Capítulo 12 - O Sarau de Dança
A música começa a tocar e por um momento, é como se eu a escutasse pela primeira vez. Executo os movimentos que eu mesma criei, tentando passar uma segurança que eu não sentia dentro de mim.
Lembro-me das palavras de meu professor, que sempre me disse para dançar com a alma e me entregar a dança. Por mais difícil que fosse, eu estou disposta a dar o meu melhor nesse palco e entregar tudo aquilo que eu tenho dentro de mim.
E é exatamente o que sinto que eu faço. Me movo da mesma forma que eu sempre imaginei que me moveria dentro da minha cabeça. Transpasso tudo o que meu corpo sente com a coreografia que eu criei. Levanto a perna, faço diversos passos no chão, me entrego de corpo e alma a experiência de dançar.
Vez ou outra meus olhos se encontram com os de Henrique, que parecem vidrados em mim. Percebo que ele está com a câmera na mão, mas volto a me desligar dele para dar atenção aos movimentos que faço no palco.
Tenho consciência de que a minha perna ainda não levanta até a minha cabeça, e que eu ainda não tenho os movimentos limpos como os de uma bailarina do avançado, mas sinto que progredi pela forma como me movo pelo palco. Minha perna levanta mais do que levantava antes, meu giro está sólido como nunca esteve antes e minha meia ponta está mais alta.
Me sinto transbordar junto com a música enquanto meu corpo se move.
A coreografia termina e eu ouço os aplausos empolgados da plateia.
Volto para a coxia com um misto de adrenalina, liberdade e satisfação.
Meu professor me dá um abraço apertado.
— Hoje você deu um grande passo em direção a bailarina que eu sei que você vai se tornar. Estou orgulhoso de você, parabéns. — O elogio do meu professor faz meu coração praticamente saltar de alegria. As outras meninas também vem me abraçar, parabenizando-me pelo meu desempenho.
Me sinto dentro de um sonho. Ofegante, pego a minha garrafa de água e sinto o suor escorrer pela minha testa.
— Eu amei ver você dançando. — Driquinha aparece do meu lado, eufórica. — Foi lindo. Eu gravei tudo! Já até mandei o vídeo para você pelo Whatsapp.
— Obrigada, Driquinha. Acho que hoje é o dia mais feliz da minha vida.
— Se você está feliz, eu estou feliz. — Minha melhor amiga me envolve em um abraço apertado. — Eca, você está toda suada!
— Claro, eu acabei de me apresentar.
— Eu sei, sua vaca. Eu te amo. Espero que tome um banho quando chegar em casa. — brinca, me amassando em outro abraço de urso. Gargalho com vontade.
Sim, hoje se tornou o melhor dia da minha vida. Ou pelo menos, um dos melhores.
Ao final do sarau de dança, fomos para o palco agradecer. Foi muito emocionante ver nosso professor falando de como o sarau tinha lhe deixado emocionado e com o coração grato pelo desempenho de suas alunas. Me senti ainda mais feliz por saber que eu tenho a oportunidade de fazer parte de algo que para mim é tão importante na minha vida.
Meu coração queima pela dança e ela por mim. Por mais que eu ainda não seja uma aluna digna de estar no intermediário ou no avançado, sinto que estou no caminho certo. Eu realmente preciso trabalhar na área da dança. Não existe nenhuma outra coisa que me faça mais feliz do que dançar.
Reflito em tudo isso enquanto arrumo as minhas coisas para ir embora. Encontro meus pais do lado de fora. Ambos parecem felizes.
— Você estava linda lá no palco. — Mamãe me abraçou forte.
— Dançar é seu dom. — diz papai, me abraçando logo em seguida. — Tiramos muitas fotos suas, espero que alguma esteja boa, porque eu estou sem meus óculos.
— E fizemos questão de chegar cedo para escolhermos o melhor lugar para fazermos a filmagem e as fotos. — comenta mamãe, toda orgulhosa.
— Querem deixar Henrique desempregado? — brinco, ansiosa para ver as fotos e a filmagem que meus pais haviam feito.
— Ele ficou tão vidrado na sua apresentação que não acho que tenha conseguido tirar muitas fotos suas.
— Mãe!
— Mas é a verdade. Eu ia até cutucar ele, mas ele estava longe e eu não queria atrapalhar a filmagem. — Mamãe dá um sorriso amarelo enquanto eu coro de vergonha.
— Obrigada por virem. Significa muito para mim.
— Sei que nunca demos atenção a essa área da sua vida, mas estamos muito felizes por termos vindo. — Papai afaga meu rosto com carinho. — Ainda não acredito que foi você que criou aquela coreografia.
— As vezes nem eu acredito.
— Você tem potencial para ir muito mais longe que isso, minha linda. — Minha mãe também faz carinho em meu rosto.
— E esse é só o começo. — completa papai, enquanto me sinto dentro de um sonho.
— Obrigada. Por tudo.
Os dois olham um ponto específico atrás de mim com uma expressão maliciosa. Fico sem entender.
— Acho melhor irmos na frente. Te vejo em casa. — Mamãe me dá um beijo na bochecha e meu pai se despede de mim com um beijo na testa. Me viro a tempo de ver Henrique chegar até mim com a câmera no pescoço.
De repente, me lembro do beijo que ele me deu e fico sem saber como agir.
— Tirei muitas fotos suas. Vou te mandar depois.
— Obrigada. — Estou corada de vergonha. Sinto que minhas bochechas estão pegando fogo.
— Você estava linda lá em cima. A sua coreografia foi... Intensa. Nunca tinha te visto tão entregue ao palco como te vi hoje.
— E eu não paguei mico nenhum! — exclamo, ainda sem saber o que dizer. — Isso é algo que precisa ser comemorado.
— Que tal irmos na Estação do Suco? Por minha conta!
O Henrique acabou de me chamar para um encontro?
Estou tão chocada que quase me belisco, sem acreditar que isso é real.
— Acho uma ótima ideia.
Ir até a lanchonete dos meus pais não era uma opção. Ela estava em pleno funcionamento e provavelmente meu pai não se aguentaria e iria para a Beach Pop assim que chegasse em casa, e eu não queria que fofocassem sobre mim e muito menos que ficassem nos observando.
— Vou só guardar meus equipamentos.
Henrique se afasta e eu o observo, sentindo o nervosismo que me domina. Ir em um encontro com Henrique é algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer. Passei grande parte da minha vida odiando-o, e pensei que isso não fosse mudar nunca.
Driquinha e Leo saem de mãos dadas e ambos me dão tchau antes de irem embora. Passo o tempo repostando todas as pessoas que me marcaram em stories da apresentação de hoje, tentando inutilmente distrair a cabeça do fato de que estaria com Henrique em breve.
Ele retorna esbaforido, mas continua lindo e cheiroso. O olhar que ele projeta quando me vê faz calafrios percorrerem meu corpo. Vou até seu encontro e nos dirigimos até seu carro. O caminho até a lanchonete que iríamos não é muito longo, e pela hora, a Estação do Suco provavelmente estará abarrotada de pessoas, o que de certa forma vai ser bom, pois se nosso pedido demorar a sair, é um tempo a mais que terei disponível para conversar com Henrique.
Nós entramos no veículo e Henrique dirige em silêncio pela rua.
Em menos de cinco minutos, chegamos na Estação do Suco, que está cheia, mas não ao ponto de não ter lugares sobrando.
Henrique estaciona seu carro ali perto, então entramos para realizar o nosso pedido. Depois que Henrique realiza o pagamento, escolhemos uma mesa no canto, próximo a janela para nos sentar. Existem mesas do lado de fora do estabelecimento, na área descoberta, e na lateral também, mas preferimos nos sentar dentro do salão, perto do balcão mesmo.
Meu estômago ainda está meio embrulhado, de modo que não sei se vou conseguir comer, mas não revelo isso a ele.
Enquanto esperamos o nosso pedido, Henrique puxa assunto comigo.
— E aí, o que achou de hoje? — Não sei se ele está falando do sarau ou do nosso beijo, mas opto por ir pelo caminho mais seguro.
— Foi bem legal, só me confirmou que eu realmente preciso trabalhar com a dança. Sei que a arte é muito desvalorizada, mas eu estou fazendo administração como um plano B. Hoje em dia, é difícil qualquer profissão ser valorizada. Conheço muitas pessoas formadas em faculdade que estão desempregadas, e isso é triste.
— Infelizmente, ter um diploma não é mais tão bem valorizado quanto um dia foi. Fico feliz que realmente tenha decidido seguir por esse caminho. Você tem se desenvolvido muito rápido. — Ele observa, e sou grata por me dizer isso.
— Muita gente tem me dito isso. — Eu ainda me sinto bem eufórica toda a vez que penso que a minha evolução está a cada dia mais real. — E você? Está feliz na área de Publicidade e Propaganda?
— Muito. Desde pequeno eu sempre soube o que eu queria fazer. Hoje em dia não me vejo fazendo outra coisa.
— Queria ter tido essa convicção desde nova.
— Na verdade, uma parte de você já sabia o que queria, você só não entendia ainda.
— É, faz sentido.
Continuamos conversando. Muito. Mesmo depois da entrega dos nossos lanches, entre mordidas em hamburgueres e goles em refrigerantes, a conversa não parou.
E depois de comermos, nós continuamos conversando.
Durante essas longas conversas, falamos de tudo um pouco: Desde desigualdade social até cor favorita e banda favorita. Nós nos conhecíamos há muito tempo, mas estávamos ocupados demais odiando um ao outro para termos alguma conversa decente.
Cada vez que eu conhecia mais um pouco de Henrique, mais eu ficava fascinada.
A hora passa tão rápido que quando vemos, já são mais de nove e meia da noite.
Saímos da lanchonete absortos em um silêncio confortável. Henrique segura meu braço há meio metro de seu carro, e eu me viro para ele com as bochechas vermelhas novamente.
Ele passa o polegar pela minha bochecha com a mão livre e eu fecho os olhos, apreciando o carinho.
— Você fica linda quando está com vergonha. — Ele suspira, e eu abro os olhos. — Na verdade, você fica linda de qualquer jeito.
Henrique se aproxima de mim e encosta os lábios nos meus. Simples e arrebatador.
Seguro sua nuca e lhe trago para mais perto, sentindo o calor de seu corpo bem perto do meu. Nosso beijo faz com que eu perca as estruturas e qualquer tipo de pensamento lógico que possa sequer passar pela minha cabeça some.
Estou sem fôlego, mas não quero parar.
Henrique se afasta o suficiente para encostar a testa na minha. Ele sorri, e eu percebo que estou sorrindo também. Depois, me beija de novo.
Chego em casa em segurança. Henrique me deixa na porta e me beija várias outras vezes. Não quero que ele vá embora, mas ele precisa ir para casa.
— Podemos nos ver amanhã? — pergunta ele.
A essa altura do campeonato, eu nem sei mais que dia é amanhã.
— Sim. — É a única coisa que respondo.
Henrique sorri, entra no carro e vai embora, enquanto eu fico olhando meu ex inimigo se afastar.
Entro em casa me sentindo nas nuvens. Ouço vozes na cozinha e caminho até lá. Mamãe está conversando com uma garota que está de costas para mim.
— Oh, finalmente você chegou! — Mamãe se anima ao me ver chegar e a garota se vira para mim com um sorriso malicioso.
Eu, que até então sorria, desmorono e desfaço o sorriso na mesma hora.
— Sua prima Patrícia conseguiu vir mais cedo! Não é ótimo?
— Oi, prima! — Patrícia, minha prima diaba se levanta e caminha até mim sem tirar o maldito sorriso do rosto. — Senti muito a sua falta.
Patrícia me abraça e meu brilho some na mesma hora.
O que será que ela está tramando contra mim?
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