Upside Down - Capítulo Único
— Olha o que você fez, seu idiota! Cérebro de gaivota...
— Você que rasgou, você que puxou! Você que rasgou, você que puxou!
Félix estava perplexo por, pela primeira vez em todos os seus dezoito anos de vida, não ter controlado a sua língua. Por isso, o garoto amoleceu a mão que segurava a metade do mapa, sem reação.
— Me dá isso — Helena puxou o papel, indignada. A outra metade havia ficado na sua mão, meio amassada. — Tenho compromisso.
Helena estava tão concentrada em juntar as duas metades do mapa ao mesmo tempo que segurava a sua lanterna para enxergar o que talvez estivesse escrito que não notou o que, claramente, estava acontecendo com os dois.
— Você não percebeu? — perguntou Félix.
— O quê?
— Você não percebeu?
— Vai procurar o que fazer.
Félix revirou os olhos. No meio daquela floresta, de madrugada, com o mapa rasgado, Diana e Pablo nas mãos de uma bruxa... Aquilo era só o que faltava.
— Acho que a DigueWigguie fez isso com a gente.
— Eu estou impaciente, seu ridículo adolescente.
— Acho que a DigueWigguie fez isso com a gente.
— Para de repetir! Falei que estou impaciente aqui...
Helena retirou-se da presença de Félix, para sentar-se em uma pedra áspera e desconfortável, ali pertinho. Félix não mexeu nada além dos olhos, que seguiram curiosamente Helena até onde ela se encaminhava.
Antes de pararem ali, naquele meio do nada, os dois haviam sido cuspidos caverna afora, pela intrigante bruxa DigueWigguie. Ela capturara o melhor amigo e a prima de Helena, o que a deixou bastante irritada. E Félix, mesmo que sem querer, não ajudava.
Na escola, ele se passava por popular, porque, realmente, chamava muita atenção com a combinação das suas madeixas douradas e seus olhos castanhos, além da algazarra que fazia nos arredores. O fato de ter repetido o primeiro ano do ensino médio já dizia muita coisa.
Aliás, era por isso que estava na mesma turma que Helena, mesmo que fosse um ano mais velho.
Félix nunca foi o melhor exemplo de amigo, ou mesmo de pessoa. Em relação a Pablo, Félix poderia se passar por aceitável, já que aquele o ajudou muito quando precisou. Desde então o loiro cultivava, a seu modo, a amizade com o cacheado.
Mas, com relação a Helena, a história era outra. Félix, como não queria nada com a vida (pai rico, sabe como é...), importunava como podia a melhor amiga do seu amigo. Helena, exato. Ela estudava muito, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos da sua vida. Sempre foi assim. E, como também não tinha muitos amigos além de Pablo, Félix viu ali um prato cheio para colocar a sua melhor habilidade em ação. Irritar.
Com isso, você já deve imaginar o resto. Importunação, risadas, brincadeiras que só são brincadeiras na cabeça do Félix e toda essa baboseira. Então já podemos calcular o quanto Helena não gostava do loiro ridículo.
Quando caíram na floresta, agora há pouco, jogados pela DigueWigguie, um mapa brotou na mão de Helena. Félix ficou curioso e tentou ver também, já que estava escuro (noite, sabe como é...). Helena não deixou, já que se concentrava em enxergar o que estava escrito, e assim se desenrolou. Os dois fizeram do papel um cabo de guerra e agora Helena estava sentada em um canto tentando descobrir o que as duas metades, juntas, queriam dizer.
— O que está escrito aí? — Félix tomou a ousada iniciativa de se aproximar. — O que está escrito aí?
Helena controlou a respiração enquanto lutava para conciliar seus movimentos. Em uma das mãos, repousava rígida a primeira metade do tal mapa. Na outra mão, a segunda metade. Na boca, a lanterna acesa, oscilante.
— Não é melhor colocar no chão? — O loiro inclinou-se, quase de ponta cabeça, para olhar Helena de baixo para cima. — Não é melhor colocar no chão?
— Será que dá... — Helena empilhou os dois papéis em uma mão e tirou a lanterna da boca. Seus dentes cerraram-se. — Pra sua boca calar?
Félix sorriu discretamente, arregalou os olhos e levantou as mãos. Helena jogou as metades do mapa no chão e sentou-se ao lado delas. Félix fez o mesmo.
— Você ouviu o que eu disse?
— Não ouço coisas inúteis.
— Você ouviu o que eu disse?
— Já falei que não fúteis!
O loiro esticou os lábios em um sorriso triunfal e se arrastou para frente de Helena, o que fez com que o mapa, que ela examinava com tanta minúcia, ficasse invertido para ele.
— Você realmente não percebeu ainda? — Félix franziu as sobrancelhas. — Você realmente não percebeu ainda?
Helena se conteve para não avançar no pescoço daquele garoto petulante. Ela estava concentrada em recuperar Pablo e Diana, decifrar a porcaria daquele mapa e ainda tentar descobrir o que o enigma de DigueWigguie significava. Não poderia lidar com Félix.
Antes que ela dissesse algo, porém, o loiro se apressou.
— Calma, calma. Não vê? Não vê? Eu estou repetindo tudo que falo e você está rimando, Helena. Eu estou repetindo tudo que falo e você está rimando, Helena.
— Tenho certeza de que você está me irritando porque quer. E eu não estou rimando, que ideia essa é!
Um ruído entre as folhas interrompeu a ira de Helena. Ela e Félix imediatamente olharam assustados para onde achavam que o barulho vinha. A garota apenas levantou o queixo e o garoto virou o pescoço para olhar por cima do seu ombro, atrás de si. O som tinha que vir dali.
— O que foi isso? O que foi isso?
— Não sei... Mas atenção não chamei. O outro lado do muro Pots ninguém conhece... Nem o que acontece.
E, ainda por cima, de noite. Os dois não conseguiam enxergar nada além de uma silhueta escura, atrás de um arbusto. O pior, pensava Helena, era que aquela coisa estava a um metro deles. Nas costas de Helena, pesava a grande pedra onde, há segundos, estivera sentada.
Estavam encurralados.
A silhueta, outrora quase imperceptível, agora tomou forma e tamanho. Muito tamanho. Ela cresceu, cresceu e cresceu. E, como Helena e Félix estavam sentados no chão, aquela coisa parecia muito maior.
Protegido pela escuridão, o vulto assustador ficou ali mesmo, parado. Ele parecia ter cabelo liso, curto, e dois braços. Nada mais do que isso Helena podia discernir. Claro, além dos incríveis dois metros que aquilo alcançava.
— Problemas? — perguntou a figura. Era uma voz feminina grave. — Nem tudo é o que parece. Invertam, criem, imaginem. E então a resposta virá. Oçram. Seõlab.
Ditas tais palavras, a sombra esguia simplesmente se desfez em uma cortina de fumaça.
Paralisados, Félix e Helena ainda estavam no chão, com um susto petrificado e fixo nos rostos. Nenhum dos dois entendia o que ali havia se passado.
— Que troço foi aquele? — soltou Félix em um fiapo. — Que troço foi aquele?
— Não faço a menor ideia. Nós somos só plateia.
Helena balançou a cabeça, como que acordando, e voltou a olhar o mapa.
— O... quê? — Ela levantou o, agora, único papel, com a ponta do indicador e do polegar, como se estivesse contaminado. O mapa havia consertado-se magicamente. — Você vê?
— Uma metade se colou na outra... do nada! Que barato! Uma metade se colou na outra... do nada! Que barato!
A garota pegou a lanterna às pressas e tornou a ligá-la. No susto anterior, não conseguira mirá-la à estranha criatura que os abordou.
— O que era aquilo que aquilo falou...? — Félix aproximou o rosto da lanterna, colada no mapa. — O que era aquilo que aquilo falou...?
— Está aqui, está ali. Existem palavras no mapa, que dizem cada etapa. Aqui estão as palavras estranhas... mais emaranhadas que teias de aranhas...
Helena apontou para um canto específico do papel, onde repousavam aquelas esquisitas palavras que o ser afeminado dissera. Ainda bem, pensou ela, que estavam escritas. Porque Helena não conseguiria, com a sua mera capacidade humana, transformar aqueles sons em palavras.
— Oçram... Seõlab — Félix torceu a língua para dizer. — Oçram... Seõlab.
— Será que ela nunca foi pra escola na vida? A escrita não está na medida.
— Ela não disse alguma coisa sobre criar, imaginar, que nem tudo é o que parece? Ela não disse alguma coisa sobre criar, imaginar, que nem tudo é o que parece?
Helena se pôs a pensar. Não era possível que aquelas duas palavras existissem.
Ela não queria que Félix tivesse razão, então não mais falou por um tempo. Alguma coisa esquisita acontecia com a sua boca quando falava e, coincidentemente, a segunda parte do que dizia rimava com a primeira.
Portanto, para não falar, pensou. Oçram e seõlab. De acordo com os conselhos não tão bem aconselhados da misteriosa entidade atrás do arbusto, eles precisavam... criar, imaginar. Tinha outra coisa, mas o que era mesmo?
Nem tudo era o que parecia, nem tudo era o que parecia... e ela pedira para inverter? Era isso?
Com essa sugestão em mente, Helena afastou o olhar curioso de Félix de cima do mapa. Ela colocou a mochila no seu colo, em silêncio, e tirou do bolso lateral uma caneta.
A garota se inclinou ao mapa, prestando atenção às misteriosas e, aparentemente, desconhecidas palavras. Helena escreveu algo na beirada do papel e, ao final, sorriu satisfeita.
— Março. Balões — a garota se deliciou em suas palavras. Ela não queria falar mais nada, mas, mesmo assim, sua boca tomou vida: — Essas são as traduções.
Ótimo. A segunda parte do que dizia, além de rimar com a primeira, não era controlada pela vontade de Helena. Tampouco o seu conteúdo. Nada poderia deixá-la mais irritada do que o fato de Félix ter razão em alguma coisa.
— Uau, boa, Helena! Uau, boa, Helena! — aplaudiu ele. — E agora? E agora?
— Agora... — ela não fazia ideia de como responder. Ao olhar para frente, porém, obteve um palpite. — Levanta, está na hora.
— Hora de quê? Hora de quê?
Helena enrolou o mapa para segurá-lo em uma mão, ajeitou a mochila nas costas e empunhou a lanterna. Ao apontar para frente, era possível ver uma mancha de cores diversas, além de algumas árvores.
A dupla se apressou até ali, com Helena abrindo caminho. Aquele arco-íris se fazia mais claro e nítido à medida que os adolescentes se aproximavam e, ainda mais, com a ajuda da lanterna de Helena.
Ao chegarem perto o suficiente, os dois constataram que aquele mar de cores eram balões presos cada um em uma corda, que por suas vezes estavam amarradas em uma considerável pedra no chão.
— É o seu aniversário? É o seu aniversário?
Helena negou com a cabeça. Não queria mais rimar. Ela supunha que o descontrole das coisas que ela própria falava poderia ser consertado se seguisse as regras daquele mundo. DigueWigguie havia mandado seguir o mapa. Era isso que Helena faria.
Com a lanterna ainda apontada aos balões, ela esticou a mão livre para tocá-los. Quanto mais seus olhos e os dois graus de lentes dos seus óculos se aproximavam, mais evidentes aquelas letrinhas nos balões ficavam.
"Oçram".
Helena franziu a testa. Como aquilo poderia fazer algum sentido?
— Março o que você disse, não? Mas não estamos em março... Estamos em fevereiro — refletiu Félix. Helena tentou tapar os ouvidos para não ter que ouvir tudo aquilo de novo. — Março o que você disse, não? Mas não estamos em março... Estamos em fevereiro.
— É o que você pensa — retumbou novamente aquela misteriosa voz. Era a mesma criatura de anteriormente. Agora, por outro lado, os adolescentes não sabiam de onde ela vinha. O fato de Helena a procurar, girando em círculos, a fez sentir totalmente ridícula. — Nosso mundo, nossas regras. Do outro lado do muro, é fevereiro. Aqui já é março.
— Mas quando chegamos aqui era fevereiro! — Félix tentou revidar, a plenos pulmões. Isso disfarçava bem o medo. — Mas quando chegamos aqui era fevereiro!
— E o que impede de já ter passado-se um mês? — rebateu a voz, vinda ainda não se sabia de onde. Helena achava que aquilo emanava de todos os lugares. — O tempo é relativo, ainda mais quando se está na ÉfePê. Parabéns por terem encontrado os balões. E, lembrem-se, vocês possuem apenas até o pôr do sol de antes de ontem.
Mesmo sem entender uma única palavra do que aquela coisa dizia, Helena enrijeceu-se. Não fazia sentido ela e Félix estarem naquela mata fechada por três dezenas de dias, haviam acabado de passar pelo muro! Com certeza não fazia mais de uma hora. Imagina um mês!
— Pôr do sol de antes de ontem? Eu acho que essa pessoa fumou uns bocados — comentou Félix. — Pôr do sol de antes de ontem? Eu acho que essa pessoa fumou uns bocados.
Imediatamente após o garoto ter dito isso, um dos balões se desprendeu dos outros e passou a voar na altura da cabeça de Helena. Ela, no susto, mirou a sua lanterna nele.
Como se vivo, o balão verde bateu duas vezes no nariz dela, o que arrancou boas gargalhadas de Félix. Helena se recompôs rápido e olhou interessada para aquele balão atrevido.
— Sigam-me.
E então, ele simplesmente se virou e flutuou para a direção oposta. Helena e Félix trocaram olhares confusos mas, por fim, resolveram obedecer.
— Sabe que a gente tá seguindo um balão, né? — cochichou ele, mas a garota estava perdida em outros pensamentos. — Sabe que a gente tá seguindo um balão, né?
— Você tem uma ideia melhor? — Helena nem olhou para ele. — Uma que nos tire dessa pior?
Félix ficou calado. Ele não tinha uma ideia melhor. Helena continuou apontando a lanterna para aquele curioso balão falante, seguindo-o no modo automático. Sua mente vagueava nas palavras daquela entidade misteriosa.
Ela dissera que havia passado-se um mês... Mas como era possível? E, se fosse verdade, como estariam os seus pais, àquela altura do campeonato? Com certeza já deviam ter vasculhado o mundo inteiro à procura de Helena e de sua prima. E o pior era que nem sabia quanto tempo mais precisaria ficar na Floresta Proibida. Droga, como sairia dessa situação?
— Aonde estamos indo? — perguntou ela, finalmente. Aquela dúvida a estava deixando maluca. — E por que estamos te seguindo?
— Perguntas você não deve fazer, criança — ele não se virou para falar. — Quantas vezes já confiou no Félix de olhos fechados?
— Nenhuma, na verdade — ela o fitou com estranheza. Sinceridade sempre foi uma característica própria de Helena, mas Félix, lá no fundo, mesmo sabendo que sem razão nenhuma, sentiu-se magoado. — Nem temos amizade.
Aí, sim, uma pontada no coração. Félix sabia que na escola era insuportável com Helena, que a chateava, às vezes até a constrangia... Mas ouvir aquilo foi, por algum motivo, um golpe.
O balão riu.
— Às vezes o essencial é invisível aos olhos.
"Mesmo quando se tem quatro", pensou Félix, ressentido.
— E o que isso quer dizer? — perguntou Helena. O garoto ao seu lado não mais olhava o balão, e sim o chão verde à sua frente. A garota não achou estranho. — Atenção temos que ter?
— No tempo certo você saberá. Por enquanto, o que deve ter em mente é que o mundo é uma esfera. Se você correr à procura de qualquer coisa, ficará parada no mesmo lugar, movimentando a esfera, não você. E, no final, ainda vai perceber que o que procurava estava exatamente ao seu lado o tempo inteiro.
Helena não entendeu aquilo, tampouco Félix. Mas os dois guardaram as palavras no coração.
Mas como terminar um conto? Pergunta difícil. Helena responderia algo muito inteligente, claro, mas eu não sou ela nem de longe. Portanto, com a minha limitada capacidade, eu digo:
Olhe ao redor. O essencial é invisível aos olhos. Mesmo que você tenha quatro.
***
[2673 palavras]
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