Epílogo

Dias atuais

Marina

Existe um ditado que diz que "Deus nunca te dá um fardo maior do que você possa carregar". Eu acho que ele está me confundindo com outra pessoa, porque parece que já não tenho forças pra encarar tudo o que tem acontecido em minha vida nos últimos anos. Quando por fim superei a morte de meu filho e consegui seguir em frente há alguns meses, quando eu achei que tudo daria certo, mais um obstáculo apareceu em nossa vida, mais uma bomba jogada sobre nossa família, e agora estamos aqui, prestes a descobrir qual o desfecho dessa história.

A caminho daquele hospital que eu continuo odiando, enquanto sinto as contrações que indicam que logo nosso bebê estará aqui conosco, penso no quanto esse momento seria alegre se a situação fosse diferente, com a chegada desse bebezinho que veio de surpresa para nossas vidas, depois de tanto tempo. Mesmo antes de sabermos o sexo, eu sabia que seria um menino, Henri, assim como Théo me disse naquele sonho que tive há tantos meses atrás. O mais chocante disso tudo é que eu não contei essa parte do sonho para Murilo, e mesmo assim foi ele quem sugeriu o nome Henri, me deixando imediatamente emocionada com a forma com que as coisas acontecem em nossa vida.

Infelizmente eu interpretei de forma errada algo que Théo me falou, que nós iríamos precisar ser muito fortes. Eu pensei que meu menino estava falando sobre o fato de ele ter nos deixado, e que causou tanto sofrimento, mas na verdade ele se referia ao que ainda iria acontecer, e que realmente está exigindo tudo de mim, de Murilo e principalmente, de Maya. Quando penso em minha filha e em tudo pelo que ela está passando desde que descobriu a doença, lágrimas me enchem os olhos e fico imaginando como ela está agora, aguardando assim como nós o nascimento de Henri e tudo o que o envolve. Essa nova parte de mim e Murilo que está prestes a chegar, já vem ao mundo com uma missão que eu nem sequer poderia imaginar quando soube que estava grávida.

Sinto mais uma forte contração, ao mesmo tempo em que Murilo para o carro na frente do hospital, onde uma equipe de médicos e enfermeiros já me aguarda. Sem mais delongas, sou levada para a internação, onde começam os exames para verificar meu estado e como está a dilatação. O médico me informa que falta pouco, e que eles irão finalizar todos os preparativos para a realização do parto, me deixando na companhia de meu marido.

- Marina, independente de qualquer coisa, eu quero que você foque agora apenas na chegada do Henri, ok? - diz ele pegando minha mão e sentando ao meu lado. – Tenta esquecer de qualquer outra coisa, porque eu vejo que você está nervosa e ansiosa, e isso não é bom nem pra você e nem pra ele.

Respiro fundo tentando me acalmar, ao mesmo tempo em que sinto a chegada de mais uma contração. Foco apenas nas dores físicas e no fato de que logo darei a luz a meu terceiro filho, imaginando com quem ele será parecido. Dessa vez, não me importo que ele tenha os olhos do pai ou o meu cabelo, só quero que essa criança tenha saúde, que viva bem, que possa ter uma infância plena e feliz, que tenha energia pra brincar com seu priminho que chegará em breve, e que seja muito amado por todos, assim como Maya é, assim como Théo foi.

Grito com mais uma forte contração, e sinto Murilo acariciando minha barriga, enquanto canta uma melodia para nosso filho, assim como ele fez durante toda a minha gestação. Isso parece acalmar um pouco o Henri, e espero que essa técnica funcione também após o nascimento dele, nas noites que sei que passaremos em claro. Perco a noção do tempo e tento focar apenas na voz do meu marido em meio a dor que me consome, e logo sou levada pra sala de parto, com Murilo segurando minha mão o tempo todo.

Graças a Deus tive uma gravidez tranquila, apesar do tormento que virou nossa vida mais uma vez, e vou ter meu menino de forma natural, assim como ocorreram em meus outros dois partos, e que era meu desejo. Começo a questionar essa decisão quando tenho que fazer força para ter Henri, já que a dor é quase insuportável, mas assim que escuto seu choro sei que toda a dor valeu a pena. Quando meu menino é colocado em meus braços, sinto uma felicidade e uma paz imensa, como se eu tivesse certeza de que tudo vai dar certo no final.

Assim que Henri é colocado em meus braços, ele para de chorar e me olha como se quisesse transmitir alguma mensagem, e eu retribuo seu olhar querendo dizer para ele que eu entendi o recado: Meu terceiro filho veio para a terra com uma missão, que está prestes a ser cumprida, me fazendo acreditar num amanhã melhor.

Ainda olhando para o bebê em meus braços e sentindo o carinho de Murilo a meu lado, olhando para a nossa criança com tanta adoração quanto eu faço, entendo que mesmo que Deus tenha colocado muitas pedras em nossos caminhos, nós continuamos caminhando nessa jornada que é a vida, e que mesmo com tantos altos e baixos, ela continua sendo excepcional.

- Bem vindo, meu filho.

Continua...

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