Capítulo 16

07 de março de 2003.

Marina

- Ai amiga, eu preciso tanto de você - digo chorando pra Aimee assim que ela abre a porta de sua casa. Estou me sentindo tão perdida que acabei nem explicando pra ela ainda os motivos que me fizeram ficar aos prantos desse jeito, já que eu não costumo ser uma pessoa tão emotiva. Mal sabe ela...

Como uma boa amiga que é, Aimee fica abraçada comigo por todo o tempo que preciso para ficar mais calma, e quando vê que já não me desfaço em rios de lágrimas, me faz sentar no sofá de sua sala e me traz um copo de água com açúcar. Vendo que ela me olha com expectativa enquanto se senta ao meu lado, decido contar a ela tudo o que aconteceu. Só não sei por onde começar.

- Minha mãe me expulsou de casa amiga - digo enquanto enxugo as lágrimas que teimam em sair dos meus olhos.

- O que? Mas por que Marina? O que aconteceu? Antes de mais nada eu quero que você saiba que você pode ficar aqui em casa pelo tempo que precisar, tá bom? Você sabe que meus pais te adoram, e tenho certeza que eles não vão se importar.

- Obrigada Aimee, você não sabe como é bom ouvir isso depois de tudo o que a minha mãe me disse - digo enquanto tento pensar de que forma vou contar a novidade pra ela. Por que é tão difícil? Deve ser porque a última pessoa pra quem eu contei não reagiu nem um pouco bem, o que me fez ficar com medo de ficar sozinha no mundo. Parece bobo, eu sei, ainda mais considerando que nunca mais estarei sozinha depois que meu filho/filha nascer, mas ninguém pode me culpar por estar aflita agora que não tenho nem lugar pra morar.

- Marina, me conta o que aconteceu, por favor. Independente do que for, eu sei que nós podemos dar um jeito, tá bom? Só me conta pra eu saber como agir - Aimee diz segurando minha mão.

- Então... acontece que eu estou grávida - solto de uma vez. Pra minha surpresa, ao invés da cara de espanto que imaginei, Aimee abre um grande sorriso e me abraça bem forte.

- Ah, Marina, você vai ser mamãe! Meus parabéns. Tenho certeza que essa criança não poderia ter uma mãe melhor que você, amiga.

- Você não está em choque ou me julgando? - digo ainda surpresa.

- Claro que não amiga, mesmo que esse bebê tenha vindo um pouco antes na sua lista de planos, ele com certeza é um presente divino. Mas me diz, você está feliz? E o Murilo, como reagiu?

- Eu tô feliz sim, ainda um pouco em choque porque tudo aconteceu muito rápido, mas agora que a ficha caiu já consigo me imaginar com um bebezinho nos braços, lindo que nem o Murilo... Bom, falando em Murilo, quando eu contei a reação dele não foi das melhores, ele ficou todo na defensiva, nós acabamos brigando e ele foi pra um bar encher a cara - digo me recordando.

- Eu não acredito! Aquele mauricinho de merda. Se você deixar, eu vou até a casa dele e quebro aquela carinha de playboy dele, ele vai ver só - Aimee fala já se levantando. Não consigo evitar a risada.

- Não precisa, deixa eu terminar a história. Na mesma noite ele escalou a minha casa bêbado pra pedir perdão por ter sido um asno, falando em planos pro futuro. Foi bem fofo pra falar a verdade, porque depois que ele falou aquilo é que eu comecei a me sentir mãe, sabe? Eu sei que eu poderia dar conta dessa criança sozinha, como muitas mulheres tem que fazer quando o homem que as ajudou a gerar uma vida não quer saber de responsabilidade, mas eu amo o Murilo demais, e fiquei perdida quando achei que nós não iríamos ficar juntos.

- Eu só posso imaginar o turbilhão de emoções que você deve estar sentindo Marina, e fico muito feliz que o Murilo esteja com você nesse momento. Mas quero que você me prometa amiga, que se algum dia ele te fizer mal ou quiser cair fora, você vai me avisar, ok? Eu realmente acho que vocês fazem um lindo casal, mas não vou deixar ele te fazer sofrer de jeito nenhum. Entendido?

- Entendido Aimee, pode deixar. Eu fico muito feliz de ter te encontrado, de ter uma amiga em quem eu possa confiar plenamente que nem você - digo abraçando ela mais uma vez.

- Então, me fala sobre a sua mãe - ela diz com a cabeça baixa quando desfaz o abraço. Vejo de relance ela secando os olhos, mas ela disfarça e me instiga a falar.

- Eu descobri sobre a gravidez na semana passada, mas queria saber se estava tudo certo com o bebê antes de falar pra todo mundo, e só consegui uma consulta pra hoje de manhã. Durante essa semana eu tentei disfarçar que tinha algo de diferente, e como a minha mãe já anda de cara virada comigo porque comecei a namorar, ela não deu muita bola. Quando voltei da consulta, sabia que não tinha como ficar adiando, então chamei ela pra conversar na sala. O Murilo se ofereceu pra contar junto comigo, mas eu achei melhor sermos só eu e ela, então dispensei a ajuda dele, o que agora parece ter sido uma péssima ideia da minha parte. Enfim, acabei contando pra ela de uma vez, sem ficar enrolando, e daí começou a baixaria - digo voltando a acumular lágrimas.

- No começo ela me olhou com um olhar de pena sabe, e eu fiquei com raiva porque não acho que eu seja digna de pena apenas por ter engravidado. Esperei pacientemente até ela assimilar a informação, e então ela começou a rir, mas não uma risada de alegria que nem a que você deu quando eu contei, foi uma risada maldosa, sabe? Quando ela parou de rir, começou a me dizer que eu tive o que mereci, porque ela tinha me avisado que eu não devia me relacionar com ninguém, e que a partir de agora eu sou responsável pela minha própria vida e pela vida do meu filho, e que eu devia arrumar outro lugar pra morar se quisesse ficar com essa criança, porque ela não quer saber de choro de bebê dentro da casa dela. Além disso, ela disse que espera que eu seja muito feliz sem casa, sem diploma e sem emprego. Foi horrível!

- Nossa, me desculpa Marina, eu sei que ela é sua mãe, mas isso não se faz. Ela pode ter todos os motivos do mundo pra não gostar que você namore, mas ela não podia virar as costas pra você no momento em que você mais precisa.

- Eu sabia que isso podia acontecer assim que descobri a gravidez, eu sabia que ela ia reagir mal - digo tentando me conformar com a situação.

Aimee tenta me animar mudando um pouco de tema:

- Está tudo bem com o bebê? Digo, vocês fizeram todos os exames.

- Sim, está tudo ótimo, estou com seis semanas de gestação. Conseguimos até ouvir o coraçãozinho do bebê, batendo bem rápido. Você tinha que ver o Murilo chorando quando começamos a ouvir o coração, foi um momento mágico. Pena que foi estragado logo em seguida pela Dona Judith - digo. Ficamos por alguns segundos sem dizer nada, até que Aimee resolve entrar em ação:

- Então, você quer ficar aqui? Meu convite continua de pé amiga, vou te apoiar independente da sua decisão.

- Ai Aimee, eu estou tão perdida. Aconteceu tudo tão de repente que eu não sei o que fazer. Eu ainda nem contei pro Murilo sobre a conversa com a minha mãe, assim que ela me mandou sair de casa eu peguei a chave do carro e vim parar aqui na sua porta.

- Vamos por partes então, ok? O que você quer fazer nesse momento? Quer subir e descansar um pouco, sair pra dar uma volta, ligar pro Murilo?

- Eu... eu acho que vou ligar pra ele, ele já deve estar preocupado comigo.

- Ok, então fica a vontade pra usar meu telefone e eu vou estar na cozinha preparando um lanche pra gente, tá bom? - diz Aimee já se levantando.

Quando disco o número do celular do Murilo, ele atende no primeiro toque:

- Alô?

- Murilo, sou eu...

- Onde você está, Marina? - responde ele antes que eu possa falar alguma coisa.

- Estou na casa da Aimee. Olha, aconteceu uma coisa...

- Me passa o endereço da casa dela, estou indo pra aí - diz Murilo me cortando de novo.

- Calma Murilo, eu só...

- Marina, me passa o endereço, por favor.

Quando termino de falar o endereço, ele responde somente com um:

- Ok, estou indo - e desliga.

Ainda surpresa com a pressa dele, vou até cozinha e fico observando minha amiga preparar sanduiches. Quando ela repara minha presença, diz:

- Ele não atendeu?

- Atendeu sim, me fez passar o endereço daqui e desligou antes que eu tivesse a chance de dizer qualquer coisa. Ele tá vindo pra cá.

- Hum, ok então, vou preparar mais alguns sanduiches caso ele esteja com fome. Você deveria comer um enquanto espera por ele, pra alimentar essa criança aí - diz ela apontando pra minha barriga, que eu nem tinha reparado que estava acariciando. Acho que já virou um gesto automático de carinho pelo serzinho que tem aqui dentro. Resolvo comer mesmo enquanto espero por Murilo, e o sanduíche está delicioso por sinal. Dou graças por, pelo menos até agora, não ter tido tantos enjoos, porque deve ser horrível olhar pra comida e sentir vontade de vomitar.

Quando estou terminando meu sanduíche, escuto alguém esmurrando a porta e sei que é Murilo.

- Vocês podem conversar lá no meu quarto Marina, para terem mais privacidade - diz Aimee antes de atender a porta.

Quando Murilo entra e me vê, vem rapidamente em minha direção e me abraça como se soubesse que algo está errado.

- Eu liguei pra sua casa várias vezes na última hora pra saber como foi a conversa com a sua mãe e porque queria te fazer uma proposta, e fiquei preocupado quando ninguém atendeu, por isso resolvi ir até lá - diz Murilo ainda me abraçando.

- Sua mãe atendeu depois de eu ficar batendo na porta por alguns minutos, e quando perguntei por você ela disse que você não morava mais lá e que agora você é problema meu - continua ele, enquanto eu já estou chorando mais uma vez. Malditos hormônios!

- Calma amor, tudo vai dar certo, ok? Independente da sua mãe, essa criança vai ser muito amada por nós, e tenho certeza que meus pais também ficarão muito felizes - diz ele me consolando.

- Vai ser muito amada por mim também - diz Aimee enquanto nos observa com um sorriso.

- Claro que vai - digo secando as lágrimas. - A madrinha tem que amar muito essa criança, senão ela vai se ver comigo - digo olhando pra Aimee.

- Sério mesmo? - ela diz sem disfarçar as lágrimas dessa vez. Eu olho pra Murilo em busca de aprovação, e ele responde pra Aimee.

- Acho que você vai ser a madrinha perfeita, dinda Aimee - ele diz

- Eu já amo muito essa pessoinha - Ela então nos abraça e acaricia minha barriga pela primeira vez.

Passado o momento de ternura, uma questão me vem a cabeça:

- Você disse que ia me fazer uma proposta Murilo. Que proposta é essa?

- Então, eu ainda não falei com os meus pais sobre a gravidez, mas andei sondando eles sobre outra coisa que eu acho que agora faz todo o sentido, e eles concordaram logo de cara. Eu quero que você venha morar comigo Marina.

- Mas Murilo, e se seus pais não aceitarem a gravidez, assim como a minha mãe?

- Eles não vão reagir como a sua mãe, amor, eu conheço eles e tenho certeza que eles vão amar serem avós. Eu sei que estamos juntos há pouco tempo, mas já que estamos antecipando uma etapa de nossas vidas, porque não antecipar essa também? Faz todo o sentido morarmos juntos, já que não quero ficar longe do meu bebê e nem da mãe dele. Podemos ficar lá por um tempo, até termos condições de comprar a nossa própria casa.

- Você tem razão Murilo, devemos mesmo morar juntos. Mas vamos contar para os seus pais primeiro, ok? Se eles aceitarem a gravidez e o fato de receberem em casa eu e depois essa criança, então podemos sim morar lá.

- Ok pessoal, já que todas as decisões foram tomadas e todos estão felizes, vamos lá pra cozinha porque eu ainda não acabei de alimentar meu afilhado - diz Aimee já nos dando as costas. - Como você se comportou bem diante da situação Murilo, vou até te deixar comer também.

Todos rimos com o tema mais leve. Apesar de tudo o que aconteceu hoje, me sinto muito sortuda por ter pessoas tão boas como esses dois na minha vida.

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