Capítulo 7

Ian

     Sonhei com aquela mulher por duas semanas. Todas as noites em algum momento, aqueles cachos alaranjados e aqueles olhos verdes invadiam minha mente de forma impetuosa. E quando estava consciente fazendo meus afazeres, ou nos momentos de sossego com minha família, frequentemente eu me pegava pensando em como ela estaria. Se continuava tão pálida e abatida. 
 
     Essa dúvida foi o que me moveu até a fazenda Kedard para lhe oferecer auxílio. Conversei com Jamie apenas mais uma vez sobre Missy e ele não foi receptivo, então decidi não insistir. Porém, se ela mesma fosse conversar com ele talvez tivesse mais sucesso.

     Quando a vi entrando no cômodo em que eu a aguardava, soube que havia tomado a decisão certa. Meu coração falhou uma batida ao ver naquele belo rosto um grande hematoma e um feio corte com pontos na bochecha. Ira e ódio tomaram conta de mim naquele momento. Quem faria aquilo à uma mulher tão indefesa como Missy Kedard? À que tipo de pessoas ela estava sujeita ali, sozinha e desprotegida? Ao pior tipo sem dúvidas. Mesmo assim, ela se mantinha de rosto erguido e só o virou de lado para disfarçar. E, mesmo em sua situação precária, recusou veementemente minha oferta.   

     Diabo de mulher teimosa! Sem saber como obriga-la a aceitar minha assistência, pelo menos por enquanto decido deixar o assunto de lado e peço para passar a noite ali, coisa que ela prontamente aceita e me encaminha ao meu quarto provisório, onde logo meu banho é preparado. Fico ali relaxando na água quente enquanto lembro-me que tudo isso se deve à aquele broche de estrela, que como Missy pediu, eu dei para alguém especial: minha mãe.

     Nita estava em minha cabana, organizando tudo como fazia semanalmente. Retirei a jóia do bolso e entreguei a ela.

     "Tenho um presente, mãe. Me foi pedido para que essa estrela seja entregue a alguém especial. E, para mim, não há ninguém mais especial que a senhora."

     Minha mãe arregalou os olhos, que logo se encheram de lágrimas, situação a qual eu já estava acostumado, pois desde que descobri anos atrás que Nita é minha mãe, eu prometi a mim e aos deuses que eu a entregaria todo o meu amor de filho, do qual ela fora privada quando estava no anonimato.

     "Que bela peça, meu menino. Mas não é adequada para uma velha como eu. Isso foi feito para enfeitar mulheres belas e jovens. Quem lhe disse para dar isso para alguém especial?" -- ela perguntou afiando o olhar para mim, desconfiada.

     "Uma mulher bela e jovem." -- respondi sorrindo, colocando as mãos nos bolsos.

     "Ela disse isso pois pensou, sem dúvidas, que você o daria para uma dessas tolas desavisadas que você seduz. Jovem sensata essa. Vou guardá-lo para você, meu menino, até que encontre a sua mulher especial."

     Acho que ela sussurrou em seguida "espero que seja logo" mas não tenho certeza.

     Uma batida na porta me tira dessas lembranças.

-- Senhor, o jantar será servido em breve. -- uma voz feminina informa através da porta.

-- Obrigado, estarei pronto num minuto. -- informo.

     Visto uma roupa limpa que trouxe no alforje e desço para aguardar minha anfitriã. Logo, um som delicado se faz ouvir, vindo da biblioteca e encaminho-me até lá, onde encontro Missy tocando uma harpa. 

     Se um coral de anjos aparecesse ali e começasse a cantar eu não me surpreenderia. Aqueles dedos delicados e precisos estavam criando um som tão belo e lírico que eu não pude me mover, ou me anunciar. Apenas paralisei ali na porta, onde a fiquei observando maravilhado. Ela estava tão centrada, e tão bela com os cabelos presos num penteado alto, com as luzes da lareira bruxuleantes causando sombra e luz em seu rosto. E ela não tentava mais esconder o rosto ferido, havia, na verdade, um certo orgulho nela por possuí-lo pois era a prova de que ela sobreviveu a o quer que lhe tenha acontecido. Percebo que essa é sua essência, é isso que essa mulher é: uma sobrevivente.

-- Eu não o vi aí. -- ela disse, parando de tocar a harpa.

     Sai de meu transe e adentrei o local, sentando-me numa poltrona próximo do banco em que ela estava.

-- Não queria lhe atrapalhar, então estava admirando de longe. -- disse dando um sorriso.

     Dando o meu sorriso sedutor. Ah não, não posso dar em cima dela. Foco, Ian! Ajudá-la sim, seduzi-la não.

-- Faz meses que não toco. Havia me esquecido o quanto é prazeroso. -- ela diz dando um pequenino sorriso tímido.

     Um menino aparece e anuncia que a refeição está servida. Seguimos até a sala de jantar, onde puxo a cadeira da ponta para ela.

-- Senhorita. -- digo, apontando o assento.

     Ela olha de mim para a cadeira e cora. Percebendo a própria reação, Missy cora mais ainda. É simplesmente adorável.

-- Obrigada. -- ela diz, sentando-se.

     Faço o mesmo em seguida.

-- Peço desculpas, senhor, pela simplicidade da comida. Mas creio que entenda os motivos.

     Observo mais atentamente a mesa, há purê de batatas, frango cozido e alguns vegetais. Só. 

-- Não tem porque se desculpar, senhorita. -- digo, a tranquilizando.

     Comemos em silêncio. Apesar da simplicidade a comida é deliciosa. E eu, como bom comilão, repeti o prato. Ao terminarmos, nos encaminhamos até a biblioteca, mas Missy interrompe a caminhada.

-- O senhor me acompanharia num pequeno passeio ao ar livre? -- ela pede.

-- Seria uma honra. -- digo, colocando uma mão no coração e me curvando levemente.

     Missy revira os olhos e segue até a porta da frente enquanto eu me repreendo por novamente estar sendo galante com ela. Jamie estaria chutando minha bunda caso soubesse o que estou fazendo.

     Ao sairmos, noto ela respirar profundamente o ar noturno, sorrindo.

-- Eu amo a primavera. -- ela diz.

-- Sim, é a melhor estação. -- concordo.

     Caminhamos lentamente sem destino por um momento. Missy está confortável com o silêncio, percebo. Porém eu tenho algumas perguntas.

-- A senhorita realmente não vai me dizer quem a feriu? -- começo.

-- Não.

-- E nem qual foi a razão? -- insisto.

-- Não.

-- Entendo. -- digo frustado.

     Nem três minutos se passam quando retomo.

-- E nem vai me dizer que história é essa de seu pai a obrigar a seduzir meu irmão?

     Ela para os passos e olha para mim, irritada.

-- O senhor já me conhece o suficiente para saber que não vou tocar nesse assunto. Aliás, eu disse aquilo no calor do momento e…

-- Então é mentira? Então você se jogou pra cima dele porque quis? -- digo subindo o tom de voz inconscientemente.

-- O senhor não sabe de nada. E não tem o direito de chegar aqui exigindo respostas!

-- Eu não sei de nada? Sei de algumas coisas, sim. Sei que prefere que pensem mal da senhorita do que dizer a verdade sobre o que aconteceu. Sei que gosta dessa pose de misteriosa e auto suficiente, sei que prefere perder tudo a aceitar a ajuda de minha família devido aos conflitos passados. Por que não cede de uma vez? Por que não pensa no bem estar desses poucos empregados que restaram ao seu lado? Por que não engole esse orgulho e ajuda a si mesma? Se olhe no espelho, Missy! Está magra, abatida e a ponto de adoecer! Isso sem contar a surra que tomou sabe-se os deuses porquê!

-- Misteriosa e auto suficiente? -- ela solta uma risada irônica, abrindo os braços exasperada --  Era só o que me faltava! O senhor não tem ideia do que eu passei, e vem aqui ofender-me! Acha que todo o mal que me aconteceu é devido à aquela maldita festa! E que tenho que ser grata pela pena que o senhor tem de mim e rastejar nos pés de seu irmão para que ele me salve da miséria! Pois deixe-me informá-lo de que conheço Jamie o suficiente para saber que ele não volta atrás numa promessa. Então, de que valeria engolir meu orgulho para me humilhar a toa? Meu orgulho, senhor, pode ser tudo o que me restará em breve.

     Depois de dizer isso, ou melhor, gritar isso em minha cara, Missy sai a passos furiosos deixando-me sozinho, abalado e pensativo.
    

     Acordo assustado e confuso. Levo um momento para perceber onde estou e, depois, para perceber o que me acordou. Foi um barulho, um tipo de gemido ou assovio. Sinto sede e levanto-me para beber da água que está na jarra no aparador ao canto do quarto. Quando já estou em meu segundo copo, vejo uma luz tremeluzir no vão embaixo da porta do aposento. Curioso, decido investigar. Visto minha roupa desleixadamente e abro uma fresta da porta com cuidado para não fazer barulho.

     Ali parada na porta da frente está Missy, com uma fina camisola azul claro, segurando um candelabro com uma única vela, e com a outra mão na maçaneta. Ela parece tensa. O barulho se faz ouvir novamente e a ouço murmurar alguma coisa enquanto apoia o candelabro numa estreita e alta mesa que há no corredor ao seu lado. Decido seguir até ela.

-- O que está havendo, senhorita?

     Ela olha para mim surpresa, como se houvesse se esquecido de que estou sob seu teto.

-- Ele está zombando de mim novamente, isso que está acontecendo.

-- Eu não entendi.

     Ela abre a porta, porém não entra. Apresso-me a me por ao seu lado e olho lá dentro. É um quarto de dormir, grande e majestoso, porém mal cuidado. E no chão... Ah, é o quarto onde o pai dela foi assassinado.

-- Quase todas as noites há esses sons agourentos. Eu sempre fecho a janela e ela sempre se abre. É o vento, eu digo a mim mesma. Mas no fundo, sei que não é. Ele nunca me dará paz, Ian. Nunca. Ele me atormentou em vida, e sei que o fará mais ainda em morte. Oh, papai, o que preciso fazer para que me deixe em paz?

     O vento sopra novamente e aquele gemido, agora mais alto, faz os pelos de meu braço se arrepiarem. Vejo a cortina branca sacudir, flutuando. Sinto Missy estremecer ao meu lado, então entro e fecho logo a maldita janela, tomando cuidado de não pisar na grande poça negra no chão.

-- Obrigada. -- ela diz quando retorno ao seu lado, porém seu corpo todo ainda treme.

     Fecho a porta e a faço andar, saindo dali.

-- A senhorita está bem?

-- Está errado sobre mim, Ian. -- ela diz parando de andar e noto um cheiro forte em seu hálito: conhaque -- Tão errado.

-- Então me diga a verdade. Eu quero ajudá-la, mas não sei como.

-- Não é meu orgulho que me impede de pedir ajuda. Tudo o que eu passei expurgou esse sentimento de minha pessoa. É vergonha. Vergonha pelo que fiz, e principalmente vergonha pelo que foi feito comigo.

     Ela diz isso com uma expressão tão triste, tão derrotada em admitir aquilo, que não me contenho e seguro suas mãos nas minhas. Tão frias e pequenas, tento aquecê-las com carícias suaves.

-- Eu não... Não entendo, Missy.

     Ela sorri, o sorriso mais triste que já vi.

-- Eu sei, Ian. E, pelo menos por agora, eu não quero que entenda. Apenas saiba que não é culpa sua ou de Jamie.

-- E nem sua, eu suponho.

     Vejo seus olhos se encherem de lágrimas. Ah, tenho tantos sentimentos em mim agora. Ódio do pai dela, vontade de sacudí-la e obrigá-la a me contar a história de sua vida. Quero espantar  sua tristeza, quero que aquele feio hematoma desapareça. Quero que ela pare de tremer com o medo e angústia que sei que está sentindo agora. Então, eu a abraço.

-- Sim, Ian. Também não é culpa minha. -- ela diz, aninhando a cabeça em meu peito.

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