Capítulo 25
17 de fevereiro de 2020.
Murilo
- Você tem certeza que ela tá bem, mãe? - pergunto pela milésima vez.
- Sim Murilo, desde que ela acordou aqui em casa e falou que tinha recuperado a memória estamos observando as reações dela. Ela parece estar lidando com tudo muito melhor do que antes, até me procurou pra falar que marcou uma consulta com uma psicóloga aqui da cidade, e me pediu se eu posso levar ela lá amanhã - responde minha mãe.
- Será que eu não posso ao menos..
- Não Murilo, dê um tempo a ela, por favor. Eu tenho falado pra ela sobre as suas ligações todos os dias, e ela não parece estar magoada com você, ela apenas precisa de um tempo pra assimilar tudo o que aconteceu. Tenha paciência que na hora em que ela se sentir preparada tenho certeza que ela vai falar com você.
- Ok, eu entendo, só fico angustiado de ter que me manter afastado dela e de Maya agora que estava indo tudo tão bem - respondo.
- Vocês estavam juntos de novo, não estavam? - pergunta Dona Cassandra.
Não sei o que responder, considerando que minha mãe era contra o retorno de Marina pra casa quando ela perdeu a memória, e sei que ela se opõe a deixarmos que Marina entre de novo em nossas vidas, mas não sei como mentir sobre isso.
- Filho, você não precisa mentir - diz ela antes que eu possa pensar no que responder. - Eu percebi que algo estava diferente no natal, mas não comentei nada porque não sabia o que pensar a respeito. Eu sei que fui contra o retorno dela depois de todo o sofrimento pelo qual vocês passaram, mas agora vejo que foi a melhor decisão que você poderia ter tomado, e estou feliz que você e Marina tenham conseguido se acertar afinal. Torço muito pra que vocês voltem a ser aquele casal cheio de sonhos que encontrei pela primeira vez no meu sofá da sala - continua ela rindo.
Não posso deixar de rir também, apesar das lágrimas que sinto escorrerem por meu rosto. Não tinha percebido até agora como é importante ter o apoio da minha família em minhas decisões, e saber que tudo o que fiz nos últimos meses valeu a pena me traz uma alegria imensa.
- Obrigada mãe, você não sabe como é bom ouvir isso. Eu amo a Marina desde sempre, e sinto uma imensa paz por ter trazido ela de volta para nós - falo enxugando as lágrimas. - E sim, eu vou dar mais um tempo pra ela colocar a própria vida nos eixos antes de me aproximar de novo, mas, por favor, diz pra ela que eu a amo muito e que estou com muitas saudades. Repassa esse recado também pra Maya, é muito difícil não ter a minha companheira em casa todos os dias.
- Pode deixar Murilo, eu falo sim. As duas estão agora dando uma volta na praia, consigo vê-las aqui da varanda, elas estão caminhando de mãos dadas enquanto molham os pés. É uma cena muito bonita de se ver.
Fico surpreso por Marina estar na praia, considerando as milhares de lembranças que temos desse lugar com nosso filho, mas acredito que essa seja uma parte importante em seu processo de recuperação, e fico feliz que esteja enfim superando tudo.
- Então tá bom mãe, vou deixar você aí curtindo a vista. Preciso trabalhar mais um pouco antes de ir jantar na casa da Renata.
- Meu filho, você precisa de alguém pra te ajudar aí na empresa para que você possa trabalhar menos e ficar mais tempo com sua família. Não é saudável trabalhar tanto desse jeito.
- Eu sei mãe, vou pensar em alguma solução, ok? Muito obrigado por cuidar tão bem da Marina e da Maya. Você e o pai se cuidem também, eu amo todos vocês.
- Não precisa me agradecer meu filho, a Marina é como se fosse minha filha também, e eu quero ver todos bem e felizes. E pode deixar que eu e seu pai estamos nos cuidando. Agora mesmo seu pai está na sala assistindo algum jogo de futebol, consigo ouvir ele gritando com os jogadores daqui, como se eles pudessem ouvir ele - diz ela rindo. - Nós também amamos você Murilo.
Depois de falar com minha mãe, trabalho ainda por cerca de uma hora até perceber que já passa da hora de eu ir pra casa de Renata, que me aguarda pra jantar com ela, seu marido Arthur e a filhinha deles Melissa. Arthur tem sido meu amigo desde que começou a namorar minha irmã, e ultimamente tem me dado sábios conselhos sobre minha situação com Marina. Mando uma mensagem pra Renata avisando que estou a caminho, e assim que coloco o celular no bolso e desligo meu notebook escuto um barulho estranho vindo do andar de baixo da empresa, onde fica o estoque de peças.
Assim que desço as escadas a fim de verificar a origem do barulho, sou atingido na cabeça por trás e apago.
- - -
Quando acordo, ainda meio zonzo e com dor no local onde fui atingido, percebo que estou amarrado a uma cadeira, ainda na minha empresa, e que na minha frente está ninguém mais ninguém menos que Rodrigo, que está de costas pra mim observando alguma coisa. Ao mesmo tempo, sinto meu celular vibrar no bolso de trás da minha calça com alguma ligação, e tento sem sucesso tirá-lo do bolso com minhas mãos amarradas as costas. Ele toca mais uma vez, e lembro que ativei uma função para atendê-lo pressionando o botão de liga/desliga, já que por vezes eu me atrapalho com esse teclado touchscreen. Com muito cuidado pra não chamar a atenção de Rodrigo, que continua de costas, me contorço para conseguir chegar ao botão, e consigo após algumas tentativas pressioná-lo, rezando para que tenha dado certo, e para que seja Renata ao telefone. Com medo de que a pessoa do outro lado da linha desligue, eu decido chamar a atenção de Rodrigo para que quem quer que esteja no telefone saiba que eu estou em perigo.
- Rodrigo? O que você está fazendo aqui? O que quer de mim?
- Ah, finalmente você acordou Murilo, achei que tinha te matado apenas com um golpe na cabeça, seu molenga - diz ele rindo.
Percebo que ele está falando arrastado, e consigo sentir o cheiro de bebida mesmo que ele esteja um pouco afastado.
- O que você quer? - tento mais uma vez.
- Acabar com você, é claro. Isso depois de você me mostrar onde guarda dinheiro aqui nessa espelunca. Preciso de grana pra comprar outro carro, já que aquela vadia acabou com o meu!
- Não chame a Marina assim, seu desgraçado! Nunca mais diga o nome dela ou se dirija a ela! - digo gritando. Sei que estou em desvantagem, já que estou amarrado, mas não consigo mais olhar pra cara desse homem que tanto feriu a mulher que eu amo.
- Você vê bem como fala comigo, seu mauricinho de merda! - grita ele, apontando uma arma, que até então eu não tinha visto em sua mão, para mim.
Realmente espero que alguém esteja me ouvindo no telefone, caso contrário eu não vou sair daqui vivo. Tento não me desesperar e tentar pensar com clareza apesar da dor latejante em minha cabeça.
- Mais uma coisa, mauricinho. Depois de pegar minha grana e te matar, vou atrás da Marina onde quer que você a tenha escondido, porque ela é minha agora! - diz Rodrigo se aproximando, ainda com a arma apontada pra mim.
- Você não ouse chegar perto dela de novo! A Marina é boa demais pra você, seu bêbado! - esbravejo.
- E para onde você acha que ela vai depois que eu me livrar de você, playboy? Ela vai correr para o bar e para os meus braços, de onde nunca devia ter saído. Nós vamos nos divertir muito juntos, se é que você me entende. Encontrei com ela esses dias no mercado, e ela está muito mais bonita do que quando fugiu com meu carro. Que corpo!
- A Marina nunca vai voltar pra você, seu imundo, porque ela sabe agora o quanto você fez mal a ela.
- Veremos playboy, veremos. Agora me fala, onde fica a grana?
- Se você me soltar posso te levar até o cofre que fica no meu escritório - respondo formando um plano.
- Você acha que eu sou idiota de te soltar?
- Meu cofre só abre com a minha digital, então você vai precisar de mim pra ter acesso ao dinheiro - minto.
- Ou eu poderia cortar a sua mão, não é mesmo? Mas não trouxe nenhuma faca comigo, então vamos lá - diz ele me puxando da cadeira enquanto me desamarra. Quando estou em pé, ele me faz ir à frente com a arma encostada em minha nuca, e sei que qualquer movimento em falso será fatal pra mim.
Quando estamos subindo as escadas, sinto que ele tropeça ao não enxergar o degrau devido ao seu grau de embriaguez, e então reajo. Ao me virar, consigo segurar a arma em sua mão, e acabamos em uma luta corporal pra ver quem consegue ficar com o objeto, que está sendo segurado por ambos na altura do peito. Nos desiquilibramos e acabamos rolando escada abaixo, enquanto sirenes podem ser ouvidas se aproximando.
Antes que eu possa comemorar que alguém tenha realmente me escutado ao telefone, a arma que estava entre mim e Rodrigo dispara ao mesmo tempo em que caímos no chão, e tudo fica escuro.
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