Capítulo 19

     Depois que Ian se retirou da biblioteca me deixando com Lizy e a bebê, percebi que a senhora Mackenzie é realmente agradável. Essa é a primeira vez que ficamos a sós e percebo o quanto ela me aceitou de braços abertos, deixando o passado completamente para trás.

-- Ah, Missy, dizem que o parto é o pior, mas ninguém diz nada sobre os primeiros anos das crianças! -- diz, enquanto tira a pequena Clary de seus seios e a põe sobre seu ombro para arrotar -- Não tive muito contato com crianças antes, mas tenho minhas dúvidas se todas elas são tão arteiras quanto meus filhos.

-- Eu imagino que são sim, senhora. Uma criada teve uma menina há alguns anos, e ela colocou fogo na cozinha certa vez.

-- Pelos deuses! Espero que ninguém tenha se ferido! -- Lizy diz espantada.

-- Ah, conseguiram apagar tudo bem rápido, a diabinha teve alguns fios das sobrancelhas tostados mas nada que fosse grave.

     Ambas sorrimos com esse relato e logo após a bebê soltar o arroto mais delicado e fofo que já vi, Lizy a aninha nos braços.

-- Será que… eu poderia... -- aponto a bebê.

-- Quer segurá-la? Mas é claro! Aqui… -- Annelizy passa a bebê para meus braços e demoro alguns segundos para acomodá-la corretamente.

     Clary resmunga ao sentir meus braços desajeitados, já que nunca peguei um bebê na vida, então me levanto e tento acalmá-la como Lizy me ensinou e logo ela para seu chorinho e me encanta com um sorriso angelical. Seus cabelos ralos e alaranjados são tão finos e delicados, seu narizinho, seus pequenos e inocentes olhos, sua bochecha gorda e rosada, suas mãozinhas segurando meu dedo com força, tudo nela é delicado. O que farei quando for o meu bebê em meus braços? Tão frágil e dependendo inteiramente e apenas de mim já que essa criança nunca terá alguém para chamar de "pai", e além de tudo, nascendo numa hora crucial de minha vida.

-- Eles geralmente vêm em momentos tão inoportunos... -- Lizy diz parecendo ler meus pensamentos.

-- Foi assim para a senhora? -- pergunto, mantendo um suave sacolejar enquanto os olhos de Clary começam a pesar em sono.

     Annelizy leva um momento para responder, com o olhar sonhador na filha em meus braços, e vejo um sorriso triste se abrir em seus lábios. Ela se levanta e caminha suavemente até mais próxima a mim.

-- O dia em que descobri minha primeira gravidez foi quando Ethan Coen me encontrou. Ele incendiou os estábulos e quase matou Nita com um tiro no peito que, graças aos deuses, pegou em seu ombro. -- ela acaricia a bochecha da filha, que sorri alheia à triste história da mãe -- Ele me levou e me espancou até Jamie me encontrar. Eu perdi aquele bebê, Missy. Eu havia acabado de descobrir que ele estava comigo, mal tive tempo de fazê-lo sentir o meu amor, e meu bebezinho foi tirado de mim. -- Lizy seca uma lágrima que lhe escapa -- Mesmo com três crianças eu ainda sofro por ele, nenhum filho pode ocupar o lugar do outro, sabe?

     Estico uma mão e seguro a dela num gesto amigável, e Lizy me aperta com força

-- Não posso dizer que entendo sua dor, mas sinto muito que tenha passado por isso. -- digo com sinceridade e Lizy apenas acena, aceitando minhas palavras.

     Logo Ian chega e me observa maravilhado segurando sua sobrinha nos braços e Lizy logo percebe o sorriso bobo no rosto dele.

-- Você veio aqui com algum propósito ou apenas para babar sobre a senhorita Kedard, Ian?

-- Ah, sim, o propósito, claro. O almoço está servido, adoráveis damas. Seu humilde servo veio para acompanhá-las até a sala de jantar. -- diz numa referência profunda.

     Sorrio com a formalidade exageradamente forçada dele e Lizy apenas revira os olhos enquanto pega a pequena Clarissa já adormecida de meus braços. Ao sair, ela murmura alguma coisa para Ian, que apenas lhe dá um sorriso travesso. Sigo até ele que entrelaça nossos braços e caminhamos até a refeição.

-- Você combina com um bebê em seu colo. -- ele diz suave.

-- Imagino que qualquer mulher combine. Essa é nossa função afinal, não é mesmo?

-- Eu te conheço pouco, Missy, mas o suficiente para saber que você não pensa assim.

--  Claro que não, Ian. Mas fui tratada como uma égua reprodutora toda minha vida, e sei que ser mulher é muito mais do que ser mãe.
    
-- Sem dúvidas é. Ser mulher é ser guerreira. Nita, Annelizy e você são as mulheres mais fortes e ferozes que já conheci. Tenho orgulho e admiração por todas vocês. E vê-la com Clary me tocou porque vocês são muito parecidas, com esses fios alaranjados. Não quis ofendê-la dizendo que precisa de filhos para ser uma mulher completa. Você já o é com maestria. Desculpe-me se a ofendi de alguma forma.

     O tom de arrependimento é perceptível em sua voz. Ian pode não perceber, mas é tão transparente quanto água fresca saindo da fonte. E por um momento sinto-me boba por ter despejado nele esse assunto tão pesado graças à um simples elogio.

-- Não ofendeu. Desculpe-me também por descontar sobre você minha raiva sobre algo que não é nem de longe culpa sua. -- estamos agora nos aproximando da sala de jantar e já podemos ouvir os ruídos de conversas e talheres, estanco meus passos e Ian faz o mesmo -- Eu vou sentir sua falta, senhor Mackenzie.

     Olhos azuis confusos me encaram, tentando entender minhas palavras sussurradas. Um vinco é formado entre as sobrancelhas de Ian e um meio sorriso toma seus lábios.

-- Não percebi que estávamos rumando para uma despedida, senhorita Kedard.

-- Sabe que partirei imediatamente após a refeição. Só pensei que poderíamos aproveitar esse último momento a sós para nos despedirmos com privacidade.

     Vejo o instante em que ele compreende o sentido de minhas palavras e seu semblante muda de confuso para sedento. Ian desce o olhar para meus lábios e sorrindo me puxa para uma saleta próxima e ali ficamos à portas trancadas.

-- Sabe que não ficaremos muito tempo longe, não é? Somos sócios agora. -- ele diz, apertando minha cintura.

-- Sou sócia do seu irmão, Ian. Não sua.

-- Então o que nós somos? Não sócios, não namorados, obviamente.

-- Obviamente! -- concordo.

-- E então? Que tal amigos com benefícios?

-- Que tipos de benefícios essa amizade inclui? -- pergunto inocente, mordendo o lábio chamando a atenção dele para ali novamente.

-- Ah, muitos benefícios, começando com beijos nessa sua boca provocativa. -- ele passa o dedo suavemente retirando meu lábio de sua prisão entre meus dentes.

-- Esse será o único benefício, já que não temos tempo para mais nada, mas por hora está bom. Beije-me, senhor Mackenzie.

     Ian solta um suspiro antes de atender ao meu pedido, e então me beija tão selvagemente quanto da primeira vez. Suas mãos passeiam sem pudor pelo meu corpo sobre o vestido, o que me faz ansiar por sentir aquele toque diretamente em minha pele. Por minha vez, puxo sua camisa de dentro da calça, e me delicio com a textura macia de sua barriga definida e suas costas musculosas. Ian solta um gemido quando o arranho levemente, e sorri ainda com os lábios junto dos meus, mas tira minhas mãos do oasis que é seu corpo.

-- Estamos na beira do limite e muito perto de sermos pegos, Missy. -- ele diz com voz rouca.

     Apenas concordo com um aceno enquanto ele arruma novamente a roupa. Claro que ele tem razão, é errado ceder aos meus desejos aqui na casa de lorde Mackenzie e ainda mais com a família reunida no cômodo ao lado. Mas tudo com Ian parece tão certo e, pelos deuses, tão bom que é difícil controlar-me.

-- Vamos então? -- peço.

     Antes de sair Ian pega meu rosto entre suas quentes mãos, e se aproxima quase colando seu nariz no meu, sem desviar aquele mar azul de meus olhos. Isso, de alguma forma, é mais íntimo do que os beijos ardentes que trocamos.

-- Agora você não vai se livrar de mim tão fácil, Missy.

     Com um beijo suave para selar essa promessa, logo nos reunimos com a família para a refeição, que acontece em meio à trocas de olhares desconfiados que Ian e eu fizemos questão de fingir não ver.

     Agora na entrada da cabana de Ian, que está lá dentro fazendo algo que ele disse ser urgente, Agnes e eu aguardamos que nossos cavalos sejam trazidos até nós, na companhia agradável da senhora Mackenzie. Ou melhor, Lizy, como ela insiste que eu a chame. Após a refeição nos despedimos de Nita, Klan e das crianças. Robb mostrando ser um cavalheiro desde cedo se desculpou pelo episódio das minhocas, e Owen danou a rir, imitando meus pulos desajeitados, o que fez com que levasse um puxão de orelha da mãe e me rendeu um outro pedido de desculpas partindo dele.

-- Entre em contato conosco caso precise de qualquer coisa, está bem? -- Annelizy diz pela segunda ou terceira vez. -- Ah, e Nita lhe enviou esse bolo de amêndoas com mel que, segundo informações, é seu favorito.

     Ela me estende um embrulho de pano, que percebo ainda estar morno e, pelos deuses, o cheiro é divino! Sinto lágrimas me arderem os olhos com o gesto de carinho.

-- Oh, muito obrigada! -- dou uma fungada -- Agradeça a Nita por mim e fique tranquila, Lizy, assim que as reformas forem feitas, quero a presença de vocês para verificar tudo e, claro, comemorarmos com um belo jantar. -- digo animadamente -- E, mais uma vez eu agradeço por tudo que fizeram por mim.

-- Você não precisa agradecer. Eu é que agradeço ao coração bondoso de Ian que nos permitiu concertar um pouco a injustiça que foi sua vida.

     Logo nossas montarias chegam, trazidas por Jamie e um empregado. Porém, algo não está certo, já que à nossa frente estão três cavalos selados.

-- Lorde Jamie, este terceiro cavalo não é nosso. -- comunico o equívoco.

     Percebo o homem ruivo arregalar os olhos levemente e suspirar ao olhar para um ponto atrás de mim. Olho para trás e vejo Ian saindo de casa com uma grande sacola em mãos e um grande sorriso nos lábios.

-- Claro que não, Missy. Esse cavalo é meu.

-- Porque não contou a ela, Ian? -- Jamie pergunta.

-- Estava sendo muito mais interessante quando Missy pensou que nos despediríamos hoje. Então mantive a informação de que eu irei junto em segredo para aproveitar um pouquinho.

     Olho para o cavalo, a mala e Ian intercaladamente.

-- Ora seu… Escondeu isso de mim apenas para me roubar um beijo? -- tapo a boca imediatamente ao perceber que disse isso em voz alta. Sinto minhas bochechas arderem.

-- E para ouvi-la dizer que sentiria minha falta. -- ele diz, sem pudor algum, lançando-me uma piscada divertida.

     Percebendo meu constrangimento Lizy se aproxima enquanto Ian arruma suas coisas no alforje.

-- Não precisa ficar com vergonha, Missy. Todos sabíamos do envolvimento iminente de vocês. Jamie apostou que seria apenas quando fossem para a fazenda, mas eu apostei que estava acontecendo aqui sob nossos olhos.

-- Fizeram uma aposta sobre nós? -- pergunto dividida entre incrédula e divertida -- O que você ganhou, Lizy?

-- As fraldas do restante do mês serão todas minhas. -- Jamie responde chegando até nós.

-- Graças a você terei uma folga de duas semanas das fraldas cheias de Clary. Obrigada. -- diz rindo enquanto Jamie suspira derrotado.

-- Nós mulheres devemos nos manter unidas. -- digo rindo junto dela.

-- Estamos prontos aqui, senhoritas. -- Ian chama ao terminar de guardar todos nossos pertences.

     As despedidas são rápidas pois sabemos que manteremos contato logo. Jamie novamente se desculpa pelo seu comportamento e vejo em Annelizy o orgulho que tem daquela atitude do marido. Agnes monta sem dificuldades e Ian me ajuda mesmo sem necessidade, com uma pegada forte em minha cintura.

-- Eu te disse que não se livraria de mim tão cedo, não foi, querida Missy? -- ele sussurra em meu ouvido, causando arrepios pelo meu corpo todo.

     Nos primeiros quilômetros, pensei com preocupação o quão difícil seria resistir a Ian Mackenzie na privacidade de minha própria casa. Nos demais, comecei a pensar no quanto estava ansiosa por não resistir a ele.

    

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