Capítulo 3
Ian
A viagem de volta até a propriedade foi, ao menos para mim, inquietante. Não apenas pelo pequeno furacão chamado Owen que cavalgava comigo, mas devido aos meus pensamentos acelerados, confusos e, talvez, fantasiosos. Mesmo silencioso perdido em meio às minhas reflexões , eu agi normalmente. Ou foi o que pensei.
-- Que animal te mordeu, Ian? -- Jamie perguntou logo depois que desmontamos no estábulo.
Os gêmeos já haviam desaparecido de vista, mas ainda podíamos ouvi-los rindo nas proximidades. Esses pestinhas dos meus sobrinhos tem muita, mas realmente muita energia.
-- Não me lembro de você ter me mordido hoje, Jamie. -- respondi rindo.
O que, claro, fez com que ele me desse um soco nem tão de leve no braço.
-- Estou falando sério, seu idiota. Está com a cabeça nas nuvens há horas. Quer dizer, mais nas nuvens do que o normal.
-- Estive pensando em algumas coisas, Jamie. Só isso.
Entregamos as montarias ao cavalariço para que recebessem os devidos cuidados e agora seguíamos até a casa principal.
-- Ian, quando você pensa demais eu sinto arrepios. O que está tramando agora?
Meu irmão me lançou um olhar desconfiado.
-- Você não vai gostar de saber.
-- Fale logo, Ian! Quanto mistério!
-- Eu vi a senhorita Missy Kedard no centro de comércio hoje.
Vi os olhos de Jamie se arregalarem levemente.
-- Bem, essa é provavelmente a última pessoa do mundo que eu imaginaria estar em seus pensamentos, Ian. E porque Missy Kedard o deixaria tão abalado?
-- Me pergunta isso pois não viu o que vi. A morte do pai a arrasou, Jamie. Pobrezinha!
-- Está com pena daquela mulher? Aposto que ela estava se oferecendo a você, chorando a morte daquele maldito em seu ombro enquanto lhe dava uma bela visão de seu decote! -- ele disse, zombando.
-- Está errado! Ela vendia algumas jóias, sem dúvidas para conseguir algum dinheiro, pois estão falidos há tempos e aquele homem morreu sem nem se esforçar para recuperar parte da fortuna para ela.
-- Está se deixando iludir, Ian. Aqueles dois não são confiáveis e não valem um tostão. Estão apenas colhendo o que semearam.
-- Para alguém que já foi julgado tantas vezes você o faz muito rápido, e dá a sentença mais rápido ainda, Jamie. -- ele se emburrou -- Aliás, te usando novamente como exemplo, as pessoas mudam e algumas vezes é para melhor.
Aquilo o deixou pensativo e, ao abrir a boca para me dar uma resposta, alguns gritos começaram a chamar a atenção.
-- Peguem os potros! -- alguém gritou.
-- Patrão! Os cavalos escaparam! -- berrou outro.
Ah, de novo não! Meu irmão e eu deixamos o assunto de lado e partimos na busca de Lama e Bolinho, os potros de meus sobrinhos. E, aliás os dois vieram nos "ajudar", correndo conosco para capturar os animais que eles mesmos soltaram. Logo conseguimos prende-los nas baias novamente.
-- Papai! O Lama não gosta de ficar ali! Ele quer correr, papai! -- disse Owen.
-- Sim, eles querem brincar papai, os deixe soltos. Titio, peça ao papai que solte o Bolinho e o Lama, vai. -- Robb pediu, juntando as mãozinhas gorduchas em sinal de clemência, e dando pequenos pulinhos que faziam seus cachos louros balançar.
Jamie veio e pegou rapidamente cada um em um braço, e seguiu quase correndo para casa.
-- Vocês já aprontaram demais comigo e com o tio Ian por hoje, meninos.
Os dois começaram a rir e tentar se soltar. Tudo para aqueles dois era brincadeira. Eu gargalhava vendo a cena, Jamie andando de maneira engraçada, equilibrando os filhos. E as crianças tinham as feições vermelhas de tanto correr e rir.
-- Lizy! Pelos deuses venha logo! Meu turno com eles acabou! Annelizy! -- Jamie chamava.
Logo minha cunhada apareceu.
-- Robb! Owen! Que travessuras aprontaram hoje, queridos? -- ela disse, sorrindo.
-- Mamãe! -- ambos gritaram em uníssono, pulando de uma vez dos braços do pai e correndo para o abraço da mãe.
Jamie os alcançou e beijou a esposa ternamente. Logo Nita chega com a pequena Clarissa nos braços.
-- Oi mãe -- eu a cumprimento com um beijo estalado na bochecha -- E oi, Clary minha princesinha.
Em questão de segundos, Jamie e Lizy conseguem arrastar Robb e Owen para tomar banho, o que era uma força tarefa da pesada. Eu pego Clary no colo para que Nita siga aos seus afazeres. Mesmo depois de descobrirmos que é minha mãe, e de nossa insistência para que ela pare de trabalhar e usufrua do conforto que Jamie, Lizy e eu queremos proporcionar a ela, Nita se recusa terminantemente, então ela segue às cozinhas para preparar o jantar. E eu fico ali, à sombra de uma árvore com minha sobrinha nos braços, agradecendo novamente pela família eu ganhei depois de tantos anos não tendo ninguém.
Depois de um longo dia, um jantar farto e algumas doses rasas de uísque, finalmente estou quase pronto para dormir. Tomo um banho rápido na banheira pois o sono já está me reivindicando. Antes de me deitar organizo rapidamente as roupas que em minha pressa joguei ao chão, e sinto no bolso da calça um pequeno volume. Verifico e retiro dali o broche que comprei de senhorita Kedard pela manhã. Eu havia me esquecido de todo esse assunto e agora, rápidos como raios cortam o céu, os pensamentos de mais cedo retornam à minha cabeça enquanto me deito ainda com o objeto em mãos.
Jamie pode me julgar um tolo inocente por sentir compaixão de Missy Kedard, mas a verdade é que vê-la naquele estado me espantou. O que esses poucos anos haviam feito com ela? Ainda era estupidamente bela, claro, mas estava pálida demais, com olheiras arroxeadas circulando aqueles belos olhos verdes, olhos esses que já não possuíam mais o brilho de outrora. E estava emagrecida, tanto que os ossos de sua clavícula estavam aparentes no decote do vestido que, a contra partida do que meu irmão disse, era quadrado e discreto. A notícia do falecimento de lorde Kedard circula há não mais de uma semana, portanto sem dúvidas essa mudança em sua aparência é mais antiga. O que teria acontecido para deixá-la tão abatida ainda tendo o pai e provedor em vida?
Eu a vi quando deixei Jamie alimentando as crianças numa barraca que servia caldos e carnes assadas, e segui até o outro lado da feira para cumprimentar alguns conhecidos. Ela estava em pé num canto, ligeiramente escorada em um banco antigo. De olhar perdido e silenciosa ela parecia mergulhada nos próprios pensamentos. Na verdade, ela claramente estava longe dali. Foi graças a esse fato que eu pude analisá-la tão minuciosamente. Pude ver outros detalhes também, como o cabelo ruivo não tão arrumado que estava lutando para desfazer o penteado, e a expressão melancólica dela. Uma que, aliás, eu reconheci pois a conhecia bem: solidão.
Missy Kedard hoje carrega a mesma tristeza que antigamente era um fardo meu: o de não ter família. E, eu arrisco palpitar, a situação dela é ainda pior. Desde que meu irmão cortou relações de amizade e negócios com aquela família, eles ruíram. É como se tudo o que lorde Kedard quisesse da vida fosse casar a filha com Jamie e quando não conseguiu, decidiu se afundar e, aparentemente, afundá-la junto dele. Então, sim, eu senti pena e compaixão daquela jovem mulher de olhar tão vazio e perdido, tão sozinha ali vendendo suas jóias para poder sobreviver, mesmo que eu saiba de seus erros do passado. Poderia alguém me julgar por isso?
Com esses pensamentos, e ainda tendo o broche de estrela em mãos, adormeci.
Três capítulos de uma vez pq eu tô descontrolada!!!!!
Kkkkkkkkk
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