Capítulo 2
20 de setembro de 2019.
Murilo
Não consigo me lembrar da última vez que tive sossego em minha vida. Sinto uma saudade imensa da felicidade que vivia até alguns anos atrás, quando tudo desabou. Apesar de os negócios da família irem muito bem, obrigado, eu trocaria tudo o que tenho pela oportunidade de voltar no tempo e mudar os acontecimentos que resultaram nessa catástrofe que virou a minha vida.
Meu telefone toca, e sei quem é antes de tirar o aparelho do bolso.
- Ela acordou - diz minha irmã Renata do outro lado da linha. - Acho melhor você vir para cá com urgência.
Despeço-me dela enquanto procuro pelas minhas chaves. Minha irmã trabalha como pediatra no hospital local há três anos, e tem sido meu canal de comunicação sobre o estado de Marina.
Chegando a recepção do hospital, sou informado que minha entrada foi liberada e o número do quarto. No corredor indicado, escuto vozes alteradas vindas do quarto onde ela está, e a visão que tenho quando entro nele me deixa perturbado. Rodrigo está lá, sendo detido por dois seguranças enquanto tenta chegar perto de Marina, enquanto ela, chorando e com um olhar assustado, abraça minha irmã.
- O que está acontecendo aqui? - Pergunto. Marina então percebe minha presença, e acredito ter visto certo alívio em suas feições.
- Murilo, que bom que está aqui! - Diz ela.
Sem entender nada, me aproximo da cama e pego sua mão.
- Tire suas mãos dela, seu babaca! - Grita Rodrigo ainda retido. Nunca gostei desse homem, mas agora ele está passando dos limites.
- Murilo, tira esse homem daqui, eu não sei quem ele acha que eu sou, mas deve estar maluco! - Sussurra Marina.
Como assim? Quem não está entendendo nada sou eu. Percebo que o Doutor Roberts está no canto do quarto, e ele aproveita-se do momento para sinalizar que precisa falar comigo lá fora.
- Marina, fica calma, por favor, você precisa descansar. Vou levar ele para fora e já volto ok? - Digo soltando a sua mão. - Renata ficará aqui com você.
Peço aos seguranças que levem Rodrigo do quarto, e ele parece perceber que não adianta insistir agora.
Já no corredor, visualizo minha ex-sogra chegando rapidamente. Ela me cumprimenta com um aceno de cabeça, e nem olha para Rodrigo.
- Que bom que chegou Dona Judith - diz o Doutor - assim posso explicar a situação a todos de uma só vez. - Ficamos todos em um silêncio nervoso enquanto o médico suspira e pensa em como nos falar o que aconteceu.
- Como vocês sabem, Marina teve um trauma na cabeça causado pelo impacto que sofreu. É comum nestes casos que alguma sequela se apresente, então fiz um teste psicológico para avaliar o estado mental dela. O problema é que, aparentemente, ela perdeu sua memória recente.
Silêncio total. Ninguém sabe como reagir a isso. Então eu me manifesto.
- É por isso que ela não se lembra dele? - Pergunto ao Doutor indicando Rodrigo, enquanto o próprio me encara a distância com um olhar de ódio, ainda sendo segurado pelos seguranças.
- Provavelmente sim.
- De quanto tempo estamos falando? - Uma sensação estranha, como um formigamento, começa a me invadir quando tenho uma suspeita.
- Quando perguntei sobre fatos da vida dela, ela me respondeu que tem 29 anos, é casada com você, e tem uma filha pequena.
Isso quer dizer que ela perdeu oito anos de memórias. Então ela não se lembra de nada que aconteceu... Não se lembra do nosso fim. Meu Deus, o que eu faço agora?
- Alguma chance de as memórias retornarem? - Pergunta Judith. Acho que nossas ideias estão sincronizadas...
- Difícil dizer. Vamos fazer alguns exames e uma tomografia, mas em casos como este só o tempo poderá dizer se as memórias dela retornarão ou não - diz o médico.
Judith me olha sugestivamente, dizendo com este olhar que ela sabe no que estou pensando e me apoia nesta decisão. Lembro então da presença de Rodrigo, e no quanto ele fez mal para a Marina neste um ano em que estão juntos. Ele pode ser um empecilho em meus planos, por isso não posso deixar que ele saiba.
- Rodrigo, como você pôde perceber, ela não se lembra de você, então acho melhor dar espaço até que ela possa reorganizar sua vida - digo.
- Você só está tentando se livrar de mim para se aproximar né Murilo? Acha que eu não sei?
- O que mais penso neste momento é na saúde e na recuperação dela - Retruco.
Percebendo que estava em desvantagem, Rodrigo esbraveja:
- Vou embora agora porque vi que ela está assustada, mas pode ter certeza que não desistirei dela. Nunca!
Tenho certeza que esse cara ainda vai nos incomodar muito, mas tento não me preocupar com isso agora, já que tenho questões mais importantes a resolver. Depois que Rodrigo nos deixa, retorno minha conversa com Judith e Roberts:
- Não podemos fazer ela passar por tudo aquilo de novo, ela não vai aguentar. Só nós sabemos como os dois últimos anos foram difíceis, e acho que a vida está nos dando uma oportunidade de termos a nossa Marina de volta.
Judith concorda comigo, mas o médico franze o cenho:
- Vocês não podem esconder dela sua história, vocês acham que ela não vai perceber a mudança no tempo? E quando ela encontrar sua filha? - Diz ele.
- Minha intenção não é essa. Vamos explicar pra ela sobre a perda de memória, mas não vamos contar sobre o que aconteceu, pelo menos no momento, ok?
- Tenho minhas dúvidas, não acredito que isso dará certo por muito tempo. Ela pode recobrar a memória a qualquer momento, ou alguém pode comentar algo sem querer, e então será muito pior. Porém vocês são a família dela, a decisão cabe a vocês.
Pergunto a Judith sua opinião:
- Estou cansada de ver minha filha destruir a própria vida. Se tivermos uma chance de tê-la de volta, devemos aproveitar.
- Então está decidido, vamos falar com ela juntos - digo. - Mais uma coisa, o motivo de ela estar aqui é um acidente de carro, nada mais do que isso, ok?
O médico não responde nada, mas entramos no quarto e nos preparamos para o que está por vir.
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