Mais frio que o lago.
Uma boa leitura a todos! 👻
Ps: eu realmente não sei o que fiz aqui.
Todos estão em busca de algo.
Para aqueles que têm tudo, o algo é apenas questão de tempo.
Para aqueles que não tem nada, o algo é a sobrevivência.
E para aqueles que amaldiçoam a vida, o algo é a notícia não recebida do ente querido nunca encontrado.
Para Hoseok, o algo era seu marido há um ano desaparecido, que mesmo sem pistas, ele nunca deixou de buscar.
Nem quando seu algo passou a ser seu algoz e se tornou sua doença, afundando-o no desespero dos que amaldiçoam a vida.
Afinal, Min Yoongi nunca fora encontrado. Ele era um desaparecido, um ente querido que não tinha voltado, parte daqueles que não estão mortos, mas também não estão vivos, apenas desaparecidos.
Uma estatística para o governo.
Um martírio para Hoseok.
[...]
Naquele domingo, tinha acontecido uma das chuvas mais intensas que Hoseok pôde presenciar. As gotas caíram de forma brutal, batendo nos vidros e na lataria do carro importado como pequenos pássaros raivosos, prontos para furar quem tivesse em seu caminho. Dirigir foi uma tarefa difícil, a estrada escorregadia junto ao sono e ansiedade instalada no corpo do jornalista, tinha o feito parar várias vezes durante o caminho e reconsiderar a ideia de chamar um táxi para seu destino, mas então, ele finalmente conseguiu chegar ao seu destino:
A casa do lago.
Hoseok suspirou aliviado, desligando o carro em frente à casa e observando a construção com cuidado.
A casa, construída em um estilo mais americano, fora construída em um terreno irregular, cercado por árvores de eucalipto e um lago no ponto mais baixo do terreno, dando um charme maior para a propriedade. Com tetos inclinados, grandes janelas e uma varanda de entrada de madeira escura — a qual Hoseok jurou ser mais cara que o próprio carro —, a propriedade parecia ter saído diretamente de uma pintura antiga e mágica.
Era o sonho de qualquer um morar ali, mas para Hoseok, era uma necessidade.
Há um ano, Min Yoongi tinha desaparecido após visitar a casa dos pais, em outra cidade, e Hoseok, desesperado em busca do marido, tinha entrado de cabeça na caçada pelo paradeiro do Min. Dia após dia, semana após semana e mês após mês, o homem buscou pelo seu amor.
E então tudo começou a ruir.
Em algumas semanas, Hoseok foi afastado da pequena academia de dança que lecionava nas horas vagas.
Em dois meses, Hoseok tinha perdido o sonhado emprego de jornalista.
Mas nada disso tinha feito o homem parar, nem mesmo quando latas de energéticos vazias e vizinhos preocupados aparecendo na sua porta.
Ele queria uma resposta.
Ele queria Yoongi.
Mas ele nunca tinha conseguido encontrá-lo.
Independente de todos os cartazes espalhados pela cidade, das campanhas pela Internet e todas as vezes que aparecia na delegacia ao primeiro raiar de sol para implorar que localizassem o marido pelo sinal telefônico, Yoongi nunca mais tinha sido visto.
Em uma tarde de domingo, Hoseok chegou ao limite e precisou ser levado ao hospital mais próximo pelo melhor amigo.
Seu corpo, assim como sua mente, estavam exaustos e o remédio mais eficiente era esquecer.
Esquecer que um dia seu marido tinha desaparecido, esquecer que sequer poderia enterrar seu corpo ou chorar em seu túmulo. Esquecer, aos poucos, dele.
E assim, o ex-jornalista tinha enfiado duas malas pequenas no carro e tomando rumo ao que ele chamou de reencontro. Consigo mesmo e com as memórias guardadas do marido.
Com pouco esforço, o moreno pegou as malas e entrou, surpreendendo-se ao encontrar tudo no mesmo lugar. Os enfeites de gato, as cortinas creme e o sofá marrom estavam ali, intactos, junto aos tons terrosos da madeira e do pilar de pedra escura que a casa foi construída.
Os sogros deviam ter cuidado disso, Hoseok considerou, lembrando vagamente de ter comentado com o casal Min sobre passar um tempo na casa que foi presente de casamento deles.
Deixando as malas esquecidas na sala, Hoseok verificou cada canto da casa. As fechaduras indenes, as claraboias no corredor dos quartos, as portas de correr da cozinha e a porta dos fundos feita de madeira cara, tudo estava em seu mais perfeito estado.
Então, Hoseok se permitiu desabar na bancada da cozinha e fechar os olhos, sentindo a frieza da superfície e o cheiro de limpeza. Nada do cheiro estranho que pairava na casa da cidade, nem as visitas intrometidas que o sufocavam por meses a fio, nem mesmo o choro sôfrego de Holly estavam ali.
Era silencioso, limpo e imperturbável.
Algo vibrou no bolso do ex-jornalista, fazendo-o gemer ruidosamente.
No fim, não era tão imperturbável assim.
一 O que você tem na cabeça pra sumir sem falar nada? — Estridente e indignado, a voz de Namjoon soou pelo alto-falante do telefone.
Hoseok largou o telefone na bancada, deixando o aparelho no viva voz e apoiando o queixo na superfície fria. O que ele estava pensando? Bem, nem ele sabia ao certo.
— Que o ar perto do lago é melhor que o da cidade? — brinca, movendo os olhos lentamente pela cozinha até as portas de vidro, vendo o lago escuro a alguns metros.
— Hahaha, como você é engraçado — seu melhor amigo resmunga. — Sabe como fiquei preocupado? Precisei falar com sua irmã para saber seu paradeiro.
— Eu mandei uma mensagem, Namjoon. Não posso fazer nada se você não olha o chat — o homem alfineta, voltando a deitar a cabeça na bancada e fechar os olhos. O sono parecia somar algumas gramas a mais em suas pálpebras. — Estou bem, dirigi até a casa do lago e não bati em nenhuma árvore em meio a chuva, Holly está com meus sogros e eu ficarei aqui por boas semanas. Isso te tranquiliza?
O ex-jornalista pergunta em um tom gentil, não se importando realmente com a resposta do outro lado. Namjoon era um grande amigo, tinha o suportado durante todos aqueles meses e o ajudado com todas as buscas independentes, depois com as noites em que Holly, com saudades do dono, não conseguia dormir e adoecia.
Namjoon era incrível, mas também sufocava o amigo.
— Não, mas é a única coisa que poderei arrancar de você, então, tudo bem. — Ele parece se dar por vencido, o tom se tornando um pouco mais sutil do que no começo da ligação. — Então você vai ficar na casa do lago? Precisa de ajuda com a mudança ou qualquer outra coisa?
— Não, já fiz tudo sozinho. Limpei o apartamento, coloquei algumas coisas no carro e agora estou aqui. — Com um dos olhos abertos, o ex-jornalista volta sua atenção para a abundante porção de água à frente. Algo parecia diferente ali, talvez fossem as flores fora de época que floresciam ao redor.
— Uau, isso tudo no Dia dos Espíritos? Você é mais cético do que eu pensava.
Hoseok solta uma lufada de ar, uma risada desajeitada deixando os lábios de coração. O Dia dos Espíritos era um feriado curioso, muitos diziam que era quando o mundo dos vivos e dos mortos se mesclavam, outros que a barreira que torna o outro lado invisível desaparecia e que por isso, ninguém poderia fazer mudanças, ou atrairia espíritos para sua morada. Os mais idosos ainda diziam que ao se mudar, independente da data, nunca poderia fazer uma limpeza geral ou isso acabaria sendo um convite claro para que os espíritos fossem com você para a nova moradia.
Hoseok era cético por natureza, e apesar de não desrespeitar os mais velhos, não pagaria para ver se era real ou não a temida crença, naquele momento sequer chegou a pensar.
Dia do Espírito ou não, ele não se importava.
一 Você que é supersticioso demais, não eu que sou cético. — Namjoon soltou uma risadinha pelo telefone.
— Não sou supersticioso, apenas acredito muito nos mais velhos e suas crenças, okay? Eles nunca me deram problema, é bom garantir uma boa vida do outro lado. — Hoseok quem solta uma risada dessa vez, desviando os olhos do lago com dificuldade. 一 Preciso desligar, Hobi. Se qualquer coisa acontecer, não hesite em ligar, okay?
O Jung solta um barulho que o amigo considera como um "tudo bem" e ergue o tronco da bancada, cada pequeno músculo do seu corpo reclamando pelo estresse.
— Boa sorte aí, e cuidado com os fantasmas que vieram na sua bagagem.
Namjoon desliga, deixando um Hoseok sozinho com um pequeno sorriso de diversão pairando nos lábios. Fantasmas e bagagens, quem diria que estaria tendo uma conversa assim com Namjoon?
[...]
Era pouco mais de oito da noite quando Hoseok desabou no sofá. O sono, acarretado pela noite em claro e a ansiedade daquela madrugada tinha acabado com toda a energia do antigo jornalista, então, depois de arrumar a casa ao seu gosto, mudando alguns móveis de lugar e resgatando roupas antigas perdidas no armário, Hoseok buscou refúgio no estofado macio, logo caindo em um sono sem sonhos.
Em meio ao sono, Hoseok se encolheu, uma sensação fria invadiu sua pele, como uma brisa de inverno, despertando-o do sono agitado.
Com os olhos pesados, o homem de cabelos escuros resmungou pelo frio repentino, puxando o conjunto de moletom cinza para cobrir seus pés e mãos geladas, sentando de forma desengonçada no sofá. "O que era aquele frio? Será que tinha deixado alguma janela aberta?" ele se questionou, levantando do sofá para checar.
Pela porta de correr da cozinha, um frio incômodo surgiu, fazendo Hoseok colocar as mãos no bolso do casaco assim que entrou no cômodo. Agora ele entendia como tudo tinha gelado tão rápido.
Arrastando os pés até lá, o homem enganchou os dedos na maçaneta de forma desleixada, mas assim que ele fez o movimento para fechar a porta, os seus dedos deslizaram para baixo, estava escorregadio. Hoseok olhou para a maçaneta, vendo-a úmida como se tivesse sido alvo da chuva e em seguida olhou para o lado de fora.
A propriedade estava inteiramente presa num denso silêncio.
A ausência do costumeiro barulho das cigarras entre as folhas causou estranheza no ex-jornalista, que curioso, colocou metade do tronco para fora, procurando por algum sinal dos costumeiros insetos.
Mas eles não estavam lá. Também não parecia ter chovido enquanto dormia, já que o solo parecia seco a meia luz, então, sem entender, Hoseok voltou para dentro de casa, certificando-se de trancar a porta.
Ao olhar para o chão, notou pequenas poças de água e algumas folhas perdidas na madeira bem cuidada, estranhando, o moreno parou no lugar e uniu as sobrancelhas.
"Malditos animais noturnos", pensou o antigo jornalista ao buscar um pano qualquer para secar as pequenas poças. "Deve ter sido aqueles pássaros noturnos, só pode ser eles", considerou, afinal, cada casa estava a um raio de 100 km uma da outra, tornando-se impossível que aquilo fosse fruto de algum bicho doméstico da vizinhança.
Indignado, Hoseok deixou de lado e tomou rumo ao quarto de casal. Ao deitar, checou as horas no telefone.
Três e quarenta e cinco da manhã.
E logo abaixo, o ícone de uma abóbora sorridente marcava uma das notificações. Era Halloween.
[...]
A noite não tinha sido tranquila para o jornalista, que atormentado por uma série de barulhos desconhecidos, rolou pela cama até que o Sol nascesse e ele, ainda mais cansado do que quando deitou, desistisse da ideia de dormir até o final daquela manhã, buscando por algo na cozinha.
O café da manhã foi rápido, acostumado à solidão da própria companhia, o homem se contentou com o básico para se manter em pé e enquanto lavava as louças utilizadas, lembrou-se do irritante barulho de água gotejando de madrugada.
De onde tinha vindo isso? Ele não sabia, emtretanto aquele maldito som tinha soado pela noite inteira, caindo e caindo como uma contagem regressiva, sumindo apenas pela manhã.
Ao fechar a torneira, o ex-jornalista notou que ela não pingava. Desconfiado, ele secou as mãos e foi em busca de todos os registros de água dentro da casa. A do banheiro não pingava, a do chuveiro estava bem, as que estavam nos quartos de hóspedes também.
Tudo em seu mais perfeito estado, mas então, de onde tinha surgido o barulho que assombrou sua noite? Ele não sabia, esperava que fosse as calhas do lado de fora da casa.
Ao retornar para a cozinha, Hoseok notou a xícara de flores azuis em cima da bancada e congelou, espremendo os lábios uns nos outros. A xícara, a favorita de Yoongi, estava muito próxima à beira, como se alguém tivesse usado e a esquecido ali. Úmida.
一 Porra, estou ficando doido!? 一 esbravejou para o nada, realmente de saco cheio. Primeiro o barulho irritante de água dentro de casa, agora a xícara que ele sequer se lembrava de ter tocado estava ali.
O homem secou e guardou a xícara, pondo-a no armário mais alto. Esquecido.
Hoseok achou que estava começando a enlouquecer, quando em um momento da tarde, achou o álbum favorito do marido fora do lugar. Ele estava ficando louco? Foi ele que mexeu ali? Ele não sabia responder, mas passou a se incomodar.
A pequena sensação fria de incômodo, misturado a ansiedade, tinha começado a invadir sua carne, deixando-o desconfortável pelo resto da tarde.
Perto das dez horas da noite, algo tocou na sala de jantar. Hoseok, que tinha se ocupado em verificar caso alguma novidade sobre o paradeiro do marido tinha chegado, assustou-se com a doce melodia que vazava pelas paredes.
Notas melódicas de um piano longínquo preencheu o ar como flores na primavera, e Hoseok, que olhava para a porta do quarto de maneira estatística, reconheceu as primeiras notas da canção que preencheu seus dias por cinco anos.
Andata.
A mesma música que o marido tocava para espairecer, porque era sua favorita; porque o fazia pensar.
Hoseok largou tudo o que fazia, tropeçando nos próprios pés cobertos por meias e seguiu a sinfonia familiar.
Na sala, o toca-discos do sogro rodava o disco de vinil de Ryuichi Sakamoto, ainda na mesma faixa que era a favorita do marido e a porta, uma vez fechada pelo ex-jornalista, agora estava escancarada.
Pequenas serpentes formadas pelo medo rodearam o corpo dele, paralisando-o, fazendo a garganta trancar e o peito doer. "Era ele? Poderia ser ele", pensou, o medo dando lugar à esperança. Seu peito doía, mais de saudades do que de medo, e comandado por seus sentimentos conflitantes, o homem apenas deu um passo após ao outro, até notar que corria para fora.
Hoseok correu para fora pela porta escancarada, parando somente ao sentir o começo do sereno da grama molhar as meias e pinicar as pernas.
Desorientado, ele virou a cabeça para todos os lados. Caçando. Buscando. Os olhos ardiam, o coração batia como se pudesse ele mesmo sair e ir a procura da sua outra metade. Hoseok correu para a floresta em frente a casa, embrenhando-se entre os troncos de eucalipto, buscando os cabelos escuros do marido. Mas ele não estava lá.
Então ele correu para as árvores no ponto mais alto do terreno, onde ele e o marido tinham instalado um balanço no primeiro ano de casados, e antes mesmo de terminar de subir a pequena colina, uma silhueta apareceu aos olhos do Jung.
"É Yoongi", ele constata subindo colina acima da maneira que pôde, escorregando na grama molhada. Ele o reconheceria em qualquer lugar, em qualquer tempo.
Hoseok corre em direção ao marido, as coxas reclamando pelo esforço; contudo, um único passo errado faz o homem ir ao chão, ofegante, com os olhos vermelhos como brasa. Quando ele se recompõe, ficando de joelhos na grama alta, Yoongi não está mais lá.
O peito do moreno faz um movimento violento tentando aspirar o máximo de oxigênio possível, mas o desespero está engolindo seu autocontrole. Ele estava tão perto. Hoseok se impulsiona para frente, a garganta trancada e os olhos turvos pelas lágrimas.
"Se Yoongi não encontrar, procure no balanço na parte mais alta. Se lá você não achar, procure no lago do lado mais baixo", seu subconsciente sussurra para si mesmo, descendo a colina com os pés latejando.
Yoongi está lá.
Na beira do lago, Yoongi espera pelo marido. Ainda tinha o mesmo corte de cabelo, os mesmos olhos gatunos e o nariz de botão que o fazia encantador. Ele estava lá.
Hoseok queria rir histericamente, gritar e bater no marido, mas à medida que a distância parecia mais curta, aquele não parecia mais seu Yoongi. Seus músculos retesaram, parando-o.
Yoongi sorriu lentamente, como se encorajasse seus passos e fez menção de se mexer. Hoseok arrastou os pés para trás, um arrepio nauseante descendo por sua espinha.
Não era seu Yoongi. Ele não tinha o sorriso doce e os olhos brilhantes, nem as bochechas rosadas de inverno. Não era Yoongi.
O homem constatou, arrastando os pés para trás, as serpentes de antes tinham virado grandes répteis que agora mastigavam seus nervos pifados. Quando Hoseok, pronto para se afastar do quer que fosse aquilo, desgrudou os pés do solo para correr para a segurança da própria casa, a criatura que uma vez ele julgou ser Yoongi, abriu a boca e um grito grotesco deixou seus lábios.
Agoniado e abafado. Era como ouvir o grito de alguém afogando. Hoseok treme.
Coisas estranhas saem das águas escuras do lago. Arrastando-se, cinzas, úmidas, frias. Pessoas afogadas. É como estar em um pesadelo.
Uma mão fria e inchada agarra o tornozelo de Hoseok, puxando-o para baixo. Ele grita, as lágrimas ameaçando deixar os olhos assustados e esperneia desesperadamente, tentando se livrar do aperto do que quer fosse aquilo, ficando os dedos na terra para que não fosse levado.
— SOCORRO! — grita, quase em soluço, amaldiçoando toda a distância entre as casas.
Hoseok chuta algo tão forte que seus pés descalços doem, mas a coisa o liberta pela violência usada. Em segundos, ele se impulsiona para frente, usando a força dos seus braços e pernas, tropeçando para casa em uma corrida afobada e se lançando para o interior da casa, se trancando. Pelos vidros da porta, ele ainda consegue ver as criaturas e Yoongi. Não é seu Yoongi. Como ele poderia ser seu Yoongi?
Com o telefone em mãos, o rosto quente pelas lágrimas e a respiração pesada, o Jung desbloqueia o telefone, ligando para a polícia. No primeiro toque, ele se pergunta o que está fazendo e desliga, apertando a tela com tanta força que seu dedo perde a cor. Ele desliza o dedo até o contato de Namjoon, ele poderia ajudar, ele acreditava nisso.
Mas a ligação não completa, caindo poucos segundos depois que é iniciada.
O barulho de algo colidindo contra os vidros faz Hoseok pular, olhando para a porta da frente. Eles estavam lá, batendo violentamente contra a superfície, forçando-o.
O moreno soluça, lágrimas corriam deliberadamente por seu rosto, tornando-o mais vermelho do que antes.
A voz de Yoongi soa pela casa, um sussurro gentil, chamando-o para perto. Hoseok sacode a cabeça, desorientado, querendo afastar a doce voz em seus ouvidos e as lágrimas em seus olhos. Seu coração doía de saudades mais do que seu corpo de medo.
— Hobie-ah, está tão frio aqui — a voz sussurra ao vento, causando-lhe inquietação.
Hoseok uni as sobrancelhas, segurando o que seria um choro e tampa os ouvidos, mas isso não parece fazer efeito. Ele ainda pode ouvir as batidas, ele ainda pode ouvir o marido sussurrar pelas paredes.
— Amor, estou com tantas saudades. — O tom choroso quase faz o moreno arquejar, pressionando a mão em suas orelhas com toda a força que conseguia. — Quando poderá vir até mim? Por favor, está tão frio...
— Não me deixe sozinho, por favor. Fique comigo, Hobie-ah.
O Jung se encolheu contra o chão, as lágrimas rolaram pelas bochechas altas e encontraram seu fim nas roupas do moreno. O telefone, desbloqueado com o contato de Namjoon na tela, parecia zombar por suas tentativas de ajuda.
— Venha até mim.
O moreno tranca o maxilar, temendo que aceitasse o convite em voz alta, e rapidamente solta um dos lados da própria cabeça, deslizando os dedos sobre a tela e ligando mais uma vez para o amigo.
O primeiro bipe da chamada aparece, mas logo em seguida a linha fica muda e a ligação cai. Hoseok geme de medo.
Yoongi está em frente à varanda, Hoseok pode vê-lo através das portas de vidro. O cabelo escorrido, escuro e curto está úmido, a pele estando cinza e meio inchada. Ele quer chorar mais do que seus olhos já estão chorando, porque seu marido continua em pé, chamando-o para si, olhando-o com os olhos vazios.
Aquelas coisas, escuras e frias, continuavam batendo em cada superfície da casa, fazendo-o tremer violentamente à medida que a voz de Yoongi aparecia entre as batidas, deixando-o zonzo.
Ele poderia desistir e ter seu marido, poderia abrir a porta e deixá-lo entrar para a casa. Finalmente ele estaria de volta.
Outro soluço deixa seu corpo, mais forte do que os outros, fazendo-o se arrastar até a porta. Chorando.
O moreno tem um pequeno vislumbre do céu rosado da manhã entre as lágrimas, e algo se instala dentro do jovem. A madrugada está chegando ao fim, o Dia das Bruxas acabando e as criaturas perdendo as forças, cessando suas batidas para ganir, sendo arrastadas por mãos invisíveis de volta para a água. Yoongi também é arrastado, sendo levado para o lago, fazendo o ex-jornalista arregalar os olhos.
Ele não era rápido o suficiente para levantar, tampouco para abrir a porta trancada e segurar a mão do marido, todos seus músculos tremiam e o pulmão queimava. Yoongi já está longe quando o moreno se lança para fora.
Ele está indo embora, sendo levado mais uma vez e Hoseok está parado, sem poder fazer nada.
O desespero queima seus poros e Hoseok, sem se importar com o estado que tinha passado sua madrugada, desce o terreno em direção ao lago; até as criaturas; até Yoongi. E assim que seus pés tocam a água, ele se lança em torno do homem.
Não é seu Yoongi.
Não tem o cheiro do seu Yoongi.
Mas ainda era seu marido.
E assim como prometido, ele iria com seu amado. Para o submundo. Para as águas.
Naquele Dia das Bruxas, Hoseok tinha selado mais uma vez o pacto nupcial, deixando seu corpo ser arrastado até o fundo do lago.
Com seu último suspiro, ele tinha seu marido.
👻
Agradecimento especial a MegNovis, que correu contra o tempo para betar essa história e aguentou minhas reclamações por dias. 💜
A todos que leram, obrigado por estarem aqui.
Não esqueçam o votinho, até a próxima. 💕
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