o2| "Erin é um princípio de incêndio, ela brilha e queima quando sorri"
A família Fenty-Knox Daskalakis comandava a economia local. A grife grega passou de pequena para gigantesca em um curto período de cinco anos.
Exportavam para todas as partes do Brasil, os ricos e milionários do mundo inteiro conheciam e se vestiam com as peças de luxo que exalavam poder e ascensão. Ver Erin ali no seu quarto era quase uma miragem. A menina tinha jeito, aparência e até cheiro de gente rica. A ruiva era grega, mas morava no Brasil desde os cinco anos.
Eram tão gigantescos que boatos sobre a família ter ancestrais do período helenísco se espalharam, até mesmo que tinham o sangue de Alexandre, o Grande — mas eram apenas boatos. Após o almoço, os Alvarez saíram para trabalhar. Nicole disse para o filho acomodar a ruiva com o bom e o melhor, e ao se despedir da moça, foi tão simpática que parecia teatral.
Erin estava acostumada com aquele tipo de bajulação, mas com os pais de Bruno ela sentiu sinceridade. O rapaz ainda permanecia curioso a respeito dela, pois não estava acostumado a conviver com pessoas muito importantes. Ela era uma verdadeira incógnita, e sua motivação por permanecer ali, mais ainda. Quando anunciou que queria dormir no quarto de Bruno, os Alvarez a olharam surpresos, mas não foram contra.
O ponto alto da tarde foi quando Erin ajudou a lavar a louça — um pouco mal, mas ajudou. Aquilo era uma miragem do paraíso para Nicole, que a partir daquele momento, decidiu que lutaria com todas as forças para ter uma Knox na família.
Amanda arrastou a ruiva para seu quarto e as duas passaram horas agradáveis conversando sobre a tal da popularidade. Não que Erin precisasse se esforçar para ser popular, o seu sobrenome bastava. "Não façam um filho", foi o que Amanda disse ao se despedir dos jovens para dar sua aula de dança no estúdio.
Bruno era despojado e brincalhão, mas ainda assim ficou constrangido. Eles foram para o sótão, onde foi adaptado para ser o quarto do rapaz. Uma clarabóia grande na lateral da parede triangular permitia a tênue claridade do fim de tarde entrar, que se derramava sobre o colchão no chão.
— Gostei — Ela disse, reparando no visual do quarto. — Só nunca tinha visto um banheiro no sótão, essa é nova.
— A Amanda que pediu, não queria que eu ficasse usando o banheiro do quarto dela.
— É a Amanda? — Erin perguntou, ao pegar um porta-retrato de uma garotinha sentada no balanço. — Que bonitinha.
A prateleira repleta de algumas fotos de família estava diante dos olhos da ruiva, que notou que boa parte delas eram da menininha de cabelos curtos.
— Não, essa era a minha irmã mais nova, Clara — Ele disse, se aproximando dela. — Ela não está mais conosco, se foi no verão de dois mil e dois.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem, obrigado.
Erin foi totalmente sincera, e ele sabia. A ruiva percebeu o quanto era alheia a vida das pessoas ao seu redor. Estudaram na mesma escola desde os sete anos e agora na universidade, mas sequer trocaram olhares.
Os Alvarez conseguiram manter os custos altos da escola até o final do ensino fundamental, mas quando a crise apertou, não tiveram condições de manter. O rapaz então ganhou uma bolsa pela companhia de teatro, e se manteve lá desde então e na universidade, onde produzia musicais em nome da instituição.
Os Knox doavam mensalmente, fundos altos para a universidade burguesa, mas isso não queria dizer que a filha mais nova pudesse fazer o que quisesse. Para todos os efeitos, Erin era apenas uma bailarina popular — com alguns privilégios, mas nem tanto. Quando Clara se foi, o rapaz passou um tempo afastado de tudo. Ninguém comentou muito na época, então poucas pessoas ficaram sabendo.
— Foi quando você passou algumas semanas afastado?
— Hurum.
— Ah, desculpa — Ela pediu ao notar que estava sendo invasiva.
— Não, pode perguntar.
Erin ponderou, porém, ela se sentia muito curiosa a respeito daquela família. Era um universo totalmente diferente do seu, na qual, achava que se adaptaria facilmente.
— Como ela morreu?
— Clara tinha o coração grande demais.
***
A tarde avançou, e já era a quarta vez que Bruno descia para encher a garrafa de água. O dia estava bem quente, e os jovens tinham muito assunto para conversar. Amanda aproveitou que era sexta-feira e foi ao boliche com as suas alunas, pois não queria ficar babá logo no começo do final de semana. Bruno enchia a garrafa quando recebeu uma ligação da irmã, que não estava lá, mas fazia questão de se manter presente.
— O que é? — Ele atendeu.
"Olha lá como você fala comigo, Bruno. Vocês não fizeram um filho, né?"
— Não — Ele revirou os olhos e riu. — Já basta você pra criar.
"Cabeção, escuta. Vou tomar um porre com as minhas alunas, se comporta, okay? Não quero a mamãe brigando comigo porque você fez merda."
— Certo. Algo mais, señorita?
"Não esquece de tomar os remédios e... nada de gravidez na adolescência."
Bruno desligou na cara dela e subiu. Ele se surpreendeu ao encontrar a poltrona vazia e o corpo de Erin preenchendo o colchão. A Knox era atrevida de um jeito muito sutil, e parecia não se importar com restrições sociais ou etiqueta. Ela fitava para além da clarabóia, onde o céu azul anil começava a ficar pontilhado de estrelas.
Alguns pardais cortaram o céu, fazendo-a sorrir. A ruiva estava confortável com os braços acima da cabeça, aproveitando a maciez das almofadas. Ao virar o rosto, encontrou Bruno a observando. Ela estava acostumada com rapazes a olhando por todas as direções, e sabia distinguir cada tipo de olhar. Naquele momento, ela sabia que o rapaz a encarava como se quisesse eternizar aquele momento, e foi isso o que ele fez.
— Não se mexa! — Ele se apressou em colocar a garrafa na escrivaninha e caçou sua câmera fotográfica. — O contraste de luz está ótimo!
Bruno se ajoelhou e procurou o ângulo perfeito. Quando encontrou, achou que seu coração estava clamando por remédios, mas não... ele apenas errou uma batida diante daquele momento. Através da lente, seu olho captou o contraste de luz que os raios de sol faziam em Erin. Seus cabelos laranjas adquiriram tons acobreados que pareciam querer incendiar.
A luz fazia seus olhos verdes parecerem as zonas mais claras do mar, onde se abrigam os recifes... e a pele, tão alva e chamuscada de pintinhas que pareciam pontos de incêndio. Erin parecia um princípio de incêndio ambulante, onde aguardava a pólvora de alguém riscar-lhe o corpo para enfim incendiá-lo. A foto polaroid saiu fresquinha e ele a entregou, sentando-se ao seu lado.
— Ficou linda — Ela disse. — Você é bom nisso.
— A modelo ajudou.
— Posso ficar com ela?
— É sua, a outra é minha, se não se importar.
— Se não for colocar em um outdoor, tudo bem.
— Já tem foto sua por toda parte. Essa eu vou guardar e esperar valorizar, daqui uns dez anos vai valer milhões e eu vou ficar podre de rico.
— Para com isso — Ela riu. — Mas se quiser, posso autografar.
— E é claro que eu quero.
Ele revelou uma cópia da foto e entregou uma caneta para ela. Erin se deitou de bruços e pensou em algo para escrever. Por fim, escreveu uma frase simples, mas significativa, e assinou com a sua rubrica impecável.
— Bruno Alvarez me deu abrigo nesse dia de tempestade, eu estou grata e feliz. — Ele leu, com um sorriso nos lábios. — Nossa, fiquei até emocionado.
— Que bom, agora é a sua vez de escrever na minha.
— Sério mesmo?
— Sim, eu gosto de guardar recordações.
Bruno assentiu e pegou a caneta. Erin o aguardava com expectativa no olhar, quase como se dissesse "Surpreenda-me". Ele se recordou de como os raios de sol deixaram a cor do cabelo dela, como se fossem entrar em combustão.
— Toma — Ele finalizou.
— Erin Fenty-Knox é um princípio de incêndio, ela brilha e queima quando sorri — Ela leu pausadamente, quase saboreando cada palavra. — Ninguém nunca falou assim de mim antes, me surpreendeu. Bom, os quatro minutos que fiquei sozinha, descobri algumas coisas sobre você.
Bruno se deitou ao lado dela e a encarou.
— Você é mesmo uma caixinha de surpresas. Então, o que descobriu?
Seus olhos acompanharam a menina retirar embaixo do travesseiro, o primeiro rascunho do seu musical "Os ratos". O rapaz desejou capturar aquele momento também, e assim o fez. A polaroid congelou Erin sorrindo ao folhear o original. O som da câmera a fez erguer o olhar, e veio outro som de captura. Ela gargalhou, tomou a câmera para si e o fotografou também.
— Toma. — Ela o fez segurar o original. — Faz uma pose, quero ficar com essa foto. Quando você ficar famoso, vou ganhar uma grana.
Bruno deu um meio sorriso e colocou o original contra o peito.
— Você é tipo um gênio? Eu dei uma folheada e gostei muito do que eu li.
— Sério?
— Não sou nenhuma crítica de musicais ou algo do tipo, mas posso dizer que tenho um pouco de propriedade no que eu estou dizendo. Eu sei que o que você tem em mãos é precioso.
— Acho que não é isso tudo.
Ele não costumava ficar constrangido facilmente, exceto quando alguém resolvia elogiar seus musicais. Uma risada abafada para disfarçar o constrangimento foi a sua única reação.
— Eu já assisti Chicago, Rent e Hamilton. — Ela disse. — Então eu sei do que eu estou falando.
Bruno ficou boquiaberto, era o seu sonho um dia assistir alguns desses musicais. Erin tinha propriedade no que estava falando ao elogiar o seu ensaio, e aquilo o deixou inebriado de alegria.
— Talvez esse seja meu último ano na universidade, então a oportunidade de você pedir o meu número é agora. — Erin riu quando ele franziu o cenho. — E aí?
Bruno não sabia explicar como a ruiva conseguia ser tão misteriosa. Quais as probabilidades de se tornarem bons amigos? Para ele, nenhuma. Porém, Erin abria brechas sutis o suficiente para nascer pequenas expectativas sobre a evolução da relação que surgia ali.
— E por que eu pediria o seu número?
— Porque eu tenho contatos dentro da Broadway — Erin disse muito devagar, saboreando a expressão dele passar de incrédula para pasma. — E posso apresentar "Os ratos", quem sabe?
— Erin! — Ele berrou.
Bruno abriu a boca, mas nada saiu. Aquilo era quase impossível de se acreditar. Ela abriu um sorriso ladino que não revelava seus reais objetivos.
— Você ainda não pediu o meu número.
***
Bruno ainda não acreditava que nada do que aconteceu era real.
Nada, absolutamente nada.
Nem que ajudou Erin Knox. Nem que ela almoçou e jantou na sua casa. Nem que ela conheceu os seus pais e o seu quarto. Nem que ela o deixasse fotografar. Nem que ela deitou em seu colchão. Nem que ela descobriu e gostou dos seus musicais. Nem que revelou sobre o casamento forçado. Nem que ela pediu para passar a noite no seu quarto, e muito menos que eles estavam entrando em sintonia.
Eram muitos nems, e todos aconteceram tão rápido que era difícil de processar. O jantar foi animado. Nicole se contentou em fazer um macarrão com queijo e todo mundo ficou feliz. Apesar de se controlar ao máximo, a sra. Alvarez ainda deixou escapar a tão famigerada perguntinha "Você está namorando?". Erin não levou a mal, e respondeu cordialmente.
Já estava tudo certo para a ruiva passar a noite por lá, mas ao anunciar que queria dormir no quarto de Bruno, nem mesmo Nicole — que queria a todo custo aquele casal —, digeriu bem aquela ideia. Ao final de tudo, ninguém se opôs. O sr. Alvarez pediu apenas que a ruiva comunicasse aos pais, pois não queria ter problemas com os Knox. Erin fingiu uma ligação para o pai na mesa de jantar e somente Bruno percebeu. Ela o encarava enquanto encenava, e através do olhar cúmplice, ela soube que ele não a entregaria. Ele ainda não sabia as intenções da ruiva, mas atuava como um cúmplice de seus caprichos.
— Bom, agora que os Knox foram avisados que você passará a noite conosco, acho que posso dormir tranquilo. — Disse Javier, piscando para a ruiva. — Não quer mesmo dormir no quarto de Amanda?
— Não, sr. Alvarez. Eu vou dormir no quarto do Bruno.
Vou. Erin tinha determinação no que dizia. Ela poderia ter dito "quero", ou então "prefiro", pois estas palavras dariam abertura para aguardar alguma ordem. O casal apenas se entreolhou e não puderam fazer nada além de consentir, pois como confiavam muito no filho, não seria um problema tão alarmante.
Amanda não era boba, e pelos trejeitos de Erin, sabia que a menina precisava desabafar ou se livrar de alguma enrascada. Seja lá o que ela quisesse com o seu irmão, a mais velha resolveu não se intrometer no momento. Os jovens subiram para o sótão e Bruno nunca imaginou que ficaria acanhado no próprio quarto.
— Estou subindo! — Amanda gritou. — Erin, eu trouxe minha camisola antiga, vai ficar boa em você. Engordei um bocado quando voltei das férias, nem cabe mais em mim.
— Obrigada!
Amanda os deixou a sós, e Erin analisava o rapaz enquanto esfregava a camisola de seda entre os dedos. Sendo praticamente uma estilista, ela conseguia sentir a qualidade do tecido, e aquele certamente não chegava aos pés das sedas egípcias de suas camisolas.
— O quê? — Ele indagou.
— Preciso me trocar.
— Pode usar o banheiro.
— Vou me trocar aqui.
— Okay.
"Mimada'' pensou consigo mesmo quando ficou de costas. A ruiva tirou a roupa na cara dura, sem se importar com a claraboia dando abertura para qualquer paparazzi que a visse.
— Pronto.
Bruno não se virou de imediato para olhá-la, e querendo fugir da miragem, desceu para pegar outra jarra de água. Ao retornar, teve a visão daquele corpo feminino deitado no seu colchão, folheando o seu original. Ele queria fotografar aquele momento também, mas seria demais.
Erin ergueu os olhos e o flagrou encarando-a. Era incrível como aqueles olhos grandes e verdes mudavam de tonalidade quando diferentes pontos de luz batiam neles. Naquele momento, o luar que invadia a claraboia os deixava em tons de um azul escuro, tal qual as zonas abissais de um oceano.
— Eu vou procurar o meu colchão inflável.
Ele tentava quebrar o gelo a todo instante.
— Certo, mas deita aqui antes. — Ela pediu. — Vamos conversar um pouco.
Bruno tomou um banho, vestiu seu pijama do CatDog e saiu do banheiro recebido por gargalhadas da garota. O pijama era engraçado, então ele não julgou.
— Meu Deus, Bruno, você é muito engraçado.
— É, já me disseram isso.
Os dois permaneceram deitados lado a lado, enquanto o luar invadia o quarto pela claraboia. O céu estrelado era uma visão privilegiada que o rapaz tinha antes de dormir, e a ruiva estava amando a experiência.
— Eu acho que encontrei um segredo seu entre as páginas do seu original. — Erin disse, ainda fitando o céu. — Quer dizer, eu acho que é um segredo.
— Ah, é? Que segredo?
— Esse — Ela folheou o original até encontrar a foto de uma garota. — Aqui.
Bruno permaneceu sério, não se lembrava de ainda ter aquilo. Fazia tempo que não pegava no seu primeiro original, e por consequência, a foto do seu primeiro amor ainda estava ali.
— Quem é?
Um leve assobio escapou dos seus lábios, quase como um desabafo. Ele começou a mexer nos próprios cabelos enquanto procurava por qualquer assunto que não fosse aquele. Porém, ele se recordou que desabafar foi um dos conselhos que seu médico disse para tentar amenizar os efeitos da doença. Não que ele ainda tivesse alguma esperança, mas resolveu colocar em prática.
— Judith Mary Lane.
Pronunciar aquele nome foi como voltar a afundar em águas congelantes de um mar revoltoso na qual ele nunca aprendera a nadar.
— Quem ela foi pra você?
— Alguém que amei muito.
— Você fala de um jeito muito terno.
— É porque infelizmente eu ainda a amo.
— Infelizmente?
— Sim.
— Por quê?
Bruno virou o corpo para o lado dela e a encarou. Ele nunca havia comentado sobre sua doença com alguém, somente os Alvarez e seus melhores amigos sabiam. Porém, Erin parecia arrancar confissões dele sem pedir, e falar sobre aquilo o estava deixando mais leve.
— Você promete não contar a ninguém? — Indagou e ela assentiu. — Se você contar eu espalho pra todo mundo que você dormiu na cama de um fracassado, e com ele.
— Irrelevante.
Ele riu pela primeira vez falando sobre o que lhe magoava.
— Certo. Primeiro, não é culpa dela, okay? Eu me apaixonei por Judith e não fui correspondido. O resultado disso foi uma doença que não tem cura.
— Que doença?
— Já ouviu falar da hanahaki byou?
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