10° Finalmente férias


 O sol já começava a nascer lá fora, tingindo o céu com tons de laranja, mas dentro do hospital a correria continuava. Alessandro parou por um momento na sala dos médicos para tomar um gole de café, agora frio, e olhou para o relógio. Duas horas. Era só o que faltava para o fim do plantão.

Ele sabia que o hospital ficaria bem nas mãos de Matteo e Pietro. Mas enquanto o caos ao seu redor diminuía aos poucos, Alessandro não conseguia afastar a sensação de que havia algo que ele ainda não estava pronto para enfrentar. Talvez fosse o medo de ficar sozinho com seus pensamentos assim que saísse dali. Talvez fosse a ideia de que, por mais longe que viajasse, ele nunca conseguiria realmente escapar de Alice.

O som das portas automáticas se abrindo e as vozes exaltadas anunciaram a chegada de uma nova emergência. Alessandro estava no corredor revisando prontuários quando ouviu os passos apressados e viu os paramédicos entrarem com uma maca, onde uma criança de cerca de sete anos estava deitada, pálida e respirando com dificuldade. Ao lado, uma mulher que só podia ser a mãe segurava a mão do menino com força, os olhos vermelhos de preocupação.

— Doutor, menino de sete anos, queda de bicicleta. Trauma abdominal severo, possível laceração hepática e sinais de hipovolemia. Pulso fraco, pressão em queda — relatou um dos paramédicos com eficiência.—

Alessandro já estava com as luvas nas mãos quando a maca parou na sala de emergência. Ele se aproximou rapidamente, examinando a criança com cuidado.

— Nome dele? — perguntou Alessandro, enquanto checava a respiração e os sinais vitais.

— Leonardo, doutor — respondeu a mãe, a voz tremendo.

— Certo, Leonardo vamos cuidar de você. Está em boas mãos agora — disse Alessandro, tentando soar o mais calmo possível, embora a gravidade da situação fosse evidente.

Ele pressionou levemente o abdômen do menino, que gemeu e tentou se afastar.

— Sensibilidade à palpação no quadrante superior direito. Precisamos de um ultrassom rápido. Hemograma e cruzamento sanguíneo imediatamente. Comecem os fluidos intravenosos, 20 ml/kg de solução salina.

Enquanto a equipe se movia ao seu redor, Alessandro fez contato visual com a mãe.

— Ele está desidratado e em choque hipovolêmico. Pode haver sangramento interno, mas precisamos confirmar. Ele é alérgico a alguma medicação?

— Não, doutor, nada que eu saiba — respondeu ela, com lágrimas escorrendo.

Alessandro assentiu e voltou sua atenção ao menino. Apesar de sua experiência em traumas, ele sabia que Gabriel precisava de um especialista para continuar o atendimento. Pediatria não era sua área, e ele não queria correr riscos desnecessários.

— Chamem a Dra. Alice De Lucca agora mesmo — ordenou Alessandro, enquanto ajustava a máscara de oxigênio no menino.

A enfermeira ao lado hesitou por um segundo.

— Acho, que ela ainda não chegou Doutor.

— Ele precisa de uma pediatra, e ninguém melhor do que ela para isso... Se ela não tiver aqui, chamem a Beatrice.

Houve uma troca de olhares na equipe. Alessandro não era conhecido por pedir ajuda com frequência, mas, quando se tratava de crianças, sempre preferia deixar nas mãos de Alice. Ele voltou sua atenção para o ultrassom portátil que haviam trazido, e, como temia, havia sinais de líquido livre no abdômen.

Minutos depois, a porta da sala de emergência se abriu, e Alice entrou, com a expressão firme e determinada.

— O que temos aqui? — perguntou, já colocando as luvas enquanto se aproximava da maca.

Alessandro deu um passo para trás, permitindo que ela tomasse a frente.

— Menino de sete anos, trauma abdominal com sinais de hemorragia interna. Suspeita de lesão hepática. Já estabilizamos com fluidos, mas ele precisa de intervenção especializada.

Alice olhou para ele brevemente, os olhos se encontrando em um momento que dizia mais do que qualquer palavra.

— Certo. Leonardo, eu sou a Dra. Alice, e vou cuidar de você agora.

Ela começou a falar com o menino em um tom calmo e tranquilizador, enquanto examinava os relatórios e continuava o atendimento. Alessandro observou por alguns instantes antes de dar um passo para trás, sentindo um estranho misto de alívio e inquietação. Ele sabia que Leonardo estava em boas mãos, mas a presença de Alice sempre despertava algo nele,  uma mistura de respeito profissional e memórias que ele não queria reviver. Enquanto Alice assumia o caso, Alessandro saiu para atender outra emergência, mas sua mente continuava voltando àquela sala, como se algo o puxasse para lá. Ele tentou se concentrar no trabalho, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar aquilo que vinha evitando há meses: Alice.

O fim do turno finalmente chegou, mas Alessandro não sentiu alívio imediato. O hospital ainda estava em movimento, com o som de monitores bipando, passos apressados ecoando pelos corredores e as vozes abafadas da equipe médica discutindo casos. Alessandro caminhou até o vestiário, sentindo o peso das últimas horas de caos sobre seus ombros. Cada músculo do corpo parecia exausto, mas sua mente ainda estava inquieta, cheia de pensamentos sobre o dia, os pacientes... e Alice.

Ele trocou o jaleco pelo casaco de couro que havia trazido e pegou a pequena mala que já estava pronta desde a manhã. Quando saiu para o corredor principal, viu Matteo e Pietro conversando próximos à recepção, ambos ainda com os jalecos manchados e os semblantes cansados.

— Finalmente, o grande Alessandro vai ter suas merecidas férias — anunciou Pietro, com um sorriso cansado, mas divertido. — Já estou até emocionado. Quem diria que você realmente ia sair desse hospital?

Alessandro riu, balançando a cabeça enquanto ajustava a alça da mochila no ombro.

— Preciso fugir antes que alguém me arraste de volta para mais uma emergência.

— Fugir é exatamente o que você precisa — disse Matteo, cruzando os braços. Ele tinha aquele tom sério e analítico, mas o olhar de amigo que Alessandro conhecia há anos. — Só não esqueça de desligar o telefone. Você tem um talento especial para ser encontrado, mesmo a quilômetros de distância.

Alessandro deu de ombros, sem negar.

— Acho que vou ficar alguns dias na Toscana, na vinícola do meu primo. Se não me acharem lá, é porque me perdi no meio das parreiras.

Pietro soltou uma risada curta.

— Não me surpreenderia se você acabasse operando alguém com uma faca de cozinha e uma garrafa de vinho como anestesia.

— Muito engraçado, Pietro. Talvez eu aproveite para não fazer nada pela primeira vez em anos. — respondeu Alessandro, mas sua voz carregava uma leve hesitação. Ele sabia que essa promessa de descanso seria difícil de cumprir.

Matteo deu um passo à frente e colocou uma mão firme no ombro de Alessandro.

— Sério, cara, você precisa dessas férias. Se for pra Toscana ou pra qualquer outro lugar, apenas vá. Não tente salvar o mundo por uma semana, pelo menos.

Alessandro assentiu, sentindo a sinceridade nas palavras do amigo. Ele sabia que Matteo e Pietro o entendiam melhor do que a maioria, e eram os primeiros a perceber o peso que ele carregava.

— Obrigado, caras. Vocês seguram as pontas aqui enquanto eu estiver fora?

— Sempre — respondeu Pietro com um sorriso largo. — Só não fique mais do que um mês, ou vamos esquecer como é trabalhar sem você por perto.

— Ou talvez percebamos que é mais tranquilo sem você mandando em todo mundo — provocou Matteo, com um raro sorriso no rosto.—

Alessandro riu novamente, dessa vez com mais leveza.

— Certo, é minha deixa. Não quero dar a vocês nenhuma chance de me convencer a ficar.

— Eu te acompanho até a saida, assim aproveito para ligar para a minha esposa... Kiara me ligou de madrugada, parece que a violeta estava com dificuldades para dormir.

— Toda criança chora de madrugada. — falou Pietro andando ao lado dos amigos.—

— Não Violeta... geralmente ela dorme igual pedra. — riu Matteo ao se lembrar da pequena filha que tinha apenas seis messes.—

— Você é um homem de sorte... Tem uma mulher linda e atenciosa, e três filhos...

— Você tem razão, eu sou um homem de sorte...E quanto á você e a minha prima? Vocês conseguiram se entender, ou ás coisas ainda estão estranhas?

— Não sei dizer... Eu vou viajar para tentar pensar na minha vida... Talvez esse tempo seja bom, para mim, e para ela... Eu falei para ela, tudo o que eu tinha para falar... Quando eu voltar de viagem, vai ser com uma decisão definitiva.

Matteo olhou para Alessandro com uma expressão pensativa, antes de apertar o ombro do amigo com um gesto solidário.

— Não é fácil, cara. Eu sei disso. Mas, se alguém consegue encontrar clareza em meio ao caos, é você. E se você precisar de mais tempo para pensar, está tudo bem. Não tem pressa.

Alessandro deu um leve sorriso, mais pela tentativa de Matteo de aliviar a tensão do que por realmente se sentir tranquilo sobre a situação. Ele sabia que a decisão que tinha pela frente não seria simples, mas sentia que a viagem à Toscana, longe da rotina frenética, poderia trazer algo que ele ainda não conseguira encontrar dentro de si mesmo.

— Agradeço, Matteo. Eu realmente preciso de um tempo. E, quem sabe, lá eu consiga entender melhor o que quero para o futuro. Não só para mim, mas para nós dois... — Alessandro falava de forma pausada, como se cada palavra fosse pesada, ponderada, e estivesse decidindo como lidar com um peso maior do que parecia à primeira vista.

Pietro, que tinha permanecido mais quieto até aquele momento, agora se aproximou e olhou para os dois com um sorriso irônico.

— Eu ainda fico com a minha teoria: você vai acabar numa taverna, bebendo vinho e esquecendo de tudo. Afinal, quem resiste ao charme da Toscana, hein? — disse, mais para descontrair do que para minimizar o que estava sendo dito.

Alessandro riu levemente, tentando dar um ar mais leve à conversa, mas sua mente já estava distante, projetada na viagem que estava prestes a fazer e nas decisões que precisavam ser tomadas quando ele voltasse. A incerteza ainda pairava, mas algo dentro dele sentia que aquele tempo de pausa poderia trazer a resposta que ele procurava.

— Espero que eu consiga resistir ao vinho, Pietro. — respondeu com um tom brincalhão, embora sentisse que a verdade era que ele não sabia o que esperar de si mesmo.

Os três se dirigiram para a porta, e Pietro, com um último olhar para Alessandro, deu-lhe uma piscadela.

— Vai com calma, cara. E se precisar de um conselho, só me ligar. Mas, se você tiver que passar o dia inteiro num vinhedo pensando na vida, eu realmente vou achar que você se perdeu para sempre no meio das parreiras.

— Não me deixe com o Pietro mais do que um mês. Tenho um pressentimento de que ele vai me convencer a fazer um retiro espiritual no topo de uma montanha — respondeu Matteo, já no tom mais descontraído.—

Os amigos se despediram com um abraço firme e, antes que a porta se fechasse, Alessandro fez uma última consideração.

— Vou tentar, realmente tentar, não trazer mais trabalho de volta na mala. Só espero que isso signifique algo.

— Vai dar certo, Alessandro. — Matteo afirmou com confiança, e, com um aceno, ele e Pietro ficaram para trás enquanto Alessandro saía pela porta, pronto para começar uma viagem que, ele esperava, fosse mais do que apenas uma pausa, mas um verdadeiro ponto de virada em sua vida.

Ao entrar no carro, ele pensou em como as coisas tinham mudado ao longo dos últimos meses, e como as decisões que tomara até aquele momento o haviam levado a um impasse. A viagem à Toscana parecia, de certa forma, um último suspiro antes de uma nova fase. Algo dentro dele sabia que não voltaria a ser o mesmo quando retornasse, mas ele só esperava que fosse para melhor.

O motor do carro roncou e, à medida que ele se afastava do hospital e começava a jornada, o peso nos ombros parecia um pouco mais leve. Talvez fosse a paisagem, talvez fosse o simples ato de se afastar do que estava emaranhado demais para ser resolvido, mas algo dentro de Alessandro sentia que estava tomando o primeiro passo em direção ao que realmente precisava, seja lá o que fosse.

***



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