CAPÍTULO 1

 Podia fazer o clima que fosse fora das paredes do orfanato de Grace Field House. Todos os dias, as crianças despertavam com o sino das seis horas da manhã, o que para muitas poderia ser considerada uma tarefa bem difícil, afinal, fazia um inverno rigoroso. No entanto, para toda regra havia uma exceção, ainda mais para Norman, que estava muito bem acordado ás quatro horas da manhã, com o seu abajur aceso e caminhando de um lado para o outro.

Não demorou muito para que o seu colega de quarto e também vizinho de cama despertasse, aparentemente aborrecido.

— Ei Norman. — disse o garoto de cabelo negro com uma mecha lisa que cobria seu olho direito fazendo com que o esquerdo mal se abrisse pelo sono. — Pare com isso e vá dormir.

Norman parou seus passos assim que ouviu o moreno, que estava com uma expressão um pouco mal humorada.

— Perdão Ray. — disse ele, aproximando-se, esfregando suas mãos uma na outra, sinalizando ali que estava um pouco nervoso.  — Não posso me conter, hoje é um grande dia.

Ray apenas encarou o albino de olhos azuis, de forma sonolenta e apática, virando seu corpo em seguida, na tentativa de recuperar o sono que havia sido interrompido, cobrindo-se até a cabeça.

Norman sabia que Ray havia ficado irritado, todavia, se viu na necessidade de desabafar, mesmo naquelas circunstâncias. Os dois garotos possuíam a mesma idade, e se conheciam desde muito pequenos já que haviam chegado a Grace Field House quase na mesma época. Eles cresceram juntos como irmãos, dividindo tudo, desde a comida até o amor sua mãe de criação.

Logo, Norman se sentia à vontade com Ray para falar sobre qualquer coisa.

 — Sabe. — começou o albino se ajoelhando na beirada da cama de Ray. — Hoje eu decidi me declarar… A Emma.

Ray até tentou ignorar o que tinha ouvido debaixo dos cobertores, mas a sua vontade de insultá-lo conseguiu ser maior.

— Você é idiota? — perguntou saindo debaixo das cobertas um pouco descabelado.

Norman possuía um olhar que Ray não reconhecia.

— Eu preciso fazer isso, antes que seja tarde! — disse Norman, alterando um pouco a voz, o que fez que algumas crianças no quarto, despertassem, porém adormeceram em seguida.

— Fale baixo! — sussurrou Ray, nervoso e aparentemente ainda mais aborrecido. — Não acredito que você interrompeu o meu sono para falar bobagens. Se declarar para a Emma?! Tem noção do absurdo que você acabou de dizer?! Vocês têm apenas dez anos!

No fundo, Ray estava mais revoltado com o seu sono perdido do que com o fato de Norman querer se declarar para Emma que era uma das meninas mais velhas do orfanato. Assim como ambos, possuíam a mesma idade.

— Por isso mesmo, o nosso tempo está acabando. — disse o albino, demonstrando um leve desespero.

Ray acabou estremecendo debaixo dos cobertores com a expressão ‘’nosso tempo está acabando’’, no entanto, procurou manter a postura.

— O que quer dizer?

— Mais cedo ou mais tarde seremos adotados e possivelmente nunca mais nos veremos. — explicou. — Por isso eu quero que ela saiba de tudo que eu sinto, para que no futuro, quando formos adultos, nós possamos nos reencontrar e quem sabe nos unir… Ficarmos juntos, entende?

Ray teve que buscar forças de onde não tinha para conter o riso, afinal, tinha respeito por Norman, mas por outro lado, ficou aliviado com a inocência do amigo em relação à realidade das supostas adoções que ocorriam.

— E quem garante que ela irá aceitar? — quis saber Ray, fingindo interesse.

— Só de ela querer me reencontrar no futuro, já é meio caminho andado. — respondeu ele, confiante.

— Se você diz. — declarou Ray, por fim, virando-se para o outro lado, cobrindo-se novamente até a cabeça, dando a entender que aquela conversa já havia acabado pelo menos para ele.

Depois do curto dialogo, Norman se sentiu até mais aliviado e agradecido.

— Obrigado por me ouvir Ray.

O albino apenas ouviu a voz abafada de Ray saindo debaixo das cobertas como resposta.

— Vá dormir Norman.

...

O dia havia começado de forma agitada no orfanato. As crianças estavam animadas graças à véspera de natal e também com os biscoitos que Isabella, a mãe de criação de todos, havia preparado para o café da manhã. As mesas como sempre estavam fartas, possuíam o suficiente, do bom e de melhor para alimentar quarenta crianças.

— Crianças, prestem atenção. — chamou a mulher de feições gentis e maternas, trajando seu habitual vestido negro e avental branco, tomando assento na cabeceira de uma das mesas para que todas as crianças a olhassem. — Como sabem hoje é véspera de natal, então não teremos testes como de costume. — as crianças vibraram alegremente, já que os testes eram extremamente cansativos. — Eu quero que todos me ajudem com as tarefas, desde a limpeza da casa até com os preparativos da ceia.

Todas as crianças concordaram e bateram palmas. Para eles era um prazer ajudar Isabella que era uma mulher dedicada, bondosa, a mãe — a Mama — de todos que viviam ali.

Graças ao ocorrido horas antes pela madrugada, Norman e Ray apareceram para o café da manhã minutos depois, fato que Isabella não deixou passar.

— O que houve com vocês? — questionou ela, com um olhar levemente severo, materno. — Sempre acordam antes de todos para me ajudarem a fazer o café da manhã.

— Nos perdoe Mama, realmente não era a nossa intenção. — respondeu Norman, desconcertado.

Patético, pensou Ray que obviamente havia despertado com o seu mau humor acentuado.

— Espero que isso não se repita meninos. — advertiu a mulher. — Agora se sentem.

Ray havia se sentado, porém Norman ainda ficou de pé encarando o lugar vazio que Emma costumava ocupar, buscando com o olhar a sua presença pelo ambiente.

— O que houve querido? — questionou Isabella percebendo o olhar perdido do garoto.

— Mama, onde está a Emma?

A pergunta de Norman fez com que todos procurassem a garota pelo lugar e a se questionarem pela ausência da mesma que até então não foi percebida por eles, graças à véspera de natal.

— Na enfermaria. — respondeu ela.

Norman ficou surpreso, assim como, algumas crianças.

— Emma na enfermaria, mas como assim? — questionou um garoto de pele bronzeada.

— Bem que eu achei estranho. — comentou uma garotinha de aproximadamente cinco anos. — Ela sempre me ajuda a pentear o meu cabelo pela manhã, e hoje ela não amanheceu na cama dela.

— Como somos egoístas, — comentou outra garota, esta mais velha e de óculos. — Estávamos tão animados pela véspera de natal que nem percebemos que a Emma não havia despertado conosco.

— Bem que eu achei que esse lugar estava tranquilo até demais. — comentou um garoto estranho de nariz elegante.

O assunto havia se tornado o destaque daquele café da manhã gerando comentários e algumas discussões isoladas, inclusive o choro de algumas crianças menores. Emma era extremamente querida por todos.

— Ela está um pouco indisposta, passou mal durante a madrugada. — explicou Isabella, finalmente. — Creio que o jantar de ontem, não lhe caiu bem.

— Mas a Emma? — questionou Norman, indignado. — A Emma nunca fica indisposta!

— Milagre de natal. — comentou Ray, malicioso, enquanto pegava um biscoito, atraindo vários olhares tortos das demais crianças da mesa, inclusive de Norman.

— Escutem crianças, a Emma estará de volta antes que vocês percebam. — declarou Isabella na esperança de tranquilizar a todos.

Norman e algumas crianças haviam ignorado as palavras da mulher indo em direção a saída para visitar Emma na enfermaria, porém eles não contavam que seriam rapidamente impedidos.

— Queridos. — disse ela, que havia se posto na frente da saída sem que eles percebessem. — O café da manhã primeiro.

Frustrado o albino, retornou ao seu lugar habitual na mesa, sentando-se ao lado de Ray que lhe alcançou um biscoito, com certo sarcasmo.

— Um biscoito primeiro Norman, a Emma não vai fugir da enfermaria.

...

Aquele fora o café da manhã mais longo da vida de Norman que o que mais queria era ver o estado de Emma. Não lhe entrava na cabeça que ela estaria em uma cama na enfermaria, doente. Emma era uma menina que vivia sempre alegre e muito raramente adoecia. Aquilo não era algo comum.

Assim que Isabella havia liberado todos da mesa para realizarem as suas tarefas diárias e o que haviam combinado, Norman foi a passos largos até a saída, porém, a mulher ainda insistia em ficar no seu caminho.

— A louça não se lava sozinha Norman.

— É mesmo. — disse Ray, provocativo, enquanto recolhia as xícaras.

— Eu só quero ver a Emma, é rápido Mama, por favor. — implorou ele.

Norman já havia perdido a dignidade.

A mulher apenas o encarou, porém decidiu ceder ao seu pedido.

— Tudo bem, mas venha logo para ajudar o Ray, se não vier eu vou atrás de você — advertiu ela.

— Tudo bem!

Norman seguiu rapidamente até a enfermaria. Particularmente não se reconhecia, pois na maioria das vezes ele era um garoto de personalidade serena, bastante inteligente e racional, mas Emma fazia com ele perdesse totalmente a lógica e a razão.

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