21 • Chanel não me quer.


Naquele belo domingo cinzento, eu fiz questão de acordar tarde, pois eu sabia que não teria ninguém para me irritar cedo pedindo açúcar ou cereal. Era domingo e hoje meu pai estava ocupado o dia inteiro na empresa, tomando conta de projetos internacionais que não se desintegrassem com o sal da água do mar, já que a planta do edifício seria enviada para o Brasil.

Desde segunda, os sete meninos que só eu poderia chamar de "meus vizinhos esquisitões" sumiam de tarde, alegando estar trabalhando muito na loja de vinis, mas eu me empenhei a ser uma boa stalker e fazia minhas rondas depois do trabalho no twitter, via as novas fotos e tinha plena certeza de que aquela loja de vinis era mais chamada de "estúdio de gravação".

Me levantei preguiçosamente, notando que sem querer, chutei um gato para fora da minha cama e fui até o banheiro lavar o rosto.

- Meu Deus, eu estou brincando de ser panda? Isso são olheiras ou monstros? - eu aproximei minha cara do espelho. Uma voz na minha cabeça dizia "não é culpa minha se a fanfic ontem estava tão boa que eu não podia parar de ler".

Dei um trato no meu rosto, enchendo de maquiagem e prendendo o cabelo. Após o café da manhã totalmente em paz e assistindo desenho com uma tigela de cereal, vesti um jeans e alpargatas e procurei pelo cartão de crédito do meu pai, aquele que ele sempre deixava em casa. Sim, hoje eu iria gastar!

Afinal, o que faz uma pessoa como eu senão viver para torrar a grana do papai?

E é aí que eu me lembro que o mesmo não está em casa e os meninos provavelmente estariam gravando alguma coisa enquanto subiam para a 1º posição de caras mais sexys. Só um palpite.

No final das contas quem ficava sem carona era eu. Não o dono da gravadora, nem o meu pai e os garotos. Só a garota com nível de torradas na corrente sanguínea a baixo que o recomendável para se ter um fígado saudável. Ou dois.

Chamei um taxi e, depois de ter colocado comida para Loki na esperança de que ele ainda volte para o café da manhã depois da exaustiva batalha para salvar a área dos três estados de ontem à noite, um cara barbudo e com a aparência engordurada estacionou lá fora.

Depois de verificar se eu tinha realmente trancado a porta da frente (não queremos cientistas corcundas que conversam com gatos e ornitorrincos invadindo a casa, certo!?) e de várias buzinadas impacientes entrei no carro. O motorista lançou um olhar irritado pelo retrovisor.

- Pra onde? - ele cuspiu as palavras junto com um pedaço de capim que estava mastigando.

- Para o centro, por favor. - respondi como a menina educada que eu sou, ou apenas respondi com o mesmo tom desaprovador. O que você achar mais provável.

(...)

- O senhor poderia mudar de estação, se não for muito incomodo? - pedi.

- É muito incomodo sim. - ele respondeu ríspido. Bufei enquanto escorregava pelo banco traseiro e olhava fixamente pela janela do carro. Nada melhor do que começar um domingo cinzento com um taxista se dando de machão enquanto ouvia uma músicas que até espantalhos se mudariam do milharal de tão caipira que eram.

Com aquele tédio junto ao fato de que o trânsito estava louco e eu juro que acordei cedo hoje, abaixei o vidro para sentir o ar poluído de Seul na minha cara, colocando o rosto para fora e olhando em volta. De repente, um carro preto, muito grande, parou ao lado do táxi gorduroso em que eu estava.

Eu encarei o carro e o carro me encarou. O vidro do carro abaixou e eu consegui ver dois meninos se estapeando, um era loiro, e o outro tinha cabelos castanhos e gritava que nem uma mulherzinha. Um moreno se jogou no meio e parou a briga.

Então, na janela que estava quase colada ao táxi que eu me encontrava, um garoto surgiu do nada com um saco de pipocas. Ele tinha cabelos castanhos. Ele acertou uma pipoca na cara do taxista e começou a comemorar internamente, saltitando, até que o idiota bateu a cabeça no teto do carro e eu comecei a gargalhar, segurando minha barriga por dois motivos. Um? Para não explodir de risadas. Dois? Porque só podia ser o Jeon Jungkook, o garoto mais idiota da face da terra.

Infelizmente, ele ouviu a minha risada e olhou para o vidro de trás, que eu me encontrava. Ele me olhou, e eu olhei para ele. Ele virou o rosto como se não tivesse visto nada, mas aí eu percebi que ele congelou e eu me joguei no banco do carro de forma que ninguém mais pudesse me ver, fechei o vidro da janela e o sinal ficou verde.

- PÉ NA TÁBUA, TIO JOÃO! - eu gritei, e foi o que o taxista fez por pressão. Será que ele se chamava João?

(...)

Depois de gastar mais de duzentos com um jaqueta varsity college linda de morrer (alpargatas, jaqueta college... Mas é claro que eu não estou me inspirando no Bangtan Boys! Que ideia louca... Alguém quer ver as polos, camisetas xadrez e toucas que eu comprei na loja ao lado?) e ter aquela leve sensação de que seu pai favorito vai querer raspar seu coro com a faca de passar manteiga na cozinha, não há sentimento mais gratificante do que sentir que você pode tudo com aquele cartão de crédito. Eu pensei que eu estava feliz, até aquele vestido me chamar na vitrine da Chanel.

- Oi, eu gostaria de saber se você tem daquele vestido no meu tamanho? - adentrei a loja já puxando uma vendedora pelo braço e obrigando-a a olhar para o vestido da vitrine e depois para o manequim do meu corpo.

Ela demorou alguns longos segundos me avaliando de cima à baixo enquanto tirava minhas medidas mentalmente. Olhava o vestido e depois meu corpo. Eu estava super feliz, esperando que ela me dissesse que era o único que eles tinham e o manequim era exatamente do meu tamanho.

- Hum... Me desculpe, mas nós não trabalhamos com formas infantis. - ela disse com uma cara realmente pesarosa.

Era isso mesmo? O VESTIDO DA CHANEL ME DEU UM FORA? Ela tinha acabado de insinuar que eu não tinha corpo o suficiente para um vestido adulto (Bom, ela estava totalmente certa, mas eu nunca admitiria isso...)?

- O quê? Eu não uso infantil! Tenho 18 anos! Idade suficiente para usar PP... - Retruquei enquanto saía a passos firmes da loja da Chanel que me rejeitou. Isso é um absurdo!

"Puff, quem precisa de Chanel mesmo?" eu me perguntei mentalmente e, quase imediatamente, recebi a resposta. "EU! Mais do que do meu segundo pulmão!"

É claro que talvez eu seja mesmo muito pequena, e talvez seja por isso que todo Natal, meu pai me dava de presente um embrulho rosa que, quando totalmente destroçado, revelava um vestido tamanho bebê, acompanhado por babados rosas e florezinhas dizendo "eu sou a gatinha do papai". Um absurdo. Esses vestidos estavam tão escondidos no meu armários, que eu acho até que foram parar em Nárnia, só uma suposição.

De repente, ouvi uma gritaria crescente. Parecia que um bando de garotinhas estavam sendo espancadas por pedófilos. Parei no lugar onde eu estava, tentando entender o que poderia significar aquela gritaria que só ficava mais alta. Olhei para os lados. Eu estava do lado de um beco escuro e frio, cheio de latas de lixo gigantes e...

Quando mirei a esquina, minha reação foi basicamente a reação de um urso de pelúcia qualquer quando uma garota se aproxima e grita "XURUMELA!".

- Mas o que...? - comecei, mas não tive tempo para terminar.

Sete meninos, cada um mais estranho do que o outro, vinham virando a esquina, correndo da tal gritaria, que agora eu poderia deduzir que eram fãs histéricas dando ataque de fangirling. Namjoon parecia que tinha amputado a perna e corria que nem um bêbado. Jin tinha a boca muito aberta, talvez estivesse com fome e depositava esperanças de que uma mosca entrasse lá dentro... Só uma suposição. J-Hope corria engraçado enquanto tinha um ataque de risos. Taehyung parecia uma arara em momento de acasalamento louco para voar. Jimin corria tropeçando nas suas pernas pequenas (Só de altura mesmo) e Yoongi conseguia ser decente até correndo, mas ele mantinha uma expressão engraçada no rosto. Só era engraçado que Jungkook tinha um ninho de cobras na cabeça no lugar do que ele chama de cabelo, com a boca e os olhos arregalados e quase tropeçando. Quando me viram, foi a pior parte.

- Mad? - gritou Jungkook, parando e quase dando um salto mortal olímpico. - MAD! - surtou, correndo em minha direção, na frente de todos os outros, que se deram conta.

- MAD! - veio o coro, e J-Hope e o Taehyung com sua mania de me chamar de "doce".

O-Oh.

Os sete meninos vieram para cima de mim como se fossem me matar em abraços de ursos. Jungkook me pegou pela cintura com seus braços musculosos, diga-se de passagem, envolvendo a mesma com força. Aquilo me deixou tão surpresa que eu não fui capaz de processar uma reação. Eu só deixei que ele me colocasse por cima de seus ombros como se eu fosse um pedaço gigantesco de carne de porco sendo levada para casa depois de sair do açougue e cheirar mal.

Quando me dei conta de verdade do que acontecia, Jimin, Taehyung, Namjoon, Jin, J-Hope e Yoongi já haviam se jogado atrás de uma das lixeiras gigantes no beco escuro e frio, e Jungkook caiu no chão, idiota como ele é. A propósito, eu caí em cima dele.

A gritaria ficou mais próxima, e começou a se distanciar, até que não se dava mais para ouvir a gritaria das fãs, apenas a respiração alta e irritante de Taehyung. Estava escuro, mas eu conseguia ver bem que Jungkook mesmo deitado no chão, totalmente esmagado pelo meu corpo, e forçando o braço nas minhas costas para me manter sã e salva, mesmo assim, ele esboçava um sorriso babaca e bobo no rosto. Arregalei os olhos, e tentei me afastar dele, mas eu fiz barulho e Yoongi me mandou calar a boca.

- SHHHH! - Sibilou o Swag Master de Seul, empurrando com O PÉ, as minhas costas de volta para o peito sarado do Jeon.

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