18° Enjoos e cuidados.


Alessandro ajeitou os fios dourados, ainda desordenados, enquanto esperava ansioso pela assinatura de sua alta. Os últimos dias haviam sido um turbilhão. Tudo parecia surreal. Perder parte da memória era como carregar um vazio. Ele sentia a falta de algo que não sabia nomear, como se tivesse deixado para trás uma versão dele mesmo.

E então havia Alice. A médica que o acompanhara durante sua recuperação. Cada vez que seus olhos encontravam os dela, algo dentro dele despertava. O sorriso gentil dela parecia conhecido, o som da voz dela ecoava como uma melodia antiga. Mas, por mais que tentasse, Alessandro não conseguia se lembrar de nada sobre ela.

Enquanto observava Alice se aproximar, com o jaleco impecável e um sorriso suave nos lábios, sentiu um aperto no peito.

— Pronto para sair daqui? — perguntou ela, com um tom leve, tentando disfarçar a tensão. Ele assentiu, mas a dúvida brilhou em seus olhos.

Juntos eles andaram até o estacionamento do hospital e entraram no veiculo da loira, em poucos minutos Alice dirigia pela cidade de Gênova.

Alice conduzia o carro pelas ruas estreitas e sinuosas de Gênova com a mesma calma que sempre demonstrara, mas Alessandro sentia a inquietação crescer dentro dele. A cidade passava por ele como uma sequência de imagens turvas, uma mistura de memórias que não eram suas, mas que, ao mesmo tempo, pareciam familiares. Ele olhava para as fachadas antigas, os becos estreitos, o mar cintilante ao longe, e tentava lembrar de algo, qualquer coisa, que o fizesse sentir que de fato pertencera àquele lugar. Mas sua mente continuava em branco, um vazio desconcertante.

Alice parecia perceber a tensão em seu rosto e, sem desviar os olhos da estrada, disse suavemente:

— Não se preocupe, Alessandro. Você está seguro. Tudo vai voltar com o tempo. Eu sei que é difícil agora, mas a recuperação é um processo. Você vai encontrar as respostas, um passo de cada vez.

Ele queria acreditar nela. Queria acreditar que havia algo mais a ser lembrado, algo importante. Mas tudo o que ele tinha eram fragmentos, pedaços de sua própria história que se perdiam como areia entre os dedos.

— Eu não entendo — disse ele, sua voz baixa, quase inaudível. — Como você pode ter tanta certeza de que vou me lembrar? E de tudo o mais... como posso confiar no que não sei?

Alice parou o carro em um semáforo, e por um momento, o silêncio entre eles foi pesado, como se a própria cidade se tivesse silenciado. Ela olhou para ele com uma intensidade que fez Alessandro se sentir exposto. Seus olhos eram profundos, e algo naquela expressão o fazia sentir uma conexão inexplicável.

— Porque você não está sozinho, Alessandro — ela respondeu, com firmeza, mas também com uma ternura que ele não sabia de onde vinha. — E mesmo que as memórias falhem, o que importa é o que você constrói agora. O que você sente, o que você escolhe viver.

Ele olhou para ela, tentando encontrar uma explicação no brilho de seus olhos. Havia algo nela que o fazia sentir uma segurança que ele não sabia explicar, algo além da medicina e das palavras. Mas, por um instante, ele duvidou se isso também poderia ser apenas um eco de algo perdido.

O carro seguiu em frente, e logo eles se afastaram do centro movimentado da cidade, entrando em uma área mais tranquila. A estrada à frente parecia mais livre, mais aberta, como se convidasse Alessandro a caminhar para um futuro incerto.

***

O final da tarde trouxe consigo uma leve brisa que parecia serenar a agitação de Alessandro. Ele estava aliviado por finalmente ter alta, mas a sensação de incerteza ainda pairava sobre ele. A estrada para fora do hospital parecia um caminho desconhecido, mas, ao mesmo tempo, o sol suave que se punha no horizonte trouxe uma sensação de renovação. Ao lado dele, Alice dirigia com uma calma silenciosa, os olhos fixos na estrada à frente, mas com uma presença que, de alguma forma, trazia conforto.

A cada curva, a cidade se afastava, e logo o caminho estava tomado por uma paisagem mais tranquila, com casas espaçadas, ruas arborizadas e o som distante do tráfego. Alice, que conhecia cada pedaço daquela rota, mantinha o foco na estrada, mas o silêncio entre ela e Alessandro não era desconfortável. Era como se as palavras que eles mais precisavam não fossem ditas, mas sentidas.

Alessandro observava pela janela, os olhos vagando pelas paisagens que passavam, como se tentasse encontrar algo familiar no ambiente ao redor. Mesmo a sensação de estar indo para a casa de Alice, algo que deveria ser reconfortante, ainda trazia uma leve incerteza.

— Estamos quase lá. — Alice disse com um sorriso leve, como se tivesse percebido a apreensão dele. O tom suave de sua voz fez Alessandro voltar sua atenção para ela.

— Não se preocupe. Vai ser bom, você vai ver. — Ela disse, mais para si mesma do que para ele, como se estivesse tentando acreditar também.

Alessandro assentiu, ainda sentindo um leve desconforto, mas a vontade de estar em um lugar onde ele não fosse um fardo para ninguém estava começando a superar o peso da dúvida.

Em poucos minutos, eles chegaram à casa de Alice, uma residência charmosa e acolhedora, cercada por um jardim bem cuidado, com árvores e flores que davam uma sensação de tranquilidade. A casa, com sua fachada de tom claro e detalhes em madeira, parecia ser um reflexo da personalidade de Alice: simples, acolhedora, mas cheia de vida.

Ela estacionou o carro na garagem, desligou o motor e, por um momento, ficou em silêncio, olhando para a casa. Quando finalmente desceu do carro, Alessandro a seguiu, ainda com um pouco de hesitação, mas com a sensação de que ali seria um refúgio temporário, talvez um começo de uma nova fase.

— Bem-vindo à minha casa. — Alice disse, sorrindo para ele enquanto abria a porta de entrada.

A porta de madeira se abriu, revelando um interior arejado, com cores suaves e móveis confortáveis. O cheiro de flores vinha do hall, criando uma sensação acolhedora que fazia a casa parecer ainda mais convidativa.

Alessandro deu alguns passos para dentro, observando cada canto com atenção. Havia algo de familiar, como se partes de sua memória começassem a se conectar com o ambiente ao seu redor, mas a maior parte ainda estava obscura. Alice fechou a porta atrás deles e caminhou até a cozinha, fazendo um gesto convidativo.

— Eu vou preparar algo para a gente jantar, ou você prefere pedir uma comida naquele restaurante mexicano que você gosta... 


Alessandro parou no meio do quarto, seus olhos fixos em Alice. A menção ao restaurante mexeu com ele de um jeito inesperado. Algo sobre aquilo parecia familiar, mas ele não conseguia se lembrar exatamente por quê.

— Restaurante mexicano? — perguntou ele, franzindo a testa. — Como você sabe disso?

Alice sorriu de lado, enquanto colocava a bolsa em uma cadeira próxima.

— Você sempre pedia tacos de lá. Especialmente depois de um dia ruim...

Ele a observou atentamente, tentando captar qualquer pista em suas palavras ou no tom da voz dela que o ajudasse a conectar os pontos perdidos.

— É estranho — murmurou ele. — Eu não me lembro de nada disso, mas soa... Certo.

Alice assentiu suavemente, mantendo o olhar nele.

— A memória é assim. Às vezes, detalhes pequenos são os primeiros a voltar.

Ele cruzou os braços, claramente frustrado com a situação.

— Você parece saber muito sobre mim, mas eu não consigo me lembrar de nada sobre você.

— Então... O que vai ser? — Alice perguntou com um amplo sorriso, mudando o tom para algo mais leve. — Comida mexicana ou minha especialidade culinária?

Ele riu, balançando a cabeça.

— Acho que vou arriscar sua especialidade. Só espero que eu não me arrependa.

— Confie em mim, sou uma ótima cozinheira. — respondeu ela, piscando para ele e andando até o armário para pegar alguns ingredientes. — Você já gostou antes.

Enquanto Alice se movimentava pela cozinha com facilidade, Alessandro a observava do outro lado do balcão, os braços cruzados e um sorriso curioso no rosto. Ela parecia tão à vontade ali, como se estivesse em casa. Cada gesto era natural, cada ingrediente adicionado ao prato parecia escolhido com cuidado. Ele a observava discretamente trabalhando na cozinha, mas ficou em silencio absoluto.

— Então, é isso que você chama de especialidade? — ele provocou, com um tom descontraído, observando-a ralar o queijo sobre o molho borbulhante.

Alice ergueu o olhar para ele, um sorriso confiante brincando nos lábios.

— É mais do que isso. É um dos seus pratos italianos favoritos.

A afirmação fez Alessandro franzir a testa novamente, intrigado.

— E como você sabe disso?

Ela apenas deu de ombros, continuando a preparar o prato.

— Você sempre me pedia para preparar quando vinha aqui em casa... 

O comentário o fez rir baixinho, mas também o deixou com aquela sensação incômoda de que estava perdendo algo importante.

Pouco tempo depois, estavam sentados à mesa. O aroma delicioso do prato enchia o ambiente, e Alessandro mal podia esperar para experimentar. Ele pegou o garfo e deu a primeira mordida.

— Meu Deus... — murmurou, os olhos arregalados. — Isso é incrível.

Alice riu, satisfeita.

— Eu avisei... Acho que você gostou — disse ela, arqueando as sobrancelhas.

Alessandro limpou o prato até a última garfada, algo que fez Alice rir baixinho enquanto recolhia os talheres.

— Não só gostei, como acho que entendi por que isso era meu favorito. É reconfortante, sabe? Como se... me trouxesse algo que eu não consigo explicar.

Alice colocou os pratos na pia e voltou para a mesa, cruzando os braços sobre o tampo de madeira.

— Sabores têm memórias, Alessandro. Talvez isso te ajude a lembrar.

— Você realmente sabe muito sobre mim. Isso está começando a me assustar.

Ela inclinou a cabeça, o sorriso suavizando.

— Talvez seja só porque, de alguma forma, você ainda confia em mim, mesmo sem se lembrar.

As palavras dela o fizeram pausar por um instante. Havia algo no jeito que ela falava, algo que parecia genuíno e familiar.

— Alice... Eu quero lembrar. 

Ela segurou o olhar dele por um momento, antes de responder suavemente:

— E eu estou aqui para te ajudar a lembrar.

***

Depois do jantar, Alice guiou Alessandro até o quarto de hóspedes. A decoração era simples, mas acolhedora, com tons neutros e uma cama grande coberta por lençóis impecáveis.

— Aqui está. Espero que você consiga descansar — disse ela, acendendo o abajur ao lado da cama. — O banheiro fica logo ali, à direita, e se precisar de alguma coisa, meu quarto é no final do corredor... Deve ter algumas roupas suas no guarda roupa.

Alessandro assentiu, observando-a com atenção.

— Obrigado, Alice. De verdade. Por tudo.

Ela sorriu suavemente, o olhar por um breve momento cheio de algo que ele não conseguiu decifrar.

— Boa noite, Alessandro... Qualquer coisa é só me chamar.

Falando isso, ela se retirou, deixando-o sozinho no quarto. Alessandro suspirou, sentando-se na beira da cama e tentando processar tudo o que havia acontecido naquele dia. Mas algo em Alice o deixava inquieto, como se houvesse muito mais a descobrir.

Enquanto isso, Alice foi para o quarto. Depois de tomar um banho quente, vestiu um pijama confortável e se preparou para dormir. Mas, enquanto escovava os cabelos, sentiu uma onda de náusea repentina. Colocou a mão no estômago, respirando fundo, mas o desconforto só aumentava.

— Ah, não... — murmurou para si mesma, tentando se acalmar, mas o enjoo se intensificou, e em poucos minutos ela começou a passar mal.

Do outro lado do corredor, Alessandro ouviu o barulho. De início, pensou ser algo comum, mas quando o som persistiu, ele se levantou, preocupado.

— Alice? — chamou, batendo levemente na porta do quarto dela. Não houve resposta.

Sem esperar mais, ele entrou. Encontrou-a no banheiro, ajoelhada ao lado do vaso, com o rosto pálido e um brilho de suor na testa.

— Alice! — Alessandro correu até ela, segurando-a pelos ombros. — O que está acontecendo? Você está bem?

Ela tentou falar, mas outra onda de náusea a interrompeu. Quando finalmente conseguiu respirar melhor, murmurou:

— Sim, é só... Um enjoo.

Ele a observou com preocupação, seu instinto protetor despertando. Alice se levantou com esforço, apoiando-se na pia, enquanto lavava o rosto para tentar aliviar a palidez evidente. Seus movimentos eram lentos, mas firmes. Alessandro a observava com o olhar carregado de preocupação, incapaz de esconder sua inquietação.

— Você não quer ir ao hospital? — perguntou ele, quebrando o silêncio.

Alice balançou a cabeça levemente e soltou um suspiro.

— Não é necessário. Enjoos, é algo normal no começo da gravidez.

As palavras dela ainda soavam irreais para Alessandro, mas ele engoliu a surpresa, focando em cuidar dela naquele momento.

— Vou preparar um chá para você.

Alice o olhou, arqueando uma sobrancelha.

— E você sabe onde encontrar ás coisas?

— Não. Mas você pode me dizer.

Ela sorriu de canto, um brilho divertido tentando surgir mesmo em meio à exaustão.

— Na prateleira, a primeira porta à esquerda.

Alessandro assentiu, decidido.

— Você deveria tomar um banho enquanto eu preparo o chá.

Alice concordou com um aceno, sentindo-se grata pela determinação dele. Alessandro saiu do banheiro e seguiu para a cozinha. Lá, encontrou a prateleira com os chás e, após alguns segundos de indecisão, escolheu um de camomila. Pegou uma chaleira, encheu-a de água e colocou no fogo, seus pensamentos ainda confusos sobre tudo o que havia descoberto.

Pouco tempo depois, Alice desceu, já mais composta, usando um roupão de algodão e os cabelos ainda úmidos. Alessandro a esperava na sala de jantar, servindo o chá em uma xícara fumegante.

— Aqui está — disse ele, empurrando a xícara em direção a ela.

Alice pegou a xícara e soprou o vapor antes de tomar um gole.

— Obrigada.

Ele se sentou de frente para ela, cruzando os braços sobre a mesa, o olhar firme.

— Era eu quem deveria estar cuidando de você, Alice. Não o contrário.

Ela sorriu suavemente, balançando a cabeça.

— Eu consigo cuidar de mim mesma, Alessandro. Sempre consegui.

Ele respirou fundo, as palavras vindo com uma intensidade que o surpreendeu.

— Mas você é minha responsabilidade agora. Você é a mãe do meu filho. É óbvio que eu me preocupo, e quero cuidar de você.

Alice o olhou, seus olhos se suavizando ao captar a sinceridade na voz dele.

— Alessandro...

— Eu posso ter perdido a memória, mas isso não muda o fato de que eu me sinto bem ao seu lado. E isso, Alice, é algo que nem mesmo o acidente conseguiu tirar de mim.

As palavras dele fizeram algo dentro dela se aquecer, como se por um momento, o peso que ela vinha carregando fosse aliviado.

— Você é mais teimoso do que eu lembrava — disse ela, tentando aliviar a tensão com um sorriso tímido.

— E você é mais incrível do que eu imaginava — retrucou ele, sem hesitar.

O silêncio que se seguiu foi preenchido por algo mais profundo, como se, naquele instante, uma conexão que ultrapassava o passado perdido começasse a se formar entre eles.

— Você deve estar cansado... Deveria ir se deitar. Amanhã vamos pegar a estrada bem cedo para a casa de campo da minha família.— disse Alice, colocando a xícara vazia na pia.

Alessandro cruzou os braços, recostando-se no batente da porta com um sorriso determinado.

— Eu só vou me deitar quando tiver certeza de que você está bem.

Alice balançou a cabeça, suspirando.

— Eu estou bem, não se preocupe doutor.

Ele não respondeu de imediato, mas observou-a terminar o chá antes de acompanhá-la em silêncio até o andar de cima. Os passos de ambos ecoavam suavemente pelo corredor enquanto se aproximavam do quarto dela. Alice abriu a porta e entrou, mas Alessandro ficou parado na entrada, seus olhos varrendo o ambiente organizado e acolhedor.

— O que foi? Por que essa cara de preocupado? — perguntou ela, notando a hesitação dele.

Ele piscou, voltando os olhos para ela.

— Nada... Só estava olhando o ambiente para ver se lembrava de algo.

Alice sorriu de leve, cruzando os braços.

— E conseguiu lembrar?

— Ainda não — respondeu ele com um tom de frustração. — Mas eu quero que isso aconteça logo.

Sem esperar, Alessandro deu um passo à frente, aproximando-se dela com cuidado. Ele se inclinou ligeiramente, depositando um beijo suave em sua testa. O gesto foi tão natural que Alice se surpreendeu, seus olhos arregalando por um breve instante.

Antes que ela pudesse dizer algo, sentiu a mão dele pousar levemente em seu ventre, em um gesto protetor e cheio de significado. Embora sua barriga ainda não mostrasse sinais da gravidez, o toque dele era reverente, como se ele estivesse reconhecendo algo que as palavras não podiam expressar.

— Durma bem, Alice. Qualquer coisa, é só me chamar — disse ele, com uma intensidade que a deixou sem fala.

Alice o observou sair do quarto, fechando a porta atrás de si com cuidado. Encostando-se à cama, ela tocou o lugar onde a mão dele estivera, sentindo-se tomada por uma mistura de sentimentos. A conexão entre eles parecia tão forte quanto antes, mesmo que Alessandro não se lembrasse de nada.

Enquanto ele seguia para o quarto de hóspedes, Alessandro não podia deixar de refletir sobre como estar perto de Alice o fazia sentir. Apesar da memória perdida, algo dentro dele parecia profundamente certo, como se ela fosse o elo para preencher o vazio em seu coração.









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