Capítulo 15
30 de novembro de 2019.
Murilo
Batuco as mãos no volante ao som do rock que toca na rádio, enquanto atravesso o trânsito caótico do fim de tarde. Mesmo em meio a buzinadas e grosserias dos motoristas estressados com a demora, estou com uma paz de espírito intocável. Tenho uma família para a qual retornar, a perspectiva de mais uma janta agradável junto das duas mulheres da minha vida, e um sentimento de esperança que cresce a cada dia.
Tenho que admitir que não tem sido fácil me manter afastado de Marina. Há dois meses convivo com ela, vejo-a todos os dias quando acordo, quando chego em casa após o dia de trabalho, antes de ir dormir, e não consigo mais conciliar o fato de que não posso beijá-la, de que não posso tomá-la pra mim. Se fosse só de minha parte, estaríamos vivendo como marido e mulher, mas sei que tenho que respeitar suas dúvidas, sua busca por tudo o que se tornou desconhecido em sua vida, e por isso ainda não tomei nenhuma iniciativa, mesmo com os olhares e sorrisos significativos que ela me dá.
Nossa rotina em casa tem sido um misto de alegria e apreensão, mas ultimamente tanto eu quanto Maya temos nos sentido mais seguros de que Marina não vai retomar suas lembranças. Nossa filha inclusive tem se mostrado mais receptiva com sua mãe, faz conosco todas as refeições e até troca algumas palavras com Marina, que mantém um sorriso de orelha a orelha quando isso acontece.
Já que tudo parece estar encaminhado para isso, porque não dou o primeiro passo e deixo explícito para Marina que a quero ao meu lado para sempre, como minha esposa, como sempre deveria ter sido? Está decidido, de hoje não passa.
- - - - -
Um carro que me parece familiar está estacionado na frente de casa quando chego, mas não consigo me lembrar a quem ele pertence. Marina havia me dito que precisava chamar o Sr. Nelson, eletricista, para dar uma olhada em algumas tomadas que não estavam funcionando, então talvez fosse dele o veículo. Abro a porta da sala com esse pensamento em mente e dou de cara com Marina, recebendo aquele sorriso maravilhoso que sempre me deixa meio dopado. Por isso demorei a reparar na pessoa que estava com ela na sala, e que fez toda a minha confiança anterior desaparecer.
Aimee dirigia um olhar de desprezo para mim, e tentei parecer o mais natural possível, e feliz por ver a melhor amiga de minha esposa e madrinha de minha filha. Além do que, Marina não podia saber que eu a havia encontrado no hospital logo após descobrir que minha esposa havia perdido a memória.
- Aimee, que surpresa agradável! - digo dando um abraço desajeitado, enquanto ela nem se move para retribuir. Sei que ela está com muita raiva de mim desde o nosso último encontro, que se dependesse dela a situação agora seria bem diferente, mas tenho que manter as aparências para evitar que Marina desconfie que algo está errado.
- Considerando que tive que fazer algumas ligações até descobrir o paradeiro de minha amiga, não posso afirmar que estou feliz em te ver Murilo - responde ela. Acho que seu objetivo de vida é não facilitar as coisas para o meu lado.
- Como assim você não falou para Aimee que eu estava aqui, Murilo? - questionou Marina desconfiada. Fiquei em maus lençóis, mas por sorte eu trazia comigo algo para apaziguar os ânimos.
- Com essa correria toda eu devo ter esquecido Mari, me desculpa, e me desculpa também Aimee. Mas eu trouxe uma coisinha que vai te deixar mais conectada com sua amiga e com todos - digo estendendo a caixinha com o celular de última geração que comprei para Marina.
- Ah Murilo, não precisava se incomodar, mas confesso que estava precisando de algum meio de comunicação para me conectar com o mundo exterior - disse ela já abrindo a caixa. Após algum tempo de conversa sobre amenidades, Aimee aceitou o convite feito por Marina para jantar, já que a qualquer momento Maya chegaria da casa de sua avó. Minha esposa então foi para a cozinha fazer os preparativos para a nossa refeição, enquanto eu e sua amiga permanecemos na sala. Quando tive certeza de que Marina não estaria ouvindo, fui direto ao ponto:
- Aimee, por tudo o que é mais sagrado, não conte nosso segredo a Marina. Ela tem se recuperado cada dia mais, como você mesma deve ter observado, e se parece cada vez mais com a nossa Marina de antigamente, inclusive com Maya. Não queremos perder ela de novo!
- Eu não sei como você tem coragem de mentir assim para a Marina, como se fosse algo natural. Você está se aproveitando do fato de ela não se lembrar do que aconteceu para manipulá-la, para ter ela de volta para você! Eu quase não consigo olhar pra ela de tanto remorso que eu sinto por não poder contar a verdade.
- Por favor, fala baixo, ela não pode nos ouvir. Deixa eu resolver as coisas do meu jeito, ok? Tem dado certo por enquanto, e o que é mais importante é que Marina está feliz! Nos deixe ser uma família, se não por mim, pela Maya, que finalmente está voltando a confiar em sua mãe!
- Uma família baseada em mentiras? Eu continuo não concordando, você tem que contar a ela! - responde Aimee no momento exato em que Marina entra na sala, com uma expressão chocada de quem ouviu nossos quase berros.
- O que está acontecendo aqui? Vocês estão brigando? E o que deve ser contado para quem?
Fui salvo de ter que responder quando a porta se abriu e uma Maya com as faces coradas entrou correndo e deu um abraço apertado em sua madrinha, mas Marina me lançou um olhar de "isso ainda não acabou" antes de irmos todos para a mesa.
- - - - -
Não posso expressar o quanto fiquei aliviado quando Aimee foi embora, levando consigo o nosso segredo. Só então percebi que estava prendendo a respiração, e pude enfim respirar. Sabia, porém, que no momento em que tivesse oportunidade, Marina me faria explicar o motivo de eu e sua amiga estarmos brigando, já que sempre nos demos bem e tínhamos uma relação de amizade bem profunda.
Ao apagarmos as luzes e subirmos, Marina não virou a direita para entrar em seu quarto, me seguindo até o meu, e comecei a pensar no que dizer a ela, mas só o que gravei na mente foi o fato de que era a primeira vez que ela entrava ali desde que voltou para casa, e que estaríamos sozinhos no mesmo quarto. Ela me tirou dos meus devaneios quando fechou a porta e cruzou os braços, me encarando:
- Pode começar a me explicar qual o motivo de tanta hostilidade entre você e minha amiga, Murilo.
- Que hostilidade Marina? Foi impressão sua...
- Não, não foi! - diz ela me interrompendo. - Olha, eu sei que todos vocês estão me escondendo alguma coisa, eu não sou burra, às vezes parece que todos estão pisando em ovos comigo. Imagino que seja algo importante, dada a insistência de vocês em não me dizer a verdade, e estou cansada de ser tratada como uma criança. Eu quero saber de tudo Murilo! Quero saber o que aconteceu com a minha vida nesse tempo que eu não me lembro, e quero saber nesse momento porque minha amiga está tão furiosa com você! Não saio desse quarto até que tudo seja esclarecido! - Ela já está gritando e chorando agora, e não me impede de abraçá-la quando me aproximo. Se ela soubesse como a verdade pode ser ainda mais dolorosa, talvez preferisse se manter no escuro, mas sei que ela deve estar frustrada com tantas lacunas, com tantas peças desencaixadas. Deixo ela extravasar em lágrimas até se acalmar, então tento amenizar um pouco as coisas com mais uma mentira:
- Sua amiga não me perdoou pela minha traição, porque ela sabe que isso te afetou muito e que acabou com o nosso casamento, por isso a hostilidade. Não estamos escondendo nada de você meu amor, você deve estar se sentindo assim porque existe um buraco em sua vida, mas dê tempo ao tempo e confie em mim, podemos enfrentar tudo isso juntos, só depende de você!
- Do que você está falando? - diz ela ainda meio desconfiada. Mas parece que no momento consegui contornar a situação.
- Eu ainda sou completamente apaixonado por você Marina, e te quero de volta como minha mulher. Eu sei que você está confusa mas já não consigo esconder o quanto eu te quero, como eu sempre quis. Por isso, se você me aceitar, podemos retomar essa parte de nossas vidas de onde paramos.
- Eu estou tão confusa! Não sei o que pensar, não sei o que fazer com a minha vida - diz ela em meus braços. - Mas eu tenho certeza do que sinto por você Murilo, e mesmo com tudo o que aconteceu, não consigo ficar longe de você, porque eu te amo!
Com essa certeza nas mãos e o peito estourando de alegria, não deixei que ela mudasse de opinião, e a agarrei com toda a saudade que estes dois anos vinham acumulando, e quando nos encaixamos de novo, eu me senti quase completo mais uma vez. Quase.
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