Capítulo Quatro

Alison Reed:

Deixe-me apresentar a você, meu nome é, como já sabem, Alison Reed. Tenho cabelos negros e, ao que parece, meu estilo é marcado por uma barba desgrenhada, já que todos que me conhecem afirmam que tenho mais cara de descolado.

Tenho uma irmã que está atualmente em um manicômio, devido a várias coisas que ela fez com algumas pessoas, mas preferia não entrar em detalhes sobre a Vânia.

Neste momento, estou focado em construir um futuro mais positivo e significativo para mim mesmo. E enquanto trilho esse caminho, há um amigo especial ao meu lado, alguém que ocupa um lugar especial no meu coração, embora esse sentimento permaneça escondido, ao menos por enquanto.

Mas acho que chega a ser estranho ter mudado minha vida por estar com alguém que amo e nem sabe disso direito. Do fundo do meu coração, amo o Miguel com tanta intensidade que chega a ser doloroso ver como ele esconde sua dor no fundo de si mesmo, sem poder fazer nada além de ser o amigo que está o apoiando. Meus pais, quando eram vivos, diziam que eu sou muito empático com os outros e que, se me apaixonasse, seria duas vezes mais empático com a outra pessoa. Entendo isso ao ver o Miguel sofrendo e não poder fazer nada além de proporcionar a ele um apoio que ele talvez nem perceba que está recebendo.

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Após Erick sair do quarto em que colocamos Eduardo, junto com Arnold e Thomas, informando que Eduardo estava dormindo e não acordaria tão cedo, todos que estavam no corredor se dispensaram. Vi Miguel pegar sua mala da mão de Mark e seguir para seu quarto.

Como quero muito conhecer as pessoas que estão na casa, para que percebam que sou uma boa pessoa e também divertido, não alguém com intenções obscuras.

Principalmente para Rosangela, a governanta da casa Martins, que me lançou um olhar desconfiado.

Pelo que Mark, filho dela, falou, Rosangela cuida dos Martins, e é por meio dela que se sabe se uma pessoa se tornará confiável ou um inimigo. É necessário prestar atenção extrema nela, e juro para vocês que deu até medo.

Abro a porta do quarto, deixo a mala ali dentro e desço para o andar de baixo, indo em direção à cozinha. Preciso conhecer a família de Miguel e, especialmente, os filhos dele, que talvez num futuro próximo se tornem meus filhos também.

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Me aproximo da cozinha e paro no batente, ouvindo as vozes infantis dos filhos de Miguel e a risada de Luigi e Stefano. Os quatro estão sentados à mesa, saboreando um bolo que parece ser de chocolate.

— Então, você é o amigo americano do Miguel? Esperava alguém diferente não sei porque —  Dou um pulo ao ouvir uma voz de mulher. — Garoto, você acabou de fazer confirmar alguma coisa.

Rosangela passa por mim e vai até as crianças, parando na frente do quarto. Os olhares deles se voltam para ela, com expressões que denunciam que foram pegos no pulo.

—  Vejo que guardaram um pedaço mesmo para o Eduardo — Rosangela falou, e as crianças sorriram inocentemente. — Ainda bem que fiz dois! Mas ficou bom?

— O melhor, tia Rosa! — Luigi falou. — Amo bolo de chocolate!

— O melhor, por isso quero outro pedaço! — Stefano falou.

— Também, vovó! — Adele falou, fazendo uma carinha fofa. — Mais um pedaço, por favorzinho.

Ri, pois essa menina me lembra um pouco o Miguel, que pediu um lanche quando saímos para uma lanchonete.

— Quem é ele? — Giulio perguntou, apontando o dedinho na minha direção. — Ninguém nos apresentou e falou dele pra gente!

Então, as quatro crianças começaram a me encarar com cara de interrogação.

— Eu sou um amigo do Miguel —  falei, adentrando mais na cozinha. — Vou trabalhar com ele enquanto o Eduardo está doente por um certo tempo.

—  O que tem o tio Eduardo? —  Stefano perguntou. — Porque ele desmaiou quando me abraçou?

Agora, o que posso falar para eles? sem que eles pensem em alguma loucura.

—  Conta a verdade! —  Rosangela disse, cruzando os braços e me lançando um olhar inquisitivo. —  Os três aqui, apesar de novos, são bem inteligentes. Conta a verdade de uma vez.

Olhei para aquela mulher, que me observava como se estivesse me testando para ver minha inteligência ou ingenuidade.

—  Bem, ele sofreu um acidente — Falei, observando as crianças. — Isso fez com que ele perdesse um pouquinho da memória dele. O desmaio foi por causa da pressão, que ele mesmo colocou por não se lembrar, e do nervosismo que isso causa!

—  Então o vovô vai ficar assim para sempre? — Giulio perguntou, e os outros dois fizeram expressões tristes, quase chorosas, exceto Luigi, que começou a me analisar da mesma maneira que Rosangela estava fazendo.

— Não, ele pode se recuperar! — Falei com o tom de voz um pouco mais alto do que gostaria, o que fez Rosangela e Luigi me encararem ainda mais intensamente. — Talvez demore, mas ele pode voltar a ter todas as suas memórias. Neste momento, todos precisam ir com calma, para que ele não se sinta culpado, e muito menos para que o Miguel não fique sobrecarregado.

Os olhares atentos de Rosangela e Luigi pairavam sobre mim, aguardando para ver qual seria meu próximo passo.

— Eduardo precisa de apoio, compreensão e paciência. O Miguel está fazendo o possível para ajudá-lo, e todos nós também devemos oferecer nosso suporte. —  Expliquei, mantendo um tom mais sereno. —  Com o tempo, e com a ajuda certa, ele tem boas chances de se recuperar completamente.

As crianças pareciam absorver as palavras, Giulio e Adele ainda com expressões preocupadas, e Luigi, mesmo analisando, parecia mais tranquilo. Stefano ficou em silêncio.

—  É difícil ver alguém que amamos passando por isso, mas precisamos ser fortes e unidos para ajudá-lo da melhor maneira possível. — Concluí, buscando transmitir uma mensagem de esperança.

Um dia, ou talvez nunca consiga se recuperar. Esse é o pensamento que passa pela minha cabeça desde que Miguel me disse o que o médico falou para ele.

Rosangela assentiu, e a tensão na cozinha pareceu diminuir um pouco.

— Obrigada por ser honesto com as crianças. — Disse Rosangela, finalmente quebrando o silêncio. — Vamos cuidar bem de Eduardo e apoiar o Miguel.

As crianças, mesmo com alguma apreensão, pareciam aceitar a situação. A vida naquela casa, que agora envolvia mais do que apenas os Martins, começava a tomar forma diante dos desafios que se apresentavam.

Rosangela não me lançou um olhar julgador, mas percebi que ela elevou suas expectativas em relação a mim. É crucial que todos aqui me conheçam e percebam que posso ajudar no que precisarem, além de ser alguém em quem possam confiar.

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Fiquei ali conversando com as crianças e Rosangela, que me contou muitas histórias sobre Miguel crescendo ao lado de seus filhos.

Cada história me fazia rir cada vez mais, junto com as crianças, até a vez em que Miguel resolveu pintar os cabelos de verde e ficou parecendo um brócolis ambulante.

Fiquei ouvindo tudo até que Miguel surgiu na cozinha e nos encarou. Ver seu olhar amoroso e paternal em relação às crianças foi muito lindo para mim. Quando Adele e Giulio o viram, pediram para descer da cadeira, e os ajudei. Eles saíram correndo e se grudaram nas pernas de Miguel.

— Papai! — Falaram juntos. — Brinca um pouquinho com a gente, por favor!

Miguel sorriu amplamente.

— Claro que posso brincar com vocês —  Miguel disse com um sorriso, então levantou o lara para a direção de Luigi e Stefano. —  Querem brincar com a gente? —  Ambos os garotos concordaram com um aceno de cabeça com enormes sorrisos. — Então vamos!

Stefano e Luigi levantaram de suas cadeiras e saíram correndo atrás de Miguel e dos filhos. Depois de alguns segundos, Rosangela sentou à mesa e me encarou.

— Você vê como o Miguel se importa com as crianças e com o próprio pai, além de colocá-los em um patamar elevado. Mesmo cansado, ele prefere brincar com os filhos e deixá-los se divertindo em vez de descansar sua mente depois de tudo que passou nos últimos meses. — Rosangela disse algo que eu já havia percebido. — Por isso, estou dizendo para você não magoar esse garoto!

— Você acha que eu iria fazer isso? — Perguntei espantado.

— As pessoas podem sempre ter duas faces — Rosangela disse, batendo a unha do dedo indicador sobre a mesa. — Presumo que você sabe a história de Eduardo, Silena e a irmã vagabunda dela?

Assenti, pois tanto Miguel quanto Marcos, o cunhado dele, haviam me contado essa história.

— Sim, eu sei dessa história —  Falei. — Mas o que isso tem a ver?

— Eduardo me contou uma vez que Silena acreditava em tudo que a irmã dizia e fazia, pois a irmã queria que ela visse esse lado dela que era bondoso, e isso foi o grande erro de muitas pessoas — Rosangela falou. — Como todos, foi assim que ela conseguiu matar Silena e o resto da família dela! Isso nos faz temer ainda mais sobre como os Martins sofreram muito — Assenti, afinal, por tudo que me contaram sobre o passado dos Martins e o que aconteceu anos atrás com essa família e o que Lisa havia feito. —  Eduardo carrega essa culpa por anos como se isso o afundasse a cada vez que vivesse e viver sua vida e não ter visto a verdade sobre lisa fosse seu maior pecado —  Rosangela continuou. —  Ele ainda pensava nisso até poucos meses atrás. Afinal, Lisa o fez acreditar nisso e usou isso à sua vontade para fazer com que fizesse o que ela desejava para ter poder. Demorou, mas ele se abriu comigo e depois com Miguel sobre tudo que ele guardava em seu coração, e vi sua expressão relaxar ao ouvir do próprio filho que a culpa não era dele por acreditar e que jamais iria pensar o contrário disso. Então, não me leve a mal se eu desconfiar de algumas ações suas, mas proteger esses dois é como proteger minha própria família, com quem convivo há anos que foram meu apoio e das minhas crianças quando não tínhamos nada.

Olhei nos olhos daquela mulher, tentando mostrar minha determinação, de que jamais irei machucar o Miguel em toda a minha vida.

— Nunca faria isso! — Falei determinado. — Miguel é muito importante para mim. Sei que o pai dele é essencial para todos, e para mim também, mesmo eu tendo falado com ele após acordar do coma e no caminho da América para cá! Já consigo ver que ele é alguém confiável e amoroso!

Rosangela analisou minha expressão por mais um tempo e soltou um sorriso.

— Suas palavras contêm sinceridade, assim como o seu olhar —  Rosangela respondeu, levantando com elegância. — Mas não será fácil me agradar. Sei que você ama o Miguel, seu olhar já diz isso, principalmente quando fala o nome dele! Afinal, nunca é fácil conquistar a família do amado, e você terá que me conquistar, assim como os meus filhos, Arnold e Thomas, Eduardo e os filhos do Miguel. Vai ser fácil conquistar os pequenos e até o próprio Miguel, mas está pronto para isso? Afinal, o amor nunca é fácil, como alguns dizem, e ainda mais quando se trata de alguém como Miguel, que é protegido por todos ao seu redor com unhas e dentes.

Não disse uma palavra, mas tinha plena consciência de que o caminho não seria fácil.

— Eu sei que consigo! —  Falei com convicção. — Vou trabalhar arduamente para não deixar todo o peso do trabalho nas costas do Miguel. Além disso, farei o possível para ajudar Eduardo a se lembrar do filho e de todos vocês! Essas são as decisões que vou tomar para que todos sejam felizes.

—  Palavras firmes e cheias de convicção — Rosangela disse, me lançando um olhar cético. — Veremos, se poderá cumprir essas palavras. Estou ansiosa para ver suas ações! mais lembre quando maior for o patamar que nos colocamos poderemos cair com tudo na decisão mais tola que tomarmos.

— E suas expectativas serão atendidas! — Falei, a encarando em seus olhos.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

 

  

 

    

 

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