Capítulo 9

28 de setembro de 2019.

Marina

Difícil descrever o que sinto ao colocar os pés dentro da minha casa, sabendo que não faço isso há algum tempo. Um misto de reconhecimento, amor, esperança, ansiedade em ver Maya, mas também algum tipo de dor, causado provavelmente pelo trauma da traição e da separação. Mesmo com oito anos de memórias perdidas, não vejo mudanças significativas nos móveis e na decoração, além de alguns quadros com fotos mais recentes e uma cor diferente nas paredes da sala. Esta ainda é a casa que eu e Murilo compramos com muito esforço e mobiliamos com muito amor, e sinto que este ainda é meu lar.

Murilo está parado na porta avaliando minhas reações, parecendo tenso, como se eu fosse sair correndo a qualquer momento, coisa que não vai acontecer, até porque minha perna não me permitiria tal ato. Reconheço próximo a estante descansando em seu suporte meu violão, e como se para provar a ele e a mim mesma que me sinto confortável pego o objeto, sento no sofá e começo a afiná-lo, dedilhando algumas notas sem seguida. Mesmo um pouco desafinado pela falta de uso, consigo relaxar com o som que sai do instrumento, e o mesmo acontece com meu ex-marido, que se senta no outro sofá e fica me observando com um sorriso.

Iniciei as aulas de violão assim que terminei a faculdade e tive Maya, como uma forma de me distrair da vida atribulada que levávamos na época. O começo não foi fácil, mas quando percebi já estava conseguindo acompanhar algumas músicas. Tocava principalmente para minha filha, que era na época um bebê com muitas cólicas, e a música parecia acalmá-la, assim como fazia comigo. Desde então não parei mais, tocar se tornou um de meus hobbies favoritos, assim como escutar música e ler.

Começo a tocar uma de minhas músicas preferidas, que é vento no litoral da Legião Urbana, cantando junto apesar de minha voz não tão afinada. Sei que se trata de uma canção triste, mas parece que me reconheço nela. Quando olho para Murilo vejo que ele está emocionado, e ficamos nos olhando enquanto termino a música. O encanto se quebra quando reparo em um movimento na escada, mas então Maya percebe que a vi e volta para seu quarto, batendo a porta e tirando Murilo do transe em que se encontrava. Limpando o rosto e se levantando, ele pega minhas malas que ainda estavam na porta e se encaminha para o andar de cima, e eu o sigo a passos lentos e limitados.

Nossa casa tem quatro quartos, sendo um nosso e um de Maya. Os outros dois foram mobiliados para receber visitas, e quase nunca eram utilizados, a não ser por Sabrina quando as brigas com nossa mãe se tornavam insuportáveis. Murilo leva minhas coisas para o quarto maior e mais distante do nosso, e ao ver meu olhar indagador ele explica:

- Imaginei que você não ia querer dormir no mesmo quarto que eu, e se você preferir posso me mudar para cá e deixar o quarto de casal para você, mas queria resolver isso com você primeiro.

É claro, estamos separados e não faz sentido dividirmos um quarto, assim como seria injusto tirar ele de seu próprio quarto para satisfazer um capricho meu. Tenho que criar alguns limites se quiser fazer as coisas darem certo.

- Não, tá tudo bem, esse quarto está ótimo para mim – digo.

Alguns minutos depois de ambos ficarmos em silêncio constrangedor Murilo me deixa, com a desculpa de me permitir ficar a vontade para arrumar minhas coisas. Sei que ele também precisa de um momento sozinho. Cerca de uma hora depois, com quase tudo em seu devido lugar não posso adiar mais, então saio do quarto e paro em frente a porta dela. Uma música pop alta vem de dentro do cômodo, como se ela não quisesse ser perturbada.

Depois de cerca de cinco minutos batendo, quando já estou desistindo a porta se abre, revelando uma linda jovem com uma expressão carrancuda, que me avalia assim como faço com ela.

- Você está muito bonita Maya – tenho que começar de alguma forma.

- E você está mais magra do que eu me lembro, Marina – ela responde me dando uma punhalada quando não me chama de mãe.

- Parece que os últimos anos não foram fáceis para mim, – digo, desestabilizando um pouco sua carranca – mas sei que para você eles também não foram, e mesmo assim você está linda.

- Cada um lida com a dor de forma diferente, não é mesmo? – Responde ela me provocando. Decido tentar uma abordagem diferente.

- O que você acha de irmos pra cozinha colocar o papo em dia? Posso ver se temos os ingredientes para fazer aquela panqueca que você adora.

- Agradeço, mas prefiro ficar no meu quarto sozinha. Além do mais, faz anos que não gosto de panquecas.

Dito isso, ela bate a porta na minha cara. Não me permito ficar abalada, porque sei que o caminho para me aproximar será longo, e ao que parece fui eu mesma que causei essa situação. Decido mesmo assim ir para a cozinha, já que cozinhar também me deixa mais calma, e a comida de hospital era no máximo passável.

_ _ _ _ _ _ _ _

Murilo parece ter sido atraído pelo cheiro, pois assim que termino de fazer as panquecas de chocolate ele aparece na cozinha. Ao se sentar em uma banqueta junto à bancada, ele me olha com um olhar carinhoso:

- Você estava cozinhando? Pelo que me lembro você não sabia nem cozinhar um ovo – digo rindo. Na única vez em que ele havia tentado fazer comida, o resultado foi macarrão duro, carne queimada e panelas imundas.

- Pra ser sincero eu tentei algumas vezes, mas não tive sucesso. Nem os vídeos que assisti na internet foram capazes de acabar com meu bloqueio culinário. Nossas refeições são baseadas em comida congelada enviada pela minha mãe e pela sua, e as vezes por fast food.

- Está servido? – pergunto vendo o olhar dele nas panquecas.

Comemos em silêncio, mas as vezes ele dá alguns suspiros de quem está se deliciando.

- Tentei falar com a Maya, mas ela não está muito receptiva – digo.

- Daqui a pouco ela se acostuma, não desanima – diz ele com a boca cheia. Após mais um momento de silêncio ele fala:

- Estava pensando em darmos uma volta um dia desses, só nós três. De repente ir até aquele hotel fazenda que você gostava. Talvez em um lugar diferente, nossa filha se sinta mais a vontade.

- Claro, podemos sim. Veja uma data em que você possa se ausentar do trabalho – digo, e ele só assente.

- Falando nisso, eu sei que já não tínhamos muito contato, mas eu tenho emprego? – indago. Ele me responde distraidamente.

- Não você parou de trabalhar há uns sete anos, depois que... – então ele paralisa, como se tivesse se lembrado de algo.

- Depois que? – incentivo.

- Hmm, depois que você percebeu que precisava ficar mais em casa com Maya, então você saiu do seu emprego na Brim.

Mais uma coisa sobre mim que não entendo, já que eu adorava meu trabalho, mas posso entender que na época minha prioridade era minha filha. Parece que há muitas partes da minha vida que preciso consertar para encontrar meu verdadeiro eu.

Murilo sugere que sentemos na varanda para aproveitar o clima agradável de início de primavera, e lá conversamos sobre algumas amenidades, e ele me conta tudo sobre sua empresa, que alcançou patamares altíssimos nos últimos anos, graças a gestão dele. Seu pai decidiu se aposentar há cerca de cinco anos, e desde então mora com sua esposa na casa de praia da família.

Sempre gostei do Roberto e da Cassandra, eles foram os maiores apoiadores do meu relacionamento com Murilo desde o começo, e sempre me trataram como uma filha, principalmente quando minha mãe não nos apoiava. Percebo agora o quanto sinto a falta deles.

- Nós podíamos visitar seus pais qualquer dia desses, não é?

Conheço Murilo tão bem que consigo perceber um ínfimo tremelique em sua pálpebra esquerda, que só ocorre quando ele está nervoso ou estressado, o que está obviamente acontecendo agora, mas não comento nada.

- Eles vão vir para cá no próximo fim de semana, já está tudo combinado.

- Ah, que bom! Sinto falta deles – digo mais aliviada. Pensei que havia acontecido algo entre eles e eu.

- Eles também sentem – responde ele.

Quando entramos em casa falando sobre pizza já é noite, e noto que as panquecas restantes que eu tinha deixado sobre a bancada sumiram. Parece que Maya não deixou de gostar de panquecas afinal.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top