Capítulo 8
06 de dezembro de 2002.
Marina
Procuro Aimee por todos os lugares daquela maldita festa, sem sucesso. Estou quase chorando aqui mesmo, enquanto algumas pessoas me olham de canto, e me sinto cada vez pior pelo que fiz. Não sei se as coisas que Murilo me disse eram mesmo verdade, mas fugir daquele jeito foi muito covarde de minha parte, ainda mais sabendo que em meu coração o desejo era ficar lá naquele jardim com ele, me declarando e aproveitando o momento. Agora, porém, Murilo provavelmente nem está mais lá, deve ter seguido meu conselho de curtir a festa, quem sabe com alguma garota, por isso preciso desesperadamente ir embora.
Quando entro na cozinha procurando minha amiga e a xingando mentalmente, encontro as pessoas que menos queria, as coelhinhas. A líder do bando, Bianca, me olha de cima abaixo com sua pose superior, enquanto suas amigas dão risadinhas. Me viro na intenção de sair dali, mas paro ao escutá-la:
- Parece que alguém está perdida onde não devia, não é Maria?
Eu sei que ela disse meu nome errado de propósito, mas finjo não me importar com isso.
- Sou tão convidada quanto você para essa festa Bianca, e você não ache que só porque pensa ser superior, pode me atingir de alguma forma.
- Até parece que você foi convidada! Você não pertence ao nosso meio – diz ela com aquela voz nojenta.
- Na verdade ela é a única nessa cozinha que foi convidada para estar nessa festa – diz Murilo na entrada do cômodo, e me sobressalto ao ouvir sua voz logo atrás de mim. – Não me lembro de ter convidado vocês, e acho melhor irem embora agora – ele continua com voz zangada. A situação só piora a cada momento. Todos ficam alguns segundos calados, as esnobes com caras de surpresa enquanto olham de Murilo pra mim, então resolvo me manifestar:
- Não se preocupe Murilo, eu já estou indo embora.
Ele fica me olhando com uma expressão magoada, mas não faz objeção quando passo por ele e me dirijo á saída. Nesse momento não consigo mais segurar as lágrimas, e por uma graça Divina encontro Aimee na varanda. Ela me olha, e sem dizer nada me puxa em direção a seu carro e vamos embora.
_ _ _ _ _
O sábado amanheceu nublado, assim como o meu estado de espírito. Dormi muito mal e sinto minha cabeça latejar de tanto pensar, enquanto continuo deitada em minha cama absorvendo a besteira que eu fiz. Contra todas as minhas vontades, maltratei o cara por quem obviamente sou apaixonada, tudo isso por causa das neuras da minha mãe. Vivi sempre tão focada em agradá-la que deixei de lado as minhas vontades com medo da sua reação. Tenho que decidir o rumo que quero para a minha vida, pois se eu continuar desse jeito, tudo será como Dona Judith deseja, e eu serei uma mulher com uma grande carreira e nenhum relacionamento. Sei que ainda sou jovem e tenho muito para viver, mas também sei que as escolhas que fazemos quando jovens podem ser o divisor de águas em nossas vidas.
Relembro mais uma vez a conversa com Aimee que tive após a catástrofe que foi aquela festa, onde ela me disse que eu estava sendo boba em negar a atração que sinto por Murilo, e por perder a chance de ficar junto com o cara que eu gosto. Mesmo quando eu expliquei meus medos, e também o receio de que ele não queira nada mais sério comigo, já que ele demorou tanto tempo para se declarar com medo da reação de seus "amigos", ela me fez enxergar que eu não posso definir como será o futuro em todos os âmbitos da minha vida, e que em alguns aspectos eu terei apenas que me deixar levar e ver o que o destino me reserva. Porém, agora que eu o tratei daquele jeito, duvido que eu vá ter uma nova oportunidade de conversar com ele sobre meus dilemas.
Como no momento só posso lamentar levanto sem vontade, faço minha higiene, troco de roupa e desço em direção à cozinha. Ignorando o café da manhã e com um "bom dia" desanimado para minha mãe e irmã que estão mais uma vez discutindo, pego a guia de Zeus e saio com ele para darmos uma volta e para que possa esquecer o que aconteceu. Andamos cerca de um quilômetro e meus pensamentos ainda estão em Murilo, então parece que o objetivo da caminhada não foi concluído. Zeus parece absorver meu estado de espírito, pois está inquieto como nunca vi, e está mais me guiando que sendo guiado. Quando ele começa a correr e não obedece meus comandos sou obrigada a correr junto, mas ele é mais rápido que eu. Antes da inevitável queda, consigo ter um vislumbre de um carro conhecido vindo pela estrada, e depois estou no chão de barriga para baixo e sem meu cachorro.
Virando-me, sinto a ardência dos arranhões em minhas mãos e joelhos. Antes que eu consiga pensar em levantar alguém se aproxima:
- Você se machucou Marina?
Meu Deus, ele tinha que aparecer justo agora, nesse momento tão embaraçoso? Parece que a sorte não está comigo afinal. Fico sentada na grama e encaro Murilo:
- Acho que a humilhação está doendo mais que os arranhões – admito. Enquanto isso Murilo tenta em vão segurar o riso, mas acaba gargalhando.
- Que bom que tornei seu dia mais divertido – digo sarcástica. Só depois me lembro do que aconteceu ontem, então imediatamente ruborizo, e o sorriso de Murilo some.
Sem dizer nada, ele me oferece ajuda para levantar, e só de encostar minha mão na sua sinto as já características faíscas. Ficamos nos olhando com seriedade, e tento dizer com os olhos o que minhas palavras não são capazes de desfazer, quando então lembro do motivo de ter caído:
- Preciso encontrar Zeus – digo olhando ao redor. Murilo chama minha atenção para uma árvore um pouco mais distante, onde aquele cachorro mal está olhando fixamente para um galho em que repousa um gato. Deve ser esse o motivo da minha queda afinal. Faço menção de ir lá buscá-lo, mas Murilo me segura pelo braço:
- Pode deixar que eu pego ele – e caminha em direção a árvore. Fico prestando atenção quando ele chega perto do meu cachorro. Zeus tem mania de correr quando se sente encurralado, então estou aguardando isso acontecer, mas surpreendentemente Murilo não só consegue pegá-lo como também trazê-lo sem nenhuma resistência.
- Seu cachorro é muito obediente – diz ele com um sorriso sarcástico, vendo minha cara de espanto.
- Pelo visto você tem jeito com cachorros. Agora já sei quem chamar caso ele me desobedeça novamente – digo com escárnio.
Ninguém sabe mais o que dizer depois disso, e o clima fica tenso por alguns minutos, até Murilo dizer:
- Eu estava mesmo indo até sua casa - ele diz me surpreendendo. – Trouxe uma bateria nova para o seu carro, e se você me emprestar a chave posso fazer a troca.
Fico sem palavras mais uma vez. Depois de tudo o que eu fiz ontem à noite, Murilo ainda se preocupa comigo? Onde está aquele modelo de homem que minha mãe sempre pintou?
- Não entendo. Por que você está fazendo isso? Você não precisa se preocupar comigo.
- Mas eu me preocupo Marina. Você me querendo ou não eu me importo com você e quero te ajudar. Meu pai tinha a bateria na loja e eu sei trocar, então se for esse o problema você poderá ter seu carro de volta ainda hoje.
- Agradeço muito, mas não tenho como pagar e não quero ficar devendo nada a ninguém, porque não sei quando terei condições de te devolver o dinheiro.
- E vai ficar todo esse tempo andando a pé?
Dou de ombros, porque essa é a única opção no momento.
- Podemos fazer o seguinte: - diz ele depois de pensar por alguns segundos. – Você pode me pagar aceitando meu convite para jantar essa noite em um restaurante mexicano que abriu no centro. Assim ficamos quites.
- Você quer dizer que além de ganhar uma bateria, ganho ainda um jantar? E você, o que ganha com isso? – rebato.
- O prazer da sua companhia, óbvio – diz ele com tranquilidade.
- Murilo, você sabe...
- Marina, eu sei que você não acredita no que eu disse ontem e que tem algum tipo de bloqueio com relacionamentos que eu não entendo, mas agora que resolvi me declarar não vou abrir mão de você tão fácil. Eu sei que você também sente algo por mim, caso contrário não estava insistindo. Me dá pelo menos uma chance de te mostrar quem eu sou.
Consigo ver a honestidade em seus olhos, e decido me dar uma chance de confiar nele, de me permitir viver. Ele me observa profundamente, aguardando minha resposta.
- Se você nos der uma carona até minha casa, posso deixar o Zeus e pegar as chaves do meu carro.
Aquele sorriso arrebatador toma seu rosto, e eu pra variar não consigo deixar de sorrir também.
_ _ _ _ _
Entro na sala com pressa, já tendo soltado Zeus no quintal, e demoro a perceber minha mãe próxima a janela.
- De quem é aquele carro lá fora? – pergunta ela sem rodeios. Decido ser honesta e direta:
- Murilo Sartori. Ele estuda lá na faculdade e vai me ajudar com o meu carro.
- Vocês estão saindo? – pergunta ela com a típica cara de desgosto.
- Eu gosto dele, ele se declarou pra mim e vamos jantar hoje. Então pode-se dizer que sim.
- Desse jeito você vai acabar com seu futuro minha filha. Esse cara deve estar querendo se aproveitar de você! Quando ele conseguir o que quer vai te largar sem dó nem piedade – diz ela como se o conhecesse. Meu sangue subiu, vi tudo vermelho e levantei a voz para ela como nunca havia feito antes:
- Já chega mãe! Estou farta desse seu julgamento e da sua insistência em mandar na minha vida, ok? Nunca fiz nada de errado e estou me esforçando muito para ser alguém, mas mereço ser feliz com quem eu gosto, e cabe a mim julgar se Murilo será bom ou não pra mim, entendeu?
Não dou chance de ela responder, pego a chave que está pendurada próxima a porta e saio. Quando entro no carro de Murilo, ele percebe que tem algo errado, mas não me pergunta nada. Ao olhar para ele, percebo que algo mudou em mim, parece que soltei as amarras que me prendiam. Como se concordando comigo, os primeiros raios de sol despontam do céu e vejo isso com um sinal. Antes que minha vergonha retorne, puxo Murilo pela nuca e o beijo.
Parece que enfim comecei a trilhar minha própria história.
* Na mídia, Zeus
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