Capítulo 22
10 de fevereiro de 2020.
Marina
Não sei como consegui chegar em casa ilesa, já que não prestei atenção no trânsito e passei todo o trajeto para casa dirigindo no automático. Deveria ter mais cuidado, já que parece que sofri mais de um acidente de carro.
Sei que tenho que ser rápida porque a hora do almoço se aproxima e minha família logo estará em casa, mas não sei o que fazer para entrar naquele quarto trancado, por isso sento frustrada no sofá. Olho ao redor tentando ter alguma ideia e lembro de um vaso que fica na estante e que contém as chaves reserva de todas as portas, ou pelo menos continha. Não custa tentar a sorte.
Subo as escadas com o molho de chaves (que continuava no mesmo lugar), paro em frente a porta e fico testando-as no trinco para ver se alguma encaixa, mas essa tarefa é prejudicada pela tremedeira em minhas mãos, que não consigo controlar. Quando uma chave encaixa perfeitamente e me permite destrancar a porta, respiro fundo tentando me preparar para o que quer que seja, mas entrando no cômodo vejo que está vazio. Olhando ao redor consigo perceber que as paredes foram pintadas recentemente, mas ainda é possível ver algumas formas do que deve ter sido um desenho próximo a janela. Minha mente está a mil, como se estivesse tentando me mandar alguma mensagem assim como fez quando Rodrigo me ameaçou, mas nada de concreto surge. Quando estou prestes a fechar a porta e deixar o quarto, reparo que nenhum vidro da janela está quebrado, o que reforça minhas suspeitas de que Murilo mentiu. Preciso descobrir o que aconteceu e porque estão me escondendo alguma coisa, mas o que faço agora? Minhas esperanças estavam neste quarto, que aparentemente não esconde nada.
Desiludida, sigo pelo corredor para voltar ao andar de baixo, mas estanco ao reparar na escada que leva para outro cômodo onde nunca mais entrei: o sótão. É óbvio!
Subo correndo e utilizo mais uma vez o molho de chaves para abrir a porta, e consigo na terceira tentativa. A adrenalina que corre em minhas veias me faz ter certeza de que aqui vou encontrar algo importante. Reparo nas caixas cobertas de poeira, em alguns móveis que não são utilizados há algum tempo, em um cabideiro com roupas que devem ter sido usadas como fantasia, mas nada que me chame à atenção. Sigo mais a fundo, procurando nem sei o quê, e meu sangue gela quando vejo caixas novinhas, colocadas em um ponto estratégico para não serem vistas num primeiro momento, e sinto que encontrei o que procurava.
Abro uma a uma, e vejo sacolas que parecem conter roupas, brinquedos que não parecem ter sido muito usados, porque ainda mantém um aspecto bonito, e álbuns de fotos. Descarto por enquanto os demais itens e pego dois álbuns, no momento em que minha mente me manda um flash de memória. O álbum que está em cima tem na capa vários bichinhos, e me lembrei do momento em que o comprei. Maya, que parecia ter uns 8 ou 9 anos, fazia birra porque queria um sorvete, e eu estava comprando vários itens para o bebê, já que estava... Não, não é possível.
Tremendo muito e com o coração disparado, abro o álbum de bichinhos e me deparo com um bebê recém-nascido que parece gritar a plenos pulmões em um berço de hospital. Na página seguinte, este mesmo bebê está em meu colo enrolado em um lençol, e eu, suada e descabelada, pareço ter acabado de dar a luz a ele. Fecho o álbum num rompante.
- E-eu, tive outro filho? - Sussurro para mim mesma. Como é possível que eu tenha me esquecido disso? Mas então, onde ele está agora?
Com lágrimas nos olhos, deixo esse álbum para trás e pego o próximo, que tem um carrinho na capa. Já na primeira página, o menino sorridente com apenas dois dentes na parte superior da boca olha para a câmera enquanto segura um cavalinho, que posso ver entre os brinquedos que encontrei na outra caixa. Ele é lindo, e se parece mais com Murilo do que Maya, já que além dos olhos, seus cabelos são claros como os do pai. Na foto seguinte, ele já um pouco maior está com boias nos braços ao lado de uma piscina enquanto faz um sinal de joia. Reparo em seus traços sentindo familiaridade, e acredito que isso venha de minhas memórias perdidas, mas então percebo que na verdade eu o reconheço por outro motivo: É com ele que sonho todas as noites desde que acordei no hospital. Ele é o menino que ri como uma criança feliz de mãos dadas comigo, mas que noite após noite me deixa enquanto eu grito para que ele volte, sem saber seu nome.
Preciso sair daqui, preciso de minhas memórias, preciso saber o que aconteceu. Levando comigo os dois álbuns, saio do sótão fechando a porta e desço em direção ao meu carro. Saio da garagem e dirijo por algumas quadras sem saber para onde estou indo, então encosto em um supermercado para decidir o que fazer. As imagens do meu sonho me vem a cabeça, e tento focar na praia em que estou com a criança, que é sempre a mesma. Acho que sei onde esta praia fica, e é pra lá que eu vou.
Me concentro de momento apenas na estrada, deixando em segundo plano o turbilhão de pensamentos que passam por minha mente, e ignoro quando meu celular toca incessantemente, indicando que Murilo e Maya já chegaram em casa.
Quarenta minutos depois, quando falta pouco para chegar a meu destino e passo por um cruzamento, sinto um terror tão grande ao olhar para a esquerda que é como se eu tivesse vivido algo de muito ruim aqui. Preciso parar o carro no acostamento e me acalmar um pouco antes de seguir em frente, e consigo fazer isso uns cinco minutos depois, após me convencer de que vou encontrar lá as respostas para as milhares de perguntas que me cercam.
Alguns quilômetros depois eu finalmente chego, e estaciono em um local próximo a praia, porém distante da casa que frequentei tantas vezes nos últimos dezessete anos: a casa de praia de meus sogros. Sei que eles devem estar lá agora, curtindo sua tão sonhada aposentadoria de frente para o mar. Sempre gostei muito de vir aqui, mas agora sinto apenas uma grande tristeza e vazio, me dando a certeza de que o que quer que tenha acontecido envolve esse lugar de algum modo. Como o dia está nublado e meio frio a praia está vazia, então estendo meu casaco na areia e me sento com um dos álbuns de fotos no colo. Não reprimo as lágrimas que agora caem sem descanso, e folheio as páginas observando aquele garoto, até chegar a uma foto em que estamos nesse exato lugar, posando como uma família feliz: Eu de mãos dadas com Maya e abraçada a Murilo, que segura o menino no colo. Embaixo da foto, diferentemente das demais, há uma legenda escrita por mim:
"Quando tudo estiver difícil, lembre-se de que a base de tudo são eles: Murilo, Maya e Théo."
O menino de meus sonhos se chama Théo.
Como se uma luz tivesse se acendido em minha mente, que estava há meses no escuro, lembro nitidamente de Théo, de todos os nossos momentos juntos, de nossa família, de minha vida. Minha memória finalmente retornou.
Me lembro de tudo, inclusive de que esta criança linda não está mais entre nós, e que fui eu quem causou a morte dele, fui eu a responsável pela morte do meu filho.
Meu coração dói como se tivesse sido partido ao meio, mas minha mente não processa mais nada. Tudo começa a ficar escuro, e ao longe escuto gritos que mesmo em meu vazio, percebo serem meus. Então a consciência me escapa e tudo fica em silêncio.
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