Capítulo 29

23 de fevereiro de 2020.

Murilo

Acordo cedo, já nervoso por tudo o que preparei para hoje. Marina ainda dorme ao meu lado, e decido acordá-la de maneira diferente. Saio de fininho do quarto e me dirijo à cozinha, constatando ao passar pelo corredor que Maya já foi para a casa da avó organizar tudo, conforme combinado com Aimee. Fico muito feliz que a melhor amiga da minha esposa tenha finalmente me perdoado por tudo, e que esteja ao meu lado mais uma vez.

No andar de baixo, preparo um café e tiro do armário, onde eu havia escondido ontem a noite enquanto Marina dormia, as guloseimas que havia comprado para o nosso café-da-manhã especial, e que consistem em docinhos confeitados, orelha de gato e rosquinhas salgadas, coisas que sei que minha esposa adora.

Com tudo pronto e posto em uma bandeja, junto com uma rosa que colhi do jardim, volto ao quarto onde Marina ainda dorme profundamente. Deixando a bandeja em cima da cômoda, me aproximo devagar dela e começo a distribuir beijos por seu rosto e pescoço, ao mesmo tempo em que acaricio seu corpo de forma maliciosa. Quando desperta e sente minha presença animadinha, Marina logo corresponde, e em pouco tempo somos uma mistura de corpos e roupas voando. Nunca me canso de admirar a beleza dessa mulher, de observar seu corpo e fazê-la sentir prazer, de fazer amor com ela por todo o tempo que ainda nos resta, de dizer o quanto eu a amo quando ela se entrega a mim desse jeito, sem reservas.

Quando estamos os dois cansados e suados pelo sexo matinal, Marina se vira pra mim e diz:

- Se for para ser acordada desse jeito todos os dias, faço questão de dormir sempre até mais tarde.

- Pode ter certeza que será um enorme prazer amor - respondo com um sorrisinho.

Quando saímos do banho, onde trocamos carinhos e beijos, peço para Marina sentar-se na cama, ainda usando somente o roupão, e coloco a bandeja á sua frente.

- Algum motivo especial para todo esse tratamento vip? - ela me indaga, cheirando a rosa que pegou da bandeja.

- Apenas querendo agradar minha esposa - respondo. Se ela soubesse tudo o que vai acontecer hoje...

Tomamos nosso café com tranquilidade, enquanto conversávamos e ríamos, e então pedi para Marina colocar uma roupa leve para levá-la ao primeiro destino do dia. Mesmo quando ela tentou me persuadir a falar com carícias nos lugares certos, eu não cedi. Apesar de nosso primeiro destino ser um local triste, achei importante quebrarmos essa barreira hoje, antes de continuar com os planos do dia.

Como minha esposa nunca havia ido até esse local, ela não reconheceu o caminho, e nem indagou quando eu parei em uma floricultura e comprei um buquê de girassóis. Porém, quando chegamos ao local, eu senti que ela ficou tensa ao meu lado, e que soube imediatamente do que se tratava.

- Ele está aqui? - foi só o que ela me perguntou, e eu somente anuí, sem dizer nada.

O caminho até onde Théo estava enterrado foi feito em silêncio, enquanto eu e ela, de mãos dadas, tentávamos digerir a importância desse gesto. Quando nosso filho partiu, Marina estava no hospital desacordada, e por isso não compareceu a seu enterro, e mesmo antes de começar a se afogar no álcool, ela não quis vir aqui porque não aceitava que havia perdido ele.

Paramos em frente ao local, e imediatamente meus olhos se enchem de lágrimas, assim como os de Marina. Contrariando minhas expectativas, ela se senta na grama ao lado da lápide, e faz sinal para que eu também o faça, enquanto colocamos os girassóis em um vaso. Ela fica calada por algum tempo analisando a foto de nosso filho, bem como a frase que pedi para colocarem abaixo das datas de nascimento e morte: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã".

- Eu adorei a frase que você colocou - diz Marina com a voz embargada. - Aproveitando que estamos aqui, preciso te contar algumas coisas. Como você já deve saber, o menino com quem eu sonhava todas as noites era Théo, então mesmo que eu não lembrasse dele conscientemente, eu nunca o esqueci de verdade.

- Sim meu amor, e eu sinto muito por ter ignorado a sua dor naquela época, eu só não sabia o que fazer, porque tinha medo de que você se lembrasse de tudo e fosse embora da minha vida - respondo segurando suas mãos.

- Eu sei Murilo, e não te culpo por isso. Na verdade, eu aguardava ansiosamente por esse sonho todas as noites, porque sabia que aquele menino era especial. Quando eu recuperei a memória, eu parei de sonhar com ele, e isso me entristeceu muito. Até que tive um sonho com ele mais uma vez, na noite em que Rodrigo atacou você. Esse sonho foi diferente dos demais porque eu sabia quem ele era, e ele não estava fugindo de mim, estava rindo e brincando na praia como ele sempre adorou fazer. Era diferente também porque eu sabia que ele tinha morrido, e tive a oportunidade de abraçá-lo muito e de dizer o quanto eu o amo - diz Marina sem conter a emoção, enquanto acaricia a foto de Théo. Nem sei o que dizer nesse momento, então apenas continuo acariciando suas mãos, permitindo que ela continue.

- Ele me disse também que está em lugar muito bom onde ele pode brincar o dia todo, e que Deus está cuidando dele muito bem. Parece que esse sonho foi a oportunidade que tive para pedir desculpas ao nosso filho, para poder me despedir dele, e para amenizar um pouco a dor da perda dele. Mesmo quando ele foi embora, pouco antes de eu acordar, eu não me senti mais triste, fui invadida por uma paz imensa. Sou extremamente grata por esse sonho, porque a partir dele eu pude recomeçar.

Choro copiosamente agora enquanto absorvo tudo que Marina me disse. Mesmo sabendo que ela tinha recuperado a memória, fiquei apreensivo de falar sobre Théo com ela, com medo que a depressão voltasse, mas agora vejo que minha mulher está muito mais forte, e que voltou a ser o alicerce de nossa família. Como me orgulho da mulher que Marina se tornou, e de como ela conseguiu dar a volta por cima mesmo com tudo o que aconteceu em nossas vidas.

Ficamos mais algum tempo ainda ao lado do túmulo de nosso filho, enquanto Marina faz algumas orações. Surpreendendo-a, eu começo a rezar junto com ela. Acho que está na hora de eu entender que Deus me tirou, mas também me deu muitas coisas, e que preciso agradecer também ao invés de só pedir. Prometo a mim mesmo que a partir de agora, vou junto com minha família nas missas, sem nenhuma desculpa.

Quando deixamos o cemitério, foco em temas mais leves para dissipar a onda de tristeza que naturalmente nos cerca, antes de colocar em prática a próxima parte do meu plano. Coloco uma música que sei que ela gosta, e depois de um tempo ela até se arrisca a cantar junto. Ambos sorrimos e aproveitamos a paz que se instala dentro do veículo. Depois de um tempo, ela diz:

- Obrigada por ter me levado lá. Eu não sabia o quanto precisava disso, mas agora vejo que era crucial que eu visitasse o local onde meu filho está. A partir de agora, pretendo ir lá com frequência.

- Fico feliz que você pense da mesma forma que eu amor. Posso ir lá com você sempre que você quiser.

Ela apenas sorri e volta seu olhar para a janela. Mais algum tempo depois, quando estamos passando pelo centro, sugiro que almocemos em um restaurante que ela sempre adorou, e que está no planejamento de hoje. Quando ela anui, tenho a convicção de que a partir de agora o dia de hoje será só de alegrias.

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