14° Quem é ela?


O quarto estava silencioso, exceto pelo som distante dos monitores cardíacos emitindo um bip constante. Alessandro olhava pela janela, seus olhos fixos no céu noturno de Gênova. Matteo entrou no quarto com passos firmes, carregando uma garrafa de água que colocou na mesa ao lado da cama.

— Você parece bem melhor agora. — Matteo comentou com um sorriso, puxando uma cadeira para sentar ao lado da cama do amigo.—

— Melhor, mas ainda com a cabeça cheia de perguntas. — Alessandro respondeu, sem desviar o olhar da janela.—

Matteo inclinou-se para frente, apoiando os braços nos joelhos, estudando o amigo com cuidado. Ele sabia que Alessandro estava processando tudo, tentando juntar as peças do quebra-cabeça que agora era sua memória.

— Perguntas, hein? — Matteo provocou, tentando aliviar o clima. — Então manda ver, talvez eu possa ajudar.

Alessandro finalmente olhou para Matteo, seus olhos carregados de confusão e uma ponta de curiosidade.

— Quem é ela?

Matteo arqueou uma sobrancelha, intrigado.

— "Ela" quem?

— A loira. — Alessandro respondeu, o tom sério. — A médica. Uma tal de  Dra. Alice Martinez De Luca, foi assim que ela se apresentou.

Matteo recostou-se na cadeira, cruzando os braços e soltando um suspiro.

— Ah, então você já conheceu a Alice.

— Conheci? — Alessandro franziu a testa, como se a palavra não fizesse sentido. Matteo imediatamente soube onde aquilo iria parar, mas manteve o rosto impassível, incentivando o amigo a continuar. — Ela veio aqui mais cedo... Sei lá, agiu como se me conhecesse, mas eu não me lembro dela. — Alessandro franziu a testa, perdido em seus pensamentos. — Só que... algo nela me incomoda.

Matteo inclinou a cabeça, curioso.

— Como assim, incomoda?

— Não sei explicar. — Alessandro passou uma mão pelos cabelos, frustrado. — É estranho. Por um lado, eu me senti bem com a presença dela. Era como se... houvesse uma conexão. Algo que não posso explicar. Mas, ao mesmo tempo, me senti desconfortável. Como se ela soubesse coisas sobre mim que nem eu sei. E, bom... — Alessandro hesitou antes de continuar. — Eu achei ela muito linda demais...

Matteo soltou uma gargalhada, genuinamente divertido com o comentário.

— Bem, pelo menos seu gosto por mulheres continua o mesmo.

Alessandro franziu o cenho, intrigado com a reação do amigo.

— O que isso quer dizer?

Matteo suspirou profundamente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto cogitava se deveria ou não falar a verdade. Ele sabia que era um território delicado, mas, sendo Matteo, optou pela honestidade.

— Que você achava a Alice bonita.

— Só isso? — Alessandro perguntou, desconfiado.

— Digamos que vocês eram amigos bem próximos... 

Alessandro estreitou os olhos, tentando entender.

— Como assim?

Matteo hesitou por um momento, mas decidiu que seu amigo tinha o direito de saber.

— Alice é minha prima... Você conhece ela, a muitos anos... Bom, eu diria que você era completamente louco por ela.

— Louco por ela?

— Sim... Vocês tinham uma espécie de amizade colorida. Algo mais casual, sexo por conveniência... Viviam se pegando por ai... Quando você não estava na casa dela, ela estava na sua casa. 

— E isso faz exatamente quanto tempo?

— Alguns anos...

Alessandro piscou algumas vezes, atordoado com a revelação.

— Isso não faz sentido. Se eu era tão louco por ela, como não consigo me lembrar? 

— Não é tão simples assim, Alessandro. — Matteo disse, olhando para ele com seriedade. — Perder memórias não significa perder sentimentos. Talvez você não se lembre dela agora, mas isso não significa que ela deixou de ser importante para você.

— E ela? — Alessandro perguntou, mais para si mesmo do que para Matteo. — O que ela sente por mim?

Matteo suspirou, dando de ombros.

— Isso, meu amigo, só ela pode te responder.

O silêncio voltou a preencher o quarto. Alessandro parecia perdido em pensamentos, tentando juntar as peças de um quebra-cabeça cujas bordas ainda estavam borradas. Matteo o observava, esperando que ele processasse tudo.

— Isso é tão frustrante. Eu fazia sexo com aquela gostosa, e não me lembro.

Matteo se conteve para não rir.

— Eu sei. — Matteo respondeu, levantando-se e colocando a mão no ombro do amigo. — Mas você sempre foi teimoso. Tenho certeza de que vai descobrir tudo o que precisa, do jeito que só Alessandro Panagazzi sabe fazer... Mas, por hora, por que não descansa um pouco... 

Enquanto Matteo saía do quarto, Alessandro ficou olhando para o teto novamente. A imagem de Alice não saía de sua cabeça, mesmo que ele não conseguisse entender o motivo. Era como se estivesse faltando uma página na sua vida. Foi com esses pensamentos que ele acabou pegando no sono, ele não se lembrava ao certo quando adormeceu, talvez fosse efeito das medicações...

***
Alessandro se recostou no travesseiro, o som do monitor cardíaco suavemente pulsando no fundo da sala. A luz da manhã, filtrada pelas cortinas, criava uma atmosfera tranquila, mas o turbilhão de pensamentos que girava em sua mente estava longe de ser calmo. Ele tentou focar na voz de Matteo, tentando entender o que tinha acontecido entre ele e Alice, mas a cada palavra nova que seu amigo lhe dizia, mais ele se sentia afastado de si mesmo.

"Amizade colorida"? "Sexo por conveniência"? Ele tentava juntar as peças, mas o quebra-cabeça ainda parecia incompleto. Não conseguia entender como algo tão intenso pudesse ter acontecido e agora ser tão nebuloso, como se tivesse sido apagado pela batida que sofreu. Ele se lembrava dela — Alice, seus olhos, o sorriso suave, até o cheiro dela. Mas o que restava disso tudo, além de um desconforto inexplicável?

Ele fechou os olhos, forçando sua mente a se concentrar. Alice. Ela estava no hospital, ali, perto dele, mas ele não sabia o que fazer com essa informação. Como podia alguém ser tão significativa na sua vida e, ao mesmo tempo, tão distante? Por que sentia como se ela fosse um fantasma, uma sombra que insistia em se materializar, mas que ele não conseguia segurar?

O silêncio no quarto parecia aumentar, e ele sentiu uma pontada de dor na cabeça, o mesmo lugar onde o trauma ainda estava fresco. Aquele pensamento, aquele desejo de entender o que havia acontecido entre eles, tornou-se mais forte, quase como uma obsessão. Ele precisava entender.

Foi nesse momento que a porta do quarto se abriu novamente, interrompendo seus pensamentos. Alice estava ali, um pouco hesitante ao entrar, mas seus olhos encontraram os de Alessandro imediatamente, e o clima entre eles, de alguma forma, parecia carregado. Ela vestia uma blusa de manga longa, suas mãos ainda carregando o peso das horas longas de plantão. Ela parecia mais cansada do que antes, mas havia algo em seu olhar, algo que ele não soubera identificar até então.

— Você... — Alessandro começou, sentindo a garganta seca e sem saber ao certo o que dizer. Mas o olhar de Alice o fez parar, como se ela soubesse exatamente o que ele estava tentando entender.

Alice deu um passo à frente, seus olhos suavizando à medida que ela o observava de perto.

— Como está se sentindo? — perguntou ela, a voz baixa, mas carregada de uma preocupação sincera. Não parecia uma questão de rotina, como um médico faria, mas sim um gesto de cuidado que vinha de alguém que se importava profundamente.

Alessandro a observou, tentando controlar o turbilhão de sentimentos que ela provocava nele. Sua mente ainda estava turva, mas algo sobre sua presença parecia familiar, como se ele soubesse que ela era importante, mas não pudesse encaixar as peças no lugar certo.

— Estou... estou tentando entender. — Ele se sentou um pouco mais ereto na cama, sentindo um leve vertigem, mas insistindo para não demonstrar fraqueza. — Eu... não me lembro de muita coisa. Não consigo me lembrar de você como deveria, e isso me incomoda.

Alice ficou quieta por um momento, seus olhos baixos, como se estivesse ponderando suas palavras. Ela parecia ter algo a dizer, mas hesitava, talvez sentindo o peso da situação.

— Eu sei que você não se lembra de muita coisa. — Alice finalmente falou, a voz suave, mas com uma firmeza sutil que fez Alessandro prestar atenção. — Mas eu estou aqui. E eu vou estar aqui, até você lembrar.

Alessandro sentiu um calafrio passar pela espinha. "Até você lembrar." Aquela frase carregava tanto significado, e ao mesmo tempo, parecia um fardo. Como se ela estivesse disposta a esperar, não importa quanto tempo fosse necessário.

Ele mordeu o lábio inferior, confuso com a força daquilo tudo. Por que ela estava tão... comprometida com ele? Era mais do que uma simples enfermeira ou médica. Ela tinha algo de pessoal, algo que Alessandro não conseguia captar. Algo que parecia com uma promessa não dita, uma lealdade que se estendia além da profissão, além da amizade.

— Você... — ele hesitou, mais uma vez, tentando organizar os pensamentos em uma linha lógica. — Nós... éramos amigos, certo?

Alice assentiu, sem dizer uma palavra, mas seu olhar dizia tudo. Era um olhar que carregava tanto carinho quanto dor. Ela sabia que ele não se lembrava, sabia que a recuperação seria longa e difícil, mas algo em seu coração ainda o atraía para ela. A tensão entre os dois cresceu, mas a leveza do momento também parecia envolvê-los, uma sensação de reconexão, mesmo que ele ainda estivesse em pedaços.

Ele tentou mais uma vez. 

— Eu... nós... éramos algo mais, não éramos? O que você significa para mim Dra. Martinez?




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