encarar Jungkook. — O que você ia me dizer?

— Ah, nada, acredito que meu nariz parou de sangrar — disse a primeira coisa que veio à sua mente.

— Aparentemente sim — disse colocando suas mãos sobre as bochechas de Jungkook, para vê-lo melhor. — Se voltar a sangrar fale com Jimin.

— Certo, vá ver o que é — segurou em suas mãos. — Estou com um mau pressentimento. — Aquilo não era uma mentira, estava realmente com um aperto no peito, como se algo ruim fosse realmente acontecer.

— Tudo bem — Taehyung assentiu e correu até Namjoon, deixando Jungkook para trás.

O que ele iria dizer a Taehyung após beijá-lo?

Jungkook observou as costas do Capitão enquanto ele se afastava para ir até Namjoon no leme, pensando na loucura que lhe diria se não tivesse sido interrompido. "Acredito que estou apaixonado por você", não conseguia acreditar que aquelas palavras absurdas quase saíram de sua boca, pois mesmo que fossem verdade, não podia simplesmente dizer isso a ele de maneira tão espontânea. Haviam se conhecido a pouco tempo, mesmo que realmente estivesse nutrindo um sentimento por Taehyung, era cedo demais para dizer-lhe, não estava pronto, era muito repentina a maneira que tudo aconteceu.

Precisava estar focado na missão que tinham, não tinha tempo de se perder em sentimentos confusos quando sua vida e a da tripulação estavam em jogo. Por isso limpou o rastro de sangue em seu nariz e caminhou até o leme, a cada passo que dava em direção a ele seu coração se apertava, como se caminhasse em direção a algo que o devoraria. Se arrepiou assim que respirou fundo, havia algo assombroso mais a frente, podia sentir pela densidade da água, pois nem mesmo no território das sereias sentiu tal coisa, era uma presença grande, que parecia comprimir qualquer outra coisa daquele lugar. Assim que chegou ao leme, se colocou ao lado de Taehyung, onde ele e Namjoon olhavam para a frente do navio.

— ATENÇÃO MARUJOS! — Taehyung gritou, chamando a atenção de todos que estavam no convés. — Todos a postos, peguem os mosquetões e preparem os canhões!

Todos começaram a correr para fazerem o que Taehyung pediu, enquanto ele mesmo partiu para fazer o mesmo, enquanto Jungkook ficou parado, observando junto a Namjoon, que conduzia a Aurora. Estava realmente preocupado com o que estava sentindo, um medo que parecia crescer quanto mais se aproximavam, o que estava mais a frente? Estava distraidamente olhando para frente, com sua visão focada no denso nevoeiro que cobria todo o mar à sua volta, em breve entrariam nele e ficariam encobertos, escondidos e provavelmente cegos. Taehyung apareceu ao seu lado, lhe estendendo um mosquete em sua direção, pensava que aquele objeto não seria tão útil, mas decidiu aceitá-lo de qualquer maneira.

— Você está bem? — O Capitão perguntou com preocupação.

— Não... — Disse após colocar o mosquete em suas costas. — Estou sentindo algo estranho no mar, uma pressão maior do que a que eu senti no Lago dos Ossos.

— De acordo com seu mapa... A Floresta Abissal é o hábitat de alguma fera do mar — Namjoon disse com as mãos firmes no leme. — Há o desenho de um peixe.

— A julgar pela pressão — Jungkook disse vendo o nevoeiro se aproximar ainda mais. — Um grande peixe.

— Nós iremos adentrar o nevoeiro Capitão — Namjoon avisou.

— Fiquem atentos! — Taehyung caminhou até que todos os marujos pudessem vê-lo. — Estaremos entrando na casa de algum monstro do mar.

Dito isso, o convés ficou em um silêncio mórbido, todos encarando o grande nevoeiro que estavam prestes a entrar, assim como Jungkook. Quando a Aurora começou a se engolida pela névoa, o frio os cobriu como um véu e assim como tinha previsto, não conseguiam enxergar absolutamente nada fora uma imensidão negra abaixo deles, a água era tão escura que duvidava que sequer a luz do sol conseguia chegar até lá. Ficaram todos em silêncio, navegando cada vez mais longe da luz, Namjoon estava com uma bússola na mão, para não se perder no nevoeiro, pois não havia como se localizar ali caso se perdessem. Todos olhavam para todos os lados, tensos, sentindo que haviam acabado de entrar por livre e espontânea vontade no lugar onde seriam mortos.

— Namjoon, haja o que houver, não saia do leme — Taehyung pediu, enquanto Namjoon apenas assentiu. — Lhe darei cobertura caso algo aconteça, mas foque completamente em nos tirar daqui.

— Sim, Capitão! — Respondeu prontamente.

Jungkook estava preocupado, por isso fechou os olhos, há uns dias enquanto treinava com Taehyung, percebeu que podia sentir cada centímetro do oceano, como um sonar. Embora não tenha conseguido ir muito longe, seu alcance conseguiu sentir a pressão do mar à sua volta, sentiu os peixes que nadavam por ali, sentiu as algas, a correnteza e a profundidade da água, como se fosse uma parte sua. Por isso focou-se nisso, respirou fundo e expandiu suas forças, sentia que teria muito mais alcance se estivesse dentro d'água, cercado pela imensidão azul, mas ali, aquilo teria que bastar. Sentiu a densidade da água muito mais forte do que qualquer outro lugar, como se estivesse no lugar mais profundo do oceano, o que o fez focar na profundidade.

Jungkook apertou as mãos, indo cada vez mais fundo, até que sentiu algo, uma presença, uma coisa que fez o medo atravessar seus ossos e paralisá-lo, arregalou os olhos ao sentir a presença se aproximar, subindo até a superfície, onde estavam. Não teve tempo de pensar, precisava apenas tirá-los dali antes que o que estava subindo os pegasse, então sentindo novamente aquela forte adrenalina entorpecer seus sentidos, ignorou a pressão em sua cabeça e estendeu as mãos, criando uma corrente dez vezes mais forte que as que já tinha feito. As águas bateram contra a Aurora com força, derrubando todos que estavam no navio, ele não caiu somente porque Taehyung o segurou junto a si na beirada do navio.

Não teve tempo de agradecer, pois estava concentrado em fazer Aurora navegar sobre as águas em uma velocidade absurda, impossível para qualquer navio, com a correnteza fazendo-a quase voar sobre as águas, para afastá-la de onde estavam. Sentiu alguns marujos gritarem, enquanto rolavam e tentavam se segurar nas madeiras e cordas do navio, enquanto Aurora lutava para não tombar e afundar no mar. Jungkook olhou para trás, vendo a névoa em sua volta se revolver com a velocidade em que estavam, mas o que chamou a sua atenção foi um dos barris que estavam ao seu lado, se soltando das cordas e rolando até bater na borda. O barril caiu no mar, pôde ouvir o barulho da madeira batendo contra a água.

Segure-se bem Jungkook!

Após a voz lhe dar as instruções, Jungkook prendeu seus braços em volta de Taehyung e pediu que ele se segurasse com força, ouvindo o som da madeira rachando com a força que o Capitão aplicou ao segurar-se. Não diminuiu a força da corrente, sentindo-a sugar totalmente sua força, por estar criando uma corrente com a força de um tsunami, tudo para que Aurora fosse empurrada para longe do perigo. Sentiu aquela presença esmagadora o tomar quando a criatura que estava atrás dele emergiu da água, desesperada para pegar o que havia caído no mar. Jungkook arregalou os olhos ao ver um grande e estranho peixe com imensos dentes quebrar o espelho d'água, subindo até a superfície, para pegar o barril que caiu no mar.

A água espirrou por todos os lados quanto o peixe subiu, mas o que assustou a todos que estavam na Aurora foi que a presença da criatura cobriu completamente o navio, como se ele fosse meramente um brinquedo. Jungkook sentiu Taehyung suspirar em seu ouvido, assustado com o que estava vendo, uma criatura cinco vezes maior que o navio emergir da água para pegar o barril, que se despedaçou em seus dentes antes da criatura afundar novamente no mar. Por conta de seu tamanho e peso, a onda que se formou os cobriu, eles seriam engolidos por ela se Jungkook não impedisse, por isso ele estendeu a mão e mudou a direção da onda, fazendo com que ela quebrasse do lado oposto do navio, deixando-o ainda mais fraco do que estava.

Mas assim que ela afundou, Jungkook se levantou, preocupado que ela voltasse, seus sentidos ainda estavam aguçados, por mais que ela tivesse vantagem na água, ele também tinha. Ele podia senti-la no mar, podia saber onde estaria e para onde iria. Mas iria conseguir fugir dela? E se conseguisse da próxima vez, até quando? Uma hora a fraqueza lhe tomaria e ele perderia sua força, uma correnteza como a que estava criando tomaria toda sua força, não conseguiria manter aquela constância por muito tempo.

"A criatura se orienta pela movimentação na água" a voz lhe explicou. "Como uma aranha, o mar é a teia dela".

— Então ela está sendo atraída pela movimentação do navio... — Jungkook constatou, olhando para os lados, procurando por algo.

— Podemos distraí-la jogando algo no mar enquanto fugimos — Taehyung disse olhando para os barris. — Se ela for realmente como uma aranha, irá atrás de tudo que cair no mar, para devorá-lo.

— Você ouviu o que o mar disse? — Jungkook perguntou surpreso, vendo Taehyung assentir.

— Ouço a voz dela às vezes também — explicou, mas olhou em seus olhos logo em seguida, com um brilho estranho neles. — Mas ela tem falado comigo com mais frequência desde que o conheci você.

— Certo, depois falamos disso, precisamos-

— Olhem! — Yoongi gritou, interrompendo Jungkook, que viu ele inclinado sobre a borda contrária de onde estavam. Os dois correram até onde ele estava, para ver sobre o que ele falava.

Apesar da névoa e do mar completamente escuro, uma luz azulada se movia lentamente na água, passando pela lateral da Aurora, todos ficaram encarando a luz de maneira fixa. Jungkook não havia sentido aquela presença quando se concentrou em achar algo no mar, mas agora, perto o suficiente, pôde senti-la, não era nem de perto tão grande quanto o monstro que os caçava, mas ainda assim, era grande para um peixe. Tinha o tamanho de um tubarão aproximadamente e se movia devagar, mas o que estava chamando a sua atenção era o fato do porquê a criatura maior não havia devorado aquele peixe também. Mas ao colocar seu cérebro para trabalhar, lembrou-se de algo.

— "Sigam a luz, mas não entrem na água" — repetiu as palavras que estavam gravadas em sua memória. — Amélia nos avisou sobre isso!

— Faz sentido — Taehyung disse olhando para a luz. — Esse peixe está nos ignorando, assim como o peixe maior está ignorando ele. Podemos usá-lo como camuflagem, usar a movimentação dele para esconder a nossa.

— Será que irá dar certo? — Hoseok perguntou ao lado do Capitão, fazendo com que todos o encarassem. — Aurora é muito maior que esse peixe, a criatura certamente notará.

— Não se a mantivermos distraída — Lisa disse olhando para os barris.

— JK você consegue manter a corrente? — Yoongi se aproximou, vendo-o de perto, apesar do suor em sua testa e do cansaço, não estava em condições muito ruins. Por isso apenas assentiu. — Com a sua corrente e as distrações, podemos conseguir sair daqui sem sermos engolidos.

— Farei o melhor que eu puder — respirou fundo, precisava ser forte.

Taehyung e Lisa começaram a repassar os planos ao restante da tripulação, que começou a pegar barris, baús e qualquer objeto grande para jogar no mar, tudo para distrair a criatura. Jungkook decidiu se sentar para se concentrar e manter suas forças, enquanto todos à sua volta corriam, ele focava em canalizar seu poder, aumentar sua concentração ao máximo e manter-se atento na movimentação da criatura abaixo deles. De início o plano pareceu funcionar, a criatura emergia da água próximo à Aurora, mas não a pegava, enquanto Jungkook diminuía as ondas que o Peixe do Diabo — apelidado pela tripulação — causava, Namjoon seguia a luz provinha do outro peixe. Como todas às vezes que usava o poder da runa, Jungkook estava se desgastando lentamente, mas ainda conseguia manter aquela intensidade, apesar de a corrente estar lhe drenando.

A runa estava quente em seu peito, podia senti-la assim como sentia cada onda que batia contra a madeira da Aurora, estava sendo o mais cuidadoso possível para não fazer o navio tombar com a força da correnteza que criava, ou teriam o mesmo destino da tripulação da Marinna ao naufragar. Mas aquela pressão e aperto no peito ainda permaneciam, o limite estava próximo, tinha medo do que aconteceria se ousasse ultrapassá-lo, será que morreria? Sentia que perderia todas as suas forças caso isso acontecesse, talvez realmente alguma veia estouraria em sua cabeça e ele de fato iria falecer por uma hemorragia, pois se com aquele esforço seu nariz sangrava, algo mais forte provavelmente o mataria.

Jungkook definitivamente não podia passar do limite.

Ouvia os tripulantes correndo de um lado para o outro, ouvindo também o som dos barris e objetos caindo na água, mas sempre abria os olhos ao sentir a presença do Peixe do Diabo perto demais de onde estavam, vendo-o emergir da do mar com seus enormes dentes, partindo os barris com tanta facilidade quanto Taehyung quebrou as lenhas. O Peixe do Diabo tinha uma coloração amarronzada, sua crosta parecia áspera e havia diversos espinhos espalhados por suas escamas, seus olhos eram pequenos e opacos, sua visão era certamente limitada pela falta de iluminação no fundo do mar, ou talvez fosse completamente o oposto.

A questão era que aquela criatura aterrorizando poderia simplesmente engoli-los e dilacerá-los em questão de segundos, por mais forte fosse a correnteza que criasse, no momento que ela voltasse a emergir, eles poderiam ser engolidos, pois debaixo d'água, o Peixe do Diabo estava com a vantagem. Jungkook sentiu uma forte dor de cabeça, que o fez perder a concentração e parar de criar a correnteza, fazendo Aurora parar no lugar, ele levou as mãos às têmporas, como se seu toque pudesse afugentá-lo daquela dor excruciante que o tomou de repente, mas a dor foi se desfazendo gradualmente o que o fez notar o desespero das pessoas ao seu redor.

Todos olhavam para o mar envolta deles, perguntando-se porque o navio havia parado antes de virarem em sua direção, Jungkook tentou se levantar, mas a fraqueza extrema que sentiu o fez cair de joelhos no chão de madeira. Apoiou suas mãos, sentindo o mundo girar ao seu redor, seus olhos tentavam focar em suas mãos sobre a madeira molhada, mas conseguia enxergar apenas borrões, seu corpo estava sem qualquer estabilidade, não sabia dizer se era a Aurora que estava balançando ou seu corpo que estava sendo tomado por uma tontura muito forte. Mas havia algo que estava conseguindo enxergar bem apesar de sua visão turva, o sangue pingando no assoalho do navio, uma gota atrás da outra, manchando o chão de vermelho. Ele havia chegado ao seu limite?

— Jungkook! — Ouviu a voz de Taehyung soar desesperada antes de sentir os toques dele em suas costas. — Você está bem? O que está sentindo?

— Só estou um pouco tonto — segurou-se ao capitão, tentando se estabilizar. — Posso continuar.

— Não, não pode — disse Jimin ao se aproximar e segurar seu rosto entre as mãos. — Eu estava preocupado quando vi pela primeira vez, mas você não pode forçar seu corpo dessa maneira.

— Está tudo bem, eu posso continuar — passou os dedos por seu nariz, vendo o sangue manchá-los. — Eu apenas não posso passar do meu limite.

— Olhe bem JK — Jimin disse tocando em seus ouvidos, para logo em seguida colocá-los diante de seus olhos, mostrando seus dedos também manchados com seu sangue. — Você já passou do seu limite, você está se matando lentamente.

Somente naquele momento Jungkook sentiu algo escorrendo de seus ouvidos, estava tão concentrado em manter a corrente que não notou nos danos que aquilo estava causando ao seu corpo, estava literalmente definhando toda vez que usava os poderes da runa, seu corpo não estava suportando o poder dela, mas o que poderia fazer? Ele era o único que podia salvá-los da morte naquele momento, não podia deixar aquilo lhe parar ou todos morreriam. Não tinham nenhuma chance deles sobreviverem sem que manipulasse o mar a favor deles, Aurora não tinha velocidade ou qualquer chances de se manter caso fosse pega pelos dentes do Peixe do Diabo, toda a tripulação seria destroçada junto a ela.

— Capitão, não podemos usar os canhões? — Lisa perguntou, atraindo a atenção de todos. — Podemos distrair o Peixe do Diabo até que Jungkook se recupere, as balas dos canhões vão causar um impacto maior do que os barris, podemos até mesmo mirar na criatura.

— Ótima ideia — Taehyung disse colocando seu braço esquerdo envolta do pescoço. — Façam isso imediatamente, não faz muito tempo que o Peixe do diabo voltou a afundar, não demorar muito até ele voltar.

Todos voltaram a correr de um lado para o outro, Yoongi estava limpando o canhão antes de colocar a primeira bala entregue por Hoseok, os dois posicionaram a mira um pouco mais para o alto, com a intenção de atirar para longe da Aurora. Taehyung o levou até um canto do navio e o sentou, Jungkook não sentia mais dor de cabeça, mas a sentiu latejar com o barulho do disparo, ainda estava fraco e com tonturas, por isso levantou sua cabeça, tentando respirar fundo, para tirar aquela sensação ruim de seu corpo, encostou-a na madeira, abrindo os olhos e vendo o olhar preocupado do Capitão em sua direção. Ele olhava para seu nariz e orelhas, não havia aquele olhar faminto, apenas puro receio e medo, sua situação realmente não das melhores.

— Está tão ruim assim? — Disse fechando os olhos novamente.

— Você está pálido, seus lábios estão em uma coloração mórbida, há sangue em seu nariz e ouvidos — Taehyung listou, tocando em seu rosto. — Sua pele está fria e você não consegue se manter em pé.

— Penso que está bem ruim então — riu sem humor. — Ficarei bem.

— Será que vai mesmo? — Sua pergunta fez Jungkook abrir os olhos e encará-lo de maneira confusa. — Olhe para você Jungkook, está morrendo bem na minha frente, o que acontecerá se você se esforçar demais? A runa matará você.

— Está tudo bem — tentou sorrir, mas isso não pareceu aplacar a preocupação de Taehyung. — Sinto que há um limite de até onde posso ir, eu sinto uma pressão... Se eu não ultrapassá-la ficará tudo bem.

— Pare de usá-la.

— O quê? — Jungkook o encarou com o cenho franzido, vendo apenas sua feição banhada em seriedade. Houve mais um disparo, junto ao barulho da criatura emergindo das profundezas, um pouco mais afastada do navio.

— Pare de usá-la, daremos um jeito de continuar sem ela — Taehyung se levantou, pronto para caminhar, mas Jungkook o segurou.

— Não podemos! Como passaremos pelo Peixe do Diabo sem as correntes? Ficaremos aqui a noite toda, uma hora a munição e os barris irão acabar!

— Então daremos um jeito — ele abaixou-se para poder encará-lo de frente. — Esse tesouro não vale a sua vida, Jungkook e o que eu precisar fazer para te manter a salvo, eu farei, não importa o que seja. Porque o tesouro mais precioso do Capitão Junghyun não era ouro e sim você. — Ele se levantou novamente, com um sorriso mínimo em seus lábios. — Que tipo de pirata eu seria se perdesse um tesouro tão valioso quanto esse? — Observou Taehyung se afastar e ir até os canhões, para ajudar os marujos com a artilharia.

Aquilo pode ter feito seu coração acelerar em seu peito, mas o temor era muito maior, a frase dele o assustou, protegê-lo a todo custo? Por que ele faria isso?

Observou a correria a sua volta como se fosse um filme, todos estavam dispostos a fazer de tudo para sobreviverem, estavam em uma situação completamente caótica, mas todos trabalhavam juntos para proteger-se mutualmente, aquilo fez sua mente voltar há anos atrás, quando estava com seu pai. Os tripulantes do Nevrine eram tão amistosos como os da Aurora, eram tão alegres e parceiros como eles, mas o que mais se assemelhava era o lado gentil e protetor de seus Capitães, apesar da fama e das mãos cheias de sangue, eram as pessoas mais virtuosas que já conheceu, pois apesar de tudo o que passaram, criaram um ambiente para que as pessoas se sentissem livres, em casa.

— Isso é ser um pirata pai? — Jungkook sussurrou, fechando os olhos.

Jungkook riu soprado, era aquilo que Taehyung estava tentando lhe explicar esse tempo todo? Que apesar dos corsários difamar sua imagem, os Piratas eram pessoas livres, que seguiam o rumo que queriam ser seguir ordens de monarcas injustos, amavam sem terem medo de julgamentos, sobreviviam em grupo, protegiam aqueles que amavam e iam atrás de aventuras, viviam ao máximo o tempo todo, ao contrário dele, que fugiu a vida toda. Odiava quando sabia que na realidade o Capitão estava certo mais uma vez, ele realmente queria fazer parte daquilo, sentir-se tão livre como seu pai se sentia, almejava sentir o que o mar poderia lhe oferecer, mas não podia fazer aquilo se morresse naquele dia.

Namjoon navegava com Jimin ao seu lado, seguiam as instruções da bússola e a luz do peixe abaixo deles, o vento apesar de não ser tão forte, era o suficiente para inflar as velas e fazer a Aurora se locomover, embora não tão rápida quanto estava com suas correntes. Os canhões não cessaram nem mesmo por um instante, atiraram no mar e no Peixe do Diabo sempre que ele subia para a superfície, mantendo o mais longe possível do navio, mas Jungkook sabia que aquilo não duraria muito tempo. Não soube ao certo quanto tempo esteve sentado, mas foi o suficiente para sentir força nas suas pernas novamente e o sangramento em seu nariz parar, apesar de ainda sentir-se tonto e da leve fraqueza, o que o acordou de seu torpor foram os disparos cessando permanentemente, fazendo-o focar sua atenção na tripulação novamente.

— Precisamos de mais munição! — Yoongi gritou.

— Não há mais nenhuma! — Rosé também gritou sob o convés. — Todas se foram!

— Usem os barris! — Taehyung ordenou, olhando para os lados. — Prataria, qualquer outra coisa!

— Não funcionará Capitão, os barris acabaram — Jennie disse tocando em seus ombros. — A criatura é grande demais para lidarmos com ela, apesar de termos conseguido feri-la, não causamos nada mais que arranhões. Tudo o que conseguirá serão apenas mais alguns minutos de vida usando outros objetos.

— Precisamos tentar algo! — Hoseok disse olhando para os lados a procura de algo, até seus olhos focarem em Jungkook. — JK! Não pode criar a corrente novamente?

— Não, ele não está em condições — Taehyung logo descartou a ideia.

— Posso fazer — Jungkook disse se levantando, apoiando-se na madeira, para manter sua estabilidade.

— Jungkook não! — O Capitão respondeu com a voz uma oitava mais alta, transparecendo pela primeira vez desde que o viu, raiva. — Não exija mais do que seu corpo pode suportar!

— Que opção temos Taehyung? — Jungkook perguntou, se aproximando dele. — Prometo que pararei no menor sinal de que estou ultrapassando meu limite, mas por favor, me deixe fazer isso ou todos morreremos aqui!

— Isso não dará certo... — Sua expressão de raiva se desfez em segundos, dando lugar a genuína preocupação.

— Vamos tentar, se eu não conseguir, use sua runa em mim e me paralise — segurou em sua mão, tentando lhe passar confiança com um sorriso. — Dará tudo certo, contando que eu não tenha mais que mudar o curso das ondas, criar correntes não exige tanto do meu corpo.

— Tudo bem... Mas no primeiro sinal de que seu corpo não suportará, eu paro você! — Disse arrancando um sorriso seu.

— Tudo bem — assentiu.

— Certo, mas como iremos distrair o Peixe do Diabo? — Jisoo perguntou chamando a atenção de todos novamente. — Não temos mais barris. — Todos ficaram em silêncio novamente, pensando em alguma saída.

— Sei que meu plano parecerá insano... — Lisa disse cruzando os braços. — Mas e se tentássemos cegar o Peixe do Diabo?

— Como? — Jennie perguntou.

— Não, deixe para lá — Lisa suspirou, descartando sua ideia. — Para meu plano funcionar, alguém teria que pular no mar, para mirar nos olhos da criatura. Mas isso seria suicídio.

— Certamente — Jungkook concordou, mas aquilo lhe deu uma ideia. — Mas... E se não for uma ideia tão absurda alguém pular no mar?

— O que está dizendo? — Taehyung perguntou confuso, encarando-o com o cenho franzido.

— Yoongi — Jungkook ignorou sua pergunta, encarando o mestre artilheiro da Aurora, ganhando a atenção dele. — Disse ter uma dívida comigo por salvar sua vida, certo?

— Certo — concordou com o cenho franzido.

— Hora de pagar essa dívida — disse sorrindo para ele, antes de olhar para o Capitão. — Não deixe o Taehyung me seguir.

Dito isso, Jungkook virou-se e correu, segurando-se na borda do navio antes de pular e se jogar no mar.

— JUNGKOOK! — Ouviu o grito de Taehyung antes de cair nas águas escuras da Floresta Abissal.

Assim que sentiu corpo afundar nas águas gélidas, abriu os olhos, puxando o oxigênio do mar para seus pulmões, feliz por conseguir respirar dentro dele, mas não tinha tempo a perder, por isso tentou focar sua visão na imensidão escura a sua volta, assustando-se com um movimento próximo a si, mas relaxou logo em seguida, pois agora ele entendia o porquê daquele lugar se chamar Floresta Abissal, haviam diversas algas gigantes cobrindo toda a extensão do mar, tão grandes que sequer podia enxergar o início delas. Jungkook decidiu não se distrair com aquilo, pois certamente o Peixe do Diabo sabia que estava no mar, por isso nadou para a superfície, vendo Taehyung e todos os tripulantes na borda do navio, observando-o.

— O que está fazendo?! — Taehyung perguntou de maneira aflita. — Alguém jogue uma corda para ele!

— Não — Jungkook respondeu sorrindo. — Eu não voltarei para o navio, não ainda.

— O que está planejando fazer? — Lisa perguntou, com a mesma face preocupada de Taehyung.

— Irei distrair o Peixe do Diabo até vocês conseguirem sair — disse de maneira simples, levando sua atenção para a luz que nadava próximo a seu corpo, ele era praticamente do seu tamanho, mas estava ignorando-o. — Alcanço vocês assim que eu puder.

— Jungkook, você morrerá! — Taehyung disse de maneira exasperada. — Por favor, suba para o barco e vamos pensar em outra saída.

— Não há outra saída, por isso tenho um pedido a fazer — respirou fundo, tentando não deixar o choro lhe tomar. — Se eu conseguir, quero que me mostre como é ser um verdadeiro pirata.

— Jungkook... — Ele parecia implorar para que mudasse de ideia.

— Mas se eu não conseguir — o interrompeu. — Estarei indo buscar este significado com o meu pai, por isso, faça bom uso do que deixamos para trás.

Antes que Taehyung pudesse lhe responder, Jungkook estendeu a mão e forçou o poder através de seu corpo novamente, criando a corrente que estava movimentando a Aurora, arrastando-a para longe na mesma velocidade que antes, mas ao contrário de como havia feito da primeira vez, usou um pouco mais de força, para que os levassem o mais rápido possível para longe dali. Os efeitos colaterais foram imediatos, o sangue em seu nariz escorreu com mais vigor, o que o fez se apressar, então mergulhou e nadou até estar alguns metros longe da superfície, fechou os olhos e concentrou-se, pois além de manter a corrente constante, precisava forcar-se em localizar o Peixe do Diabo.

Sentiu a movimentação da criatura não muito longe de si, se aproximando cada vez mais, por isso preparou-se para dar o seu melhor para ganhar tempo, como haviam conseguido avançar bastante durante a primeira corrente e por conta do vento, tinha certeza que eles conseguiriam sair da Floresta Abissal sem muito esforço. Precisava agora garantir que conseguiria alcançá-los quando conseguisse ganhar tempo, mas o que estava lhe preocupando era seu corpo, tinha medo de não suportar a pressão, tinha medo de seu limite estar mais próximo do que imaginava e morrer ali. Mas ao menos iria garantir que a Aurora e seus tripulantes chegassem em segurança à ilha do tormento.

Quando sentiu a aproximação ficar perigosamente perto dele, Jungkook abriu os olhos, vendo a criatura a alguns metros dele, tomando forma bem a sua frente, fazendo o medo adentrar cada fibra do seu corpo. Estendeu as mãos e usou as algas a seu favor, fazendo com que elas se enrolassem em volta da criatura, prendendo-a no lugar, usou pequenas correntes de água para que a vegetação aquática seguisse os movimentos que desejava. A criatura ficou presa por poucos minutos, mas logo soltou-se, por isso criou outra corrente, já que não estava tendo muitas ideias de como pará-lo. Apesar de a correnteza tê-lo deixado mais lento, não impediu que ele avançasse um pouco mais em sua direção.

Pare com isso...

Normalmente Jungkook daria ouvidos a ela, porém ele não podia, precisava ganhar um pouco mais de tempo, só teria que aguentar um pouco mais e poderia fugir, por isso continuou, o Peixe do Diabo estava sendo persistente, tentando nadar contra a correnteza e por conta de suas imensas nadadeiras não seriam difícil para ele conseguir superá-las. Por sentia a correnteza que criou para Aurora a uma boa distância, por isso estava na hora de seu plano de fuga, iria tentar prender o Peixe do Diabo no máximo de algas que conseguisse e criaria uma corrente para si mesmo, para levá-lo o mais longe possível da Floresta Abissal, por conta de seu tamanho e peso, tinha certeza que não seria tão difícil, por isso respirou fundo.

Não faça isso... Por favor...

— Desculpe, mas não tenho muitas opções.

Sabia que aquilo iria drenar muita de sua energia, mas torcia para que restasse um pouco, apenas para ele fugir, estava se preparando para criar a corrente novamente quando uma dor excruciante tomou sua cabeça novamente, dessa vez com mais intensidade que das outras vezes, fazendo-o fechar os olhos e se encolher. Ao abrir os olhos novamente sua visão estava turva, embora estivesse muito escuro, nem sequer conseguia identificar as algas a alguns centímetros de seu corpo, mas a densidade do corpo do Peixe do Diabo e seu tamanho deixava muita clara sua localização no mar, pois assim como as aranhas, o mar também era sua teia. Mas mesmo tentando ignorar seu corpo colapsando, não tinha forças para criar outra corrente.

Tentou forçar mais, porém tudo o que conseguiu foi cuspir o sangue que entalou em sua garganta e suas forças serem completamente drenadas de seu corpo, fazendo-o afundar gradualmente.

— Então assim será minha morte, não é? — Disse sentindo o medo o engolir, com o sangue mesclando a água do oceano.

Jungkook fechou os olhos, sentindo o Peixe do Diabo a apenas alguns metros de seu corpo, sabia que seria engolido e provavelmente dilacerado, por isso mesmo que não pudesse fosse como na superfície, chorou, fazendo o mar levar suas lágrimas embora, com o sangue de seu nariz, ouvidos e de sua boca, mas ao menos morreu protegendo diversas pessoas, uma morte digna e honrosa. Porém, a morte não veio e sim um aperto forte e quente, contrastando com mar frio, foi acolhido por alguém de repente, fazendo-o abrir os olhos de maneira assustada e levantar a cabeça, vendo Taehyung abraçá-lo com força contra o peito.

— Taehy... — Calou-se quando viu seus olhos, focados em algo atrás dele.

Jungkook virou seu pescoço para trás de maneira aflita, sentindo a presença do Peixe do Diabo extremamente próxima e assustou-se quando o viu, a menos de um metro e meio dos dois, encarando-os de maneira fixa. Seu coração saltou em seu peito, sentindo o pavor de ter diante de seus olhos uma criatura do tamanho de uma catedral, que poderia engoli-los com tanta facilidade que estranhou o porquê dela não estar fazendo isso. Mas entendeu assim que viu a runa de Taehyung brilhar presa ao colar em seu peito, por isso mesmo que estivesse com medo de desviar seu olhar, precisava saber o que havia parado uma criatura daquele tamanho.

Quando seus olhos encontraram os do capitão seu medo triplicou, pois o encontrou foi suas pupilas devorando suas escleras, deixando seus olhos completamente pretos, ao ver aquilo entendeu o porquê do Peixe do Diabo ter paralisado, Taehyung estava amedrontando-o com o poder que sua runa lhe deu. Nunca em sua vida havia sentido um medo paralisante como aquele, algo visceral que parecia queimá-lo de dentro para fora, gritaria se não estivesse paralisado, incapaz de sequer se mover, mas não precisou, pois Taehyung cobriu seus olhos, fazendo o medo que sentia se desfazer lentamente.

Queria saber o que aconteceria a seguir, porém, estava fraco demais para manter-se consciente.

(...)

— Hobi vá no meu baú e pegue um extrato de Calêndula, panos e água quente — a voz de Jimin foi a primeira coisa que ouviu ao despertar. — Rápido!

— O que eu faço? — Taehyung perguntou, sua voz parecia um pouco mais grossa que o normal.

— Aqueça-se e mantenha-se calmo, é tudo o que pode fazer agora — Jimin respondeu. Sentiu algo em seu peito e um silêncio momentâneo. — Os batimentos dele estão normais. — Sentiu seus dedos tocarem em seus pulsos e o silêncio novamente. — A pulsação dele está normal também.

— Então o que ele tem? Por que não acorda? — Ele parecia aflito, o suficiente para Jungkook notar somente pela sua voz.

— Fraqueza e uma leve hipotermia — sentiu algo o cobrir e somente assim notou que seus lábios tremiam de frio. — Ele está bem, apenas muito fraco e frio, ele exigiu muito de seu corpo lá embaixo, mas se descansar e se aquecer ele estará bem em breve, então relaxe Tae.

— Não tem como Jimin — suspirou. — Não tem ideia de como eu o encontrei lá embaixo, ele estava pálido e sangrando por todo lugar, se não tivesse aberto os olhos ao sentir meu aperto em seu corpo, eu diria que estava morto!

— Mas ele não está, então se acalme — ouviu os passos de Jimin se afastando de seu corpo. — Você o salvou, assim como ele salvou a gente, tente se acalmar e não ficar pensando no que poderia ter acontecido, pare de se torturar.

— Eu só... Droga eu não sei explicar o que eu senti ao vê-lo daquela forma.

— Eu sei, você sentiu-se desesperado, seu coração pareceu querer pular para fora de seu peito e não importava o perigo, seu instinto foi correr para protegê-lo, sem ligar para sua própria segurança — um silêncio tomou o lugar por alguns segundos. — Estou certo?

— Está... Como sabe disso?

— Foi o que eu senti no Atol das Orcas, quando Benjamin nos emboscou e o Nam foi apunhalado — novamente um silêncio gritante tomou o lugar. — Você gosta dele Tae, mais do que pensa, você reagiu como eu quando percebeu que ele poderia morrer, simplesmente se jogou de cabeça no perigo, sem ligar para as consequências.

— Sinto que estou perdendo a cabeça, nunca fui tão imprudente a ponto de deixar minha tripulação para trás.

— Ninguém te culpa por isso Tae, é o que fazemos quando nos apaixonamos, ficamos completamente cegos, tudo o que existe e importa é aquela pessoa.

— Ai que droga... Eu me apaixonei por ele não é?

~🖤~

É o amoooooorrrrr que mexe com a minha cabeça e me deixa assiiiiim.

A próxima é a última provação, estamos chegando ao final hein, vocês terão uma grande surpresa.

Espero que vocês gostem e se surpreendam! :)

Tag da fic no twitter:
#dentesdodiabo

Curiosidades interessantes:

Um Tubarão Branco tem até 3.000 dentes triangulares, serrilhados e muito afiados, com 7,5 centímetros, inseridos nas maxilas em fileiras um pouco inclinadas para dentro.

Esse conjunto pode exercer a força de três toneladas por centímetro quadrado numa mordida....

Fonte: www.bol.uol.com.br

O peixe-diabo (Melanocetus spp.) é um animal que vive em condições extremas. É encontrado nas regiões mais profundas dos oceanos, as chamadas regiões abissais. Ele ficou conhecido por ter aparecido no filme "Procurando Nemo", no qual persegue os protagonistas com seus enormes dentes.

As fêmeas desse animal são maiores e têm, em média, 18 cm, enquanto os machos apresentam, em média, apenas 3 cm em sua forma adulta. Devido a esse imenso dimorfismo sexual e pela escassez de alimento nas profundezas, os machos, quando encontram uma fêmea, mordem suas 'barrigas' e passam a viver como parasitos (extraindo os nutrientes que necessitam), estratégia evolutiva para a reprodução da espécie.

Outro fato interessante sobre o peixe-diabo está na estratégia que ele desenvolveu para capturar suas presas! Em sua cabeça possui uma antena que produz bioluminescência, atraindo, assim, as presas para suas mandíbulas assustadoras.

Fonte: www.bioicos.org.br

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