Capítulo Catorze
Miguel Martins:
Entramos na casa, e as crianças já vieram, com Stefano logo atrás. Olharam de Manuel para Julia e, depois, se dirigiram para onde Luigi estava encolhido no canto, lendo seu livro, ou, no caso, fingindo que estava lendo.
— Então, você é a namorada do tio Eric? — Adele perguntou. — Você é muito bonita!
— Você está grávida? — Giulio perguntou.
Olhei na direção de Julia com um pedido de desculpas. Sabia que ela não iria querer falar do Eric tão cedo, mas ela simplesmente sorriu para as crianças.
— Eu já fui namorada dele, mas agora somos só conhecidos — Julia disse com um sorriso. — Estou esperando um bebezinho. Espero que ele seja fofo igual a vocês dois. — Cutucou as barriguinhas dos dois com a ponta do dedo, o que fez com que rissem. — Quero que seja muito fofinho.
Manuel resmungou alguma coisa.
— Vocês devem ser os filhos do Miguel, certo? — Julia perguntou.
— Sim, eles são a Adele e o Giulio — Stefano respondeu, apresentando as crianças.
— E o Luigi é o primo deles — acrescentou, apontando para Luigi, que ainda fingia ler no canto.
— Oi, sou a Julia e esse é o Manuel, meu irmão — Julia se apresentou, e Manuel apenas acenou sem muita empolgação.
As crianças continuaram a fazer perguntas animadas, enquanto Julia, Manuel e Pietro se juntaram ao grupo. A noite estava apenas começando, e a casa estava repleta de emoções e novas dinâmicas familiares.
Manuel se afastou deles minutos depois, e olhei com tristeza quando Julia apenas suspirou. Meu pai veio da cozinha com um sorriso simples e delicado na direção de Julia.
— Dê um pouco de tempo para ele — Julia disse, passando as mãos na barriga. — Quando descobri a gravidez, foi a melhor coisa da minha vida. Estou tendo sucesso com o meu próprio negócio há muito tempo; sempre quis ter uma família. É parte do meu sonho ter uma família, além de ter sucesso.
Luigi levantou o olhar do livro com cautela.
— Sei que Eric é um idiota, mas nunca me interessei por ele de verdade, igual meu irmão pensa. Ele, desde a infância, é muito protetor comigo, e olha que eu sou a mais velha — Julia continuou. — Já estou em uma idade que não poderia mais ter filhos, mas aconteceu, e mesmo que a situação não seja ideal, não posso deixar de amar esse bebê. Sinto que será uma parte fundamental da minha vida.
Luigi pareceu mais tranquilo com a explicação de Julia, mas ainda havia uma certa tensão no ar. Alison, Pietro e Stefano continuaram a conversa com as crianças para amenizar o clima.
— Sinto muito por tudo o que aconteceu — falei sinceramente para Julia.
— Não se preocupe, Miguel. Eu sei que a situação é complicada, mas preciso seguir em frente com a gravidez. Me dói pensar na possibilidade de não cuidar do meu filho, mas acredito que ele será amado por todos e principalmente pelo pai dele — Julia respondeu, tentando sorrir.
A noite continuou com a preparação e degustação das pizzas, mas o ambiente estava um pouco tenso devido às revelações e à notícia do acidente de Erick. As crianças, por outro lado, estavam entretidas com Luigi, Stefano e Pietro e por último Arnold que parecia um pouco melhor com a conversa dos meus filhos.
No final da noite, Julia e Manuel agradeceram pela acolhida e decidiram ir embora, deixando um clima de incerteza sobre o que o futuro reservava para aquelas pessoas interligadas por laços inusitados.
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A noite avançava, e as perguntas inocentes das crianças ainda ecoavam em minha mente, despertando um sentimento de ansiedade. Coloquei os gêmeos na cama, respondendo de maneira descontraída sobre o beijo e evitando a pergunta sobre a paternidade, o que me deixou constrangido.
Após a rotina noturna com as crianças, meu pai levou Pietro para o quarto que, em breve, seria dele. Eu segui para o meu próprio quarto, mas as indagações dos gêmeos persistiam em minha mente, impedindo-me de encontrar a paz necessária para dormir.
Deitei-me na cama, encarando o teto, enquanto as interrogações sobre o relacionamento com Alison tumultuavam meus pensamentos. As incertezas sobre nossos sentimentos e o futuro pareciam pairar no ar, contribuindo para minha inquietação.
Tentei afastar esses pensamentos, fechando os olhos e respirando fundo, mas a ansiedade continuava a se manifestar. A melodia suave da canção de ninar que havia cantado para os gêmeos ainda ecoava em minha mente, mas não era suficiente para acalmar meu coração agitado.
A noite seguia silenciosa, e eu me encontrava em um impasse entre as expectativas da vida familiar que estava construindo e a incerteza dos meus próprios sentimentos. O desafio de conciliar todas essas dimensões começava a se manifestar, transformando essa noite em um capítulo marcado pela introspecção e questionamentos sobre o que o amanhã reservaria.
Desisti de ficar deitado e fui para a cozinha, onde encontrei Arnold com um pedaço de pizza a caminho de sua boca; ele sorriu para mim.
— Sério que ainda tem espaço no seu estômago? Você comeu quase três pizzas inteiras — Falei em descrença. — Espero que tenha guardado um pouco para a Rosangela comer quando ela chegar.
— Claro que deixei, esse é o que eu guardei para mim comer — Arnold disse com um sorriso. — O da Rosangela está em dois potinhos na geladeira. Mas me diga, por qual razão você está acordado no meio da noite?
Me sentei à mesa.
— Por uma razão bem simples: muitas coisas na minha cabeça que me impedem de conseguir dormir, além de um pouco de preocupação com a Rosangela. — Falei, suspirando. — Mesmo que ela tenha dito que está tudo bem no hospital quando eu liguei, ainda há preocupação.
Arnold mordeu um pedaço da pizza.
— Esse é um motivo; o outro é pelas crianças terem visto você e o Alison se beijando — Arnold disse. — Se pelo que eu conheço, elas devem ter perguntado se o Alison também vai se tornar pai delas.
Depois que Arnold mencionou as crianças, percebi que realmente não sabia como lidar com essa situação. A ideia de explicar a elas sobre a nossa relação com Alison me deixava um pouco desconfortável, principalmente porque eu mesmo ainda estava processando esses novos sentimentos.
— É, elas fizeram essa pergunta. — Admiti, coçando a cabeça. — Eu não sei como responder a isso, Arnold. Ainda estou tentando entender tudo que está acontecendo entre o Alison e eu.
Arnold assentiu, compreensivo.
— Se precisar de conselhos ou só quiser desabafar, estou aqui. — Ofereceu, dando um gole em seu refrigerante.
Agradeci pelo apoio e ficamos ali conversando por um tempo, compartilhando nossas preocupações e esperanças para o futuro. O silêncio da noite envolvia a conversa, e aos poucos, as inquietações começaram a se dissipar, permitindo que um pouco de calma retornasse à minha mente.
Finalmente, decidi que seria melhor tentar descansar. Arnold e eu nos despedimos e cada um seguiu para seu quarto. Deitei-me na cama, mas minha mente ainda estava agitada. Os eventos do dia se misturavam em pensamentos confusos.
Pensando em Alison, nas crianças, no meu pai recuperando memórias, e agora, a chegada de Manuela, Julia e Cecília, trazendo à tona a complicada situação com Erick. Parecia que tudo acontecia ao mesmo tempo, e eu me sentia no centro de um turbilhão emocional.
De repente, a porta se abriu lentamente, revelando a silhueta de Alison. Ele caminhou até a cama e se sentou ao meu lado.
— Você está acordado também? — Perguntou, olhando para mim.
— Sim. Muita coisa na cabeça. — Suspirei.
Alison assentiu, compreendendo.
— Sabe, não precisamos ter todas as respostas agora. Podemos enfrentar uma coisa de cada vez.
Seus olhos transmitiam serenidade, e eu me senti grato por ter alguém como ele ao meu lado.
— Você tem razão. Vamos dar tempo ao tempo. — Concordei, sentindo um pouco do peso se dissipar.
Alison deu um sorriso gentil e me deu um abraço reconfortante. Juntos, ficamos ali, compartilhando o silêncio que trouxe uma sensação de paz, mesmo que temporária, em meio ao caos das circunstâncias.
— Pode ficar aqui comigo, talvez isso me deixe um pouco mais calmo — Murmurei baixinho.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, antes de sorrir docemente.
— Claro, Miguel. Estou aqui para você. — Alison respondeu suavemente.
Ele deitou ao meu lado, e ficamos ali, lado a lado, enfrentando juntos os desafios e as incertezas que a vida nos reservava. A presença reconfortante de Alison trouxe uma sensação de segurança e calor, afastando um pouco as inquietações da noite.
No silêncio do quarto, encontramos consolo na companhia um do outro. A cada respiração tranquila, a tensão parecia diminuir gradualmente, e, aos poucos, nos deixamos levar pelo cansaço.
Sem palavras, sabíamos que poderíamos contar um com o outro, não importando o que o futuro nos reservasse. Juntos, enfrentaríamos as adversidades, construindo um caminho através das incertezas, guiados pela força da amizade e, talvez, por algo mais que estava começando a florescer entre nós.
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