Capítulo 10

09 de setembro de 2002.

Murilo

Respiro fundo ao entrar no campus na segunda de manhã. Hoje é oficialmente o último dia de aula para quem se deu bem nas matérias do semestre, como eu, mas fiz questão de vir conferir como foi o meu desempenho este ano, e também para mostrar a todos os presentes que tomei coragem para ser eu mesmo. Ao invés dos amigos baderneiros e das garotas populares, estou acompanhado de Marina, que após alguns olhares de receio finalmente está segurando minha mão.

Depois daquele beijo inesperado que ela me deu no sábado de manhã, passamos o fim de semana juntos. Além de consertar seu carro e levá-la ao restaurante mexicano, ficamos de bobeira na minha casa (dando uns "amassos" no sofá, já que ela não quis entrar no meu quarto) e no domingo a levei com Zeus até um parque mais afastado da cidade, onde o cachorro pôde correr, e eu pude aproveitar a companhia de sua dona. Ela não mencionou nada sobre a discussão que eu imagino que rolou em sua casa antes do nosso primeiro beijo, mas desde então Marina está diferente, parece mais leve e mais disposta a me dar uma chance. Ainda é muito cedo para nomear, mas posso dizer que nunca me senti tão feliz quanto agora.

Por isso nem os olhares de confusão e estranheza que recebemos ao longo de nosso trajeto até a sala podem apagar o brilho em nossos olhos e as batidas frenéticas de nossos corações (eu sei, também nunca me imaginei falando em brilho e coração). Sei que é clichê, a nerd fica com o popular e faz com que ele não tenha olhos para mais ninguém, mas é assim que me sinto, e espero que ela também.

Próximos a minha sala, somos abordados por um de meus amigos, Jonathan, acompanhado por ninguém menos que Bianca. Sei que os dois ficam às vezes porque ele não faz questão de esconder, mas Bianca já fez isso com outros caras da nossa turma e tentou também sem sucesso comigo, por isso é explícito que ela não gosta dele e só fica próxima para se destacar, já que Jonathan é boa pinta e chama a atenção por onde passa.

Os dois ignoram Marina de propósito, fazendo meu sangue subir, e me falam sobre um novo barzinho com música ao vivo para onde estão querendo ir à noite, já que ao contrário de mim eles ainda têm que tentar recuperar suas notas. Não costumo sair em dia de semana e eles sabem que eu recusaria se estivesse sozinho, mas só para provocá-los e colocar Marina na conversa, digo:

- O que você acha Marina? Está querendo ir?

Ela, que estava visivelmente tensa e de cabeça baixa, sorri para mim com uma expressão de orgulho e entra na brincadeira:

- Não vai dar amor, lembra que já tínhamos marcado outro compromisso?

Não consigo nem estimar o que se passa em mim quando ela me chama de amor, e fico olhando pra ela como um bobo apaixonado, porém Jonathan me tira do transe dando um pigarro, e ao olhá-lo vejo indignação e confusão em seu semblante. Quanto a Bianca, parece que tem um limão azedo em sua boca.

- Vocês estão juntos? - pergunta ele incrédulo.

- Não é o que parece? - respondo levantando nossas mãos unidas. - Se nos dão licença, precisamos ir. Nos vemos no próximo semestre!

Conforme nos afastamos, sinto que Marina enrijeceu ao meu lado, e a seguro para tentar entender o que aconteceu:

- O que houve Marina?

Ela hesita um pouco, mas então me responde:

- Eu não quero te afastar dos seus amigos Murilo. Eu sei que eles não gostam de mim, e se você começar a se afastar deles por minha causa vão me odiar ainda mais.

Eu a puxo para um corredor mais vazio e a encosto na parede, beijando-a de maneira que a faça entender como estou apaixonado. Interrompendo o beijo, seguro seu rosto e olho bem em seus olhos ao dizer:

- Eles não são meus amigos de verdade, pois se fossem estariam comemorando o fato de eu estar tão feliz. Amizade verdadeira é quando alguém torce por você, fica feliz quando algo bom acontece mesmo que não concorde com isso, está presente nos melhores e nos piores momentos. Esses caras não são assim, e posso considerá-los apenas meus colegas. Nesses últimos dias que passei com você, tenho me sentido completo como nunca me senti, e meu motivo de maior felicidade é você ter me dado uma chance. Eu escolho e sempre escolherei você, Marina.

Seco suas lágrimas enquanto ela me olha com a mesma devoção que tenho por ela, e responde com um beijo de tirar o fôlego. Minutos depois somos interrompidos por Aimee:

- Parece que perdi histórias interessantes nesse final de semana, - diz ela rindo, e eu e Marina nos afastamos - mas se não quiserem perder a hora com os professores é bom se apressarem.

- Ah, claro, já estamos indo - diz Marina envergonhada, me dando um último selinho antes de encaminhar-se com sua amiga para a sala. Aimee, no entanto para e olha para mim, dizendo:

- Acho bom fazê-la feliz meu camarada, do contrário posso querer aplicar em você alguns golpes de karatê que aprendi - e então se vira e alcança Marina, que tem um sorriso no rosto. Isso sim que é amizade!


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