Capítulo 13

Acordei com tanta dor na cabeça, que parece que eu bebi todas e agora sofro de uma terrível ressaca. Mas não me lembro de ter ingerido álcool em lugar e em momento nenhum.

Eu estava indo pra casa de Adriel e...

Droga.

Abro os olhos tão rápido, que a minha cabeça gira, e eu só não caio porquê já estou sentada. Espera aí, eu estou sentada e... Amarrada?

Ouço um murmúrio e ao olhar para o lado, posso ver Luciano nas mesmas condições que eu. Ambos estamos imobilizados e amordaçados. Dessa vez, ele está acordado.

Helena, está tudo bem com você?

Sua voz grave e sedutora de locutor vibra na minha cabeça.

Como você...

Você é telepata, Helena. Consegue ouvir pensamentos.

Você também?

Não, mas consigo te ouvir se você direcionar os seus pensamentos para mim.

Mas Frans...

O seu irmão é telepata também.

E como você sabe dessas coisas?

Eu sei de muitas coisas.

Não fico chocada com mais nada. Parece que todo mundo faz parte dessa loucura de poderes, profecia e guerra, e só a tonta aqui que estava por fora de tudo.

Paro para analisar onde estamos. Ainda é na casa de Adriel, em um de seus quartos vazios. Já fizemos coisas aqui.

Você sabe o que está acontecendo? Quem fez isso com a gente? - perguntei.

Foram duas mulheres iguais. Eu estava andando na rua e elas me pegaram de surpresa e me trouxeram para cá.

Neila e Cecília?!

Você as conhece?

São primas de Adriel.

Ora, mas não me diga.

Esse é o apartamento dele.

Só melhora. O que você aprontou, Helena?

Nada. Pelo menos nada de que eu me lembre.

Que os deuses nos ajudem.

Um barulho alto no exterior chamou a nossa atenção. E logo após gritos e discussão. Consigo identificar a voz das meninas e de Adriel. Eu não quero acreditar que ele está envolvido neste sequestro.

O som de passos indicam que estão se aproximando, e então a porta é aberta e surge Adriel, juntamente com as suas primas.

--- Pela mãe, o que fizeram com ela?! - ele vem até mim e começa a me desamarrar.

--- Só queríamos fazer algumas perguntas. - uma delas respondeu.

--- Desse jeito? E por que ele está aqui? - perguntou olhando para Luci.

--- Ele é suspeito.

--- Suspeito de que?

--- Ele foi namorado de Helena, oras. Isso já é o suficiente.

Adriel tirou finalmente o pano da minha boca e eu suspirei de alívio.

--- Você está bem? - perguntou ele acariciando o meu rosto.

--- Estou. Adriel o que é tudo isso?

--- Desculpa, as minhas primas são um tanto exageradas quando se trata da minha... proteção. - deu um sorriso amarelo.

--- E acham mesmo que sou um perigo pra você? - olhei para elas, e as mesmas me encaram de volta.

--- Precisamos conversar, Helena. - desviou da minha pergunta --- Tem coisas que você precisa saber.

--- Não vão soltar Luciano?

--- Claro.

Ele estalou os dedos para as meninas e apontou para Luci. Elas foram imediatamente até ele e começaram a desamarra-lo.

--- Vamos embora, Helena. - Luci chamou assim que tiraram o pano de sua boca --- Não me sinto bem neste lugar.

--- Adriel e eu precisamos conversar.

--- Vamos embora, Helena. - repetiu --- Por favor.

Após ser desamarrado, ele se levantou, veio até mim e estendeu a mão, a qual não segurei.

--- Eu vou ficar. Tem coisas que preciso saber. - eu praticamente repeti as palavras de Adriel.

--- Eu não confio nessas pessoas. Olha o que acabaram de fazer com a gente.

--- Foi um mal entendido. - Adriel explicou.

--- Esse mal entendido foi assustador. - falou com um leve tom de raiva.

--- Eu peço desculpas pelas minhas primas.

--- Eu não gosto de você. - seus olhos fixaram em mim, tão atenciosos, preocupados, clamando --- Você vem, Helena?

--- Eu... - olhei para Adriel e seus olhos brilharam para mim --- Eu vou ficar.

--- Tudo bem, então. - se deu por vencido --- Tome cuidado.

--- Eu levo você até a porta...

Uma das gêmeas começou a falar, estendendo a mão, mas Luciano se afastou.

--- Não toque em mim.

E aí, ele foi embora.

--- Vem Helena, vamos para o meu quarto. Temos que conversar. - Adriel chamou.

--- Tudo bem.

[...]

Adriel parece nervoso. Estamos sentados na sua cama, um de frente para o outro. Ele não para de esfregar as mãos, e fica alternando o olhar entre mim e a porta.

--- Você está me assustando. - falei.

--- O que você sabe? - perguntou.

--- Sobre o que?

--- Neila e Cecília desconfiam de que você tenha visto alguma coisa na cozinha, naquela manhã.

Ele parou de olhar para a porta, e agora a sua atenção é toda minha.

--- Que tipo de resposta você quer?

Da última vez que falei sobre ter tido uma visão, ele rio de mim. Eu fiquei parecendo uma louca diante dele.

--- O mundo não é o que parece ser. Existem coisas que estão além da nossa imaginação. Lendas talvez sejam reais, assim como os contos de fadas, e as histórias sobre deuses e... Universos. Então, por favor, diga-me...

--- Eu vi uma de suas primas com o corpo transpassado na mesa.

Ele franziu a testa, parecendo estar confuso.

--- Ah. Só isso?

O encarei desacreditada.

--- SÓ ISSO?! Adriel, ela estava com o corpo transpassado na mesa! Em que mundo isso seria possível?!

--- Ok, eu entendo o seu espanto.

--- O que elas são?

--- Elas são humanas, como nós. Só um pouco mais... Evoluídas. Elas tem algumas habilidades, como o poder da intangibilidade. Podem atravessar qualquer matéria física, entre outras coisas. Foi o que você viu.

Eu o encaro como se ele fosse de um outro mundo. Se eu não tivesse sabendo de tanta coisa, essa história das meninas me assustaria. Mas agora é mais compreensível. Estou começando a pegar o ritmo, eu acho.

--- Entendi.

--- Foi por isso que saiu correndo daquele jeito?

--- Eu não saí corren... Eu fiquei assustada, tá bom?

Adriel deu um sorrisinho lateral.

--- Deve ter sido mesmo assustador.

--- Tenho que te contar algo também.

--- O que?

--- Eu também não sou tããão normal assim, sabe?

--- Não?

--- Não, eu descobri que também tenho... Poderes.

--- Jura? Que tipo de poderes? - perguntou curioso.

--- Bom, eu ainda não sei bem. Mas sei que posso ouvir pensamentos, e ter visões. E eu fiz coisas quando era criança, mas é confuso. E o mais doido ainda é que provavelmente eu seja a mulher de uma profecia antiga. - a minha voz foi abaixando ao decorrer das palavras.

--- Não brinca.

--- Eu sei, parece loucura.

--- Não parece, não.

Seus olhos são tão brilhantes, eu passaria horas admirando.

--- Adriel. - chamei.

--- O que?

--- Você acha que estou louca?

Ele me presenteou com o sorriso mais lindo. Por um momento tive a sensação de que tudo vai dar certo, tudo vai se encaixar, contanto que eu esteja com ele.

--- Sim, você está louca. Louquinha. Mas vou lhe contar um segredo. - logo reconheci a frase --- As melhores pessoas são assim. - sussurrou.

--- Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.

Sorrimos e ele me abraçou, e eu retribuí. Encostei a cabeça em seu peito e pude ouvir as batidas de seu coração, fortes. O som, juntamente com o aperto quente de seus braços é reconfortante, e aos poucos os meus olhos vão se fechando, deixando-me na mais profunda e tranquila escuridão.

[...]

"Os céus estão numa mistura de roxo, laranja e vermelho. O ambiente é úmido e quente ao mesmo tempo. O ar poluído dificulta a minha respiração. Olho para todos os lados e sinto-me perdida, pois parece que estou num deserto de areia preta. E não há um ser vivente aqui, além de mim.

Tomo a decisão de começar a andar em linha reta para descobrir se chego em algum lugar. Mas o meu corpo está cansado e os meus pés doem.

Entretanto, eu não posso desistir, preciso continuar tentando, até que os meus joelhos fraquejem e não consigam mais me sustentar.

Mas o que eu estou fazendo aqui? Como eu vim parar aqui? Qual o propósito?

Eu sinto que vou morrer. Morrerei sem legado, ou melhor, morrerei com os piores legados, e títulos difamadores.

Helena, a traidora.
Helena, a inconfiável.
Helena, a burra.
Helena, a imprestável.

--- Por que se martiriza tanto, menina?

Parei de andar.

Uma voz feminina, alta e em coro, como se mais de uma pessoa estivesse falando. Não ouso olhar para trás, o meu consciente não me permite. Sinto um forte poder ondulando atrás de mim.

--- Eu mereço mais do que um martírio. - respondi.

--- Por que?

Cada vez mais próxima.

--- Eu não sirvo para nada, além de magoar as pessoas, e fazer com que percam o seu tempo. Sou inútil.

--- Está sendo cruel consigo mesma.

--- É a verdade. Não tem como fugir da verdade.

--- Fale mais.

--- Eu traí o cara mais incrível do mundo. Eu estou sempre decepcionando os meus irmãos e os meus pais. Eu só deveria ser a namorada perfeita, a irmã perfeita e a filha perfeita, mas...

Suspirei.

--- Está dizendo que você tem que ser um deus? Nem eles são tão perfeitos assim. - um sorriso debochado.

--- E você está dizendo que não estou errada?

--- De forma alguma. Apenas acho que você está exagerando. Se soubesse dos pecados horrendos de cada um deles, não se cobraria tanto.

--- Eu fui cobrada a minha vida toda. "Helena se comporte, Helena tire boas notas, Helena não me traga problemas, Helena faça isso, Helena faça aquilo, Helena não nos decepcione. Estamos pagando, é sua obrigação nos dar orgulho. Veja só os seus irmãos, siga o exemplo". É muita... Pressão. E onde eles estavam quando tirei boas notas? Quando conquistei todos aqueles... troféus idiotas? - a minha voz vai se alterando a cada pergunta, a cada desabafo --- Onde estavam quando entrei na faculdade com nota máxima, para estudar algo que... Eu... Não... Queria?! Os meus pais nem conheceram o meu namorado. Ex namorado. - corrigi.

*Bastou começar a ter um péssimo desempenho para as mensagens e ligações começarem a chegar. "o que está acontecendo, Helena? Suas notas estão péssimas." - dei risada em meio as lágrimas que caem fortemente sob a minha face --- Só assim que consegui um pouco de atenção.

Eu entendo que os meus pais queriam que eu fosse como Natanael, Frans e Priscilla. Não sei como eles aguentaram tanta pressão, não sei como eles conseguiram seguir as regras. Eu até tentei, mas chegou um momento em que não dava mais. Não era a vida que eu queria, era?

Agora vivo uma loucura, num conflito em tentar ser o que eu realmente quero, ou o que querem de mim.

Mas o que eu quero?
Eu já não sei mais.

--- A sua alma anseia por um caminho, por um propósito. Um propósito que arda em seu coração, um propósito que foi criado para você. O espírito que habita em ti deseja liberdade. Mas você o prende, forçando-se a ser aquilo que não nasceu para ser.

--- E o que eu nasci para ser?

--- Você já tem a resposta, Helena.

Dama das estações.

Respirei fundo e sequei as lágrimas.

--- Eu sou a dama das estações. E estou destinada a matar o rei do submundo. Esse é o meu propósito, salvar os mundos e universos. Está escrito, não é mesmo?

Uma risada contagiante fez-se ouvir e eu tomei coragem para olhar.

Três mulheres. Uma jovem, uma na fase adulta e uma senhora.

--- Oi, Helena. - disseram as três.

--- Quem... Quem são vocês?

--- Nos chamam de muitos nomes. Em especial... Mãe.

Já ouvi isso em algum lugar.

--- Mãe. - gostei de pronunciar.

--- A profecia está perto de se cumprir. Você precisa estar preparada.

--- Como vou me preparar para uma guerra?

--- Encontre a espada das quatro cores, ela saberá o que fazer.

--- Como vou encontra-la?

--- Use o seu poder.

--- Como?

--- Esforça-te, Helena, esforça-te.

Elas estão perdendo a cor, desaparecendo.

--- Espera! Eu não sei como usar o meu poder. Nunca me foi ensinado.

--- O seu igual ajudará você.

--- Quem é o meu igual?! - gritei.

Elas sumiram, mas as suas vozes permaneceram, e foram perdendo o som a medida em que pronunciavam palavras que gelaram o meu coração.

Oh, bela dama das estações!
Aquela que matará o inimigo de todos os mundos: aquele que carrega o Machado Mortal, o qual se conectará com ela em visões.
O seu destino já está escrito.
Ela é a única capaz.
Ela é a única com poder para detê-lo.
Ela é a única que pode salvar todos os mundos e universos.
Ela é a única digna da espada das quatro cores.
Um rei morrerá por tuas mãos, com a lâmina iluminada, enterrada no seu coração.
Salve salve, dama das estações!
O seu poder é benção, mas também é maldição.
Ele é salvação, mas também é perdição.
Bem aventurados os que contemplarem a tua luz.
Infelizes aqueles que conhecerem a tua escuridão.
Breve virá!
A guerra está próxima!
Bendita, oh seja, dama das estações.
Bela como um jardim na primavera, cheia de Luz como o sol no verão, forte como uma tempestade no inverno, e imprevisível como os climas chuvosos e ensolarados no outono.
O sangue do Rei estará em suas mãos.
O seu poder é imensurável, capaz de levá-la a grandeza, ou a pior das loucuras.
Breve virá!
Ela nascerá e reinará...
...ou padecerá.

[...]

26.03.22

[...]























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