Capítulo 4

A consulta com o médico resultou em cinco dias de atestado. Ele dissera que meu mal-estar fora realmente causado por estresse, me receitou um calmante e me encaminhou para um psiquiatra.

Estou surpresa de ter conseguido um atestado numa UPA porque isso é meio raro. Nem quando eu saí do trabalho vomitando e com diarreia me deram atestado, então a ficha de que eu vou ficar cinco dias longe daquele hospício tem demorado para cair.

Entrego o atestado a Julio e pego um ônibus para minha casa enquanto atualizo Jorge sobre o que aconteceu no hospital. Ele vibra comigo quando menciono o atestado. Recebo uma ligação de minha mãe no meio do caminho e lembro-me de que deveria estar a caminho do seu churrasco.

— Oi mãe, vou em casa pegar o Loki e já tô indo.

Ainda? Achei que já estivesse a caminho.

— É que eu passei mal no trabalho e tive que ir ao hospital.

O que aconteceu com você? Por que não me disse nada? — Mamãe odeia ser a última a saber das coisas, principalmente quando essas coisas são relacionadas a eu tendo que ir a um hospital.

— Eu estou bem, só tive uma crise de ansiedade. O médico me receitou um calmante, me deu cinco dias de atestado e me encaminhou para um psiquiatra.

Mamãe guincha do outro lado da linha.

Esse trabalho tá te deixando doente, garota!

— Mas ele é o único que eu tenho. Não posso simplesmente sair sem ter outro em vista. — Ela suspira do outro lado da linha, mas não fala mais nada. Sei que está cansada de falar a mesma coisa porque já tivemos essa conversa.

Mamãe gostaria que eu saísse do emprego e fosse morar com ela, mas apesar de amá-la muito, eu não troco a minha independência por nada. Caso ela precise de mim um dia, claro que farei tudo o que estiver em meu alcance para cuidar dela, até mesmo voltar para sua casa, mas, por enquanto, prefiro ter meu próprio canto. Além do mais, sei que mamãe tem muitas contas para pagar e seria injusto que ela ainda tivesse que pagar as minhas despesas.

Você se sente bem para vir pro churrasco? Porque se não estiver, eu cancelo tudo e vou ficar aí com você...

Abro um sorriso espontâneo com toda a sua preocupação.

— Não precisa, mãe. Eu já me sinto melhor. Nos vemos no churrasco.

Quando estiver chegando aqui, me avisa.

— Tá bom. Beijos.

Desço do ônibus e caminho até o meu apartamento e percebo que ainda me sinto um pouco mal. Paro na farmácia, compro o calmante prescrito pelo médico e o tomo assim que chego em casa, ciente de que me deixará sonolenta.

Levo Loki para casa da minha mãe, que o mima de todas as formas possíveis, jogando carne, linguiça e frango direto da churrasqueira para a boca faminta do meu bebê.

Ela enche meu prato de comida também, mesmo que eu lhe diga diversas vezes que não há a mínima condição de que eu consiga comer aquilo tudo.

— Você precisa se alimentar direito. Não é só a sua mente que precisa de repouso. Uma alimentação saudável é a chave para um corpo sadio — Mamãe diz quando protesto ao ver a quantidade de comida que ela colocou em meu prato.

Tem molho, farofa, arroz, maionese, carne, salsichão e muitas asas de frango no meu prato. O cheirinho está maravilhoso.

— Sua mãe está certa, Bia — diz vovó com um pedaço de asa de frango na mão. Nós caminhamos para longe da fumaça do churrasco. — Você está muito magrinha. Aquele lugar nem te dá um tempo decente para comer! Eu já teria saído daquela porcaria.

— Acredite, vovó, eu já estou tão louca para sair de lá que estou colocando currículo até em farmácias e outros estabelecimentos que não tem nada de jornalismo.

— Se você não conseguir, saiba que é bem-vinda para voltar para casa. Sabe que aqui nunca te faltou nada. — Ela me dá um sorriso amável. Me levanto para abraça-la.

— Concordo com a sua avó. Pense nisso, querida. — Mamãe deposita um beijo no topo da minha cabeça. A campainha toca e meus tios chegam com meus primos.

— Mas já estão comendo? Nem esperaram a gente! — disse meu tio encarando vovó e eu que tínhamos pratos bem servidos de comida.

— Saco vazio não para em pé. Vocês foram ao mercado comprar cerveja, eu que não ia ficar esperando — Vovó responde no auge de sua sinceridade.

— Isso aí! — Faço um high five com vovó em comemoração.

Mamãe coloca no rádio umas músicas de pagode sofrência para tocar, o que consequentemente me faz lembrar de Julio. Não sei porque músicas românticas me fazem lembrar dele, especialmente pagode que nunca foi a minha praia.

Como se forças maiores o invocassem, ele me manda uma mensagem perguntando se estou melhor.

Meu primeiro impulso é responder que só vou ficar melhor depois que eu sair daquele hospício, de preferência de malas feitas para Fernando de Noronha.

Será que é tão impossível querer noronhar como uma atriz global?

Meu súbito devaneio se esvai e eu respondo Julio da maneira convencional.

Julio: Você está melhor?

Bia: Estou sim, obrigada.

— Tá de namoradinho novo? — pergunta vovó, espichando o olho para o meu lado. Cubro a tela do celular com a mão.

— É só o meu supervisor.

— O que esse sanguessuga quer? — Ela faz uma cara feia — Diga a ele que você está de atestado.

— Ele só está preocupado.

— Sei. De boas intenções o inferno está cheio! Abre teu olho, garota!

Minha família toda entende o que um operador de telemarketing passa, apesar de nunca terem trabalhado em um call center. Além das perseguições que sofremos de alguns supervisores, temos que lidar com clientes estressados e arrogantes de nosso estado e até mesmo de outros, que despejam as suas frustrações em cima de nós como se fôssemos os principais culpados da empresa ser uma bosta.

O churrasco em família foi mais divertido do que eu pensava. Com piadinhas bobas e conversas relaxadas, consegui distrair a minha mente da maior parte dos meus problemas.

Porém, foi só eu chegar em casa para ser bombardeada de novas preocupações. Vou ter que procurar um psiquiatra e um psicólogo no plano de saúde da empresa. Se eu não achar nenhum lá, estarei ferrada, pois eu não tenho dinheiro para isso agora.

Além do mais, de onde eu vou tirar dinheiro para remédios se eu mal consigo pagar todas as minhas despesas?

Abraço Loki e deslizo minhas costas na parede fria. Sento de qualquer jeito no chão e choro com Loki lambendo as lágrimas que correm pelo meu rosto.

[...]

Durante os meus dias de atestado, aproveitei para colocar currículos por aí. Além de jornais, também me candidatei pessoalmente a outras vagas. Me senti mal quando pisei na rua, mas o remédio me ajuda a controlar um pouco o mal-estar que venho sentindo.

Não dá mais para ficar esperando que um emprego na minha área caia do céu.

Neste momento, estou finalizando um serviço de freela que consegui. O contratante me pagou adiantado pelo serviço, então resolvi aproveitar os dias livres para terminar o trabalho.

Confesso que isso salvou meu pescoço esse mês. Espero que ele goste dos meus serviços e me contrate outras vezes.

Termino o serviço e mando o arquivo certinho para o e-mail que o cliente me forneceu. Nervosa, torço para que ele goste do release que elaborei com afinco.

Enquanto não obtenho retorno, respondo a mensagem de Jorge.

Jorge: Tô chegando aí, abre a porta..

Deixo o notebook em cima da cama e abro a porta no momento em que Jorge sai do elevador. Ele segura uma sacola de mercado e tem a mochila nas costas. Ele me abraça assim que me vê.

— Você tá melhor?

— Sim, Jorge. Não sei quantas vezes já te respondi isso. — Ele entra no apartamento e se abaixa para brincar com Loki.

— Hoje o teu bofe me chamou pra pausa feedback. — Jorge coloca as duas sacolas que trouxe em cima da bancada, joga sua mochila no chão e retira de lá duas barras de chocolate ao leite. Meus olhos brilham. — Trouxe para nós.

— Você é um amor. — Fecho a cara para meu amigo — E o Julio não é o meu bofe.

— Ele elogiou meu atendimento. Tirei cem de monitoria. — Ele me dá uma piscadela e eu me recosto na bancada.

— Uau, tirou onda.

— Eu não ligo pra essa bosta, mas a gente finge que sim. Enfim, o Julio me perguntou se eu tinha alguma notícia sua. Ele está todo fofo preocupado. — Os olhos de Jorge brilham ao falar isso. Vejo em seu rosto o quanto meu amigo shippa a gente.

— Ele acha que eu passei mal por causa dele.

— Ainda não sei porque você falou mal do cara ali na central. — Meu amigo me encara de forma desaprovadora.

Tudo bem, eu não sei por que fiquei implicando tanto com ele, mas não é como se eu tivesse lhe ofendido. Bobão nem pode ser considerado ofensivo.

— Eu não sabia que ele ia ouvir...

Encaro meus pés, sentindo a vergonha me invadir sempre que lembro do flagrante que Julio me deu antes de eu passar mal.

— O que você vai fazer?

— Em relação ao que, exatamente? — Levanto a cabeça, tentando me concentrar no que Jorge está me falando.

— Ao trabalho e ao Julio, é claro.

— Eu vou ter que continuar trabalhando lá. Até agora não arranjei outra coisa — eu disse, abrindo a embalagem do chocolate e pegando um pedaço para comer. Suspiro. — E quanto ao Julio... Eu não vou fazer nada. Acho que para ele é como se aquela noite não existisse, então eu vou fazer o mesmo.

— Ele é bem enigmático. Parece até o personagem de um livro que eu tô lendo.

— Melhor esquecermos essa história.

— Esquecer? Duvido que você consiga! No dia que você passou mal, eu vi o jeito como vocês dois estavam se olhando. Eu não sou cega não. Pensei que vocês iam se agarrar ali mesmo.

— Não exagera! — Lembro-me do olhar ardente que Julio me lançou quando falei das cores dos seus olhos. Só a lembrança faz um calafrio percorrer minhas entranhas.

Jorge dá um pulo empolgado e tira o celular do bolso.

— Já sei! Vamos stalkear ele nas redes sociais! — Ele enfia um pedaço da barra de chocolate na boca — Eu tenho o Facebook e o Instagram.

— Ficou louco?

— Todo o mundo stalkeia na internet hoje em dia. Sei que você quer saber mais sobre ele. Nada como as redes sociais para descobrir se o cara prefere Friends ou How I Met Your Mother.

— Eu gosto das duas séries.

— Eu também, mas não é esse o ponto!

Jorge joga o nome de Julio na sua lista de amigos e o perfil dele é o primeiro a aparecer. Como os dois já são amigos no Facebook, todas as suas publicações estão desbloqueadas.

Primeiro, meu amigo fuça as fotos de Julio. Percebo que ele tem muitas marcações em fotografias de amigos e família, e que ele sai muito. Pelo que vejo, Julio gosta de viajar.

— Olha seus sogros. — Jorge clica em uma foto onde Julio está abraçado com seus pais. Ele é a cara da mãe, e tem os olhos do seu pai.

Os álbuns de foto que Julio possui são poucos, mas em seu Instagram, vejo que ele tem muitas fotos em lugares bonitos com muita natureza. Tem fotos de paisagens tiradas de dentro de avião, e em outros países também. Até em Fernando de Noronha ele já foi!

Babamos em todas os cliques que encontramos em seu perfil, pois além de lindo e inteligente Julio é fotogênico.

— Ele parece um pacote de coisas perfeitas — diz Jorge babando em uma foto em que Julio aparece sem camisa. Seu sorriso é lindo e nós dois suspiramos juntos.

— Olha, nessa ele tá sem óculos.

— Continua sendo uma perdição.

Passamos o resto da tarde stalkeando Julio. Ao checar seu Facebook, descobrimos que ele é flamenguista (não ligo para futebol, mas sou botafoguense), gosta de comida italiana e de ouvir rock e algumas outras bandas mais alternativas. Me surpreendo ao ver quantas coisas nós temos em comum.

Jorge se despede de mim com a promessa de que me deixaria a par de todas as novidades e eu fico ali, comendo chocolate enquanto admiro todas as fotos do Instagram do meu supervisor.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top