Sara Dávila
17 de Julho de 2145
Diário pessoal de Sara Dávila
Sentir que não pertence àquele lugar, àquela escola ou àquela rotina. Era o que eu sentia na época.
Morava em uma cidade de médio porte, tranquila e relativamente pequena, porém bem desenvolvida, minha querida yorkshy.
Minha mãe morreu quando eu tinha 10 anos e minha belíssima personalidade fechada, calada e tímida ajudaram bastante a eu não me dar bem com a minha madrasta. Pelo menos eu tinha meu pai sempre por perto cuidando muito bem de mim e me ensinando coisas que até hoje sigo.
Não era muito empolgada quanto a faculdade ou a que rumo tomar em minha vida. Ao contrario de todos os meus amigos e colegas, os quais passaram o terceiro ano inteiro estudando pesado para alcançar o curso dos sonhos, eu só queria viver a vida.
Neste ano eu tive que decidir o que fazer. Meu pai encima me cobrando e me orientando enquanto minha madrasta tentava ao máximo convencer meu pai de eu morar longe. Ela era insuportável, e ainda deve ser para falar a verdade.
Mas enfim, escolhi medicina, pois, como o espaço, o corpo humano me fascinava com toda a sua imensidão e complexidade.
Por sorte eu ia bem nos estudos e consegui passar logo de primeira, para a felicidade do pai e para o meu alívio.
No ano seguinte já comecei o curso que, como Cláudia, minha madrasta, temia ficava na cidade. No entanto, como eu já disse, eu me sentia deslocada, não me sentia parte daquele curso ou daquele grupo de pessoas de lá e isso me deixava ainda mais calada desesperando meu pai Richard cada vez mais.
"Sara chame o pessoal e vai dar uma volta" ele sempre dizia, "Essa menina não tem jeito Richard, não sei nem por que entrou nessa faculdade, sei que a vontade dela é viver às nossas custas" e isso eu nem preciso dizer quem era a figura que dizia.
Para minha sorte foi no ano em que eu completaria 4 anos de curso que minha vida foi bombardeada por uma mudança. Uma oportunidade que eu não pude recusar apesar dos riscos que traria.
Eu voltava da escola como todos os demais dias sozinha, à pé e segurando meu fichário preto com detalhes cor de rosa, o meu amigo de lngas viagens. Passei por uma pista de skate onde sempre tinham adolescentes fazendo manobras ou utilizando substâncias ilícitas, nada muito inovador.
Andei um pouco e como já previsto lá estavam eles, em plenas 8 horas da noite reunidos, porém não faziam nenhuma das duas coisas. Eram 4, mexendo em algo estranho, parecendo mágico. Um equipamento havia caido e destruido parte de uma barraca de madeira que havia no local e dentro dele parecia ter algo o qual os muleques curiosamente exploravam.
Segui o meu caminho com olhar fixado na cena tentando entender o que se passava quando então, de repente, uma coisa saiu e começou a os atacar.
Lembro de ter visto algo semelhante a um humano porém sua pele era reluzente e brilhava sob a luz dos postes parecendo vidro. Ligeiramente me escondi e permanecia imóvel escutando os 4 gritarem e correrem tentando escapar. Com certeza aquela coisa não estava feliz com os curiosos.
Liguei para a polícia, mas algo bloqueava o sinal do meu telefone. Tentei diversas vezes, mas nenhum sucesso até o silêncio tomar conta do lugar. A verdade de que os garotos haviam morrido rasgava meu coração e minha mente, sabendo que seria a próxima.
Resolvi espiar, para ver se poderia ao menos sair correndo dali, porém lá estava a criatura na minha frente. Correr? Para que? Ele me alcançaria mesmo. Gritar? Para quem? Nem mesmo a polícia poderia fazer algo. Só me restou lutar, já era quase faixa preta em karatê mesmo, o que custava dançar com um monstro?
Enfrentei a criatura. Ele me dava golpes e eu desviava tentando não ser pega e evitando acertá-lo com as mãos, pois doía, logo, meu fichário tinha que fazer o trabalho. Coitado.
Eu até ia bem até aquela coisa fazer sua mão se transformar em uma lâmina e tentar me atravessar. Mais uma vez meu querido fichário fez o sacrifício e se perfurou no meu lugar. Logo em seguida ele retirou a sua mão lançando o fichário e as folhas para o alto as quais caíram pouco a pouco espalhadas. À medida que chovia conhecimento sobre mim a lamina novamente foi usada, no entanto, daquela segunda vez acertou minha barriga.
Tudo escureceu e rodou por um instante e lá estava eu no chão sangrando prestes a morrer quando, de repente, ouvi um disparo. O som veio de um prédio velho abandonado ali perto e logo a cabeça daquele ser explodiu em milhões de cacos. Me levantei aos poucos e nenhum sinal de quem ou o que tinha me salvo restando a mim apenas deixar o lugar e buscar ajuda, pois ainda corria risco de vida.
Consegui sair cambaleando da pista e andei mais um quarteirão até eu escorar em um muro e tudo ficar preto e confuso...
Luzes brancas, paredes em cores claras, cheiro de álcool e um frio levemente incomodo. Sim eu estava em um hospital, o que logo concluí quando abri meus olhos. Uma enfermeira estava na sala cuidando de outro paciente em recuperação quando me viu acordar. Logo ela se aproximou e me deu as boas vindas.
- Você teve sorte ein menina! Com um ferimento deste me impressiona ainda estar bem, mas não se preocupe, está tudo normal com você- disse ela em um tom que me soou um pouco estranho ou até mesmo meramente forçado.
Apenas consenti com a cabeça enquanto ela anotava coisas em uma ficha ao lado da minha cama. Pelos meus conhecimentos adquiridos eu estava prestes a ter alta levando em conta meu estado, porém eu não havia notado onde eu estava. Claramente fui logo perguntando.
- Onde estou? Meu pai está bem? Como vim parar aqui?
E ela calmamente respondeu a cada uma das perguntas.
- Tudo bem, vamos devagar. Meu nome é Linda, e sou enfermeira aqui do hospital. Você está no CHY(centro hospitalar de yorkshy), mais vulgarmente falando o hospital da cidade de yorkshy- disse ela sorrindo- Um homem a encontrou caída no chão em uma poça de sangue desmaiada e a trouxe. Você ficou desacordada em recuperação por 2 dias. E quanto a seu pai ele já foi avisado de seu estado e está lá fora esperando você... Já tem alta garotinha.
Ótimo. Menos dois dias da minha vida. Mas isso não era importante no momento. Estranhei um pouco a rapidez como tudo aconteceu, mas resolvi deixar de lado e continuar. Uma coisa era certa, tinha mais história ali, a começar pelo o que me atacou obviamente.
Eram duas da tarde e eu estava em casa com meu pai e a Cláudia. Fui direto tomar um banho e aproveitar para conferir meu ferimento. Foi ai que minha situação ficou ainda mais suspeita. Tirei minha camisa e lá estava, ou por melhor dizer, e lá não estava a cicatriz, apenas uma leve listra marrom sem alto relevo na região do corte, o que eu sabia que era impossível devido à gravidade do golpe.
Terminei o banho e deitei em minha cama refletindo. Aquela criatura não saia da minha mente, por mais que eu desviasse minha atenção sempre estava lá, um monstro de vidro me atacando. Pesquisei na internet e nada parecido, passei a buscar saber o que fora feito dos 4 garotos mortos, porém foi constatado assassinato por esfaqueamento com seu motivo em dividas com relação a drogas. Mediante ao pouco sucesso decidi pesquisar sobre a senhorita Linda e adivinhem! Não encontrei nada.
Desci as escadas, peguei as chaves da casa e avisei a meu pai que iria sair, porém infelizmente ele me chamou e perguntou aonde eu ia.
- Eu sei que esta passando por muita coisa filha, e sei que os últimos dias têm sido apertados na escola, ainda mais com esse atentado ao qual foi vítima- disse ele.
Eu o conhecia. Ele tem um apresso imensurável por mim assim como eu tenho por ele, então não queria esconder nada.
- Pai, eu não fui vítima de atentado algum. Tem algo muito estranho acontecendo e eu quero descobrir, por isso estou indo à pista onde fui atacada. Se quiser vir eu agradeço e aceito a companhia, porém peço que não me impeça de ir até lá.
Ele refletiu um pouco me abraçou e me permitiu sair apenas sob o aviso de ter cuidado. Ele sabia como era importante para mim fazer isso.
O lugar obviamente havia sido mexido e os vestígios apagados, mas tive sorte e encontrei um pedaço de vidro que julguei fazer parte do corpo da criatura. Certamente não era um composto com o qual eu estava acostumada a trabalhar, havia algo diferente naquele vidro.
Estava tão distraída que não percebi a sensação de aproximação aumentar e quando me dei conta senti que, o que quer que fosse aquilo, já estava bem atrás de mim. Me virei dando um golpe com meu pé, porém o indivíduo desviou o que me fez seguir e dar outro chute em seguida o acertando no rosto.
- Pai!- eu gritei enquanto corria até ele e me desculpava.
- Está tudo bem minha filha, pelo menos sei que as aulas de luta estão surtindo efeito- respondeu ele sorrindo enquanto eu o levantava.
Naquele instante a peça de vidro em minha mão começou a brilhar e minha ferida a doer, arrancando de mim um grito de dor ao passo que eu caia no chão. Meu pai tentava me ajudar apesar de não saber como, até que outra criatura surgiu. Esta era diferente, feita do mesmo vidro, mas não tinha forma humanóide e nem chegava perto disso. A criatura partiu para cima e, para a minha surpresa, meu pai sacou um revólver e disparou matando-a.
Olhei para ele e este apenas me disse que depois explicaria tudo. Minha dor passou e eu me levantei, no entanto mais deles apareceram e começaram a nos atacar.
Nos encontrávamos cercados pelas criaturas. Meu pai atirava enquanto eu desviava dos golpes e acertava alguns socos dolorosos para minha mão. Parecia que não teríamos escapatória, mas um homem jovem apareceu armado com um fuzil e começou a disparar e lutar contra os indivíduos. Ele conseguiu diversas baixas seguidas em uma boa sequência de movimentos. Assim que aliviou um pouco ele falou conosco.
- O vidro que você estava na mão, eles estão vindo dele, temos que destruí-lo.
Logo eu o procurei e o vi no chão não muito longe de mim. Fui correndo e enfrentando as criaturas enquanto meu pai e o homem misterioso disparavam. Quanto mais me aproximava mais eles viam para cima de mim, como se soubessem minha intenção, mas, como meu querido pai havia dito, minhas aulas de karatê não estavam sendo em vão.
Passei por eles e peguei aquela peça que tinha um forte brilho amarelo.
- Jogue!- disse o homem, e foi o que fiz.
Me preparei e lancei o objeto na direção dele. Por sua vez ele mirou e no ato do disparo levou um golpe de corpo que o jogou para longe. Corri para tentar ajudá-lo enquanto o objeto continuava seu trajeto para longe de nós, porém meu pai o acertou com um disparo e o explodiu em vários pedaços de vidro.
As criaturas todas desapareceram e eu fui ajudar o tal cara.
- Você está bem?- perguntei enquanto o ajudava a levantar.
- Sim, obrigado!- respondeu já em pé verificando seu corpo rapidamente em busca de algum ferimento- Ah, me desculpe, prazer meu nome é Derek- falou estendendo a mão.
- Prazer eu sou Sara e este é meu pai Richard- comentei o cumprimentado.
Logo uma pequena tropa de 7 pessoas apareceu vinda de uma mata do lado da pista, todas trajadas militarmente e com armas nas mãos. A que vinha à frente foi direto na direção de Derek o qual estava ao nosso lado. Não era militar nem nada do tipo, mas sabia reconhecer quando alguém estava encrencado.
- Soldado venha aqui!- falou a mulher com uma voz firme.
Derek deixou exposto em seu rosto uma preocupação e foi ao encontro.
- Me desculpe senhora, sei que eu não... - O coitado foi rapidamente cortado.
- Não fale antes de mim soldado! Eu sei que você sabia que não devia ter deixado os Trafs atacarem, ou ao menos aparecerem diante de alguém daqui, pois essa era claramente sua missão- Disse com raiva e preocupação.
O que quer que seja que estava acontecendo ali era para ter sido escondido, ou seja, nós não devíamos saber nem ser ameaçados por esses tais de Trafs.
- Senhora, eu sei que eu deveria só verificar a situação e destruir a relíquia. Assim que a nave caiu eu me escondi e fiquei vigiando, mas tinham 4 garotos lá como você já sabe e meu parceiro foi atacado por outro, por isso não consegui salvar os meninos.
- Sim, sim eu já sei o que aconteceu antes soldado, e sim foi um erro nosso deixar dois recrutas lidarem com uma ameaça como aquela. Mas foi você mesmo quem se ofereceu para ter uma segunda chance e ficar aqui de vigia apenas para relatar a situação.
- Eu o fiz, mas a garota ali ultrapassou a área que estava sinalizada como restrita e já foi encontrando um guardião Traf- Dizia ele tentando explicar a situação e eu apenas me esforçando para ouvir tudo.
- Tudo bem Derek, mas sabe que tem ainda a melhorar. Darei um desconto, pois tudo é novo para você, mas não muda o fato de que colocou muito em risco e não ficará livre de punição- Respondeu ela com uma firmeza impressionante. Em seguida se aproximaram mais e começaram a conversar baixo.
Eu e meu pai nos entreolhamos com um ar de dúvida.
Após um tempo os dois viera até nós. Obviamente teriam que nos dar uma boa explicação para tudo aquilo.
- Sara, Richard, eu sou Fernanda, líder desse esquadrão- foi logo dizendo, e parecia uma pessoa bem mais simpática do que quando dava um sermão em Derek- Creio que teremos que explicar a vocês o porquê de terem sido vítimas duas vezes dessas criaturas. Bom, alienígenas existem, nós somos a tropa de controle quando eles tentam entrar na terra e, neste caso, este daí entrou. Precisamos de que ambos mantenham sigilo total sobre o ocorrido, ou então teremos que adotar medidas drásticas.
Mais direta e clara impossível, o que não mudou o fato de que aquela informação era um baque enorme, porém não estava convencida.
- E como explicaria o meu ferimento? Eu faço curso de medicina e tenho certeza que um ferimento como o meu deixaria mais do que uma manchinha- perguntei firme na voz tentando demonstrar controle na situação. Eu sei, eu não estava nem próxima de algum controle.
- Nós temos uma boa medicina e te ajudamos em escondido, agora respondam, irão ajudar ou terei de partir para as contra medidas.
É, definitivamente não tinha controle da situação.
- Capitã o que eu lhe disse!- exclamou Derek tentando disfarçar, muito mal por sinal.
Fernanda parou, pensou um pouco e suspirou.
- Derek me disse que você é muito boa e que enfrentou bem o Trafs junto de seu pai. Se quiser saber mais sobre isso tudo eu poderia dizer apenas se aceitasse fazer parte. Entretanto, se eu contar a verdade a vocês e alguém aparecer comentando sobre o assunto eu creio que já ficou bem claro o resultado.
Assustei-me ainda mais. Como assim? Eu recebi uma oferta de fazer parte de algo que não fazia parte do que era, mas que dispertou uma curiosidade insuportável... Conversei um pouco com meu pai e concordamos em guardar segredo.
O que veio depois disso foi uma história inacreditável. Um novo mundo, uma nova vida que ninguém imaginava. Diante de mim e de meu pai estava uma decisão enorme a se tomar e para tal tivemos tempo para pensar.
Já em casa fomos analisar o assunto. Cláudia havia saído. Meu pai sabia dos meus sentimentos sobre a minha vida atual e por sua vez me disse que apoiaria se eu decidisse seguir com aquilo.
- Infelizmente eu não posso largar isso tudo que tenho aqui, porém você tem essa possibilidade. Eu sei que o seu sentimento de que não se encaixava aqui, te deixa animada com a idéia de um mundo novo, apesar dos riscos enormes que você enfrentará...- Ele deu uma pausa- Eu sou policial filha, por isso tinha aquela arma. Trabalho a muitos anos, mas não queria lhe contar, para não a deixar sempre preocupada e receosa.
Quando ele me contou aquilo eu fiquei boquiaberta. Uma mistura de preocupação, raiva e receio invadiram meu coração.
- Sei que deve estar cheia de sentimentos agora, mas eu gostaria que soubesse que sair todos os dias sem saber se voltará vivo para sua família é assombroso, porém eu faço isto por que sei que estarei salvando vidas incluíndo a sua. Então caso você vá, estará com o mesmo medo que tenho todo dia, porém saberá que estará salvando milhões e por isso apoio tal decisão mesmo que me doa e me deixe com a certeza de que ficarei inseguro... E, por fim, acho que não será difícil convencer a Cláudia de que você foi morar em outra cidade- terminou ele sorrindo.
Naquele momento eu o abracei forte e chorei. Era um momento muito grande e saber que ele estava ali me deixava feliz, ainda mais quando ele disse;
- Pode ter certeza que sua mãe ficaria orgulhosa.
Eu o amava e como ele me disse eu estaria salvando o mundo e isso incluía a ele. Estava com medo óbvio, mas aquele sentimento de que aquilo era para ser meu destino gritava alto. Não podia deixar escapar.
Duas semanas depois eu já havia tomado minha decisão. Me despedi do meu pai sob promessa de sempre dar notícias e contar sobre tudo.
- Quem sabe um dia eu não faço uma visita- disse ele após um forte abraço.
- Espero ansiosamente- sorri- Cuide bem desse mundo aqui.
-E você também- terminou ele com uma piscadela e em seguida segui em direção a uma nave. Estava na hora.
Tudo a partir dali era incrível. Desde a decolagem até o desembarque no espaço. Eu estava fascinada com tudo à minha volta, o universo era maravilhoso.
Cheguei em uma grande instalação onde todos os novos recrutas se encontravam e recebi a informação de que deveria ir para a ala azul, porém não fazia idéia de onde ir. Estava totalmente perdida em meio à multidão, até que avistei Derek o qual me viu e veio a meu encontro junto de outro garoto. Os cumprimentei e descobri que o tal garoto se chamava John. Não pude não perceber o olhar dele para mim depois desviado quando olhei para ele, até que era bonitinho.
Para minha sorte ambos estavam em busca da área azul. Conversamos um pouco até repararmos em uma placa azul, então fomos até lá na esperança de encontrar o caminho. Gostei muito de tê-los conhecido, agora parece que eu tinha um grupinho de amigos para enfrentar aquela nova realidade.
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