Capítulo 13

20 de outubro de 2019.

Marina

Aprendi a evitar os gritos com o passar dos dias para não assustar ninguém, mas tenho sonhado com aquele menino todas as noites desde que voltei para casa, sempre a mesma cena. Não consigo entender minha reação de desespero toda vez que ele vai embora, como se eu precisasse dele perto de mim, mas meu sexto sentido que diz que isso significa algo muito importante, que meu inconsciente está tentando me passar uma mensagem. Espero que seja um sinal de que minha memória está enfim retornando.

Apesar de não ter mencionado o sonho para ninguém além de Murilo, que não perguntou mais nada sobre isso mesmo que tenha reparado em minhas olheiras, parece que todos estão pisando em ovos comigo no último mês, como se não soubessem o que dizer. Deve ser paranoia, eu sei, mas sinto que eles me escondem algo.

Estou aos poucos tentando retomar meu lugar nessa casa e já não me sinto tão deslocada, mesmo que Maya ainda não fale comigo, o que torna tudo mais difícil. As refeições e as compras estão sob minha responsabilidade, mas só saio na companhia de minha mãe porque não posso dirigir devido aos machucados, mas minha recuperação superou todas as expectativas e já estou quase completamente recuperada (tirando a parte da memória). Minha perna ainda dói um pouco, por isso uso uma bengala como auxílio, mas não sinto dores na cabeça e nem no braço.

Estamos agora eu e minha mãe em um shopping do centro tentando encontrar um presente pra Maya, já que amanhã é seu aniversário. Quero comprar algo especial para tentar agradá-la, mas nem sei do que ela gosta, e mesmo que Dona Judith tente me dar algumas dicas nada parece bom o suficiente. Quando já estou cansada e com dor na perna sentamos para descansar em um banco, observo a vitrine de uma loja e encontro o presente perfeito, ali na minha frente.

Pelo que me lembro e pelo que andei pesquisando, Maya é apaixonada pela saga Harry Potter e por objetos que remetam à magia, e há nesta loja uma fonte de água que é a cara dela: uma única torneira que deve estar presa por algo transparente jorra água no vaso abaixo, e a água parece sair de lugar nenhum fazendo com que ela pareça mágica. Com certeza encontrei o que procurava.

- - - -

Estávamos na praça de alimentação decidindo o que comer quando escuto chamarem meu nome de um ponto um pouco distante. Um arrepio percorre meu corpo e me sinto gelada apesar de estarmos no final de outubro, tudo por causa daquela voz. Minha mãe também escuta, e ao virarmos reconheço o homem como sendo o que estava no hospital me chamando de amor, e que Murilo disse ser meu namorado. Por que então sinto medo quando ele se aproxima?

Minha mãe se levanta rapidamente e assume uma posição de proteção a minha frente enquanto ele está com o olhar em mim. Reparo em suas feições e tento decifrar porque fico amedrontada e com repulsa, já que ele não é feio, só um pouco desleixado. Talvez minha mente, que ainda está focada no período em que estive casada com Murilo, não aceite o fato de que eu entrei em outro relacionamento e por isso o esteja rejeitando, mas sinto que preciso ficar longe dele.

Quando o sujeito para em nossa frente minha mãe está com um olhar assassino, e não preciso perguntar para saber que ela o odeia. Isso é mais um sinal para que eu o mantenha afastado.

- Você parece muito bem Marina, bem recuperada do acidente - diz ele.

Me esforço para ser cordial, já que tivemos um relacionamento e ele deve ter me feito feliz em algum momento, considerando que ficamos um ano juntos, segundo Murilo.

- Sim, os médicos ficaram bem surpresos com a minha recuperação, estou quase curada.

- Isso quer dizer que você se lembra de mim? - questiona com esperança.

- Não, sinto muito, eu quis dizer recuperada fisicamente. Ainda não tive nenhuma melhora em relação a minha memória.

- Ah, que pena. Mesmo assim podíamos nos encontrar um dia desses, e eu posso te contar como éramos apaixonados - responde ele com um sorriso que me deu nojo. Minha mãe então se manifesta:

- Como você pode ver Rodrigo, ela está visivelmente abalada com sua presença, então sugiro que fique longe da Marina e a deixe viver sua vida em paz. Se não sair daqui agora chamarei os seguranças para tirá-lo a força!

Nunca vi minha mãe tão brava, nem quando comecei a namorar Murilo. Preciso descobrir o que esse cara fez para despertar tanta raiva. Ele continua com o sorriso sarcástico, e olha para minha mãe com desafio. Por fim ele me olha e se despede:

- Nos vemos por aí Marina, se você quiser posso te contar coisas bem interessantes sobre sua vida que você provavelmente não lembra. Tenho a impressão que sua família não tem te falado tudo - ele se dirige a minha mãe quando diz isso. Em seguida se vira e vai embora, desaparecendo em meio à multidão.

Parece que minhas suspeitas estão corretas.

- - - -

Acordo bem cedo no dia seguinte, após mais uma noite mal dormida. Ao invés de ficar me debatendo na cama decido ir para a cozinha preparar um bolo para Maya. Considerando que hoje é sábado e que ela sempre dorme até mais tarde nos fins de semana, acredito que terei tempo suficiente. Antes porém faço um café para despertar e estar bem disposta para esse dia tão especial para minha filha.

Algum tempo depois estou preparando o recheio enquanto a massa está no forno, e sigo no ritmo da música que toca no rádio, que foi colocado na cozinha há alguns anos atrás a pedido meu. Sempre gostei de ouvir música, inclusive quando estou cozinhando, e apesar de não conhecer a música pop que está tocando ela tem uma batida muito boa, e quase no fim até me arrisco a cantar junto.

Estou tão distraída que não reparo em Murilo de imediato, e quando vejo ele está sorrindo e encostado no batente, em um claro sinal de que já me observa há algum tempo. Óbvio que fico vermelha, mas resolvo não falar nada sobre isso.

- Bom dia! Quer café? - pergunto com um sorriso.

- Bom dia! Te ver tão disposta já de manhã cedo deixa meu dia melhor - responde ele me deixando encabulada mais uma vez. - Sim, vou aceitar um café.

Ele então se encosta à bancada à minha frente com a caneca que lhe ofereço, e me pergunta o que estou fazendo.

- Preparando um bolo de morango para Maya, para comemorarmos seu aniversário - digo.

- Isso é uma ótima ideia, podemos comê-lo quando voltarmos - responde.

- Voltarmos de onde?

- Você vai saber daqui a pouco, junto com Maya.

- - - -

Que dia! Não sei quando foi à última vez que me diverti tanto. Acabamos de sair do parque de diversões onde passamos o dia, e Maya e sua amiga Ana já estão apagadas no banco traseiro enquanto eu e Murilo sorrimos sem parar, tentando guardar na memória todos os momentos.

Surpreendendo a todos Maya baixou a guarda, me agradeceu pelo presente (seus olhos brilharam com a fonte), e durante o dia trocamos algumas palavras, mesmo que banais entre um brinquedo e outro. Acho que a deixei surpresa também quando me armei de coragem e acompanhei ela e sua amiga em todos os brinquedos, incluindo a montanha russa, enquanto Murilo apenas observava. Parece que todos estavam dispostos a deixar de lado a parte difícil da vida pelo menos por hoje e focar apenas na diversão.

A melhor parte do dia, porém, foi quando as meninas resolveram ir a uma apresentação dentro do parque, enquanto eu e Murilo nos sentamos na grama, relembrando os bons momentos de quando éramos jovens e dando boas risadas. Foi quando ele ficou sério, me olhou e disse:

- Sabe Marina, eu não quero forçar nada e também não precisa me responder, só quero que você saiba que eu ainda me sinto da mesma forma, ainda te amo com todas as minhas forças, e vou esperar o tempo que for pra ter você de volta.

Me derreti com suas palavras e tive muita vontade de beijá-lo neste momento, mas sei que isso não vai resolver as questões que me rodeiam neste momento. Preciso resolver o dilema que virou minha vida e descobrir o que minha família está me escondendo e porque, antes de me entregar ao amor novamente. Por isso respondo:

- É muito bom ter você perto de mim Murilo, agradeço por estar ajudando tanto na minha recuperação. Mas espero que você entenda que nesse momento eu preciso saber quem eu sou, qual direção tomou a minha vida antes de me permitir ter um relacionamento de novo. O que eu sei agora é que eu sinto algo muito forte por você, e que assim que eu tomar alguma decisão você vai ser o primeiro a saber.

- Isso é suficiente pra mim agora - diz ele me abraçando e selando nosso "acordo". Então nos levantamos e nos permitimos curtir o resto desse dia atípico e feliz.

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