Capítulo 6
23 de setembro de 2019.
Marina
Já faz três dias que acordei. Três longos dias nesse hospital, onde só o que faço é repousar e raciocinar. Perdi as contas de quantas vezes tentei forçar minha memória para que eu me lembre dos meus últimos anos, mas nada. As pessoas continuam a não me dar respostas concretas, o que me deixa cada vez mais irritada e desconfiada.
Murilo, minha mãe e Renata são presenças constantes aqui, revezando-se para não me deixar sozinha. Não consigo deixar de me sentir frustrada por não ter recebido a visita de Maya nenhuma vez, mas Murilo me disse que eles estão aguardando eu me recuperar um pouco do choque, já que minha filha não é mais como eu me lembro. Parece que Sabrina está viajando a trabalho, e se encontra neste momento em Londres, por isso também não está aqui. Em minhas lembranças, minha irmã estava com vinte e oito anos, finalmente assimilando que para realizar seus sonhos de viajar e comprar uma casa teria que ser algo mais que uma pessoa que pula de emprego em emprego. Por isso havia entrado para o curso de publicidade, aonde contra todas as expectativas vinha se destacando.
Minha mãe me contou que desde que se formou Sabrina vem se dedicando muito a sua carreira, e que trabalha há quatro anos em uma renomada agência de propaganda. Confesso que não consegui esconder minha surpresa, principalmente ao reparar no brilho dos olhos de minha mãe ao falar sobre minha irmã, já que antigamente esse brilho era direcionado a mim. Não que eu esteja com ciúme, fico muito feliz pelas duas, mas é muito difícil assimilar que os últimos anos de minha vida e tudo o que eu sabia e conhecia foram apagados de mim.
Dona Judith tem sido a pessoa que mais me atualiza sobre as coisas que esqueci: como o fato de minha cunhada Renata trabalhar aqui no hospital como pediatra e estar casada há alguns anos com Arthur, que se tornou o melhor amigo do meu marido, e que eles tem uma filha de um ano e meio chamada Melissa. Ela me falou também sobre como a empresa de importação de peças de Murilo está indo muito bem, sobre o fato de Maya ser aluna destaque na escola em que estuda, estando inclusive fluente na língua inglesa. Isso me deixa cheia de orgulho, pois lembro que Maya sempre dizia que queria ser igual a mim, que eu era a pessoa que mais a inspirava.
Neste momento minha mãe está falando sobre alguns parentes e como está a vida deles, o que sinceramente não me interessa muito neste momento.
- Mãe, me ajuda a levantar, preciso ir ao banheiro.
- Claro minha filha – diz ela me levantando. – Deixa eu te acompanhar até lá.
- Não precisa mãe, já estou me sentindo melhor, consigo me virar com um braço só – digo me escorando na parede para não forçar minha perna quebrada. Preciso sentir que posso fazer as coisas sozinha, porque nunca gostei de depender de ninguém.
Depois de fazer minhas necessidades, vou para a pia e reparo em minha imagem no espelho pela primeira vez. Inevitável ver as rugas ao redor dos meus olhos e perceber que tenho trinta e sete anos, não mais vinte e nove. Reparo também que minhas olheiras estão bem fundas, que meu cabelo está completamente sem vida, e que meu rosto está fino, fino demais. Aliás, olhando para baixo, percebo que estou abaixo do meu peso, e que meus ossos estão bem aparentes. Será que emagreci tanto assim nesse tempo no hospital? Nunca tive excesso de peso, mesmo após a gravidez sempre tive um corpo razoavelmente bonito e saudável, não muito magro.
Penso no quanto Murilo deve ter estranhado me ver assim tão magra e desleixada, e voltando a olhar no espelho tento ajeitar um pouco meus cabelos com um único braço. É então que reparo em uma cicatriz na minha testa, meio funda próxima a sobrancelha, parecendo originada de uma batida muito forte. Dá para perceber que esta cicatriz é mais antiga, já completamente fechada, e não consigo me lembrar de como a adquiri.
Voltando ao quarto vejo que Murilo chegou e que minha mãe saiu do quarto, provavelmente para comer algo. Começo a analisar seus traços, percebendo como a mudança no tempo favoreceu mais a ele do que a mim. Ele tem agora alguns fios grisalhos no cabelo, e isso só aumentou sua beleza. Sinto-me muito mal por estar tão desleixada, enquanto ele parece um Deus Grego de terno.
- Fico feliz em te ver mais disposta – diz ele chegando perto e me abraçando. Sinto as mesmas borboletas que sentia no início do nosso namoro, e fico imaginando como foram os nossos últimos oito anos como casal, se continuamos bem depois de todo esse tempo. Uma sensação estranha me faz pensar que não.
- Estou cansada de ficar deitada, preciso me sentir pelo menos um pouquinho livre dentro desse lugar – digo me sentando.
- Você sempre detestou hospitais né? Eu lembro que a primeira vez que entramos juntos aqui foi para fazer a ultrassom da Maya, e você ficava sempre olhando para fora querendo ir embora. – Ele ri com a lembrança e se senta ao meu lado, pegando minha mão boa enquanto eu continuo com um sorriso no rosto, pensando no nervosismo que senti quando tive minha primeira consulta da gravidez.
Murilo então respira fundo e muda de assunto:
- Parece que seus exames não constataram nada aparente em sua cabeça, está tudo certo. Seu braço não está tão ruim quanto à perna, que vai ter que ficar algum tempo com o gesso, mas nada que não possa ser tratado em casa. Eles pediram para você ficar aqui por mais alguns dias, pois ainda precisa de mais algumas bolsas de soro para ficar melhor, mas logo você terá alta – ele parece receoso enquanto fala, e conhecendo ele como conheço, sei que algo está o incomodando.
- Murilo, me conta o que está te incomodando – peço olhando bem em seus olhos. Ele hesita e pensa por algum tempo, mas depois parece tomar uma decisão.
- Os médicos disseram que você não reagiu tão mal ao fato de ter perdido a memória, já que depois de acordar do desmaio você parecia mais conformada, por isso decidi te contar algumas coisas sobre estes anos esquecidos antes que você saia do hospital.
- Estou mesmo muito nervosa com o fato de ninguém me dizer nada relevante sobre esse período, então pode falar que eu aguento – digo firme, apesar de estar morrendo de medo do que posso descobrir.
- Quero que saiba que pode contar comigo, independentemente da sua decisão depois do que vou te contar – ele diz enquanto acaricia minha mão, e prendo minha respiração aguardando.
- Há quase dois anos nós nos separamos. Alguns eventos fizeram com que você chegasse à conclusão de que não me queria mais, então você saiu de casa e foi morar com sua mãe. – Enquanto ele para pra tomar fôlego, percebo as lágrimas que caem de meus olhos, mas não digo nada porque sei que ele tem mais pra acrescentar.
- Desde então tem sido muito difícil para todo mundo, porque você se afastou e não nos deixava chegar perto.
- E Maya? – não me aguento, tenho que perguntar sobre ela.
- Maya foi a que mais sofreu. Ela ficou comigo quando você se foi, e você se afastou dela também, não a visitou mais nem a atendeu quando ela aparecia na casa da Judith. Nestes dois últimos anos vocês quase não tiveram nenhum contato.
- Então é por isso que ela não veio me visitar, não é?
- Sim. É por isso que tive que falar sobre o assunto agora, já que sua aproximação com ela será bem difícil. Ela é teimosa e não quer dar o braço a torcer.
Estou chorando copiosamente agora, não consigo ligar os fatos. Como eu, que sempre prezei por minha família, abandono meu marido e minha filha? Alguma coisa não bate.
- Murilo, não consigo me imaginar largando Maya assim, na verdade não me vejo nem largando você. O que aconteceu pra chegarmos a este ponto?
Ele pensa mais um pouco e finalmente me diz:
- Eu te traí Marina. Estávamos passando por uma fase difícil, brigávamos constantemente, e eu acabei tendo um caso. Quando você descobriu ficou transtornada, não queria ficar perto de ninguém e pediu o divórcio. Tentei te dissuadir desta decisão de todas as formas, e consegui te convencer a adiar o divórcio por causa da Maya, mas nunca mais reatamos.
Ainda não estou convencida, algum sexto sentido me diz que tem algo a mais nessa história. Claro que uma traição é sim motivo para separação e me machucou muito saber disso, ainda mais com a aparência que estou agora, mas isso não explica o afastamento de minha filha. Porém não tenho como saber o que estava sentindo naquele momento, e se eu não estava feliz, talvez tenha tido algum tipo de depressão. Decido não insistir nisso por ora, e coloco como objetivo primordial para quando eu sair do hospital tentar uma reaproximação com Maya.
- E o que aconteceu comigo nos dois últimos anos? – pergunto.
- Eles foram conturbados, porque você se afastou completamente, começou a frequentar bares e a aparecer bêbada regularmente, se deixou abater e parou de comer, e por isso está magra assim. A situação piorou um pouco mais há cerca de um ano, quando você começou a namorar o Rodrigo, que tinha a mesma rotina de bebedeiras e estava te levando ainda mais para o fundo do poço. Ele é aquele cara que estava aqui quando você acordou.
A história fica cada vez mais confusa para mim. Como podia estar com outro cara se sinto que ainda amo o Murilo? Quando vi aquele cara entrando no quarto, só consegui reparar em como ele estava desleixado, e senti um arrepio que nada tinha a ver com paixão. Como podia estar namorando com ele?
- Marina, eu sei que é muita coisa para assimilar, por isso resolvi te contar agora, assim você terá alguns dias para refletir. Outro motivo para eu ter te contado isso, é que você precisa decidir para onde quer ir quando sair daqui. Nos últimos tempos você estava morando com aquele cara, mas como você não se lembra dele não é uma boa ideia voltar para lá. Sua mãe disse que você pode voltar para casa, que está de portas abertas, e eu estou oferecendo também a nossa casa, que é onde Maya está e onde você tem as últimas lembranças. Aproveite os próximos dias para pensar sobre isso ok?
- Realmente é muita coisa, mas vou pensar bem antes de tomar qualquer decisão – digo tentando digerir o que escutei. – Sua namorada não ficará com ciúme? – pergunto me referindo a pessoa que foi o motivo de nossa separação.
- Hum, nós não estamos mais juntos faz algum tempo – diz ele. – Percebi a burrada que estava fazendo no momento em que você saiu de casa. Só há uma pessoa que quero ao meu lado.
Só consigo assentir, sentindo alívio por saber que ele não está com ninguém, ao mesmo tempo em que sinto um embrulho só de pensar em ver ele com outra pessoa. Ele solta minha mão e se levanta:
- Tenho que ir agora, preciso voltar pro trabalho. Mas antes quero te entregar isso:
É uma fotografia. Quando a pego, vejo uma moça muito bonita com cabelos castanhos na altura dos ombros, olhos azuis e um sorriso sincero. Apesar dos olhos, ela se parece muito comigo quando jovem, e fico contente ao ver que Maya tem sido feliz apesar do sofrimento que causei a ela. Mesmo com a passagem dos anos, não sinto estranheza ao vê-la tão crescida, porque ainda consigo enxergar a garotinha que vivia grudada nas minhas pernas. Sinto lágrimas caindo em minha blusa e afasto a foto para não estragá-la.
- Ela está muito bonita, obrigada pela foto e por estar cuidando dela tão bem. – vejo que ele também está com lágrimas nos olhos.
- Nós vamos dar um jeito nessa situação, ok? Agora volte a deitar para ficar bem e sair deste hospital. Assim que puder passo aqui novamente.
Após me dar um beijo no rosto ele vai embora, e eu fico analisando aquela foto e tentando entender o que fiz com minha vida.
* Na mídia, inspiração para Maya - Alexandra Daddario
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