Capítulo 15

--- É bom saber que você não esqueceu da minha existência. Você sabia que existe uma parada chamada faculdade? Você tem noção de como funciona uma amizade? Se você decide que quer sumir, ao menos avise! E o que há de errado com o seu celular? Todas as minhas ligações caíram na caixa postal!

Eu me encontro sentada numa pequena cama de casal, enquanto escuto o meu amigo de escola jogar na minha cara o quanto sou uma péssima amiga, etc e tal. Ele anda de um lado para o outro, enquanto dar umas garfadas no seu macarrão instantâneo de galinha caipira. O cheiro da comida faz o meu estômago roncar.

--- Queira me desculpar, tem acontecido tanta coisa que se eu contar, você não acredita.

Ele parou de andar e me encarou.

--- Primeiramente... - fez uma pausa dramática --- É verdade que você e Luciano terminaram?

A notícia já deve ter se espalhado.

--- Sim, é verdade.

--- Por que? Vocês pareciam estar tão bem.

--- Eu o traí. - suspirei exausta.

Os olhos de Lucas se arregalaram tanto, que eu pensei que seus globos oculares fossem sair.

--- Eu não acredito.

--- Mas é verdade.

--- Helena Cardoso dos Santos, como você teve coragem?! - falou, deixando alguns macarrões caírem da boca --- Como você teve coragem?

--- Bom... é uma boa pergunta.

--- Aquele... Aquele ruivo sarado e gostoso. Eu não consigo acreditar que você teve a capacidade de chifrar ele, um homem tão bom. - peguei o celular e mostrei uma foto de Adriel para ele --- Amiga, eu não te julgo.

Dei risada

--- Eu me culpo. Estraguei um relacionamento incrível por causa de algumas transas.

--- A carne é fraca, amiga. Olha só esse deus do Egito, da África do Sul. Difícil resistir. - brincou com o garfo na cumbuca cor de rosa --- Mas você foi errada, isso é fato.

--- Eu sei.

O meu amigo deixou a cumbuca vazia em cima da cômoda e veio sentar ao meu lado.

--- Como foi o término?

--- Terrível. Luciano descobriu da pior forma possível.

--- Como? - perguntou com curiosidade no olhar.

--- A gente estava transando e eu falei o nome do outro cara.

--- Oh, meu Deus, Helena! - ele jogou a cabeça para trás e gargalhou --- Você é triste! - continuou gargalhando --- E o que Luciano fez?

--- Para resumir, ele terminou comigo e me mandou ir embora. Da forma mais tranquila que você possa imaginar.

--- A cara dele. E você?

--- Eu fiz merda, como sempre. Chamei Adriel pra ir lá em casa.

--- O que?! Garota, você é péssima! Adriel é o nome do amante?

--- Sim.

--- E como estão agora? Juntos?

--- Eu não sei como a gente está. Adriel me deixa confusa. Em um momento eu sinto que ele não é o cara ideal para mim, mas em outros é como se ele fosse a melhor pessoa do mundo.

--- Esse Adriel é problema, já vi. Acho melhor se afastar.

Deitei na cama e encarei o teto lotado de estrelas fluorescentes.

--- Você está certo, mas...

--- Mas...?

--- Eu não consigo. Eu não sei como, mas Adriel tem um poder sobre mim, o qual não tem uma explicação. Chega a ser estranho. Quando ele me pede algo, eu penso não, mas digo sim. Eu tento me manter forte, tento resistir ao seu charme, mas quando penso que não, já estou totalmente entregue a ele.

--- Eu entendo você. E isso tem nome: ma-ni-pu-la-ção. Quando um cara não é bom, mas consegue te prender de uma forma que você não consegue explicar, é porquê ele está te manipulando. Escuta, eu sei do que estou falando.

--- Talvez você esteja certo.

--- Talvez, não, amiga. Eu estou certo. É difícil até acreditar que você, a certinha, a toda perfeitinha, a garota exemplar tenha feito algo assim. Essa não é a Helena que conheço - riu alto --- Ainda estou besta.

--- Pior que nem eu consigo acreditar.

--- Afaste-se, enquanto tem tempo. Antes que estrague a sua vida. Esse tipo de homem você manda pra mim, que eu dou um jeito. É isso, manda esse negão pra cá.

Rimos juntos.

Lucas é um amigo do ensino médio. Fomos juntos para a mesma faculdade, mas ele estuda o que sempre quis; administração. Seu sonho é se tornar um grande empresário e ter a sua própria marca de roupas. Do jeito que é esforçado, não tenho dúvidas de que vai conseguir. Eu queria poder contar todos os segredos e loucuras que estou envolvida, mas ele é a única pessoa que restou que me faz sentir um pouco normal.

Ou ele também tem algum tipo de poder secreto?

Eu não ficaria surpresa se tivesse.

--- Estou com fome. - relatei.

--- Só tem macarrão instantâneo.

--- Tem de carne?

--- Só galinha caipira.

--- Qual o seu problema?

--- É o melhor.

--- É o mais enjoativo.

--- Reveja esse seu paladar de merda.

--- Reveja você, que só compra macarrão instantâneo de um sabor.

--- Você vai querer ou não?

--- Vou.

[...]

Na casa de Adriel...

--- Primo, primo, primo!

Cecília entrou no apartamento as pressas, e quando chegou no quarto, encontrou Adriel derrubando tudo. A cama estava virada, o guarda roupas caído no chão, e as roupas espalhadas por todos os lados. 

E o próprio Adriel estava socando a parede com tanta força, que já estava formando um buraco no lugar. Ele estava num surto tão grande, que já não estava se preocupando com mais nada.

--- Adriel! Acalme-se! - Cecília gritou em vão.

Seu primo não estava ouvindo e nem enxergando nada ao seu redor.

Então, Cecília concentrou-se, fechando os olhos e movimentando as mãos, formulando uma nuvem escura e densa diante dela, que foi aumentando de tamanho a medida em que a mulher falava algumas palavras de um idioma desconhecido. De repente, ela abriu os olhos e eles estavam tão negros quantos os de Adriel, e concentrando toda a sua força, ela lançou aquela nuvem sobre o seu primo, que ao ser atingido, foi desequilibrado e caiu no chão, batendo a cabeça.

--- Sua... - ele rosnou.

--- Você precisa se acalmar! - a voz dela também estava diferente. --- O que aconteceu?!

Adriel, com o corpo dolorido, se esforçou para levantar do chão. E ficando de pé, ele encarou a sua parente.

--- Helena. Ela sabe de tudo. Dos seus poderes, da profecia. Tudo. - respirou fundo, seus olhos voltando a cor original, assim como o seu rosto --- E a mãe falou com ela.

--- O que... mas... Como?!

--- Através de um sonho.

--- E o que ela disse?

--- É isso que me irrita! - chutou um boneco decorativo, que estava caído no chão --- Helena não se lembra. Seja lá o que a mãe disse a ela, pode mudar muita coisa.

--- Será que ela realmente não se lembra, ou só não quis te contar?

Ele a olhou com desconfiança.

--- E por que ela não me contaria?

--- Eu não sei. Parece que os poderes dela estão ficando cada vez mais fortes. E se...

Cecília temeu os seus pensamentos.

--- O que?!

--- E se ela libertou-se de seus... Encantos?

--- Não chame os meus poderes de encantos. Não sou um bruxo ou feiticeiro de esquina. Ela não se libertou de nada, isso é impossível.

--- Será que é mesmo?

A pergunta ficou no ar, deixando os primos pensativos e temerosos. O pânico causado pela ideia de que o plano estava caindo por algo abaixo deixou Adriel nervoso. O pensamento de que talvez esteja perdendo o controle da situação o deixa apreensivo.

E a chance de provar para o seu pai de que ele é capaz de algo maior do que apenas comandar um exército de bestas, poderia estar escapando de suas mãos.

[...]

01.04.22

[...]

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