17° Vamos enfrentar isso juntos


Alguns dias depois

O som da porta do consultório se abriu suavemente, e o Dr. Pietro entrou na sala com um sorriso tranquilo, acompanhado pela Dra. De Luca, uma mulher de semblante firme e atento. Os dois médicos olhavam para Alessandro com uma expressão compreensiva, sabendo que o caminho de recuperação seria mais complexo do que simples exames e tratamentos.

— Bom dia, Alessandro. — Dr. Pietro falou, tomando a frente enquanto a Dra. De Luca observava em silêncio. — Como está se sentindo hoje?

Alessandro fez uma careta ao tentar se mover, ainda sentindo um desconforto residual no braço imobilizado.

— Melhor... mas... ainda não consigo lembrar de tudo. — Ele disse, o tom de incerteza preenchendo a frase. Seus olhos estavam fixos na Dra. De Luca, como se algo nela despertasse uma sensação de familiaridade que ele não conseguia identificar. — Alguma novidade sobre minha memória?

O medico se aproximou, seu olhar suave, mas carregado de uma seriedade profissional.

— Estamos avançando bem. Sua recuperação física está dentro do esperado, mas sua memória... bem, a memória pode ser mais complicada. O que você lembra, Alessandro? 

Alessandro pensou por um momento, como se estivesse tentando tirar algo do fundo de um poço profundo.

— Lembro de pedaços, mas é como se estivessem distantes. Como se eu estivesse tentando ver algo através de uma névoa espessa. — Ele suspirou, desanimado, antes de olhar para Matteo e Alice, que estavam sentados próximos. — Às vezes, sinto que estou esquecendo partes importantes de quem eu sou, do que eu tinha... ou do que as pessoas esperavam de mim.

Matteo trocou um olhar rápido com Alice antes de se voltar para o amigo, tentando transmitir o apoio não só com palavras, mas também com a expressão sincera em seu rosto.

O medico assentiu lentamente, compreendendo as dificuldades que ele estava enfrentando.

— Isso é normal, Alessandro. O trauma que você sofreu pode afetar tanto sua mente quanto seu corpo, e isso pode fazer com que você tenha lapsos, dificuldade em se conectar com certos momentos do passado. No entanto, sua recuperação vai depender muito do tempo e da paciência. Você precisa ser gentil consigo mesmo durante esse processo.

Alessandro assentiu, embora a ansiedade fosse visível em seus olhos.

— Isso significa que eu posso voltar a lembrar das coisas? — Ele perguntou com uma pequena esperança na voz.

— Sim, com o tempo, é possível que suas memórias retornem. Algumas podem vir em flashes, outras de forma gradual. Não podemos prever exatamente quando ou como, mas...  A boa notícia é que sua alta está próxima. — Dr. Pietro informou com um sorriso. — Agora, o importante será seguir com o plano de recuperação e acompanhar o progresso da sua memória. Para isso, você terá de se manter em um ambiente tranquilo e com apoio constante. E, claro, vamos agendar sessões regulares para monitorar tudo de perto. —Alessandro respirou fundo, aliviado, mas ainda com uma certa apreensão em seus olhos.— Agora, o mais importante será seguir com o plano de recuperação e monitorar o progresso da sua memória. Para isso, você precisará estar em um ambiente tranquilo e rodeado de apoio constante. Vamos agendar sessões regulares para acompanhar tudo de perto. — O médico continuou com um sorriso. — Em alguns dias, podemos começar a remover a tala. Você teve muita sorte de não ter quebrado o braço ou até mesmo a clavícula... A recuperação vai ser mais rápida do que imaginávamos. Contudo, é bem provável que você precise de fisioterapia para recuperar total mobilidade e força, especialmente no início.

Alessandro assentiu, ouvindo atentamente as orientações. A sensação de alívio estava começando a se infiltrar em seu corpo, mas sua mente ainda estava carregada de perguntas sem respostas. Ele ainda não sabia o que o futuro lhe reservava.

— Entendido, Doutor. — Ele disse, forçando um sorriso. — Vou seguir as orientações direitinho.

Dr. Pietro deu um último sorriso e se preparou para sair lançando um olhar amistoso para Alice e Matteo.

— Bom, eu ainda não consegui entrar em contato com os seus pais...  Por enquanto, acho melhor você ficar lá em casa.

Alessandro virou o rosto para encarar Matteo, levantando uma sobrancelha.

— Acho melhor eu ficar na minha casa.

— Nem pensar! — Matteo respondeu, cruzando os braços em desafio.—

— Não quero atrapalhar sua rotina, Matteo. Você já tem bastante coisa para lidar.

— Não seja idiota, ok? Somos melhores amigos, Alessandro. Minha família vai adorar ter você por lá. As crianças já estão até empolgadas.

— Crianças? Que crianças?

Matteo suspirou profundamente para o amigo.

— Bom, eu me casei, você não se lembra?

Alessandro negou com a cabeça.

— Eu me casei com a Kiara, Tenho três filhos... Dante e Zoe, são meus filhos adotados... E tem a Violeta, que está com seis messes.

— Você casou e tem três filhos?

— Sim. — disse com uma voz calma e tranquila.— Você pode ficar lá em casa até tirar esse gesso?

— Eu preferia ir para o meu apartamento... Não vou me sentir bem na sua casa...

— Por que não fica na minha casa? 

Alessandro olhou para Alice, claramente surpreso com a sugestão. Ele não sabia o que responder de imediato, ainda digerindo as palavras de Matteo e o que significava estar tão perto de pessoas que ele começava a sentir serem importantes, mas que não conseguia lembrar completamente.

— Na sua casa? — Ele falou, um pouco confuso, tentando entender o que Alice queria dizer.

Alice sorriu suavemente, seus olhos brilhando com uma confiança que parecia imutável.

— Sim. Não seria a primeira vez que você ia ficar lá. — Ela falou com naturalidade, como se fosse algo simples e óbvio. — Você já passou algumas noites lá antes, e talvez fosse bom para você... Eu me preocupo com você, Alessandro. E sei que, se você estiver lá, vai se sentir mais confortável.

Matteo, que estava apenas observando até então, fez uma careta antes de sorrir, como se estivesse processando a proposta de Alice.

— Ela tem razão, você já ficou lá outras vezes. E você sempre disse que se sentia à vontade, como se estivesse em casa. Não precisa ficar tão tenso com isso, cara. — Ele deu uma risada baixa, tentando aliviar o ambiente. — Mas, a minha casa está a sua disposição... vai ser bom para você... E além do mais, amanhã vamos para a casa de campo da minha família, então vai ser divertido... um ótimo fim de semana para poder relaxar.

Alessandro ainda estava em silêncio, refletindo sobre as palavras deles.

— Eu não sei... — Alessandro disse, finalmente, quebrando o silêncio. — Eu me sinto estranho em aceitar, como se estivesse invadindo o espaço de alguém... Não quero ser um fardo para você, Alice.

Alice balançou a cabeça, um sorriso gentil no rosto, como se já soubesse o que ele estava pensando.

— Você nunca seria um fardo, Alessandro. Estamos aqui para cuidar de você. Você já fez muito por mim no passado, e agora é minha vez de te ajudar. E, além disso, Matteo e eu... bem, nós somos sua família, de certa forma, não é? — Ela deu um olhar afetuoso para Matteo, que assentiu com a cabeça, concordando.

Matteo olhou para Alessandro, percebendo a hesitação do amigo, e falou com um tom mais leve.

— O que Alice está dizendo, Alessandro, é que já passamos por bastante coisa juntos. Não tem por que se preocupar tanto. Vai ser bom ter você por perto enquanto se recupera. 

Alessandro finalmente suspirou, como se, por um momento, deixasse de lado toda a resistência interna. A sensação de estar cercado por pessoas que se importavam com ele, mesmo sem lembranças claras de seu passado, começava a se tornar mais confortável.

— Está bem, eu... aceito. Mas, se eu começar a atrapalhar, me avise, por favor. — Ele disse, com uma leve risada, mais relaxado.

Alice sorriu amplamente, aliviada.

— Pode deixar. Vai ser bom ter você lá. 

— Eu vou ver os papeis da sua alta, e já volto. 

Alice concordou com a cabeça enquanto observava o primo se retirar, e se sentava na poltrona próximo a cama.

— Você tem certeza que eu não serei um incomodo.

— Tenho Alessandro... Fica tranquilo.

Alessandro apenas assentiu com a cabeça, e permaneceu em silencio por um breve momento antes de voltar a falar.

— Como está se sentindo? Teve enjoos ou algo do tipo?

Alice sorriu suavemente, tentando esconder a leveza com que a conversa seguia, embora sua expressão traísse uma mistura de sentimentos que ela ainda estava processando.

— Eu estou bem, Alessandro. Não tive enjoos nem nada assim, por sorte. — Ela respondeu com calma, mas seus olhos brilharam levemente ao falar de sua condição. — Um pouco cansada de vez em quando, mas nada demais. Eu tô tentando me cuidar.

Alessandro observou-a atentamente, a preocupação voltando ao seu rosto, embora ele ainda estivesse tentando entender a situação toda. Algo parecia diferente, mas ele não conseguia colocar o dedo exatamente no que era.

— Isso é bom... Mas, você tem certeza de que está tudo bem?— Ele disse, a voz carregada de uma preocupação genuína, como se quisesse saber mais, como se sentisse que havia algo ali que não estava sendo dito.

Alice ficou em silêncio por um momento, olhando para ele com uma mistura de carinho e uma pitada de melancolia. Ela sabia o que ele estava tentando perguntar sem falar diretamente. Mas, por mais que tivesse vontade de ser honesta, a dor da situação, do que ele ainda não se lembrava, ainda pesava em seu coração.

— Eu estou cuidando de mim, Alessandro. Mas você... você tem que se recuperar, isso é o mais importante agora. — Ela respondeu, a voz suave, mas com uma firmeza que fazia claro que ela não queria que ele se sentisse culpado por algo que não podia controlar.

Alessandro franziu o cenho, a mente vagando por um momento. Algo no tom dela o deixou inquieto, como se houvesse mais que ela não estava dizendo.

— Alice, se... — Ele hesitou, sentindo o peso da palavra que vinha, mas sem conseguir impedir que ela saísse. — Eu queria poder lembrar... de tudo. De você... de nós. — Ele disse baixinho, os olhos se afastando dela por um instante, como se tentasse buscar algo dentro de si, algo que explicasse o vazio que ele sentia.

Alice pegou sua mão, apertando-a gentilmente, um gesto simples, mas cheio de carinho e compreensão.

— Eu sei, Alessandro. Sei que é difícil, mas vamos dar um passo de cada vez. Eu vou te apoiar em tudo que você precisar. E, quando as memórias voltarem... eu estarei aqui. A gente vai passar por isso juntos.

Ele a olhou de volta, os olhos fixos nos dela, tentando entender a profundidade do que ela estava dizendo. As palavras de Alice começavam a fazer sentido em sua mente de uma forma que ele ainda não conseguia compreender totalmente, mas sentia, de alguma maneira, que ali estava uma parte importante da sua vida. Uma parte que ele ainda não conseguia acessar, mas que, pelo menos, sabia que estava ao seu alcance, se ele tivesse coragem de enfrentar o que viria.

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