CAPÍTULO 3
O relógio suíço marcava quinze minutos para as sete horas da noite, onde nesse ponto, Norman começou a estremecer de nervosismo, mas já se encaminhando ao local que havia combinado no cartão. O local escolhido fora a estufa, onde Isabella cultivava algumas plantas e também flores. Ficava em anexo a casa e era um lugar que as crianças menores eram estritamente proibidas de entrar, sendo um dos motivos chave para a escolha de Norman. Outro motivo era que sempre nessa época do ano a estufa era um dos locais mais lindos do orfanato repleto de luzes coloridas que o convertia em um ambiente agradável, aconchegante e até mesmo, romântico.
Emma ainda não havia chegado então Norman procurou se acomodar em um banquinho ao centro da estufa. Estava ansioso e rígido como uma estátua. Finalmente havia tomado uma decisão em relação ao que sentia por ela, visando o futuro que queria dividir com a mesma, contudo, mesmo tentando ignorar as palavras ditas por Ray mais cedo, as mesmas ecoavam em sua mente.
‘’Já parou para pensar que ela pode receber os seus sentimentos de forma negativa? (...) vocês são muito amigos, e ela te vê como um irmão, assim como todos nesse orfanato (...) e se ela achar isso tudo um absurdo e te rejeitar? Não querer te reencontrar no futuro e nunca mais querer saber de você? É algo a se pensar Norman’’.
Mesmo tendo superado aquele momento, Norman sabia que as palavras de Ray eram possíveis e era melhor que ele também se preparasse para o pior.
Norman continuou remoendo as palavras de Ray, assim como, ele fez um pequeno ensaio de coisas que poderia ou não falar para Emma, levando em conta o que já havia escrito no cartão, fato que o deixava angustiado, pois a essas alturas muito provavelmente ela já havia lido.
‘’E se como resposta, ela não aparecer’’, pensou, mas logo a sua mente se apagou assim que viu ela se aproximar da estufa carregando o cartão na mão esquerda. Ela ainda vestia o pijama, mas agora estava de pantufas e um casaco fino e claro, uniforme do orfanato. Naquele momento ela possuía uma expressão serena no ponto de vista de Norman que havia se encolhido no banquinho com o seu coração quase na garganta.
— Boa noite Norman. — disse ela. — Como está?
Norman demorou a responder.
— Bem.
— Que bom. — comentou ela em seguida, agora esboçando uma expressão confusa. — Norman, me diga, porque me chamou até aqui?
Por mais inteligente que fosse o albino não havia entendido a pergunta de Emma. Não fazia sentido, ela estava com o cartão na mão, provavelmente o leu, porque ela estava fazendo aquela pergunta? Será que havia sido sucinto demais para que ela não entendesse? Não, havia algo de errado.
— Você leu o cartão Emma? — quis saber, finalmente.
— Eu tentei. — disse ela abrindo o mesmo.
Agora quem esboçava uma expressão confusa era Norman, até a ruiva lhe mostrar o que havia ocorrido. No interior do cartão, as palavras escritas em relação aos seus sentimentos estavam cobertas de tinta azul, provavelmente obra dos menores que faziam companhia a ela na enfermaria. Definitivamente, Norman esperava por qualquer coisa, mas aquilo fora demais para ele. As únicas palavras e frases que haviam se salvado foram: ‘’Querida Emma’’, ‘’lhe espero na estufa ás sete’’ e mais ao final ‘’com amor, Norman’’. Toda a sua declaração havia sido perdida debaixo daquela tinta que os menores usavam para pintar os seus desenhos e para o delírio de Mama, as paredes.
— Entendo. — disse ele, sem muita convicção.
— Então Norman, o que dizia no resto? — questionou ela, visivelmente curiosa.
O cérebro de Norman havia se apagado de tal forma, que o albino até se esqueceu de como articular as palavras.
O cartão fora a estratégia que havia pensado para conseguir dizer tudo que sentia por Emma, de forma que se ela viesse ao seu encontro já sabendo do que ele sentia. Tornaria o processo mais fácil, para melhor ou pior, contudo, ter que se declarar ali na sua frente, era algo que para ele, naquele momento, era assustador.
Emma se demonstrou impaciente ao esperar pelas palavras de Norman que com muita dificuldade lhe respondeu:
— Nada… de… muita… importância.
Emma suspirou.
— Norman, não seja como o Ray. — advertiu ela, aborrecida. — Ele não coloca nenhuma fé em mim e pensa que eu sou idiota.
Norman havia congelado, mas não de frio.
— Jamais pensaria isso de você. — respondeu ele, rapidamente, antes que a situação se agravasse.
— Então me diga o que estava escrito.
Norman precisava ser ainda mais ágil, apesar da dificuldade.
— Eu só lhe desejei melhoras no cartão. — disse ele, atento as expressões que Emma fazia, que pelo visto, a resposta havia lhe convencido.
— E porque me chamou até aqui?
— Bem... Te chamei aqui para lhe desejar um feliz natal! — disse por fim, abrindo os braços para que Emma se aproximasse para um abraço.
— Podia fazer isso mais tarde, com todos nós. — disse ela, ainda mais confusa com as respostas que havia recebido.
— Mas poderia ter o risco da Mama não deixar você descer para jantar conosco, sabe como ela é cautelosa.
Emma apenas assentiu, se convencendo finalmente.
Norman agora estava de pé, tranquilo e pronto para abraçá-la e desejar a ela um feliz natal, no entanto, Emma o surpreendeu com um beijo na bochecha esquerda, acontecimento que fez o seu rosto queimar.
— Feliz natal, Norman.
...
— Então? — questionou Ray que estava no quarto auxiliando os menores a se vestirem para a ceia.
— Haverá outras oportunidades. — respondeu Norman de forma sonhadora, jogando seu corpo sobre a cama.
Ray apenas assentiu, onde continuou ajudando as crianças, agora perdido em seus próprios pensamentos.
‘’Talvez não Norman’’.
FIM.
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