Capítulo 11 - Nervosismo

Sonhar com os carneirinhos bizarros não me acalmou, de modo que a minha noite foi agitada e com outros sonhos tão desconexos quanto o primeiro. Lá pelas três da manhã eu desisti de dormir e fiquei ensaiando meu solo e o restante das coreografias dentro do quarto, com cuidado para não acordar meus pais, que dormiam no outro cômodo.

Nesse meio tempo, me lembrei de que esse era o horário perfeito para a assombração ou o tinhoso aparecerem nos filmes de terror, e voltei para debaixo dos lençóis, onde fiquei vendo vídeos no Tik Tok para me distrair.

Só consegui voltar a dormir umas seis da manhã, mas tive que me levantar as oito para me preparar para o sarau. E mesmo que eu tivesse dormido muito mal, eu ainda não me sentia cansada por conta da ansiedade causada pelo dia de hoje.

Todos os figurinos que vou utilizar se encontram perfeitamente dobrados em cima da minha cama, assim como todos os acessórios e maquiagens que eu teria que levar para a Motirô.

Meu professor marcou com todo o mundo para passar as coreografias no Studio de Dança e iríamos nos arrumar por lá. Depois, iremos nos dirigir para a lona cultural para ajudar a finalizar a arrumação e os preparativos do lugar, e eu já me sinto extremamente nervosa só em pensar no meu solo.

Arrumo a minha mochila com cuidado para não amassar as roupas e a sensação de que estou esquecendo algo me persegue, mesmo que eu tenha me certificado milhares de vezes de que tudo está em seu devido lugar dentro da minha mochila.

Almoço mais cedo do que de costume e me dirijo até a Motirô. Vou de ônibus porque não confio em deixar minha bicicleta presa por mais tempo do que o necessário no bicicletário. Eu até chamaria um Uber, mas estou adiantada no horário, de modo que não há necessidade de gastar dinheiro com isso.

Meus pais garantiram que estariam lá para me ver, e senti a animação em suas palavras, o que consequentemente me deixou um pouco mais animada do que eu já me sentia.

Quando chego na Motirô, meu professor já está lá, assim como mais duas meninas que são da minha escola de dança.

Meu coração dispara ao ver que Henrique se encontra no meio deles, carregando alguns utensílios de iluminação enquanto conversa com Gil.

Entro no Studio de Dança com a mochila a tiracolo e me sinto feia e desarrumada quando vejo como Henrique está bem vestido.

Ele se vira para mim quando dou boa tarde a todos e me dá um meio sorriso.

Driquinha chega logo em seguida, com os figurinos em um cabide, totalmente sem fôlego e esbaforida.

Henrique sai da sala e eu vou para a sacada do Studio de Dança bem a tempo de vê-lo se dirigir até o porta malas do carro quase cheio e colocar o restante dos equipamentos que ele carrega consigo.

— Não se preocupe, ele vai te ver bem linda no sarau e vai querer te beijar. — Driquinha diz, parando ao meu lado enquanto assiste Henrique entrar no carro, provavelmente a caminho da lona cultural.

— Eu duvido muito, mas não quero me distrair pensando em Henrique agora. Tenho que me concentrar em não cair do palco hoje.

Pagar mico sempre foi uma tarefa muito fácil para mim, então meu nervosismo é bem compreensível.

— Amiga, vai dar tudo certo. Fica tranquila. — Minha melhor amiga afaga meu ombro e eu assisto o restante das meninas chegarem.

— Ainda bem que a Patrícia não vai vir hoje, uma coisa a menos para tirar a minha paz. — comento, me arrependendo de ter lembrado de que minha prima viria passar alguns dias lá em casa.

— A sua prima está vindo pra Itaipuaçu? — Driquinha divide o mesmo apreço que tenho por Patrícia.

— Infelizmente sim, deve chegar amanhã de manhã.

— Será que não tem como cancelar? — Ela faz uma cara de sofrida e eu dou risada. — Fala que a sua casa está infestada de cupins e que para dedetizar vai levar pelo menos um mês.

— Não posso mentir, minha mãe vai descobrir e quem vai se ferrar sou eu. — Eu digo, fazendo Driquinha choramingar. Meu professor nos chama para dentro e pede para que a gente se alongue.

— Por que ela se dá ao trabalho de vir para cá se nem gosta daqui? — Driquinha pergunta, sentando-se ao meu lado no chão de linóleo. Nós duas fazemos a borboleta e as outras meninas fazem o mesmo.

— Para me infernizar.

— Temos que cortar as asinhas dela.

— Eu tenho que andar na linha. — Pressiono minhas coxas para baixo para a borboleta descer mais. — As coisas estão começando a se ajeitar com meus pais, não quero estragar isso.

— Então que bom que somos irmãs de pais diferentes, porque se ela se meter comigo ou com você, a cobra vai fumar! — Começo a rir da frase de minha amiga.

— Driquinha, ninguém fala mais assim hoje em dia.

Ela abre um sorriso e joga os cabelos loiros para trás.

— É isso o que me faz ser única e especial.

[...]

Me sinto nervosa. A medida que nos aproximamos da Lona Cultural, um nervosismo me acomete e quase me paralisa. Se Driquinha não tivesse me arrastado pelo cotovelo para fora do ônibus, eu teria ido parar no Recanto, que é o ponto final do ônibus que eu me encontrava.

O medo de cair, de estragar as coreografias e de errar tudo praticamente me domina, de modo que fica bem difícil pensar com clareza. Repasso as coreografias e meu solo em minha mente, mas começo a me confundir: Qual braço que eu tenho que levantar? Para qual lado tenho que girar?

Me sinto prestes a explodir.

— Ei, está tudo bem? — Henrique indaga ao me ver surtando na coxia. Estou sozinha no canto enquanto as meninas se vestem no camarim improvisado do outro lado de onde me encontro. A minha maquiagem e cabelo já estão feitos, só falta vestir o figurino da primeira coreografia em grupo.

Driquinha fora socorrer meu professor, que precisava de ajuda.

— Estou surtando de nervoso. Parece que me deu um branco e eu esqueci completamente tudo o que eu preciso fazer. — Arregalo os olhos. — Não lembro nem a ordem das coreografias!

Henrique dá uma risadinha disfarçada e coloca a câmera profissional de lado.

— Você ensaiou bastante, você sabe as coreografias. Agora é o momento de relaxar. Está tudo aqui dentro. — Ele encosta o dedo indicador na lateral da minha cabeça. — Fica tranquila, que tudo dará certo.

— Não tem garantia nenhuma de que eu não vá cair de lá de cima.

— E por causa de um medo hipotético você vai mesmo deixar de fazer o que ama? — Ele indaga, e eu me sinto uma idiota por ter falado tanta besteira.

Quando estou nervosa, tenho uma tendência a falar coisas sem sentido.

— Não...

— É normal ficar nervosa, mas como eu disse antes, você sabe as coreografias. Não tem o que temer.

— Obrigada, vou me vestir logo.

Henrique segura a minha mão entre as suas para me frear e me pega de surpresa.

— Você está muito gelada.

— Eu fico assim quando estou nervosa. — explico, sentindo-me ainda mais trêmula depois do contato das mãos quentes de Henrique sob as minhas. Seu rosto está corado e lindo, os cabelos negros ainda úmidos, os olhos emitindo um brilho incomum.

Ainda segurando as minhas mãos, Henrique se aproxima de mim e me dá um beijo que me faz perder o resto das estruturas. Suas mãos firmes se posicionam na minha cintura, e seu beijo me transporta para outro mundo. Me sinto quente como nunca me senti antes.

Ele se afasta antes que eu possa raciocinar o que está acontecendo, enquanto meu coração bate mais rápido do que uma bateria de escola de samba.

— Achei que eu devia retribuir o beijo da outra noite. — Ele sorri e se afasta, deixando-me parada feito estátua na coxia.

[...]

O sarau de dança não demora a começar, e eu não vejo mais Henrique na coxia. Ele ainda passa para tirar algumas fotos nossas nos bastidores, mas quando o sarau começa, ele vai fotografar o evento.

A primeira coreografia que danço é em grupo, e é a terceira da noite. Me saio bem, não erro nenhum passo e também não cometo vexames.

Na segunda coreografia em grupo, já estou mais calma e confiante, de modo que me sinto mais tranquila no palco. Meu entrosamento com as meninas está ótimo, e isso me ajuda a manter a minha confiança lá nas alturas.

No entanto, quando meu professor anuncia que os solos irão começar, meu coração volta a bater mais forte dentro do peito. Eu seria o décimo solo da noite, e senti que iria me desfalecer a qualquer instante. Seria ótimo se Henrique aparecesse para me dar outro beijo. Eu continuaria nervosa, mas pelo menos teria outra coisa para me distrair.

— Agora eu estou me sentindo nervosa. — Driquinha para ao meu lado, já com o seu figurino. Ela está com uma roupa brilhosa e azul marinho curta e provocante.

— Eu também estou. — Começo a devanear. — Henrique me beijar só me deixou mais nervosa do que antes, mas pelo menos valeu a pena.

Driquinha arregala os olhos, a expressão mais chocada que já vi. Na correria entre trocar de roupa e de penteado e maquiagem, não deu tempo de contar as boas novas a minha melhor amiga.

— Como assim beijar Henrique?

— Ele veio tentar me acalmar e acabou me beijando. Mas foi muito rápido, as vezes me pergunto se isso realmente aconteceu.

— E você só me conta isso agora? — Ela ainda está chocada, mas me dá uma boa conferida. — E você está ainda mais linda com o seu figurino. Vermelho é a sua cor.

Meu figurino é realmente muito bonito. Assim como o de Driquinha, minha roupa tem muito brilho. A diferença, é que eu usava um collant vermelho e por cima uma saia de tule transparente que ia até os tornozelos e deixava uma fenda enorme que ia do começo das coxas até o final.

Na boca, eu usava um batom vermelho sangue e os olhos bem marcados de preto.

— O Henrique vai enlouquecer quando te vir. — completou, ainda me observando. — Meu solo está quase chegando. — acrescenta ela, com um olhar de desespero no rosto. Coloco uma mão em seu ombro.

— Vai dar tudo certo.

O solo de Driquinha não demora a chegar e ela se sai lindamente bem.

O tempo parece passar rapidamente enquanto observo os solos da coxia. Meu coração bate cada vez mais rápido a medida que meu solo vai se aproximando.

Até que meu nome é anunciado pelo meu professor no meu microfone e eu sinto como se eu fosse desfalecer.

Porém, ao invés de cair como uma banana podre, reúno toda a coragem que eu tenho dentro de mim e peço a Deus para que dessa vez eu não pague nenhum mico.

Entro no palco ainda sob os aplausos da plateia. Não consigo localizar meus pais e nem outros rostos conhecidos.

Mas fecho os olhos e espero a música começar a tocar.

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