Capítulo 20
10 de fevereiro de 2020.
Marina
A rotina, a vida normal, podem ser consideradas chatas e desgastantes por muitos, mas eu tenho adorado o parâmetro estabelecido em minha vida durante os últimos cinco meses. Minha relação com Murilo atingiu patamares que só existiam quando começamos a namorar, tamanha é a nossa cumplicidade e nossa química. A única coisa que só tem aumentado desde então é nosso amor, tanto mutuamente quanto por nossa filha, que também deixou de lado os muros que a cercavam com relação a mim, e tem me tratado verdadeiramente como mãe. Tenho me permitido até fazer alguns planos futuros, como arranjar um emprego, já que minha meta principal, que era de me aproximar de Maya, parece ter sido atingida.
Tenho saído muito com minha mãe e com minha filha, vamos ao cinema, as compras, a missa, ou apenas ficamos de bobeira em casa ou na casa de Dona Judith. Ela inclusive tem me ajudado a ensinar Maya a cozinhar, junto com minha cunhada Renata, então passamos horas na cozinha olhando receitas e deixando Murilo muito feliz com a diversidade de comidas para o jantar, enquanto ele e o cunhado Arthur brincam com a pequena Melissa na sala. Aprendi a fazer ligações de vídeo pelo celular, e tenho conversado bastante com minha irmã, que parece muito feliz com sua carreira na Europa. Consigo me sentir plenamente feliz por ela agora, vendo o brilho em seus olhos quando fala sobre a própria vida, e fico ainda mais contente com o apoio dela em minha relação com meu marido.
Apesar de não ter obtido nenhum avanço quanto a minha memória, quanto ao sonho com a criança, quanto a me reaproximar de Aimee ou quanto ao segredo que eu sei que minha família esconde, tenho me sentido cada vez menos complexada com estes assuntos, e estou deixando o tempo passar e me mostrar o que é relevante, com a certeza de que na hora certa a verdade aparecerá. O que é certo é meu receio de que o que me escondem seja algo muito grave, que possa estragar as relações que recuperei nos últimos meses, e acho que esse é o grande motivo pelo qual eu desisti de minhas parcas investigações.
Consigo me sentir plena até no trânsito que nunca alivia nessa cidade enquanto vou ao mercado, ou na demora na fila do caixa para pagar pelas compras. Esse sentimento bom me abandona porém quando chego ao estacionamento e vejo uma figura encostada em meu carro, me observando com um sorriso que continua me deixando apreensiva sem saber o motivo. Quando me aproximo, Rodrigo faz menção de me abraçar, mas recua ao ver minha expressão de desespero. Ignorando meu gesto, ele fala como se fôssemos velhos amigos:
- Como vai Marina? Faz tempo que não te vejo.
Decido ser educada para ver se ele vai logo embora, e tento não pensar no que pode fazer, já que estou sozinha com ele pela primeira vez desde a saída do hospital.
- Vou bem Rodrigo, e você?
- Morrendo de saudades da minha namorada, da minha companheira, que me abandonou e não quer mais saber de mim - ele diz com certa raiva, e sinto meus pelos se arrepiarem. Parece que não vou poder ter uma conversa civilizada com este homem.
- Por que você está aqui? Está me seguindo? - pergunto colocando as compras no porta-malas do carro e rezando para que ele não repare na minha pressa.
- Desde que você saiu do hospital tenho sido paciente com você Marina, mas não tive nenhuma recompensa com isso, muito pelo contrário. Todas as vezes que tentei me aproximar fui afastado por aqueles sangue-sugas que você chama de família. Quero saber quando você vai voltar para mim, quando vamos retornar nossa vida, entendeu? Estou cansado de esperar! - nesse momento ele já está gritando, e eu não sei como reagir, assim como algumas pessoas que olham em nossa direção com desconfiança.
- Olha só Rodrigo, eu sei que tivemos um relacionamento apenas porque Murilo e minha mãe me disseram, porque eu não me lembro de nada do que aconteceu na minha vida durante os últimos oito anos. Você tem noção do que é isso? Eu preciso de tempo para assimilar as coisas, para entender!
Faço menção de entrar no carro, mas Rodrigo me segura fortemente pelo braço, me machucando. Na mesma hora tenho um lapso de memória, em que ele está em cima de mim, com uma expressão de raiva que beira a loucura, me dando repetidos tapas no rosto. Finalmente sei o motivo de todo esse medo que sinto perto dele! Não me permito porém sentir alívio por finalmente lembrar de algo, já que sei que estou em perigo.
- Você está dormindo com seu maridinho, não está? - diz ele me chacoalhando. Não consigo responder, tamanho é o meu medo.
- Responde Marina! - exige ele.
- Isso não é da sua conta! Me deixa em paz com a minha família!
- Ah, claro que Murilo iria se aproveitar do fato de você não se lembrar de nada para te levar pra cama, já que ele queria isso desde que você saiu de casa. O que não sei porém é como ele conseguiu te perdoar pelo que você fez! - ele grita ainda me machucando, mas já não consigo sentir dor física, apenas um sentimento ruim com o que ele disse.
- O que eu fiz? - pergunto tão baixo que não sei como ele ouviu.
- Virou uma bêbada perdida que não pensava mais em ninguém, nem em si mesma. Quando te conheci você ainda dava pro gasto, mas nos últimos tempos estava tão acabada que até pensei em te largar, mas meu amor por você falou mais alto, e eu acabei ficando. E eles te deixaram chegar nesse estado, desistiram de tentar te ajudar, te abandonaram! Eu fui o único que ficou do seu lado, escutando suas lamúrias sobre o quanto se sentia culpada e blábláblá. E depois de tudo isso você ainda teve coragem de pegar o MEU carro e causar mais um acidente! Você destruiu tudo Marina! Meu carro, nossa relação, minha vida!
A cada frase dita Rodrigo me apertava de um jeito que com certeza deixaria marcas, mas a dormência que estava sentindo nada tinha a ver com suas agressões físicas, e sim verbais. Do quê ele está falando? Não tenho chance de questionar ele, pois os seguranças do mercado finalmente se aproximam e o tiram de perto de mim, me liberando das garras desse monstro.
Antes que alguém tente me impedir, entro em meu carro e saio cantando pneu, dirigindo no automático com um único objetivo: abrir aquele maldito quarto e me livrar da suspeita de ter feito algo terrível. Ou pior ainda: confirmá-la.
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