Capítulo 5

06 de dezembro de 2002.

Murilo

Minha casa (ou a casa dos meus pais) está lotada de universitários com copos na mão, curtindo a primeira noite das tão sonhadas férias. Há pessoas na sala, na cozinha, na varanda, no quintal e na piscina, se refrescando do calor de dezembro. No andar de cima, todos os quartos estão trancados por ordem de meus pais e condição para que festa fosse realizada, enquanto eles curtem o fim de semana na casa de praia, carregando com eles minha emburrada irmã Renata, que queria ficar aqui comigo. Aos dezesseis anos, a caçula da família já mostra sinais de rebeldia, mas continua sendo o bebezinho para Dona Cassandra e o Senhor Roberto, o que a deixa super irritada.

Tomei todas as precauções para que nada de valor, financeiro ou sentimental, seja furtado ou quebrado, já que minha mãe tem apego por suas louças e objetos de decoração, e não quero arrumar briga. Confiro as bebidas nos coolers e na geladeira, dou uma circulada cumprimentando conhecidos e desconhecidos, e nada de Marina. Num rompante de coragem, ofereci carona a ela e reforcei o convite para a festa, contrariando a opinião de meus colegas da faculdade, que preferem as loiras de academia que vivem nos rodeando. Confesso que deixo transparecer uma atitude de pegador, de quem não está nem aí para compromisso e só quer saber de festa, mas não sou nada disso. Nunca levei ninguém pra cama por levar, o que me deixa com uma extensa lista de três nomes, todas ex-namoradas. Acumulo boas notas e nunca perco um expediente na loja de peças do meu pai.

Reparei em Marina há cerca de um ano e meio, quando a vi tentando passar despercebida pelos corredores da universidade. Apesar de se esconder em roupas severas demais para a sua idade, e exalando uma insegurança característica de quem não enxerga a própria beleza, ela não é a típica nerd desajeitada. Nada de óculos ou rabos de cavalo baixos, livros não mão ou gagueira. Marina tem lindos olhos cor de mel, cabelos lisos, castanhos e compridos, e apesar da cabeça baixa, anda com passos seguros de quem sabe de seus objetivos. Acho que ela nunca reparou em minha fixação por ela desde então, e a verdade é que nunca tive coragem de conversar com ela por medo de ser rejeitado.

Alguns colegas vêm falar comigo, comentando sobre a quantidade de garotas de biquíni ao redor da piscina, e eu finjo prestar atenção em meio à música alta enquanto checo meu relógio de pulso. Considerando que a festa começou a mais de uma hora, duvido que ela ainda venha, o que diminui e muito minhas esperanças de aproximação. Vou para a cozinha conferir os petiscos que deixei sobre a bancada e converso com mais algumas pessoas sendo um bom anfitrião, e sinto um formigamento na nuca. Ao olhar para trás, vejo ela, parada próxima da porta de entrada me encarando, e sem nem reparar se ainda estavam falando comigo vou em sua direção. Marina está linda em um vestido preto que cobre até os joelhos, o cabelo solto e um leve brilho nos lábios. Meu Deus, que mulher maravilhosa.

Parando na frente dela, a surpreendo com um abraço enquanto falo próximo ao seu ouvido:

- Fico muito feliz que tenha decidido vir. - Percebo que ela ficou arrepiada e não consigo deixar de sorrir. Ela, também sorrindo, me apresenta sua amiga, em quem até então eu nem havia reparado.

- Esta é Aimee, nós estudamos juntas - diz ela ainda encabulada.

- Prazer Aimee - respondo olhando-a pela primeira vez. Cabelos cacheados e pretos, pele morena e olhos verdes, Aimee tem uma beleza atípica, mas assim como Marina parece não perceber seus atributos. Percebo também que ela tem um olhar meio ferino, que está neste momento apontado para mim.

- Prazer Murilo - ela diz com uma risadinha. - Não precisa puxar papo porque eu sei que você só está com olhos para essa minha amiga aqui - e aponta Marina, neste momento vermelha como um tomate maduro. - Vou dar uma circulada e deixar vocês conversarem. - e já vai se afastando em direção a cozinha.

Marina fica me olhando sem saber como agir, então pego em sua mão e a levo para o quintal em direção a alguns bancos, em um local um pouco mais afastado da piscina.

- Afiada essa sua amiga né? - digo me sentando. Ela se senta ao meu lado, pousando as mãos cruzadas sobre o colo, e sorrindo me responde:

- Para ser sincera, ela me fez um longuíssimo interrogatório quando falei que viríamos a festa, já que antes do meu carro estragar lá no estacionamento eu tinha dito pra ela que não tinha a intenção de vir. Depois que expliquei o ocorrido e falei como você foi gentil comigo, ela parece crer que há algum tipo de interesse seu em mim, então quando ela foi me buscar e me encontrou de calça e blusa, me obrigou a trocar de roupa, por isso nos atrasamos.

Nunca ouvi ela falar tanto, e fico fascinado rindo para ela. Depois de perceber tudo o que havia dito, Marina fica ainda mais vermelha e cobre o rosto com as mãos.

- Meu Deus, me desculpa, nem sei por que disse isso. Não costumo ir a festas, e quando estou nervosa acabo falando demais. Acho que vou encontrar Aimee e deixar você aproveitar a festa com seus amigos – Ela fala já se levantando para sair, mas eu a seguro pela mão.

- Você não sabe o quanto eu fiquei feliz em ouvir isso, e ouso dizer que sua amiga está certa - digo ainda segurando-a.

- Sobre o quê? As roupas? - ela questiona me encarando.

Reviro os olhos, porque não acredito que ela ainda não percebeu.

- Não sobre as roupas, você fica linda de qualquer jeito. Ela está certa sobre o meu interesse por você - começo a puxá-la em minha direção, mas ela me empurra dando risada.

- Tá bom, você quer que eu acredite que, com todas essas meninas de biquíni aqui, te olhando como se você fosse a refeição, você esteja a fim de mim? Não me considero feia, mas sei que não tenho o padrão de beleza que agrada a maioria dos homens.

- Na verdade, você tem o padrão de beleza que me agrada, Marina. Eu te acho linda! - quando termino de falar ela se afasta um pouco e vira de costas, pensativa. Quando se vira novamente para mim, vejo dúvida e desconfiança em seu olhar.

- Por quê? Por que eu? Eu sei que você não me conhece tão bem, mas não sou de ter casos ocasionais, então não vejo porque você tem interesse em mim quando eu sei que você não é de ter nada sério. Seus amigos te influenciaram nisso? Aquelas garotas que insistem em me provocar? - Vejo que ela começa a acumular lágrimas nos olhos.

- Marina, por favor, senta aqui comigo. - Ela se aproxima e se senta, ainda que um pouco afastada. Quando encosto a mão em seu rosto e o viro para mim, ela não protesta, mas ainda está com aquele olhar receoso. Decido então ser honesto com ela, deixando de lado minhas próprias inseguranças.

- Há cerca de um ano e meio eu te vi pela primeira vez. Eu sei que você já estuda lá no campus há mais tempo, mas confesso que antes disso eu tinha exatamente o gosto por esse tipo de mulher que você mencionou. Quando vi você passando no corredor me chamou a atenção na mesma hora, e então você parou para conversar com alguém, e tinha no rosto um sorriso tão lindo que não consegui desviar os olhos. Foi aquela típica cena clichê de filmes, atração à primeira vista, sabe? Desde então eu não consigo mais te tirar da minha cabeça. Por muito tempo fiquei apenas te observando nos intervalos e no estacionamento, mas de uns meses para cá isso passou a não ser mais suficiente. Comecei a reparar em seus hábitos, como em determinados dias você ia embora por um caminho, provavelmente seu trabalho, e alguns ia para o outro lado, que deduzi ser sua casa. Por isso em um dos dias em que você ia em direção ao interior eu te segui. Não me orgulho de ter feito isso, mas também não me arrependo, porque depois de descobrir seu endereço comecei a passar às vezes em frente a sua casa, sempre no fim de semana para ver se te encontrava, para quem sabe tentar uma aproximação. Foi em uma dessas passadas que te vi brincando com Zeus, e posso afirmar que ali me apaixonei um pouco mais por você. Desde então não consigo mais olhar com interesse para mais ninguém...

Acho que já parei de falar a uns cinco minutos, mas Marina ainda continua me olhando com os olhos meio arregalados sem dizer nada.

- Diz alguma coisa, por favor. Tô me sentindo meio rejeitado aqui, depois de abrir meu coração - suplico. Ela parece então voltar a si.

- Eu, eu preciso ir embora Murilo. Me desculpa, mas eu não posso - ela diz já se levantando e se afastando rapidamente.

Quanto a mim, parece que perdi a capacidade de levantar daqui.

* Na mídia, inspiração para Murilo - Dean Geyer

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