37° Ela merece saber

A festa continuava animada, com a pista de dança cheia de convidados e as risadas ecoando pela casa. Gabriel ainda estava refletindo sobre a conversa com Alice, as palavras dela ressoando em sua mente, mas ele tentava não deixar que isso interferisse no momento. Ele sabia que as coisas não poderiam ser forçadas, e que, por enquanto, seu foco precisava estar em se curar e se reconectar com si mesmo.

Após dançar com Alice, Gabriel se afastou um pouco da pista de dança, caminhando pela sala com a taça de vinho ainda na mão. Ele observava os outros, a felicidade estampada no rosto de todos, e sentia uma mistura de gratidão e um leve desconforto. Ele sabia que, em algum momento, as questões em seu coração precisariam ser resolvidas, mas isso não era algo que ele queria enfrentar imediatamente.

Ao se afastar, seus olhos inevitavelmente se encontraram com Lais novamente. Ela estava conversando com Milena e Luna, rindo com aquele sorriso espontâneo que sempre fazia Gabriel perder a concentração. A maneira como ela se movimentava, como seus olhos brilhavam ao contar uma história... Ele não conseguia negar que havia algo ali, algo que ainda o atraía, mas ele não queria se deixar levar por emoções conflitantes, não agora. A distância e as circunstâncias o faziam duvidar das possibilidades, mas, ao mesmo tempo, o atraiam como um imã.

Ele suspirou, tentando afastar os pensamentos, quando sentiu uma presença ao seu lado. Ao virar-se, encontrou Matteo, que lhe lançou um sorriso compreensivo.

— Você está bem, cara? Parece perdido em seus próprios pensamentos. — Rafael perguntou, com uma leve preocupação no tom.

Gabriel sorriu, tentando disfarçar o turbilhão de emoções que ainda o invadia.

— Estou bem, só... processando algumas coisas. — ele respondeu, passando a mão pelos cabelos de forma pensativa. — É complicado, sabe? Acho que estou apenas tentando entender o que realmente quero.

Rafael observou o primo por um momento, como se soubesse exatamente o que ele estava sentindo.

— Entendo... Às vezes, a gente precisa de um tempo para se reencontrar. Eu também já passei por isso. — Rafael comentou com uma leveza, como se estivesse lembrando de algo pessoal. — Você tem que dar espaço para o coração, Gabriel. Às vezes, o caminho mais difícil é o mais longo, mas também é o que leva você ao lugar certo... 

Gabriel assentiu, sentindo a verdade nas palavras do primo. 

— Eu sei, cara. Só que agora, entre as opções que eu tenho... — Gabriel hesitou, e seus olhos voltaram a Lais. — Eu não sei se estou pronto para me envolver novamente... Eu... ainda não estou curado da relação doida com a Saori. Acho que preciso de mais tempo para eu mesmo. Eu não quero entrar num relacionamento onde eu poderia magoar, ou sair magoado...

Rafael olhou para ele com uma expressão tranquila, quase como se o estivesse encorajando sem dizer mais nada. Ele sabia que, às vezes, as palavras não eram necessárias.

— Dê o tempo que precisar, Gabriel. Ninguém pode apressar o que você sente. Mas, lembre-se de que as coisas, os sentimentos, às vezes acontecem quando menos esperamos. Não feche as portas para o futuro. E se você sentir algo por alguém, seja honesto consigo mesmo. A vida é curta demais para viver de arrependimentos.

Gabriel se deixou levar pela conversa por alguns instantes, até perceber que, de certa forma, estava começando a se abrir mais do que imaginava. Ele estava reconhecendo que precisava de mais tempo, mas também estava começando a perceber que talvez suas emoções não podiam ser ignoradas para sempre.

Enquanto a música continuava, Gabriel viu que Lais estava se afastando do grupo de amigos e caminhando até a pista de dança com o namorado. Algo no seu coração apertou, um desejo silencioso de ir até ela, de falar sobre o que estava sentindo, mas ele sabia que não era o momento certo. E se fosse? Se ele estivesse apenas projetando sentimentos que não eram reais? Ele precisava ser cauteloso... Era a primeira vez depois de um ano, que reencontrava com Lais, e ela estava acompanhada do namorado.

— Você ainda tem sentimentos por ela não é?

— Do que você esta falando?

— Estou falando que você não para de olhar para Lais... É como s ela fosse uma pedra preciosa e rara que você quisesse obter.

— Não sei do que você esta falando... isso tudo é complicado.

— É complicado porque você quer que seja complicado — insistiu o amigo, cruzando os braços e inclinando-se ligeiramente para perto de Gabriel. — Você diz que a Laís é o seu passado, mas, sinceramente, ela parece mais com o seu presente.

— Para de dizer besteira. — Gabriel deu um passo para o lado, desconfortável.

— Não é besteira... Eu acho que você deveria contar para ela... Dizer o que sente... E fazer  aquilo que o seu coração está pedindo para fazer a muito tempo.

— Você por acaso está de complô com Alice, por que ela também me falou um monte de coisa hoje.

Rafael riu para o amigo de forma divertida...

— Não estou com complô com sua irmã, mas, isso não muda o fato de que queremos a sua felicidade... E eu acho que você deveria chamar ela para conversar.

— Não! Lais tem namorado... E eu não quero ser o cara que estraga uma relação... 

— E se você e a Laís reatarem? — provocou o amigo, com um sorriso malicioso.

— Não existe nenhuma chance, porque eu e a Laís nunca tivemos nada além de amizade. — rebateu Gabriel, em tom defensivo, cruzando os braços.

— Me engana que eu gosto — o amigo soltou uma risada incrédula. — Você acha que eu não sei que vocês se pegavam? Todo mundo sabia, Gabriel...  Só você acha que isso passou despercebido... Você vivia implicando com ela, mas, vocês já ficaram que eu sei...

Gabriel franziu o cenho, visivelmente desconfortável. 

— Não foi bem assim...

— Claro que foi... Você deu uns beijinhos nela no ensino médio... Não precisa tentar esconder, não de mim. Vocês tinham uma química óbvia... Quem via de fora sabia que era só questão de tempo para algo dar errado ou muito certo... E na faculdade, todos achavam que vocês eram um casal... mesmo com ás brigas bobas, e ás implicâncias... Você afastava todos os pretendentes dela.

Gabriel passou a mão pelos cabelos, tentando ignorar a onda de memórias que as palavras do amigo trouxeram. Momentos dele e Laís surgiram em flashes, lembranças que ele passou tanto tempo enterrando.

— Isso foi no passado — disse ele, mais para si do que para o outro. — Eu e Laís tomamos caminhos diferentes. Ela seguiu a vida dela no Brasil, e eu segui a minha em Tóquio.

— Será mesmo? Porque, pelo jeito que você olha para ela, parece que o passado está gritando para ser revisitado.

Gabriel ficou paralisado por um momento, suas palavras presas na garganta. Ele não sabia se estava preparado para abrir aquela porta do passado, mas, percebeu que talvez não tivesse escolha. Os dois ficaram em silêncio, deixando as palavras pairarem entre eles. Era como se, de repente, o salão cheio de pessoas tivesse desaparecido, e tudo o que restava fosse a tensão no ambiente.

— Talvez seja melhor mudar de assunto — sugeriu Gabriel, quebrando o silêncio.

— Isso aí tá ficando patético, sabia? Você e ela claramente têm algo inacabado, mas prefere continuar empacado.

— Não tem nada inacabado — respondeu Gabriel com firmeza, embora soubesse que era mentira. — O que tivemos ficou no passado... Ela tem namorado Rafael, e eu não quero ser o cara que vai estragar a vida dela mais uma vez... 

Rafael soltou uma risada debochada. 

— É mesmo? Então por que você está com essa cara de cachorro abandonado vendo ela dançar com outro cara?

Gabriel finalmente desviou o olhar, apertando os punhos. Ele odiava o quanto Rafael conseguia ser direto, sempre acertando onde doía mais.

— Não tem nada a ver com isso. Só... não quero me meter na vida dela.

— Ah, claro — Gabriel revirou os olhos. — Você não quer se meter na vida dela, mas fica obcecado olhando ela de longe. Gabriel, você é péssimo em mentir, sabia?

Antes que Gabriel pudesse responder, uma gargalhada suave cortou o ar, chamando sua atenção. Laís ria de algo que o namorado dissera, os dois parecendo completamente à vontade. Ele sentiu o estômago revirar, mas não sabia se era ciúme ou frustração.

Rafael percebeu a tensão e deu mais um gole no vinho.

— Sabe o que eu acho?

— Não, e nem quero saber...

— Mesmo assim vou dar a minha opinião como o seu melhor amigo e primo.— Falou Rafael tranquilamente.— Acho que você deveria conversar com ela, como amigo e dizer o que senti, ou o que sentiu... Está na hora de você abrir o seu coração para a única garota que realmente teve ele.

Gabriel respirou fundo e deu um olhar rápido para Rafael. Aquelas palavras vieram como um soco no estômago. Ele sabia que, de alguma forma, seu primo estava certo, mas a ideia de se abrir de novo o assustava. Ele estava confortável com as barreiras que tinha colocado ao redor de seus sentimentos. Afinal, ele tinha se afastado de tudo isso para proteger a si mesmo.

— Não é tão simples, Rafa. Eu tenho a minha vida em Tóquio, ela tem a dela no Brasil. E além disso, ela tem um namorado. Eu não posso simplesmente aparecer e... fazer o quê? Declarar tudo o que sinto? — Gabriel perguntou, tentando manter a calma, mas a raiva e a confusão estavam à flor da pele. Ele sabia que estava evitando enfrentar a verdade, mas não sabia como dar o primeiro passo.

Rafael olhou para ele com uma expressão mais séria, sem o tom brincalhão que sempre carregava. Ele sabia que, mais do que qualquer outra coisa, Gabriel estava em conflito consigo mesmo, e as palavras duras eram necessárias para ajudá-lo a entender o que estava em jogo.

— Eu entendo que você tenha medo, Gabriel. Medo de ser vulnerável, de se machucar de novo. Mas, cara, não adianta ficar se torturando dessa forma. Se você sente algo por ela, não pode ficar se escondendo atrás dessa fachada de "amizade". Porque no fundo, você sabe o que está acontecendo com você. Você sente, sim, e isso só vai piorar se você continuar se negando. — Rafael disse, com um olhar direto. — Você já se sentiu assim antes? Com alguém que realmente mexeu com você dessa forma?

Gabriel não respondeu de imediato. O silêncio se instalou entre os dois, mas ele sabia que a resposta estava clara na sua mente. Laís, de uma maneira ou de outra, sempre esteve lá, sempre teve esse poder sobre ele, mesmo quando ele tentava se convencer de que ela estava fora de sua vida. Ele não podia negar.

— Eu... eu sei o que você está dizendo, Rafa. Só que a realidade é que eu não posso fazer nada sobre isso agora. Ela está com alguém, tem a vida dela. Eu... eu só não sei o que eu faria se a situação fosse diferente. Eu não quero estragar a amizade dela comigo, nem a minha própria vida. — Gabriel falou, com a voz mais baixa, como se estivesse finalmente começando a admitir o que sentia, mas ainda relutante em aceitar.

Rafael o olhou com um sorriso quase triste. Ele sabia que seu primo estava preso em um dilema interno, algo que ele próprio já tinha enfrentado antes. E, por mais que Gabriel tentasse se esconder disso, a verdade era que a única maneira de resolver aquilo seria confrontando o que estava em seu coração.

— Eu sei que é difícil, cara. Não estou dizendo que você precisa ir lá agora e declarar seu amor de uma vez. Mas você precisa ser honesto com ela, com você mesmo. Não é justo com nenhum dos dois viver nessa incerteza. Ela merece saber o que você sente, e você também merece ser livre disso. — Rafael deu um tapinha no ombro de Gabriel. — Não se prenda à ideia de que as coisas têm que ser perfeitas ou no momento certo. Às vezes, o certo é simplesmente ser honesto, mesmo quando a situação não é ideal. 

Gabriel olhou para seu primo, absorvendo cada palavra. Ele sabia que Rafael estava certo, mas a ideia de se abrir e ser vulnerável com Laís, sabendo o quanto ela significava para ele, parecia um risco enorme. Ele não queria ser mais um erro na vida dela, nem arriscar destruir a amizade que tinham.

Quando olhou novamente para a pista de dança, viu Laís se afastando do namorado, que a chamava para outra rodada de bebidas. A expressão dela estava serena, mas havia algo nos seus olhos que parecia refletir um peso, algo que ele não conseguia identificar. Gabriel sentiu um impulso de ir até ela, de perguntar o que estava acontecendo, de finalmente entender o que ela sentia. Mas, por algum motivo, ele não se mexeu. Em vez disso, ficou ali, observando, tentando encontrar uma resposta dentro de si mesmo.


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