Chapter 1
- Eu marquei a consulta, Beth. – Alicia sussurrou para a amiga que estava ao lado do nicho dela com o headfone nos ouvidos. Beth liberou uma orelha.
- Com o psicólogo?
- Não, com a cartomante.
- Fala sério, Alicia! – Beth recolou os fones e revirou os olhos. – Você devia voltar no Dr.Régis para conversar.
- Eu não vou voltar no psicólogo! Dr.Régis só fica dizendo que eu tenho que refletir... – ela gesticulou do lado da cabeça. – Refletir o quê? Eu quero soluções!
- E acha que uma cartomante vai te ajudar nisso?
- Não sei, ué. Não custa nada tentar. Lembra de Nando do TI? – ela indagou, Beth assentiu desinteressada. – Ele disse que essa mulher é batata! Diz tudo o que você tem que fazer. Até o futuro dele ela previu timtim por timtim.
- Eu não sei não... Você nem acredita nessas coisas, Lícia. – A amiga tentou um tom mais brando. É, era verdade. Beth até lia o horóscopo de algumas revistas para ela às vezes, mas libra sempre parecia um signo romântico demais para sua vida recheada de desmanches amorosos.
Ainda assim, Alicia balançou a cabeça, determinada.
- Estou desesperada, Beth. E sinto um pressentimento bom...
- Igual ao pressentimento que você teve com Fabinho da padaria?
Beth citou um peguete que ela cismou em namorar porque ele a tinha fisgado pelo estômago. Bom... o problema era que ela tinha sido fisgada mesmo, já ele, estava sem anzol nenhum. Nadando livremente e explorando qualquer um no mar da vida.
Não à toa ela o tinha pego com uma mulher dentro da cozinha da padaria. Os dois estavam no maior love, sujos de farinhas em cima da mesa de sovar massas.
Alicia não só terminou o namoro como parou de vez de comer pães.
- Eu estava um pouco confusa. – Alicia mencionou com uma careta. Beth revirou os olhos novamente e se deteve na tela do computador. Alicia a cutucou – É às 13h, no horário de almoço...Você pode bater meu ponto para mim?
A amiga odiava aquilo. Mas Alicia sempre a lembrava que era um mal minimamente menor, já que ninguém aguentaria a gerente e as broncas que ela gostava de dar logo na hora da saída do expediente.
- Por favorzinho? – Alicia tentou novamente com as palmas reunidas. Beth suspirou.
- Está me devendo essa, Lícia. – Beth avisou, com os olhos semicerrados. Alicia deu um gritinho de felicidade.
- Quer me contar a piada também? – Vanessa, a gerente, apareceu ao lado delas. Beth engoliu em seco.
- Mas a gente nem estava rindo. – Alicia debochou com um estalar de língua.
- Ao trabalho, Maria Alicia! – Vanessa quase rugiu, ignorando o comentário dela.
Assim que a gerente sumiu no longo corredor dos operadores de telemarketing, Alicia se virou para amiga e remendou a gerente, numa atitude um tanto infantil.
- Você faz isso porque não vai estar aqui semana que vem. – Beth murmurou entre risos.
- Essa talvez seja uma das coisas boas da minha decadência. – Alicia devolveu.
Certo, na verdade não era nem um pouco bom. Se ela pudesse ficar ali por mais um semestre, só para terminar a faculdade de publicidade, aí sim sairia feliz.
E ela estava conseguindo fazer um ótimo trabalho: era gentil e educada em cada telefonema. Mesmo quando velhinhos ligavam só para conversar sobre os seriados estranhos que eles cismavam em chamar de novela.
Mas aí, como diria seu nobre pai: "havia uma pedra no caminho". A pedra nada mais era que um cliente, chamado Luan. Em surto de surdez o homem perguntara tantas vezes sobre os canais de sacanagem que ela literalmente pifou, respondendo aos berros que os canais eróticos tinham senha.
O grito dela devia ter sido tão alto que o tal do Luan finalmente ouviu e a chamou de grossa, dizendo que reclamaria dela. Alicia o mandou a merda, ele devolveu.
E agora ela estava literalmente na merda.
Era o último dia do aviso prévio, tinha perdido o namorado (ou se livrado?), e agora estava prestes a perder a paciência por não ter encontrado trabalho algum e estar com uma mensalidade universitária de mais de mil reais em atraso.
Ela inspirou fundo e aceitou mais uma chamada. Tudo está melhorando, é só confiar. Alicia leu o mantra de um coaching que estava colado na parte superior do computador.
Fim do turno da manhã, Alicia correu para o ponto de ônibus localizado a uma quadra do emprego.
Agora que olhava para o cartão de visitas da cartomante, enfeitado por búzios e números aleatórios, já não parecia uma ideia tão boa. Mas ela iria até o final.
Deu ombros e amassou o cartão, enfiando-o dentro da bolsa. Alicia pegou o ônibus, que a levou para o extremo sul da cidade. Uma área meio duvidosa com chão de barro, entrada da área rural.
Ela desceu do ônibus, sendo tomada pela lufada de calor e poeira. Protegendo os olhos, seguiu para onde o google maps dizia ser a sala da cartomante.
Ela bateu três vezes na porta de madeira lascada, e quando ia bater uma quarta vez, uma mulher de turbante e olhos sagazes, abriu a porta.
- Alicia, não é? – a mulher perguntou. Sem saber se tinha dito seu nome, ela confirmou. – Sou Santa Sarah Kijab. – a mulher estendeu a mão com as unhas pontudas. Alicia tentou um sorriso maroto, e aceitou o cumprimento.
Pouco tempo depois, as duas já estavam sentadas em uma mesa forrada com um tecido cetim da cor vermelha. Três tipos de baralhos estavam arrumado lado a lado na superfície. Em volta, algumas pedra naturais estavam reunidas, bem como uma vela branca estava acesa perto dela.
- Já recebeu uma consulta antes? – Santa Sarah Kijab perguntou. Alicia deu um sorriso trêmulo, sentindo um receio estranho subir pelas veias.
- Ainda não.
- Não se preocupe, querida. Será muito rápido, e tenho certeza que gostara das coisas que aprenderá sobre você e seu futuro. – a mulher foi assertiva. Alicia assentiu a cabeça com um pouco mais de confiança. A cartomante pegou um dos baralhos e começou a embaralhá-los. – Se concentre na questão que você quer saber.
Alicia fechou os olhos, se concentrando em qualquer resposta acerca do momento turbulento que passava na vida. Quando os abriu, a cartomante havia dividido o baralho em três, logo depois reunindo os três montinhos em um.
Três cartas foram estendidas na mesa. A cartomante esfregou as próprias mãos, parecendo analisar o veredicto. Alicia chegou um pouco mais perto.
- A carta do cigano significa uma busca incessante por solução, mas também representa algum homem. Minha intuição revela que ele vem do seu passado...
- Do passado? – A expressão de Alicia murchou. – Tô precisando virar a página, moça. Quero algo do futuro.
- Calma, a sua tiragem está ótima. – a mulher sorriu um pouco. – Veja esse navio – Apontou para carta ao lado do cigano. – Mudanças vão ocorrer... Me parece que uma viagem...
Alicia tinha os olhos apertados e atentos. A mulher apontou para a última carta.
- E a carta do coração significa amor, intenso e verdadeiro.
- Amor verdadeiro! – Alicia exclamou animada, sentindo uma pontada de esperança lhe atingir o peito.
- Vou pedir uma clarificação. – A mulher mencionou, voltando a embaralhar as cartas que restavam na mão. Devido aos rápidos movimentos, uma carta pulou do monte. Uma raposa.
- A raposa significa situações inesperadas. Como ela está ao lado do Cigano, não posso deixar de falar pra abrir o olho com esse homem do passado...– Santa Sarah murmurava. Alicia soltou um muxoxo com a palavra passado.
- Eu quero deixar o passado no passado.
- Eu sei. Mas pelo o que estou vendo, esse homem abrirá as portas do seu futuro. Precisa confiar. - Alicia suspirou, meneando a cabeça minimamente. – Sabe, o passado está muito nítido nesta tiragem, acho que o fato de mercúrio estar retrógrado explica muitas coisas.
- Mercúrio...o planeta?
- Sim. Quando mercúrio esta retrógrado nossa comunicação fica comprometida, e algumas coisas podem voltar do passado. É preciso agir com serenidade e resolver o velho para partir para o novo...Ele vai ficar em movimento por cerca de um mês, é um período complicado e difícil para alguns, infelizmente você parece ser uma dessas pessoas.
Alicia estava com uma expressão meio perplexa. O fato de que Mercúrio estaria para afetar sua vida era demais para absorver. Esse planeta não tinha mais o que fazer?
Santa Sarah não sei de onde a olhou, avaliando-a. Alicia franziu o cenho, exalando desconfiança.
- Você não era uma cartomante?
- Eu sou uma cartomante.
- Então... o que um planeta tem a ver com cartas?
- Ah, quando se lida com o mundo holístico você aprende de tudo um pouco. – Ela deu de ombros. - Sinto que é cética quanto às coisas ocultas e esotéricas. Mas acredite, tudo vai se resolver. – a cartomante tentou apaziguá-la. Alicia soltou um suspiro cansado e olhou o relógio de pulso.
- Aí não fala nada sobre a área profissional? Nada novo... do futuro?
- Ah, vejamos sobre a área profissional... – disse muito assertiva enquanto embaralhava o outro baralho. Duas cartas foram tiradas. Uma do Deus Hermes, outra da deusa Afrodite. Alicia olhou com desconfiança o baralho de deuses gregos.
- Isso é confiável?
- Claro que sim! – Ela murmurou enquanto analisava as cartas - Vejamos, vejamos... Vai trabalhar com viagens! – Santa Sarah exclamou. – Hermes é veloz, representa viagens e mudanças. Afrodite, o amor, ou seja...você vai trabalhar com seu amor, em viagens.
Santa Sarah parecia feliz com as mensagens. Alicia piscou algumas vezes, esperando a mulher retirar aquelas baboseiras.
- Está de brincadeira, né?
- É o que as cartas dizem. – ela juntou os deuses a carta do navio – Isso indica uma área próspera de trabalho com muitas viagens... Vejo muita água também.
Alicia riu, e revirou os olhos.
- Hum. Isso não é verdade. – Alicia murmurou entre um riso e outro. A mulher lhe devolveu uma expressão ferina.
- É sim.
- Não, não é. – Alicia estava perdendo a paciência. – Está vendo esse navio? Eu odeio viagens de navios porque tenho trauma. Logo, se eu não ando de barco, quer dizer que nem água vou ver. Outra coisa, ninguém vai voltar do passado coisa nenhuma. Deixei bem claro para algumas pessoas do passado que é lá o lugar que elas devem ficar. E por mais que um amor fosse me deixar muito feliz, eu tô precisando mais é de dinheiro.
Alicia se levantou bruscamente.
- Os significados não são literais. – A mulher disse, a encarando. - E as cartas não mentem.
- Mas uma charlatã mente, sim.
Quem foi que se levantou de maneira brusca foi a cartomante. Alicia deu um passo para trás.
- Você entra em minha casa para me ofender? – A mulher lhe perguntou perplexa. Antes que Alicia pudesse responder, a cartomante apontou para a porta. – Vá, Alicia. Eu realmente espero que você tenha mais fé na sua vida. Mas lembre-se, com Mercúrio retrógrado não se brinca.
Alicia nem se despediu, saiu a passos tão rápidos que quase esqueceu a própria bolsa. Na volta para casa, a mão dela coçava para pegar o celular e ligar para a amiga. Mas admitir que a solução que ela tentara criar fora um erro não estava nos planos.
E Agora que ela usara os cinquenta reais do almoço com a charlatã, sua barriga roncava. Ela desceu do ônibus e comprou um salgado bem gorduroso e barato na esquina do trabalho. Depois, quando estivesse mais deprimida, choraria pelo excesso de quilinhos.
Alicia atravessou rapidamente o hall da empresa enquanto engolia a massa gordurenta. Quando ia chegando no elevador, se lembrou de pegar a documentação para apresentar ao RH na saída. Ela girou nos calcanhares, voltando para área do correio. Mas quando foi checar o reflexo no espelho, o viu. Ali, perto do recepcionista, estava Fábio, o ex- namorado traíra.
Ai, meu deus. Só podia ser Mercúrio retrógrado.
Ta aí o capitulo 1. *eeeee*
O que me dizem desse cap, gostaram? Não deixe de votar, comentar e dar sugestões (até de publicação dos capítulos, pv ta liberado! ), ok?
Até o próximo cap, gente!
Obrigada por tudo, mesmo <3
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