Um Filme Incomum - Capítulo Único

1° lugar no tema Autismo e Realização!

*****

— Vem, o filme vai começar!

Daniela puxou a mão do amigo Heitor em direção à sala do cinema, já com as portas abertas. Ele se viu em desespero quando as pipocas começaram a saltar mais do que saltaram dentro da panela onde estouraram. Por sorte, Heitor conseguiu fazer com que nenhuma caísse direto ao chão.

— Qual é a fileira mesmo...? — perguntou Daniela, já dentro da sala escura. A garota se inclinou no braço ocupado do amigo, para tentar enxergar os números e as letras naquele papel minúsculo. — Fileira sete... cadeiras treze e quatorze. Vamos, eu gosto de ver os videozinhos que passam antes.

E então ela disparou escada acima, sendo guiada pelas luzes de led no piso aveludado. Ela não fazia barulho ao subir, mais parecia um ratinho apressado fugindo da enchente. Heitor, deixado para trás, deu uma ajeitada nos óculos de grau e seguiu a amiga.

Ela estava vidrada no telão quando ele conseguiu alcançá-la, de lado para conseguir passar entre as fileiras. Daniela puxou seu braço para que ele se sentasse, o que quase acabou em uma tragédia.

— Por sorte você não me deve uma pipoca — sussurrou ele.

Como resposta, Daniela tomou o balde da sua mão, ainda sem olhá-lo.

— Faz silêncio.

Heitor revirou os olhos em tom de brincadeira e os dois assistiram aos exatos quatro minutos finais dos trailers que antecediam o filme.

Daniela permitiu que Heitor levantasse o braço metálico que separava as duas cadeiras e pôs o pote de pipoca entre eles.

Os primeiros quinze minutos do início da trama, quando Daniela estava começando a entender do que exatamente o filme se tratava, passaram rápido. Ela estava envolvida pela história por completo.

— Vou ao banheiro, Dani — Heitor avisou com um leve aperto ao ombro de Daniela. — Já volto.

Heitor desceu as escadas com calma, mas Daniela mal prestou atenção. Ela queria saber do filme e do tanto de pipoca que comeria sem ter que disputar com ninguém.

Alguns barulhos estranhos começaram a fisgar a sua atenção, como perfeitos ruídos à comunicação Daniela-filme, filme-Daniela. Eram claramente zumbidos produzidos por uma criança e estavam vindo da fileira atrás dela. O garotinho era um exímio imitador de aviões.

Daniela chegou a virar a cabeça para dar uma espiada e era, sem dúvida, um menino grandinho. Deveria ter por volta dos sete ou oito anos, estava escuro. Daniela não conseguia ver direito o seu rosto. Sua mãe fazia chiados discretos para tentar convencê-lo a fazer silêncio.

Daniela resolveu ignorar, por hora. O garotinho parou de fazer barulho e ela conseguiu se concentrar no filme por mais de cinco minutos.

Não poderia durar mais tanto. De repente, um chute acertou as costas da sua cadeira, mas era muita audácia. Como fora leve, Daniela mal percebeu e continuou coberta pelos diálogos que se desenvolviam logo à sua frente.

Não deu trinta segundos.

O segundo chute pode até ter sido mais fraco do que o primeiro, mas Daniela o percebeu e franziu a testa. Aposto que foi sem querer, pensou ela. Daniela não queria prestar atenção a outra coisa que não o filme e Heitor roubando as maiores mãos de pipoca quando voltasse.

Ela ignorou o terceiro e quarto chutes que vieram em seguida. A cabeça de Daniela já estava esquentando, mas parte dela queria acreditar que a pessoa mal-educada na fileira de trás tomaria juízo.

No quinto pontapé, Daniela sentiu seus neurônios entrarem em ebulição. Mas é muita ousadia, ponderou ela. A garota precisou se segurar para não avançar no pescoço daquela criatura. Na próxima, ela prometeu, tiraria satisfações.

Até que os chutes pararam e ela pôde se reenvolver na história do filme, que não poderia ser melhor. Ela adorava filmes de animação e aquele com certeza estava se tornando um dos seus favoritos.

Mas algo despencou a sua alegria. O sexto empurrão foi forte, bem mais do que os outros. Daniela quase foi cuspida para a fileira de baixo.

O sangue ferveu no seu cérebro, não poderia deixar isso passar em branco.

Ela resolveu tomar uma atitude.

Daniela se virou para trás, olhando pela fresta entre a sua cadeira e a vazia, à direita. Ela podia ver claramente o garoto de outrora sentado no chão, com as duas pernas dobradas. Provavelmente preparado para um potencial chute duplo. Ele mal cabia sentado no corredor, se espremia para ajeitar o seu mais novo ataque.

— Você pode parar de me chutar, por favor? — o tom irônico subiu à sua cabeça. Daniela não podia acreditar naquilo. A vontade de devolver todos os chutes que levara daquela criança era enorme. — Já tá grandinho, né?

O que ela não esperava era que a mãe do garoto intervisse, com as mãos nos ombros dele. Seu tom era calmo, sereno e quase envergonhado.

— Desculpe... Meu filho tem autismo... Vamos mudar de lugar.

De repente um arrependimento amargo subiu pela cabeça de Daniela. Ela percebeu tarde o que acabara de fazer e até pensou em pedir que não, não mudem de lugar... Mas o seu congelamento era maior e a garota não conseguiu ter reação alguma.

A mulher mudou de lugar com o filho, na fileira de trás. Daniela voltou a olhar o telão, mas a sua vontade de manter a comunicação com o filme era simplesmente... nula. Ela se sentia a pior pessoa do mundo.

Seu coração começou a doer e Daniela se sentiu muito mal pelo que disse. Talvez teria sido melhor ter falado com a mãe do garoto, não com o garoto em si... Talvez deveria cogitar o fato de ele ser autista ou tivesse algum impedimento de entender as palavras... Afinal a mãe dele estava pedindo que parasse de fazer barulho e chutar a cadeira da frente.

Daniela nunca teve tanta vontade de voltar no tempo. Nunca sentiu tanta falta da sua tão companheira polidez.

Com um suspiro, ela só quis sumir. Daniela se encolheu no banco, quase conseguindo. Preciso pedir desculpas, ela pensou. O garotinho é autista, eu sou tão idiota...

Daniela não conseguiu mais se concentrar no filme e viu seu amigo Heitor subindo as escadas de volta. Foi então que ela percebeu que teria que tomar outra atitude agora. Porém, naquele momento, ela acertaria.

Daniela se levantou antes que Heitor chegasse à sua fileira e se espremeu para passar pelas pessoas. Ela subiu um degrau no corredor e entrou na fileira de cima, onde a mãe e o filho estavam. Era a mesma fileira de antes, mas eles estavam mais no canto. Daniela se sentiu mal por proporcionar aquele sentimento de solidão e exclusão a quem já deveria passar muito por isso.

Mãe e filho a viram se aproximar e não entenderam. A mulher, de cabelo ondulado castanho-claro e olhos verdes, não mostrava nada além da pura serenidade. Era uma mãe muito bonita, Daniela precisou admitir.

O menino, talvez um pouco acima do peso, inclinou a cabeça ao vê-la. Ele não havia compreendido muito bem que Daniela o repreendera, então sorriu. Ele tinha o cabelo bem liso, bem escuro. Seus olhos eram grandes, densos e penetrantes. Daniela não acreditou que poderia ter brigado com aquela fofura.

Ela se sentou ao lado da mulher e a abraçou, deixando o discurso que ensaiara de lado. As duas ficaram assim por vários minutos, enquanto Heitor, uma fileira abaixo, pensava que Daniela havia ido ao banheiro também.

Ela não conseguia pronunciar nenhuma palavra, apenas sentiu silenciosas lágrimas rolarem pelo seu rosto até o queixo, colado no ombro da mãe do garoto. A criança deu duas batidinhas na perna de Daniela e se ajoelhou na cadeira vazia ao lado. Ele se debruçou nas costas da garota em um gesto de carinho, enquanto ela permanecia abraçada à mãe do menino.

— Está tudo bem... — sussurrou a linda mulher de olhos verdes. — Está tudo bem.

Daniela deixou que o garoto a abraçasse de frente e enxugou duas lágrimas com o dorso da mão esquerda.

— Desculpa, garotinho... Desculpa mesmo.

— Da... Davi — ele enrolou a língua. — Davi.

Daniela sorriu.

— Desculpa, Davi.

Ela se levantou em seguida e se preparou para voltar à sua fileira. Seu coração nunca estivera tão leve e cheio de empatia antes. Mesmo que tivesse feito besteira ao julgar aquele menininho... conseguira consertar seu vacilo.

O sentimento que pairava no seu coração era a pura e singela realização. Seu dia estava realizado.

Daniela ainda pedia licença às pessoas na sua fileira, voltando ao seu lugar ao lado de Heitor. Ele estava vidrado no filme, alheio à toda a experiência que a sua amiga acabara de vivenciar.

— Você viu... aquilo? — cochichou ele, espantado com o telão. Àquela altura, o balde de pipoca estava no seu colo, batendo no queixo. — Não acredito que ele conseguiu roubar a lua mesmo...

Daniela se sentou ao seu lado e confiscou o pote de pipoca, já quase no fim.

— A lua eu não sei... — ela balbuciou para si mesma. — Mas o meu coração foi roubado por aquele garotinho.

***

[1504 palavras]

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