Eclipse Peculiar - Capítulo Único

     — Chama a Tosse, vem pra cá! Chama a Tosse, vem pra cá!

     Helena revirou os olhos, já não aguentava mais aquele maldito feitiço. Félix corria desesperado entre as árvores até uma clareira, ali perto. Por sorte não deixou nenhum braço para trás no caminho tortuoso.

     — Bom... vamos? Tenho certeza de que perto estamos.

     — Uai... Chuto que cê pegou o trem do feitiço tamém.

     Sem estranhar o sotaque de Tosse, Helena balançou a cabeça na vertical. Ela amava ler poemas, mas nunca tinha imaginado que toda a frase que falasse rimasse. Opa, olha só, até eu.

     — Sá DigueWigguie é má dimaidaconta memo, eu conhecela — a senhorita Tosse tentou descontrair, com um empurrar de ombros amistoso. Elas tinham acabado de se conhecer e Helena já era arisca por natureza, então não foi tão fácil ceder à simpatia de Epaminondas Tosse. — Qué brux fazocê rimá todos trem que ocê dissé, é assim o negócio? Mánum tem base um trem desse.

     — Exatamente, eu odeio aquela demente.

     Helena arregalou os olhos atrás dos óculos quando terminou de falar. Ela não controlava a segunda parte do que dizia, a sua boca e o feitiço decidiam qual rima sairia. Por isso Helena se assustou com o que falou. Droga, eu não sabia que era contagioso.

     — Não, não foi isso que eu quis dizer, você tem que entender... A palavra que rima eu não controlo, às vezes se encaixa e outras eu me enrolo...

     A senhorita Tosse, que deveria ter um ano a mais que Helena, riu com espontaneidade.

     — Cêbesta, esquenta não, a culpa num é docê de não controlá as rima. Segue a vida toda pra chegar no seu amigo Félix? É log'ali, né?

     — Meu amigo ele não é, está mais pra grude no meu pé. Depois que nos perdemos aqui ele ficou mais legal, mas na escola ele era infernal.

     — Ach'que cê falou isso um cadim de propósito, uai — brincou Tosse, sem querer ser polida demais ou ousada demais. Helena já havia dado indícios de que não aceitaria muito bem a sua receptividade.

     — Talvez. Desculpa a rigidez.

     As duas garotas começaram a caminhar na direção em que Félix tinha ido, com um silêncio que Helena tomou cada gota da sua coragem para quebrar.

     — Tosse, uma pergunta eu tenho, estou curiosa sobre o engenho. Você é de onde? Aqui nesse mundo tem região que corresponde? É o seu jeito de falar, dá gosto de escutar.

     Epaminondas Tosse sorriu largo, estava feliz por Helena ter se interessado em algo sobre ela. Era o seu manco, mas importante primeiro passo.

     — Aqui pr'essas banda tem uns trem diferent'sim, umas região que é uma bitela. Nasci em Minospecífico, lá é bão demaidaconta. Cê num segue ret'toda vida, mas um dia chega.

     — É longe, então, a sua região?

     — Um cadim, uai.

     Epaminondas sorriu com a simpatia que Helena aprendia a perceber. O cabelo liso e verde de Tosse nem chamava mais tanta atenção quanto antes, já estava de noite mesmo. A única coisa que iluminava o caminho das garotas eram verticais feixes de luz branca que dançavam no meio das folhas das altas árvores, refletindo a lua. E, claro, a lanterna de Helena.

     — E ocê, Helena? — continuou Tosse, interessada. Talvez assim Helena se soltasse mais. — Donceé?

     Helena teve que admitir a si mesma que precisou se esforçar um pouquinho para entender a última parte.

     — De fora desse mundo, vim por um portal profundo. — Depois disso, Helena pigarreou, pois não tinha sido bem por um "portal profundo". Malditas rimas involuntárias. — Quer dizer, pelo Muro Pots, você deve saber. Minha cidade é perto, isso é certo.

     — Ah, o trem Pots... Por issocê num é igualzim a mim. Faz um cadim que num vejo alguém de fora passá pra esse ladaqui.

     Com cuidado, as garotas se infiltraram na floresta densa, por onde Félix havia passado com toda a velocidade. Se Helena escorregava, preferia o amparo de uma grossa e áspera árvore do que da mão albina de Tosse. Helena não sabia se aquilo era o início de uma amizade, mas, para se proteger, repetia mentalmente que lógico que não.

     — Meninas... Tudo bem por aqui?

     Helena se assustou pela gravidade da primeira palavra e escorregou em uma folha caída. Apesar das tentativas de se manter firme, seus pés voaram à sua frente e ela caiu de costas, sorte que não foi em cima de uma raiz saltada. Mesmo assim, Helena não evitou uma careta. Epaminondas se abaixou para ajudá-la a se levantar, mas Helena o fez rápido, sozinha e constrangida. Então, Tosse apanhou apenas os óculos de Helena, que, por sorte, não haviam se estilhaçado.

     — Nuh... Uai, sô! Num quidito cocê assustou nóis de novo, dessa vez foi pra dedéu! Dá procê quicá a mula?

     Dei uma breve e grave gargalhada e me apoiei com os pés em um galho da árvore mais próxima das garotas, dessa vez em forma de macaco.

     — Desculpa, meninas, mas não pude evitar — pedi com o meu vozeirão que lembrava bastante Simba, de Rei Leão. — Estão indo aonde?

     — Oras, você não é o narrador? — soltou Helena, enquanto recolocava os óculos e espanava os braços para se livrar das folhas que haviam colado nela. — Saia, nos faça o favor.

     — Sou, e narro muito bem, obrigado. Essa sua queda, por exemplo, foi muito bem descrita. — De cabeça para baixo, joguei um cacho de uvas na mão de Helena e outro na de Tosse. Elas deviam estar com fome, àquela altura. — Quando precisarem, eu vou aparecer, como já disse. Agora vocês estão mortas de fome e claro que precisavam comer.

     — Eu nem estava com tanta fome assim. Quando essa história vai ter um fim?

     — Boa pergunta, cara Helena. Boa pergunta. Mas nem uma vírgula do futuro eu posso revelar.

     No auge dos seus dezessete anos, Helena fez uma careta confusa e eu saí me balançando pelos galhos que via pela frente. Enquanto eu sumia do campo de visão das garotas, Epaminondas balançou a cabeça e chamou Helena.

     — Nóis tem que cascar fora, Félix arredou e tá log'ali.

     — Exato. — Depois de dizer isso, imediatamente Helena pôs uma mão na boca, para ver se de lá nenhuma rima sairia. Ela conseguiu segurar bem, nos primeiros segundos. Mas logo sua boca se mexeu sem que ela controlasse: — Aquilo é um pato?

     — Num esquenta, Lena, esse trem enfeitiçado vai já arredar já. Pelejar agora vai ser custoso e num dianta não, uai.

     — É, não vale a pena. E quando eu te dei permissão pra me chamar de Lena?

     As duas escancararam os olhos, espantadas. Tosse mal havia percebido que chamara Helena daquilo — foi tão natural —, mas repreendeu-se mesmo assim. Helena, por outro lado, genuinamente não havia controlado a segunda fala.

     — Vacilo meu. Desculpa, Helena.

     — Desculpa eu que digo, é o melhor que consigo... Não foi de propósito, que depósito... — Helena, debaixo da sua cabeleira cacheada de fios castanho-claros, pediu com receio. — Eu não controlei, vacilei...

     Epaminondas sorriu com empatia e tocou no ombro de Helena, mas logo se afastou por pensar que ela poderia não ter gostado.

     — Tá tud'certo, Helena. Depósito? Esse trem desse feitiço é doidimais, hein? — Tosse não se importava em brincar o tempo todo para amenizar a tensão.

     Helena achava fofo o modo de falar de Epaminondas, sua voz não era nem esganiçada ou escandalosa, mas sim suave. Helena também gostou das boas intenções de Tosse, mas estava indo com os dois pés no freio quando pensava em começar uma amizade ali.

     — As duas vão ficar de conversinha ou vão vir logo?! — gritou Félix, a plenos pulmões, na beira do pequeno lago que achara. Dali, ele não conseguia ver as meninas, mas elas conseguiam vê-lo. A clareira e a falta de árvores ali fazia parecer que, onde Félix estava, existia um belo poste. — As duas vão ficar de conversinha ou vão vir logo?!

     — Precisamos acabar com esse feitiço... — riu Helena, que não suportava mais ter que ouvir duas vezes tudo que Félix tagarelava. — É um problema maciço.

     Epaminondas esticou a mão, para que Helena passasse a lanterna a ela, e foi na frente. Ela abria caminho para que Helena não trombasse de novo. Esta ficou parada por alguns segundos, analisando se deveria ou não receber essa amizade de braços abertos. Por sempre estudar muito para melhorar a sua vida no futuro, Helena nunca abriu espaço para nenhuma amiga, durante a sua vida inteira.

     Por isso, aquela criatura demasiadamente clara, com mechas lisas verdes, olhos escuros e trinta centímetros a mais do que seus humildes 1,67m, poderia ser uma ótima candidata para ser a primeira amiga a entrar na sua vida. Afinal, apesar de ser alguém do mundo da floresta da bruxa DigueWigguie... Tosse era alguém muito legal.

     Helena sorriu e seguiu Epaminondas, que já se encontrava a seis metros de distância. A garota pulou alguns galhos caídos, desviou de raízes enormes — e de possíveis buracos de tarântulas com doze pernas — e por fim alcançou Tosse.

     Félix estava de costas, sentado em uma pedra lisa, de frente para o lago que reluzia a luz da lua.

     — Uai, aqui é bunidimais da conta, né? — comentou Tosse, quando percebeu que havia sido alcançada por Helena. A lanterna foi desligada, porque ali a lua iluminava tudo.

     A clareira deixava explícito o cabelo superloiro de Félix, que se virou para cumprimentar as meninas. Como Helena estava muito distraída com a beleza irresistível da lua, não prestou atenção na beleza irresistível do seu colega de sala.

     — Vambora, seu amigo tá esperâ'no trem log'ali. — Epaminondas sorriu e contornou a cacheada, para empurrá-la de leve até Félix.

     — Onde vocês estavam, onde vocês estavam? Por que demoraram, por que demoraram?

     — Garoto, tenta não falar, pra um soco na cara evitar — Helena mostrou toda a sua firmeza quando sentou no chão, entre Félix, ainda na pedra, e Epaminondas, que riu. — Você sempre vem aqui, Tosse? Minha admiração é precoce.

     — Um cadim, Helena — respondeu Epaminondas, olhando para a lua cheia lá em cima. — Aqui é onde a sá DigueWigguie nunca ficou de butuca, então é tranquipa dedéu.

     — Sabia que na nossa cidade teria um eclipse hoje, quatro olhos? — perguntou Félix com uma piscadela, quando se virou para as garotas. — Sabia que na nossa cidade teria um eclipse hoje, quatro olhos? Será que aqui também tem? Será que aqui também tem?

     Epaminondas segurou o riso pelo revirar de olhos de Helena e disse:

     — Óia, a lua é um trem a cara dum o fucim d'otro em tudo quanté canto. Então o eclipse pod'conticê pra essas banda também, uai.

     — Isso são uvas? — Félix desceu da pedra, sentou ao lado de Helena e esticou a mão em direção à dela. — Isso são uvas?

     — Não, são bolas de gude. — Helena fez uma carranca falsa e jogou seu cacho de uvas nas mãos de Félix. — Comer é uma virtude.

     — Onde arranjou isso, onde arranjou isso?

     — O narrador, aquele amigo do autor.

     — Estão falando de mim? — Dessa vez, com a voz do Cebolinha, apareci atrás de Helena na forma de um gato malhado, roçando nas costas dela. — Pode fazel um calinho na minha cabeça, Helena?

     Ela não segurou o sorriso, sem mostrar os dentes, e deitei no seu colo. Ninguém resiste ao Cebolinha e eu faço uma imitação perfeita.

     — Ocê tinha dito que ia aparecê quanóis precisasse... — observou Tosse, enquanto esticava o braço para afagar a minha cabeça marrom e branca. — Nóis precisagorinha?

     — Na veldade não, só quelo vel a lua também.

     — Olha, não se molha... O que está acontecendo? A lua está se escondendo? — perguntou Helena, quando tornou a olhar para cima.

     Todos levantamos a cabeça para fitar do que Helena falava. Uma pequena fração da lua havia desaparecido da sua borda, como se alguém tivesse dado uma boa mordida.

     — É o eclipse, é o eclipse — disparou Félix, animado. — Estamos mesmo debaixo da mesma lua da nossa cidade. Estamos mesmo debaixo da mesma lua da nossa cidade.

     — E isso me faz sentir em casa. Olha, ficou vermelho como brasa.

     O eclipse seria total, então o sol, passando atrás da Terra, refletiria a sua luz meio vermelha na lua — era o que todos pensávamos. Isso nos fez ter a sensação de que víamos o sol e a lua em um só.

     — Queria muito saber como o eclipse funciona. Queria muito saber como o eclipse funciona. Isso acontece muito aqui? Isso acontece muito aqui?

     — Rapaiz, não — respondeu Epaminondas. — Prum trem grandim daquê ficá vermei... é difíx'dimaidaconta. Só contceu quan'cês chegaraqui.

     Dessa vez Félix estranhou. Ele olhou para Helena com uma sobrancelha levantada e depois para Tosse:

     — De onde você é mesmo? De onde você é mesmo?

     — Doncossô? — Epaminondas deu uma risadinha. Ao contrário do que Félix sempre pensou, estudando as formas de falar do mundo depois do muro Pots, Epaminondas não falava gritando. — Sô de Minospecífico. Longe pra dedéu. Achque dá uma ida naquê'trem lá.

     Epaminondas apontou à lua, para exemplificar o quão longe era a sua cidade. Depois que os adolescentes passaram pelo muro Pots, tudo mudou. A contagem de tempo ficou diferente, a duração do dia, da noite, as criaturas que ali encontraram, os feitiços que os acometeram. Helena e Félix nunca haviam visto coisa parecida.

     Onde eles estavam era um mundo próprio, como se fosse um universo bem paralelo à sua cidade, literalmente. Depois que deram um jeito de passar pelo muro Pots (que era proibido), Félix e Helena entraram em um mundo tão grande quanto o que eles conheciam. Mas, por algum motivo, a lua era a mesma.

     Desvencilhei-me devagar dos braços de Helena e casquei fora, como Tosse diria. Meu trabalho, mesmo que mal ou não pago, precisa ser feito.

     — Não faço ideia de onde fica exatamente, mas já estudei sobre aqui em livros meio proibidos. Sabe, sobre o mundo depois do muro Pots — continuou Félix, ao jogar uma uva para o ar e a aparar com a boca. Helena tapou os ouvidos para não ter que ouvir essas enormes frases de novo. — Não faço ideia de onde fica exatamente, mas já estudei sobre aqui em livros meio proibidos. Sabe, sobre o mundo depois do muro Pots. Aqui é grande, não? Aqui é grande, não?

     — Grandimaida conta, sô. Tem cantaqui que nem eu vascuieinda. Só a DigueWigguie sáb'de tudaqui. É uma brux disgramada memo.

     Nesse momento, de repente a lua aumentou consideravelmente de tamanho, o que arregalou os olhos de Tosse.

     — Uai, cês vir'o que houv'ali? — Epaminondas se levantou e apontou com veemência para a lua, tamanho era o seu espanto. — Cês num vir'que o trem ficou coisad'ali?

     — Se acalma, Tosse, ansiedade é minha posse.

     Helena olhou para o céu escuro, na direção da lua avermelhada, e percebeu que ela realmente havia crescido.

     — A lua está se aproximando ou se afastando?

     — Rapaiz, nenhum nem otro, ela tá é cresceno — rebateu Tosse, em tom de surpresa.

     Félix olhou para cima e confirmou o que as garotas viam. O que estava acontecendo com a lua, afinal?

     — Ácido. Mas é mesmo um plácido!

     — Ácido? Mas ele consegue fazer isso? Ácido? Mas ele consegue fazer isso?

     — Aquele bruxo pode tudo. Calado ou vou te dar um cascudo.

     Helena balançou a cabeça em negativa, quase não conteve o riso. Não era isso que queria dizer, mas se encaixou perfeitamente na situação.

     A lua crescera tanto que agora estava cobrindo a maior parte do céu que os três conseguiam enxergar.

     Agora o que preenchia as suas vistas era apenas uma grande bola vermelha. Obra de Ácido, tinha que ser o Acético...

     — De quem cocês tão falanaí? Ácido? Népussivi...

     Depois dessas palavras, os três adolescentes foram erguidos no ar, como se não existisse mais gravidade. Félix nadou com os braços para apanhar as uvas, que também flutuavam. Ele as tocou com a ponta do dedo, o que provocou um voar mais molenga — depois as comeu. O que, afinal, estava acontecendo ali?

     — Ainda quer uva, Helena? Ainda quer uva, Helena?

     — Você não percebeu que estamos voando?! — Helena se indignou com a indiferença de Félix ao que estava acontecendo. — Não notou que estamos flutuando?!

     Antes que Tosse pudesse expor o seu marcante ponto de vista, todos os três encolheram e sumiram. Fim.

     Nossa, como eu sou engraçado.

     Como, agora, a lua estava perto o suficiente, Félix, Tosse e Helena pousaram na superfície escura, reaparecendo do literal nada.

     — Onde estamos, onde estamos?

     — A pergunta é: como conseguimos respirar? Aqui não tem ar!

     — Que trem foi esse? Oncotô?

     — Ei, ei, relaxem aí — uma tranquila voz surgiu atrás deles, que logo se esforçaram para nadar e encarar a figura que falava. — Tudo bem com vocês?

     — Uai, cê ach'o quê, sô? — indignou-se Tosse. — Nóis tá voanu!

     — Oh, claro.

     O homem carismático estalou os dedos e quem estatelou-se no chão foi o trio.

     — Ufa, minhas uvas, minhas uvas! Ufa, minhas uvas, minhas uvas! — comemorou Félix ao perceber que elas caíram exatamente no seu colo e não foram de encontro ao chão com toda aquela poeira lunar. Repetindo tudo o que dizia, Félix parecia ser uma criança de cinco anos, quando na verdade tinha quase dezoito.

     — Cadê o Ácido, aquele mago? Um punho fechado eu trago.

     — Ácido? Não, não — o homem, vestido como um verdadeiro astronauta sem capacete, deu uma risadinha. — Fui eu mesmo que trouxe vocês aqui. Me sigam, por favor.

     Helena e Epaminondas semicerraram os olhos ao mesmo tempo, encarando com revolta aquele serzinho que havia dado tamanho susto neles. Félix seguia tranquilo o homem misterioso, comendo calmamente as quatro uvas que ainda restavam.

     — A DigueWigguie é um porre, né? — o astronauta tentou descontrair. — Quase que ela fazia a lua bater na ÉfePê, onde vocês estavam.

     — FP? — perguntou Helena, sem entender absolutamente nada do que aquele maluco falava. — O que isso era pra ser?

     — Não, não, não, não, não — apressou-se o homem. Ele se virou para trás a fim de encarar Helena. — ÉfePê. Repita.

     — FP — respondeu ela, com receio. — Você é louco ou o quê?

     — Você precisa pronunciar como se fosse uma palavra, não duas letras. ÉfePê. Desse jeito.

     Helena, instintivamente, encarou Tosse, mas logo desviou o olhar. Por que ela tinha olhado Epaminondas só por estar nervosa?

     — Éfe... Pê. O que deu em você? O que é ÉfePê? Quer que um psicólogo vá te ver?

     — Eu só relevo porque conheço o feitiço. — O homem apertou os olhos, mas sorria. — ÉfePê é o planeta Floresta Proibida, onde vocês estavam. Agora se segurem.

     — Num tem on'se segurá, sô!

     — Ah, desculpem. É modo de falar — divertiu-se o astronauta.

     Então a lua começou a se mexer. Félix, Helena e Epaminondas perderam o equilíbrio e se seguraram como puderam nas pequenas crateras que os cercavam. O astronauta, por outro lado, parecia irritantemente fincado na superfície lunar.

     — Estamos voltando ao lugar de verdade da lua. DigueWigguie a tinha aproximado demais da ÉfePê. Acho que ficou zangada por Tosse tê-la chamado de desgramada, mas não julgo você. Daqui eu posso mostrar o eclipse de verdade, venham.

     A lua parou de se mover no literal espaço e os três adolescentes se arrastaram para chegar à parte escura da lua, dali a dois metros. A luz da parte brilhante era muito cegante.

     — Ufa. Ufa. Por que a gente tá aqui mesmo? Por que a gente tá aqui mesmo?

     — Vocês precisam correr. — O astronauta deu uma piscadela. — Mas, pra funcionar, corram em uma mesma direção.

     Essa foi a vez de Epaminondas olhar para Helena, que retribuiu com a mais pura confusão.

     — Você não queria saber como o eclipse acontece, Félix? Corram e verão.

     Então, os três tomaram fôlego e começaram a trotar. Depois, Félix gritou "corrida!" duas vezes e Helena e Tosse se animaram, todos correndo na mesma direção.

     Curiosamente, eles não se moviam. Quem se mexia era a lua. Seu lado brilhoso, que estava à frente dos adolescentes, começou a se aproximar, conforme eles corriam. Isso fez com que Helena se sentisse em uma roda de hamster.

     A parte brilhante da lua finalmente os alcançou, o que não fazia nenhum sentido para Helena, que pensava que eclipses eram formados pela luz do sol atrás da Terra. Isso tornava sem sentido o fato de a parte brilhosa da lua se mexer.

     — O brilho é da lua, o brilho é da lua! — observou Félix, entusiasmado por desvendar o mistério. A luz, afinal de contas, emanava da própria lua. Apenas parte dela era assim e eles estavam fazendo o astro girar. — Não vejo o sol, não vejo o sol!

     Félix tinha razão. O sol não estava em lugar algum daquele vasto universo. Então ele sumia mesmo quando anoitecia?

     Incrivelmente, Tosse, Félix e Helena não se cansavam ao correr tanto a ponto de fazer a lua girar. Quanto mais corriam, mais luzes se acendiam dentro da lua, ao que parecia. Eram ativadas por sensor de presença.

     Os três estavam fascinados por descobrirem como, verdadeiramente, um eclipse acontece.

     ***

     — O que é aquilo, Pablo?

     — Ah, Diana... Acho que é um eclipse. Sabe, quando a Terra fica entre o sol e a lua.

     — Parece até que a lua tem luz própria...

     — Oh, não — riu Pablo, primo de Diana. Claro que ela, com seus ínfimos nove anos de idade, não conhecia muito dos astros. — Essa luz vermelha não é da lua, e sim do sol. O sol está atrás da Terra, refletindo a luz dele na lua. É esse o efeito.

     — Mas o sol não desaparece quando anoitece? Ele não vai embora do mundo?

     — Não, Diana, não... — Pablo passou os dedos na barba rala, marca dos seus trinta e tantos anos. Ele se remexeu na cadeira da sacada antes de continuar. — A uma hora dessas ele está iluminando o Japão.

     Diana não falou mais nada depois disso, mas também não se conformou. Ela olhou para a lua avermelhada mais uma vez e jurou ver três pontinhos a dançar.

     "Crateras, claro...", pensou Diana. "O que mais seriam?"

     ***

     [3771 palavras]

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top