O fim da guerra, o início da batalha

Acordo com um cheiro de café, arqueio minhas costas, me espreguiçando e a primeira coisa que vejo quando paro de esfregar os olhos é um lustre pequeno que reflete a luz do sol saindo de uma janela que eu não me lembro de ter no meu quarto, assim como não lembro de nenhum lustre na minha casa.

- Bom dia - ouço uma voz grave , é a voz de Oliver. Me sento no que eu percebo ser o seu sofá da sua sala e demora algum tempo para eu assimilar que nāo voltei pra minha casa ontem.

- Como foi que eu acabei dormindo aqui? - pergunto, com a voz rouca e a testa franzida. Minha cara deve estar tão confusa quanto o meu cabelo que tem alguns cachos caídos na frente dos meus olhos, eu os coloco pra trás e encaro Oliver a uns metros de distância, no balcão da cozinha tomando algo fumegante que provavelmente é café.

- Tu pegou no sono, tava chovendo então eu te deixei dormir um pouco enquanto a chuva não passava, só que a chuva piorou e tu disse que ia dormir aqui.

- Eu disse? - arregalo os olhos. Antes que eu possa pensar no motivo que me fez falar isso, dona Eunice / vovó entra nos meus pensamentos me lembrando de que se eu não lembro que disse isso, também não avisei a minha avó que eu ia fazer isso.- A minha avó deve tá doida atrás de mim! - tento me levantar mas acabo tropeçando no edredon e nos meus allstar's que se encontram no chão. O destino é certo, eu caio contra o piso brilhante , branco e ,obviamente, duro.

Antes que eu possa dizer que estou bem, vejo pés bem perto do meu rosto, então levanto a cabeça para ver Oliver prestes a me ajudar a levantar.

- Tu tá bem? - ele me questiona com o olhar preocupado quando fico de pé.

- Tô, não machucou nada, quer dizer, um pouco os meus peitos - toco o esquerdo que foi o mais esmagado com a queda, eu devia ter colocado a droga do sutiã! - o direito não tá doendo tanto - o encaro dentro do decote , até perceber que estou falando essas merdas pra um cara e que provavelmente está me secando, não que eu me importe em falar merdas, mas poderia ser menos espontânea, e também não que eu me importe com Oliver me secando, mas peraí eu acabei de levar um tombo, estou descabelada e provavelmente prestes a ser morta pela minha vó, não tem como fazer charme numa situação dessas.

Ergo meus olhos para Oliver e vejo que o mesmo está encarando o lustre com muito interesse.

- Foi mal, eu não tô dando em cima de tu - prendo meu cabelo num coque desarrumado antes de erguer as mãos em rendiçāo e seguir sei lá pra onde. Até que eu paro e me viro para o garoto que continua no mesmo local. - Posso tomar um pouco de café?

- Claro - ele diz - , tem leite e suco também - e vem até mim enquanto eu sento em um banco alto em frente ao balcão. - Quer comer alguma coisa? - só agora me dou conta de que ele não usa camisa , meu Deus! Que merda, agora que notei não vou conseguir mais desver a barriga trincada, a corrente com pingente de asas que parece ser de ouro em contrate com sua pele clara. Como eu vou fingir que não estou vendo ele só de calça moletom preta na minha frente? Automaticamente isso me leva a outro pensamento, ou melhor, outro acontecimento, ele e eu nesse mesmo balcão, ele me segurando firme e me deixando mole.

- Eu como qualquer coisa... - digo enquanto tomo um gole de café para esquecer o que acabei de ver e pensar - caralho! - falo, espantada.

- Tá quente, cuidado! - Oliver diz, alarmado.

- Não, é que..- tomo mais um pouco -, sei que tá quente, mas também tá muito bom! Velho, tá bom mesmo, e olha que eu odeio café.

Ele ri.

- Se odeia café, por que tu pediu?

- Porque eu tô nervosa, a minha avó...- bato a mão contra a testa -, a minha vó! Tenho que ligar pra ela - saio do banco e começo a procurar meu celular, o encontro em cima de uma poltrona.

- Calma, eu já resolvi essa parte - ele diz, olho pra trás e o encontro tranquilo encostado na pia bebendo seu café de novo.

- Como? - enrugo a testa.

- Tu nāo lembra mesmo do que aconteceu ontem? Da conversa que a gente teve quando eu te acordei?

- Não - estranho, e me irrito quando sinto meu cabelo se soltar. Devo estar ridícula -, a gente conversou? Tu tá falando daquilo sobre eu ser má ? - lembro de Pricila indo pra casa apressada e meus lábios teimam a sorrir .

- Não, tô falando de quando eu te acordei e pedi teu celular pra falar com a tua vó.

- Eu não me lembro de nada - coloco uma mecha atrás da orelha -, jura que aconteceu?

- Não tenho por que mentir - ele dá de ombros -, falei com a tua amiga, Roberta, e pedi que ela dissesse pra tua vó que tu ia dormir na casa dela. Achei que tu fosse querer isso já que tu tava me chamando de Roberta.

- Eu te chamei de Roberta ? - ri fraco, mas ao menos ele teve uma boa ideia e eu estou livre da morte por enquanto - Tu não me drogasse não.... Ou drogasse?

- Não trabalho com isso - ele desencosta da pia e abre a geladeira -, agora me diga o que quer comer?

- Obrigada, foi uma boa idéia - ok, ele acaba de ganhar mais pontos comigo, de novo. Talvez Oliver seja o verdadeiro significado de meio termo. - E... Obrigada por sexta também, por ter votado em mim - as palavras saem como um desabafo, nem eu sabia que estava esperando tanto pra agradecer a ele por isso.

- De nada - ele sorri, e que desgraça de sorriso bonito!

- Só tenho uma dúvida, tu já era gentil assim ou foi só eu que só conheci o lado mal educado?

- Eu não sou mal educado, tu que é bem esquentada - responde , voltando pra geladeira para pegar mais alguma coisa. Tem leite e farinha no balcão, ele vai mesmo fazer bolo? Mas suas costas me impedem de continuar pensando em qualquer coisa relacionada a comida. Só agora percebo suas costas e elas não são lisas, tem uma grande tatuagem tribal ali que, não sei se é impressão minha, parece estar cobrindo mais cicatrizes além da que atravessa seu olho.

Ele se vira com manteiga e chocolate.

- Quente tu quer dizer - sacaneio, tentando fugir da imagem que acabei de ver.

- Esquentada mesmo.

Rio fraco, mas meus pensamentos ainda estāo nas marcas em suas costas. O que aconteceu com ele?

- Minha tia sempre diz pra tratar bem as visitas, não tem nada a ver contigo se tu tá pensando. Só tô fazendo o que ela faria.

- Ah, agora faz sentido - falo , antes de levantar a tela do meu celular para me olhar e me espantar com o meu estado - eu tô horrível - penso alto.

- Não tá tāāāo mal assim - o imbecil ainda tem coragem de abrir a boca pra falar essa merda! Acabou de perder os pontos.

Eu bufo e vou até o banheiro aonde o espelho da pia me dá uma visão ainda pior. Escovo meus dentes com o dedo, lavo o rosto e molho alguns cachos indefinidos antes de tentar fazer um coque descente que acaba se soltando, mas ao menos meu cabelo está mais domado. Só um pouquinho, já que o mesmo tem vida própria.

Pronto, agora pareço apresentável, ou perto disso.

- Me sinto bem melhor agora - penso alto, mas Oliver não escuta, ele parece muito concentrado no que está fazendo, no que parece ser panquecas. - Nossa, café de gringo - comento.

- Se quiser, eu posso fazer cuscuz.

- Não! - digo rápido. Ele ri.

Vovó sempre faz cuscuz, todas as drogas das manhãs, e não querendo ofender sua comida favorita, mas já ofendendo, não aguento mais cuscuz!

Me afasto da cozinha e sento no sofá da sala já que aparentemente eu não vou servir de ajuda, porque bem, eu não sou boa na cozinha, mesmo que me saia bem nos bolos algumas vezes, o que é suspeito quando se tem uma vó confeiteira.

Estou olhando os meus sapatos e me perguntando se eu os tirei antes de dormir ou foi Oliver, quando o celular do mesmo toca. O nome "Pricila " brilha na tela e a minha parte sombria a qual ultimamente eu ando alimentado demais, me manda atender. Mas eu sei que não devo fazer isso.

- Bom dia, Pricila!

~|||~

- Como foi teu final de semana? - questiono Roberta enquanto andamos pelos corredores da escola em uma segunda - feira. Meu primeiro dia no poder.

- Uma droga! - reclama, irritada - meus pais e minha tia foram visitar a minha vó , mãe da minha mãe - explica -, e eu tive que ficar com as pestes Luan e Lucas - os primos de Roberta, eles são gêmeos, têm 7 anos, e ressaltando novamente: eles são umas pestes.

- Que merda - lamento, porque de verdade, ninguém merece ficar com os gêmeos por um final de semana inteiro.

Roberta toma a direção do banheiro e eu a sigo.

- E que doidice foi aquela de me mandar ligar pra tua avó pra dizer que tu ia dormir na minha casa? Aonde tu dormisse? - ela joga ,de repente, como se não estivéssemos falando dela há alguns segundos. Eu passei o resto do domingo fugindo do seu interrogatório, nāo entrando no whatsap, porém eu sabia que logo mais a chuva de perguntas cairia nas minhas costas. Não que eu não pudesse simplesmente dizer o que aconteceu a ela, mas é que eu sei que ela vai me acusar de estar me envolvendo demais numa vingança "besta".

O banheiro está aparentemente vazio quando entramos e eu digo :

- Eu dormi na casa de Oliver.

Mas não está. Pricila sai de uma cabine no mesmo instante , e dessa vez não fui eu que premeditei isso. Seguro o ar por alguns segundos, surpresa.

A bruxa vai até a pia, lava as mãos e me olha rapidamente pelo reflexo do espelho. Sinto que estamos travando a batalha , agora que eu estou prestes a vencer a guerra.

- Tu dormiu na casa de quem?! - Roberta sussurra, indignada , como se não tivesse visto Pricila aqui. Ela viu?

- Não aconteceu nada do que tu tá pensando, tá?

- Do que eu tô pensando? Como tu sabe o que eu tô pensando? - Minha amiga encosta no batente de uma das cabines e cruza os braços.

- Porque é óbvio.

- Se tu sabe o que eu tô pensando é porque fez exatamente o que eu tô pensando! - ela se altera e eu realmente nāo entendo pra que todo esse drama. - Isso tá parecendo aquelas cenas em que a esposa pega o marido na cama com outra e ele diz " não é nada disso que você tá pensando "! mas se você sabe o que a sua esposa tá pensando, é porque você fez!

Reviro os olhos. Preciso dizer que Pricila ainda está " lavando as mãos. "

- Por que tu tá fazendo tanto drama?

- Por que tu dormisse com um cara que conhece há uma semana, talvez? - ela arqueia uma de suas sobrancelhas bem feitas.

- E qual é a surpresa? - enceno, porque a bruxa ruiva ainda está ouvindo nossa conversa - Eu faço isso o tempo todo.

- É verdade, tu já dormisse com mais de mil! - ela ri com ironia e eu quase tampo sua boca para ela parar de tentar pôr minha "reputação" no lixo - ao menos um foi verdade - sussurra no meu ouvido antes de sair. pisando fundo.

- Então foi por isso que tu atendeu o celular dele ontem? - Pricila questiona com sua voz de morta. Suas mãos já devem estar enrugadas. Ontém quando atendi o celular em questão, ela desligou na minha cara - Vocês tão namorando?

- Não - digo, calmamente, me aproximando da pia e ficando a uma torneira longe dela. Pego meu protetor labial e começo a passar. Meus lábios são sensíveis e costumam adquirir cortes, principalmente no verão.

- Mas vocês têm algo? - ela finalmente desliga a torneira. Até que enfim , querida. O mundo agradece!

- Eu achei que vocês tivessem algo - a lembro. E dou uma última passada no lábio superior antes de guardar.

- Eu só acho que tu devia tomar cuidado - ela diz, e mesmo que a frase me deixe intrigada, eu continuo ajeitando meus cachos como se não tivesse escutado nada. - Ele só deve tá brincando contigo. Com certeza vai te largar logo, isso se já não te largou .

É como se eu estivesse ouvindo ela me dizer novamente que sou desprezível e que é impossível um cara querer ficar comigo por mais de uma noite. Não por ele ser um babaca e sim por eu ser uma merda.

- Eu só acho que tu devia ficar longe do meu caminho! - digo tentando controlar a raiva para não satisfazer seu demônio interior.

- Eu só quis te ajudar - mente,exatamente assim, com a maior cara de sonsa. Eu só gosto de mentira quando eu conto.

Solto uma risada sarcástica.

- Eu tenho tanta - fico cara a cara com seu rosto pálido -, mais tanta pena de você.

Mais tarde, no intervalo, eu estou indo até a biblioteca mostrar o trabalho de arte impresso. Passei praticamente o domingo todo terminando, então me sinto vitoriosa porque faz um bom tempo, sendo mais exata, desde o segundo bimestre do primeiro ano eu não faço trabalhos ou estudo para provas, eu não me dedico a algo do gênero acadêmico há muito tempo. Então ter completado um em tempo recorde quase chegou perto da sensação de vitória de quando ganhei a votação como representante.

- Quem te viu, quem te vê! Tá até fazendo trabalhos pra conseguir o imbecil - Roberta alfineta. Ela está irritada desde a nossa conversa no banheiro, e parece que isso vai durar até o final do ano. Aparentemente, ela acha que eu transei com Oliver e não quero contar.

- Se tu tá aqui pra me encher o saco - encaro seus olhos de jabuticaba - , melhor dar meia volta - agora eu estou irritada.

Roberta dá meia volta, e mesmo que eu me sinta um pouco mal , fico feliz por ao menos ela não continuar aqui toda rabugenta.

A verdade é que eu sinto falta da Roberta que tacava o "foda - se". Não que ela não implicasse antes com minha ascensão de mentiras , mas depois que Oliver chegou, ela foi de implicante a insuportável.

Assim que entro na biblioteca, vejo Oliver numa mesa, escutando música enquanto parece fazer algum exercício. Ele ergue os olhos apenas um pouco para me ver e depois abaixa, calmamente.

- Atendesse meu celular? - é o que ele diz quando chego na mesa grande, retangular e vazia na qual ele se encontra. Vazia como quase toda a biblioteca, o que a deixa com eco e consequentemente nos obriga a falar baixo. Preciso ressaltar que seus olhos estão nas folhas que agora eu vejo que são exercícios de matemática.

- O quê? - questiono, mesmo sabendo do que se trata. A bruxa teria comentado algo com ele?

- Eu vi que tinha uma chamada recebida de Pricila ontem de sete e quarenta e cinco da manhã, e não fui eu que atendi.

Ah, então foi isso.

- É que tu tava ocupado, achei melhor atender porque pensei que fosse algo sobre o trabalho - Ótimo, Jô! Boa desculpa.

- Ela acha que a gente transou.

Sua mençāo não deveria me constranger, eu mesma já ouvi coisa parecida ( me envolvendo ) várias vezes, já espalhei boatos parecidos várias vezes, porém tudo que sai da boca de Oliver, ou melhor dizendo, Oliver em si me faz sentir sensações diferentes.

- Como? - é o que sai da minha boca , e eu tenho sorte por não gaguejar.

- Olha - agora ele me olha , atentamente após tirar os fones - , não me importo com os boatos que aquela Jennifer inventa sobre a gente - talvez não seja ela que invente - , mas me envolver numa briguinha besta já é demais. Então, só não me envolve nisso, beleza?

Briguinha besta? Esse garoto consegue fazer com que eu passe de constrangida pra irritada em menos de dois minutos.

- Mas que briga? - eu sei muito bem que briga, só não imaginei que ele tivesse notado.

- A briga entre tu e a ruiva - eu já mencionei o quanto eu odeio quando ele chama a bruxa de ruiva? Pra começar , ela nem é ruiva de verdade - , não sei por que vocês tão fazendo isso, mas eu já disse que não tô interessado em ninguém.

- Eu não sei do que tu tá falando - isso, bancar a sonsa. É assim ou vou acabar me irritando mais. Afinal, como ele ousa se referir a minha guerra como "briguinha besta "? E por falar em guerra, Pricila pode soltar os fogos, porque pelo que parece, eu não estou prestes a ganhar guerra alguma, ao menos por enquanto.

Ele olha pra cima, mas não chega a revirar os olhos, e então volta pra mim.

- Não sei se vocês fizeram uma aposta pra ver quem ficaria comigo primeiro, mas é melhor pararem! Eu não sou bola de pingue pong então vāo arrumar outro joguinho pra jogar, ou outro otário pra brincar.

- Otário? Achei que fosse direito apenas das garotas se ofenderem com esse tipo de coisa - me sento numa cadeira em frente a sua com toda a minha irritação se tornando força de vontade de vencê - lo na discussão a seguir - Não seria o sonho de qualquer um? Ter duas garotas atrás de um cara e entāo ele acaba pegando uma no final, ou as duas - de preferência, nenhuma, mas que fique rastejando por mim. - Achei que vocês não se importassem com essas coisas. Que fossem escrotos assim.

- Eu não preciso disso, posso pegar quem eu quiser sem precisar ficar no meio de uma confusão.

- Confusão? - pego um lápis seu e batuco na mesa - , que exagero.

- Entāo tu e a ruiva têm uma briga - ele afirma, como se tivesse concluído ao perceber que eu não neguei.

- A gente não têm briga nenhuma! - ao menos não é oficial.

- Se tu diz. Mas eu já percebi que essa droga de escola é movida à fofoca, e eu só não quero ser feito de otário e virar piada pra tu e o resto das tuas amigas. Não gosto de ser enganado - ele volta a olhar para os exercícios.

- Ai meu Deus, tu tá mesmo com medo de virar piada? - começo a rir, mesmo achando que é mais que isso.

- Eu já disse que posso pegar quem eu quiser sem me meter nisso, então pra que ter dor de cabeça, se posso evitar?

- Não vejo como a gente possa te dar dor de cabeça - digo, embora eu imagine mil e uma maneiras de ele ficar com dor de cabeça por nossa causa. - E a única maneira de tu virar piada, é beijando mal - no mesmo instante ele ergue os olhos de relance e eu sinto o habitual arrepio me percorrer -, é isso? - tento esconder os braços em baixo da mesa.

- Acha que eu beijo mal? - ele fixa os olhos nos meus, atentamente, mais uma vez.

- Me diz tu - digo, engolindo todas as sensações estranhas que seu olhar me traz.

Então ele se aproxima o suficiente para que eu possa pensar que ele vai me beijar, o que me deixa tensa, mas eu faço o que sei fazer de melhor : fingir, então finjo que estou bem enquanto seu olho cinza me desafia.

- Com certeza eu devo beijar melhor do que tu fazendo um boquete.

Os lábios dele proferindo cada palavra lentamente num tom baixo me faz querer beijá - lo, mesmo que ele esteja falando algo idiota, agindo como um idiota que me despreza, parecendo nem um pouco com o cara gentil que fez panquecas pra mim ontém de manhã, mesmo que ele esteja me desafiando da maneira como sempre faz, mesmo que pareça que eu estou arriscando minha reputação a cada vez que ele me olha porque de alguma maneira parece que ele me vê por trás da máscara ,e você sabe, da mesma forma que quando as pessoas acreditam numa mentira ela se torna verdade, se apenas uma duvidar , a coisa vira bagunça, e eu gosto muito da minha reputação assim como ela está. Então mesmo que esse imbecil podre de bonito esteja me dizendo que eu nunca fiz um boquete, eu vou aplicar a minha lei, mentir, mentir e mentir até o fim.

- Hum, será mesmo? - faço minha pose de confiante tão bem que quase estou acreditando.

- Vamos ter que ficar com essa dúvida - fala e volta a se sentar. Ele praticamente acabou de dizer que eu nunca vou beijá - lo, mesmo que no final teríamos que ficar na dúvida de todo jeito porque não tem como eu saber se meu boquete é melhor que seu beijo, isso é uma coisa particular.

- Posso tirar a dúvida quanto ao teu beijo , ao menos te dizer se é bom mesmo - digo, sorrindo de lado, no estilo confiante. Oliver me ameaça de muitas formas, porque parece que sabe mais de mim do que deveria, ou meu cérebro inventou isso por ele ser tão indiferente e agora está me torturando, mas irei resolver isso em outra hora. Acontece que eu também sei algo sobre Oliver que eu não deveria saber, já que ele nem sequer admitiu ainda. Ele me quer, e eu vou usar isso a meu favor.

- Não sabe ouvir um "não"? - não sei a qual não ele se refere, o da sala de aula que foi o primeiro, os outros que ele disse em silêncio, ou o de agora. Mas de qualquer forma, isso não me abala mais. Não quando eu sei que ele está mentindo.

- É meu trabalho te fazer admitir.

- Admitir o quê? - questiona, cruzando os braços na altura do peito e eu ainda lembro perfeitamente de cada traço seu por baixo dessa camisa, da corrente de ouro sob a pele, a barriga bem definida, e a minha baba escorrendo assim como agora. Foco!

- Que me quer.

Afinal de contas, eu venci a guerra, a batalha seria fazer ele ficar nos meus pés. A bruxa pode guardar os fogos!

- Oi - e por falar nela. a mesma se aproxima interrompendo fosse lá o quê que Oliver ia falar. Ele fecha a boca e volta para suas atividades. Isso mesmo, bem mansinho.

A bruxa se senta e nos olha por alguns segundos antes de dizer para mim : - Posso ver o trabalho?

- Toma - digo, após tirar da minha mochila a pasta preta com o trabalho. Pricila pega e começa a folhear, espero mesmo que ela não reclame sobre nada ou eu enfio esses papéis em sua boca.

- Ficou legalzinho - ela diz, esnobe.

Essa desgraça nem leu!

Pego a pasta e lembro que não coloquei os nomes ainda, e eu também não sei o sobrenome de Oliver.

- Qual teu sobrenome, Oliver? - questiono, pegando uma caneta para anotar na última folha em branco. Vou imprimir depois .

- Guimarães

Gustavo Guimarães

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top