19° Lembranças

Na manhã seguinte, eles acordaram cedo. Alice e Alessandro se dirigiram até o condomínio que Alessandro morava... Um apartamento super sofisticado que ficava num bairro luxuoso de Gênova. Por sorte, ele ainda se lembrava do caminho até o seu apartamento, o que lhe trouxe um certo alívio. Pelo menos isso não havia se perdido com o tempo. Ao chegarem ao condomínio, um dos porteiros sorriu para Alice, e Alessandro percebeu, com uma pontada de inquietação, que a loira que frequentemente atormentava seus pensamentos parecia visitar o lugar com certa regularidade.

Quando chegaram à porta do apartamento, Alice digitou a senha na fechadura eletrônica, e a porta se abriu. Ele entrou no espaço que sempre considerou seu lar, mas algo estava diferente, como se faltasse uma peça no quebra-cabeça. O lugar parecia o mesmo, mas Alessandro não conseguia se livrar da sensação de que algo estava fora de lugar. Talvez fosse a ausência do seu próprio ritmo, do que antes parecia ser a rotina que lhe dava conforto. Agora, com a mente ainda marcada pelos acontecimentos recentes, tudo parecia estranho e descolado da sua realidade.

Alice fechou a porta suavemente atrás de si e observou-o de perto. Alessandro estava muito quieto naquela manhã.

—Como você está se sentindo?— perguntou com um olhar preocupante. Alessandro passou a mão na testa, sentindo a leve dor de cabeça que vinha desde o hospital.— 

—Estou bem... estranho, mas bem. — respondeu, tentando disfarçar o desconforto. Ele se sentou no sofá, ainda absorto em seus próprios pensamentos. O silêncio pairou entre eles, até que Alice se aproximou, como se esperasse uma reação que ele ainda não soubera dar.—

—Você quer conversar?— ela perguntou, mas Alessandro apenas balançou a cabeça. Não estava pronto para falar sobre tudo o que passou, especialmente depois da descoberta de que sua vida havia se tornado um emaranhado de segredos e revelações.

O ambiente parecia estar se fechando em torno dele. A ausência de sua rotina normal, a lembrança de Matteo com a sua família, e até a presença de Alice, que de alguma forma parecia representar uma pontada de normalidade, só acentuavam o peso de tudo o que ele tinha vivido.

—Eu preciso pensar um pouco.— disse, se levantando e indo até a janela, olhando para o movimento lá fora. O som da cidade parecia distante, como se ele estivesse separado dela, em um outro mundo.

Alice ficou em silêncio, observando-o de longe. Ela sabia que o caminho para a recuperação de Alessandro não seria simples, mas estava disposta a estar ao seu lado, mesmo que ele não soubesse exatamente o que queria.

E enquanto a noite se aproximava, Alessandro ainda sentia que algo, naquele espaço, estava definitivamente faltando. Ele precisava descobrir o quê.

— Tudo bem, eu vou organizar algumas coisas e já volto. — disse Alice, colocando a bolsa sobre o centro de mesa e indo em direção ao quarto de Alessandro, suspirando profundamente. Assim que entrou, ela abriu as portas do guarda-roupa e começou a arrumar uma pequena mala em silêncio. Os próximos dias não seriam fáceis, e ela não sabia ao certo o que fazer. O ambiente parecia pesado, e a ansiedade a consumia.

Foi então que sentiu seu celular vibrar no bolso da calça social. Ao ver o nome na tela, seus dedos hesitaram por um momento antes de atender.

— Oi, Gabriel — respondeu, a voz embargada, denunciando o turbilhão de emoções que ela tentava controlar.—

— Oi! Como você está, Alice? Desculpe, não quero te interromper.

— Você nunca me interrompe, irmão. — Alice forçou um sorriso, mesmo sabendo que Gabriel podia perceber o tom de cansaço em sua voz.—

— Eu fiquei sabendo do que aconteceu... O Rafael me ligou ontem e me contou sobre o acidente do Alessandro. Como ele está?

Alice ficou em silêncio por alguns segundos, o peso da pergunta caindo sobre ela como uma avalanche. Ela sabia que Gabriel ficaria preocupado, mas não sabia por onde começar a explicar o que estava acontecendo.

— Ele... está bem, mas... não completamente. — Alice suspirou, sentindo o peso das palavras. — O acidente foi grave, mas ele já está em casa. Está se recuperando, mas há tantas coisas que ele ainda não processou, e eu não sei o que fazer, Gabriel. Não sei como lidar com isso...

Gabriel ficou em silêncio do outro lado da linha, como se estivesse tentando entender a complexidade da situação. Alice sabia que ele queria ajudar, mas também sabia que ele não poderia estar ali para dar todo o apoio necessário. A distância era um obstáculo, e ela sentia o fardo de ser a pessoa que estava mais próxima de Alessandro agora.

— Eu entendo, Alice. Isso deve estar sendo muito difícil para você também. — Ele disse, a voz suave. — Mas você não está sozinha. Se precisar de algo, pode contar comigo, sempre.

— Eu sei, Gabriel. Obrigada. — Ela fechou os olhos por um instante, tentando se acalmar. — Eu só... não sei o que vai acontecer nos próximos dias. Alessandro está diferente. Ele não é mais o mesmo de antes do acidente. E eu não sei o que ele espera de mim... 

Gabriel respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas para confortar a irmã.

— Vai ser difícil, eu sei. Mas você tem a força para ajudar o Alessandro, mesmo quando ele não sabe o que precisa... Assim que eu consegui um tempo livre, eu volto para Gênova, e ai a gente pode sentar, beber um vinho, e jogar conversa fora.

Ela assentiu, mesmo sabendo que ele não podia vê-la. Alice tinha muita coisa na cabeça, e achou melhor, não contar para o irmão sobre a sua gravidez, pois ela mesma estava tentando processar a noticia.

Depois de desligar, Alice ficou alguns segundos olhando para o celular, pensando nas palavras de Gabriel. Ela estava sobrecarregada, mas talvez houvesse algo que ela pudesse fazer para aliviar um pouco o peso que sentia sobre os ombros. Não sabia como, mas ela tentaria.

Terminando de arrumar a mala, ela voltou para a sala, onde Alessandro ainda estava sentado, pensativo. Ela se aproximou dele com um sorriso suave, tentando disfarçar a preocupação.

— Alessandro, eu preparei algumas coisas para você... Acho que não me esqueci de nada, quer da uma conferida?

Ele olhou para ela, os olhos ainda carregados de incerteza, mas, ao menos, um pouco menos distantes.

— Não precisa, eu confio em você...

Alice suspirou profundamente com um sorriso.

— Você quer comer alguma coisa, a viagem vai ser um pouco longa, e pode ser um pouco cansativa.

— Podemos parar no caminho, eu não estou com fome agora.

Alice assentiu pegando a bolsa, e empurrando a mala até a saída.

Alice pegou a mala com mais força, empurrando-a com um esforço leve até a porta de entrada. Alessandro, embora visivelmente exausto, a seguiu em silêncio. Ele estava distante, com o olhar perdido, mas sua presença ainda era uma constante. Alice sentia que ele estava tentando se reconectar com a realidade, mas o peso da dor e das incertezas o impediam de fazer isso de forma plena.

Assim que saíram do apartamento, o ar fresco da manhã os envolveu. A cidade ainda estava tranquila, sem o frenesi habitual, como se sentisse que ambos precisavam daquele momento de calma. Ela abriu o porta mala e colocou a bagagem atrás. O braço esquerdo do médico ainda estava enfaixado com a tala.

Eles seguiram em direção à estrada. O silêncio entre eles era pesado, mas não desconfortável. Cada um, imerso em seus próprios pensamentos, tentava entender os próximos passos. 

O caminho foi tranquilo, mas longo. Conforme avançavam pela estrada, Alice notou que a expressão de Alessandro parecia mais relaxada. Talvez fosse a sensação de liberdade que ele precisava para processar tudo o que acontecera. No entanto, ele não falava. Ela não sabia se deveria forçar uma conversa ou se deveria respeitar o silêncio dele, então optou por ficar quieta, respeitando o espaço que ele parecia precisar.

 Alice e Alessandro pararam em um pequeno café italiano localizado à beira da estrada, em uma cidadezinha tranquila. O lugar tinha uma fachada simples, com uma grande janela de vidro que permitia ver o interior aconchegante. As paredes externas eram de pedra envelhecida, com trepadeiras que subiam suavemente, dando um toque rústico e acolhedor. Uma placa de madeira, pendurada acima da porta, exibia o nome do local: Caffè del Borgo.

— Está tudo bem? — Ele perguntou analisando a loira ao volante assim que ela estacionou o veiculo.—

— Sim, só preciso ir ao banheiro... Vamos comer alguma coisa rápida, e depois partimos, tudo bem?

Ele apenas assentiu soltando o sinto de segurança. Ao entrar, foram recebidos por um ambiente acolhedor, iluminado suavemente pelas luzes quentes que emanavam de luminárias pendentes sobre as mesas de madeira escura. O aroma do café fresco misturava-se ao de pães recém-asados, criando uma sensação de conforto. Algumas pessoas, provavelmente moradores locais, conversavam em voz baixa enquanto saboreavam seus cafés.

Alice foi direto até o balcão, onde o barista, um homem de meia-idade com um bigode bem aparado e um sorriso gentil, a cumprimentou com um "Buongiorno". Ela pediu um café espresso para si mesma e um cappuccino para Alessandro, além de alguns croissants recheados com geleia de morango e chocolate. O barista anotou o pedido e, em poucos minutos, preparou as bebidas com habilidade, servindo tudo com cuidado e atenção.

Eles se sentaram a uma mesa próxima à janela, onde a luz suave do sol iluminava os rostos deles, criando uma atmosfera tranquila e quase intemporal. O lugar tinha um toque de nostalgia, como se estivesse suspenso no tempo, refletindo a tranquilidade de uma vida simples e despreocupada.

Alice, sem pressa, tomou um gole do seu expresso forte, sentindo a intensidade do sabor que contrastava com a suavidade do cappuccino de Alessandro. Ambos estavam em silêncio, saboreando o momento fugaz de calmaria, longe dos agitos e das tensões dos últimos dias. O pequeno café, com suas mesas simples e ambiente acolhedor, oferecia exatamente o que precisavam naquele momento: uma pausa para recarregar as energias e processar os acontecimentos que os haviam levado até ali.

Alice olhou para Alessandro de soslaio. Ele parecia mais relaxado, mas ainda estava distante. Não forçou a conversa, apenas continuou a degustar seu café, respeitando o espaço que ele parecia precisar. O som suave do relógio na parede e o murmúrio baixo das conversas ao redor pareciam envolver os dois em uma bolha de tranquilidade, onde o tempo passava devagar, como se estivessem suspensos em um pequeno oásis no meio da estrada.

— Então... — Alessandro quebrou o silêncio, sua voz baixa e pensativa. — Como nós nos conhecemos... digo... Eu sei que você é prima do Matteo... Mas eu não me lembro... E isso é tão estranho.

Alice ajustou a postura na cadeira, repousando as mãos sobre a mesa, como se se preparasse para reviver um momento distante. Ela sabia que a memória de Alessandro poderia estar embaraçada com tudo o que acontecera, mas, naquele momento, o passado parecia não ser uma prioridade para ele. Ainda assim, ela decidiu contar, como se fosse uma forma de ajuda, de dar-lhe uma lembrança do que havia acontecido antes de tudo mudar.

— Nós nos conhecemos no aniversário do Matteo e da Milena, eles sãos gêmeos. — Alice começou com uma voz suave, como se estivesse revivendo o momento em sua mente. — Era uma festa simples, mas cheia de gente. Matteo e você eram amigos de escola, então ele te convidou. Eu lembro de você lá, entre os outros amigos dele, com aquela camisa azul e o sorriso tímido. Você parecia tão quieto, mas eu percebi logo que era porque estava nervoso por não conhecer ninguém... Mas não demorou muito para se enturmar com o pessoal e fazer amigos...

Ela sorriu, lembrando-se da cena como se fosse ontem. A festa acontecera há anos, mas a memória ainda estava nítida em sua mente, como um retrato vívido de uma época em que as coisas eram mais simples.

—E depois, você acabou derrubando suco de uva no meu vestido... Você ficou apavorado e não sabia o que fazer... Eu me lembro de você tentando limpar o vestido com guardanapos, mas só piorava a situação, porque o suco estava se espalhando ainda mais. 

Alice deu uma risada, lembrando-se de como ele havia ficado vermelho na hora. Ela não podia deixar de sentir carinho pela sinceridade com que ele reagiu naqueles momentos, como se estivesse tentando lidar com a situação, mas sem saber muito bem como. Algo que, para ela, fez parte do charme de Alessandro.

— Depois disso, você começou a ir com mais frequência a casa de Matteo, e a casa de campo... E acabamos ficando amigos...  Mas, só fomos ficar mesmo, quando eu tinha uns 18 anos... Antes disso, você me via apenas como uma bonequinha frágil que podia se quebrar, e não como um mulher de fato.

Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse absorvendo as palavras dela, e depois olhou para ela com mais intensidade. Era como se aquelas memórias, aquelas pequenas histórias compartilhadas, estivessem criando uma ponte de entendimento entre os dois.

— Eu... não sei se eu me lembro de tudo. Mas, de alguma forma, essas coisas... essas lembranças, elas fazem sentido. Eu posso não lembrar como tudo começou, mas sei que eu te conheço. E, de alguma forma, você sempre esteve aqui. Sempre esteve presente.

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