21° Não quero mais fugir


A noite já começava a cair, pintando o céu com tons suaves de laranja e lilás. O barulho da piscina e as risadas do lado de fora soavam ao fundo, mas Alessandro estava alheio a tudo. Sua mente e seus sentidos estavam fixos em uma só pessoa. Ele a viu sair da piscina, os cabelos loiros molhados escorrendo pelos ombros, a pele brilhando sob os últimos raios de sol. Algo dentro dele apertou, e ele percebeu que não podia mais ignorar o que sentia, mesmo que ainda fosse um enigma para sua mente.

Ele tentou se distrair, jogando conversa fora com Rafael e Enzo, mas as palavras saíam desconexas, sem sentido, enquanto seu olhar continuava a segui-la de longe. Quando Alice começou a caminhar em direção à casa, Alessandro mal conseguiu se segurar.

— Eu vou me recolher. Não estou me sentindo bem. 

— Precisa de ajuda? — Matteo perguntou para o amigo.—

— Não é necessário... Acho que consigo chegar ao meu quarto, sem me perder, ou me esquecer. — Disse rapidamente, sem dar tempo para que os amigos o questionassem. Com passos firmes, ele a seguiu, o coração batendo como um tambor. Não demorou muito para alcançá-la. Alice estava prestes a entrar no quarto quando ouviu sua voz.

— Alice!

Ela se virou, surpresa, ainda secando os cabelos com uma toalha.

— Oi, Alessandro... O que foi? Está tudo bem?

Ele parou alguns passos à frente dela, claramente nervoso, mas sem desviar os olhos dela.

— Não, não está tudo bem. — Sua voz saiu mais rouca do que ele pretendia.

Alice franziu o cenho, dando um passo em sua direção.

— O que você está sentindo? É alguma dor? Posso te ajudar?

Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos caóticos.

— É o meu coração. — Disse de repente, a voz carregada de algo que ela não conseguia identificar.

— O seu coração? — Alice repetiu, agora preocupada. — Alessandro, você precisa me dizer o que está sentindo para eu te ajudar.

Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles.

— Ele bate rápido... descontrolado, sempre que eu vejo você. — Suas palavras a atingiram como uma onda, e Alice ficou paralisada. — Eu sinto que estou ficando louco por sua causa, Alice.

— Alessandro, o que você está...

— Mesmo se eu negar cem vezes na minha cabeça, ele não me escuta. — Ele colocou uma mão no peito, os olhos cravados nos dela. — Meu coração não me obedece quando se trata de você. Ele bate diferente... Só com você.

Alice abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. Ela podia sentir a intensidade do olhar dele, como se ele estivesse expondo algo muito profundo, algo que nem ele mesmo entendia por completo.

Ele deu o passo final que os separava, e antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Alessandro tomou seu rosto com as mãos e se apoderou de seus lábios.

O mundo ao redor deles desapareceu. O toque era ao mesmo tempo intenso e hesitante, como se ele estivesse buscando respostas que as palavras não conseguiam lhe dar. Alice ficou imóvel por um segundo, o coração disparando tão rápido quanto o dele, antes de finalmente ceder.

Ela fechou os olhos e retribuiu o beijo, as mãos subindo até os braços dele, sentindo o calor que emanava de sua pele. Era um beijo cheio de emoção, um turbilhão de sentimentos que eles não tinham conseguido expressar até aquele momento.

Quando se separaram, ele encostou sua testa com a dela, os olhos fechados como se tentasse encontrar respostas dentro de si. Alice sentia sua respiração quente misturar-se com a sua, o peito dela subindo e descendo em um ritmo acelerado, ainda sentindo o impacto daquele primeiro beijo. Mas ele não parecia pronto para parar ali.

— Eu não posso... — Alessandro começou, a voz baixa, rouca, carregada de frustração. — Eu não posso simplesmente ter esquecido você.

Alice piscou, os olhos arregalados com a intensidade nas palavras dele, mas não teve coragem de dizer nada. Ele se afastou um pouco, o suficiente para que seus olhos encontrassem os dela, uma mistura de raiva, confusão e desejo queimando naqueles olhos castanhos.

— Por que você, Alice? Por que eu não consigo lembrar? — Ele perguntou, como se estivesse buscando alguma lógica naquele caos.

Ela ficou em silêncio, o nó na garganta crescendo. Como responder algo que nem ela mesma sabia explicar?

Ele riu sem humor, passando a mão pelos cabelos, visivelmente irritado consigo mesmo.

— Você fode com o meu psicológico. — Ele admitiu, a voz quase um sussurro, mas cada palavra parecia pesar toneladas. — E isso me deixa louco, porque... porque eu quero você... Eu te desejo desde o momento que ti vi entrar com aquele jaleco branco na sala do hospital.

Alice engoliu em seco, sentindo a força das palavras dele atingirem seu peito como um furacão.

— Alessandro... — Ela começou, mas ele ergueu uma mão, interrompendo-a.

— Eu quero você, Alice. Eu quero tê-la nos meus braços, sentir você perto de mim... e ao mesmo tempo, isso me destrói, porque eu não consigo lembrar. Não consigo lembrar o que éramos. E isso... isso está acabando comigo.

Ele deu um passo à frente, diminuindo novamente o espaço entre eles. Alice sentiu o calor do corpo dele tão próximo do seu, e suas palavras carregavam um peso que fazia seu coração martelar ainda mais forte.

— Eu passei a manhã toda tentando te evitar, tentando colocar minha cabeça no lugar... — Ele continuou, a voz agora mais suave, mas ainda cheia de emoção. — Mas não dá, Alice. Não consigo.

Os olhos dela começaram a brilhar com lágrimas contidas, e antes que pudesse reagir, ele a segurou novamente, a mão deslizando para sua nuca, o polegar acariciando suavemente sua pele.

— E agora, depois desse beijo... — Ele disse, aproximando-se ainda mais, os lábios quase tocando os dela. — Eu sinto que vai ser ainda mais complexo... Por que eu não vou conseguir me afastar de você.

Sem esperar resposta, Alessandro tomou seus lábios novamente. Desta vez, o beijo foi ainda mais intenso, carregado de urgência e sentimentos não ditos. Ele segurava Alice como se ela fosse a única coisa que fazia sentido naquele momento, como se pudesse encontrar as respostas para suas dúvidas na conexão que compartilhavam.

Alice se entregou, sem pensar em nada além do momento. Suas mãos subiram para os ombros dele, apertando a camisa levemente, enquanto Alessandro aprofundava o beijo, como se quisesse gravar aquele instante em sua alma.

Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes, os rostos ainda próximos. Alessandro a observou, sua expressão suavizando, mas seus olhos ainda brilhavam com a intensidade do que acabara de acontecer.

— Isso não é só físico, Alice. — Ele murmurou, a voz baixa, mas carregada de sinceridade. — É mais do que isso. Eu não sei explicar... mas tem algo em você que mexe comigo de um jeito que nenhuma outra pessoa consegue.

Alice tentou respirar fundo, lutando contra as emoções que a consumiam. Ela sabia que aquilo não era simples, sabia que ele ainda estava perdido em sua própria mente. Mas, naquele momento, não importava.

— Então pare de lutar contra isso. — Ela sussurrou, com a voz embargada, mas cheia de uma firmeza inesperada. — Se você não lembra, talvez seja porque a gente precisa começar de novo.

Alessandro sorriu de leve, o canto dos lábios curvando-se quase de forma melancólica.

— Começar de novo... — Ele repetiu, como se estivesse tentando absorver aquelas palavras.

— Ou talvez... — Alice continuou, seus olhos fixos nos dele. — Talvez não seja sobre começar, mas sobre descobrir juntos o que ainda está aqui.

Ele assentiu levemente, antes de tocar novamente o rosto dela, os polegares acariciando suas bochechas.

— Seja o que for... eu não quero mais ignorar... Não quero mais fugir...

Alessandro fechou os olhos por um momento, como se tentasse encontrar algum equilíbrio entre o que desejava e o que seu corpo, ainda frágil, exigia. A dor que sentia no braço machucado parecia ter se intensificado com a proximidade de Alice, a intensidade do beijo, o desejo de se entregar àqueles sentimentos que ele não sabia mais de onde vinham, mas que agora pareciam mais vívidos do que nunca.

Ela, por outro lado, estava tensa, os olhos preenchidos por uma mistura de preocupação e ternura. Alice sabia que ele estava lutando contra os limites do corpo, mas também podia sentir o quanto ele precisava da conexão, da presença dela, como se ela fosse a única coisa que pudesse curar a dor mais profunda que ele sentia, uma dor que não era física, mas emocional.

— Alessandro, por favor... — ela disse, sua voz suave, mas cheia de firmeza. — Você ainda está se recuperando. Não podemos ser impulsivos. Eu quero que você esteja bem... e para isso, você precisa se cuidar. O que sentimos um pelo outro... vai continuar aqui, não vai desaparecer. Mas, por agora, você precisa descansar.

Ele a olhou com intensidade, a respiração ofegante. A sensação de querer mais estava ali, pulsante, mas havia também a compreensão, um reconhecimento de que, talvez, esse fosse o caminho que precisasse seguir para voltar a ser quem ele era.

— Eu sei... — disse ele, a voz rouca. — Só que não é fácil, Alice. Não é fácil me afastar de você, não quando sinto que... que talvez já tenhamos perdido tanto tempo. Que a vida... tudo ao meu redor parece... em pedaços.

Alice tocou sua mão com delicadeza, os dedos entrelaçando-se com os dele.

— Não estamos perdendo tempo, Alessandro. Não importa quanto tempo tenha se passado. O que importa é o que estamos fazendo agora. Estamos aqui, juntos. E isso é o que importa. Você não está sozinho, nunca esteve.

As palavras dela soaram como um bálsamo, mas ele ainda sentia uma inquietação crescente. Ele não sabia como definir o vazio que carregava dentro de si, uma sensação de ter sido arrancado de uma vida que, ao mesmo tempo, parecia ser sua e ao mesmo tempo não era. Ele queria tanto se lembrar, queria tanto voltar a ser quem era antes do acidente, mas as peças da sua história continuavam perdidas, dispersas.

— Eu só... — Ele parou, os olhos buscando um entendimento nas palavras de Alice. — Eu só queria que as coisas fossem mais simples.

Alice suspirou, olhando profundamente nos olhos dele. Seu coração parecia apertado ao ver a angústia de Alessandro, mas ela sabia que o processo de cura não seria rápido, nem fácil. Era algo que exigia paciência, para ele e para ela. O que eles estavam começando a construir era frágil, mas estava ali, presente, como uma base sólida a ser trabalhada.

— Eu sei, Ale. Eu também queria que fosse simples. Mas você não precisa fazer isso sozinho. Nós vamos descobrir juntos.

Ele finalmente fechou os olhos, tentando encontrar algum alívio, e então, com um suspiro, assentiu.

— Está bem... Eu vou tentar... Eu só... — Ele hesitou, sentindo o peso de suas próprias palavras. — Eu só quero me lembrar de quem eu era, Alice. Quero me lembrar de tudo. De você. De nós.

Alice inclinou-se para frente, seus lábios tocando a testa dele com ternura.

— Você vai, Alessandro. Não precisa se apressar. Cada dia é um passo, e juntos vamos chegar lá. Um passo de cada vez.

Alessandro permaneceu em silêncio, absorvendo o conforto nas palavras dela. Ele sentiu uma leveza no peito, como se, finalmente, começasse a se permitir um pouco de esperança, um pouco de confiança. No entanto, a dor no braço ainda estava ali, e ele sabia que não podia ignorá-la por mais tempo. Seu corpo, seu ser, ainda precisavam de tempo para cicatrizar, para se ajustar à realidade que ele estava tentando reconquistar.


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