Capítulo 20 - Feriado distantes
A gente não voltou para a festa. A gente também não avisou ao Diego e a Fabiana. A gente só aproveitou o tempo que estávamos juntos e tentou compensar o tempo perdido. Depois de um longo tempo de negação, a gente finalmente conversou e demos um rumo para as nossas vidas. Não. A gente não estava namorando. O Luís Felipe ainda não tinha feito um pedido de namoro e eu realmente achava que estava cedo demais. Sem falar que no dia seguinte ele e a família iam viajar para o interior para visitar a avó que estava doente, então nem acho que seria legal engatar um namoro assim.
Por enquanto estávamos bem. Eu estava feliz! Ele também! A gente continuou na escada, conversando, rindo, namorando... Fomos embora juntos quando já estava ficando tarde e ele me deixou na porta do meu apartamento como sempre fazia. Nos despedimos com um beijo e um sorriso envergonhado. Era a primeira vez que fazíamos isso na porta do meu apartamento. Ele estava sorrindo e eu mordi o lábio inferior.
- Amanhã a gente vai sair bem cedo, então vou ter que me despedir agora de você! – Ele soltou a minha mão e segurou o meu rosto com as duas mãos.
- Tudo bem. Só me avisa quando chegarem lá pra eu saber que foi tudo bem!
- Pode deixar! – Ele me deu um selinho e voltou a me encarar. – Eu tô muito feliz!
- Eu também! – Sorri.
- A gente vai se falando, tá? Terça-feira eu já tô de volta! A gente fica junto no final do feriado!
- Vou ficar esperando! Boa viagem! – Dei outro selinho nele.
- Obrigado! Agora entra em casa! Se não a gente vai ficar aqui até amanhã!
- Entrando! – Destranquei a porta, dei mais um selinho rápido nele e entrei em casa.
Minha mãe já estava dormindo, então fui direto para o quarto tirar o vestido de noiva dela e tomar um banho. Demorei a dormir pensando em tudo o que tinha acontecido. O beijo tinha sido tão bom que eu estava arrependida por não ter feito antes e ter aproveitado muito mais. Coloquei no celular as músicas da nossa banda favorita e fiquei relembrando vários momentos que já tínhamos passado juntos. Ainda não fazia um ano que nós nos conhecíamos, mas era como se já nos conhecêssemos a vida inteira. Tantos momentos em tão pouco tempo... Era muita sorte que eu tinha!
Acordei com o celular vibrando embaixo do meu corpo. Até eu entender que tinha dormido ouvindo música e que em algum momento eu me mexi e ele foi parar embaixo de mim, tateei o colchão ainda com os olhos fechados, tentando encontrar o que estava vibrando. Sorri ao encontrá-lo e ler com apenas um olho aberto as mensagens que o Luís Felipe mandou desejando bom dia, avisando que já estava chegando na cidade da avó dele e, a melhor parte, dizendo que estava com saudade. Sorri me forçando a abrir os dois olhos para digitar uma resposta que foi visualizada e respondida na mesma hora com um beijo. Ainda sorridente, respirei fundo deixando o celular cair novamente no colchão e voltei a pegar no sono. Eu estava feliz e cansada!
Já era hora do almoço quando minha mãe me acordou avisando que o almoço estava pronto. Acordei mais disposta e sentei a mesa com ela depois de tomar um banho, escovar os dentes e trocar de roupa. Mal sentei na cadeira e ela já começou a perguntar tudo o que tinha acontecido na festa no dia anterior.
- Como foi a festa? Se divertiu bastante? Acabei cochilando e não te vi chegando... Chegou muito tarde? – Ela perguntava enquanto se servia.
- Mãe, acabei de acordar! Uma pergunta de cada vez! – Brinquei.
- Já descansou bastante, então, não acha? – Ela sorriu.
- Eu tava cansada...
- Eu sei filha. Só estou ansiosa pra saber se você se divertiu! – Ela me encarou e eu entendi o que a preocupava. Ela sabia que mudar de estado para superar o fim do casamento com o meu pai era mais fácil para ela do que para mim. Só que eu estava bem. Tudo graças ao Luís Felipe. Se não fosse por ele, talvez eu não tivesse feito amigos no primeiro dia de aula e não teria tido ânimo de continuar a ir feliz para a escola, tentando não pensar no passado, mas aceitando o meu presente e construindo um futuro bom no novo lugar escolhido para recomeçar.
- Mãe, não precisa ficar com medo... Eu tô bem! De verdade! – Ela encarou a comida um pouco triste. – Eu sei que é difícil pra você também! Só que foi o que a gente escolheu e vai ficar tudo bem! Eu tô gostando daqui!
- Quando foi que você cresceu tanto assim? – Ela perguntou fungando e com lágrimas nos olhos.
- Você sempre me ensinou a ser forte, mãe! – Troquei de cadeira me sentando ao lado dela para poder abraçá-la.
- Minha filha! Eu tô tão orgulhosa de você! – Ela me abraçou e chorou um pouco.
- Eu também tenho muito orgulho de você, mãe! E você não precisa prender o choro para se fazer de forte! Todo mundo precisa colocar os sentimentos pra fora de vez em quando... Você mesma que me ensinou isso!
- E é isso mesmo, minha querida! Chorar não faz mal! – Ela se afastou de mim e secou as lágrimas. – Mas precisamos parar um hora! Temos que seguir em frente! E eu te agraço muito por estar sendo tão forte e parceira!
- Pode contar sempre comigo, mãe! – Sorri.
- Você também, minha querida! – Ela afagou o meu rosto e respirou fundo. – Mas ainda assim eu quero saber de tudo! Como foi a reação dos seus colegas com a sua fantasia?
- Todo mundo gostou. – Sorri e voltei a me sentar de frente para ela para podermos conversar melhor.
- Tinha alguém com uma fantasia tão original assim?
- Não. – Parei um momento para refletir. – Na verdade tinha mais uma pessoa.
- Ah, é? E qual era a fantasia?
- Terno.
- Terno? – Ela fez uma expressão pensativa enquanto mastigava e voltou a falar assim que engoliu. – Como um executivo?
- Não... – Olhei para o meu prato. – Como um noivo.
- Como assim? – Ela me perguntou com uma sobrancelha erguida, como se já soubesse o que eu estava prestes a revelar.
- O Luís Felipe falou ontem na escola que ainda não tinha fantasia e que eu e ele podíamos ir combinando... Aí eu falei pra ele ir de terno e ele foi. – Continuei olhando para o meu prato.
- Ele sabia que você ia de noiva?
- Não. – A encarei. – Eu só me dei conta disso quando vesti o seu vestido na casa da Fabi.
- E como ele reagiu ao te ver? – Ela estava com um leve sorriso nos lábios.
- Ele disse que eu tava linda! Eu pedi desculpas por não ter contado qual era a minha fantasia antes da festa, mas ele disse que não tinha problema a gente estar combinando.
- Hum... E o que mais?
- Mais o quê? – Tentei desconversar.
- Vocês dançaram juntos?
- Não.
- Por que não?
- Por que não tivemos oportunidade.
- Você chegaram bem tarde pra não terem oportunidade de dançar pelo menos uma música... – Ela me encarava sem disfarçar que sabia que eu estava escondendo alguma coisa.
- Mãe! Eu só não quero que você fique pegando no pé! – Me defendi.
- Eu tô pegando no seu pé? Só quero saber como foi a festa ontem... Quero saber se você aproveitou... Ou melhor, se vocês aproveitaram! – Ela piscou o olho.
- Mãe!
- Filha! – Ela riu. – Eu te conheço, Luciana! Não tenta esconder nada da sua mãe! Vocês finalmente ficaram, não foi?
- Uhum. – Respondi sentindo meu rosto pegar fogo e não consegui conter um sorriso envergonhado.
- Finalmente! – Ela levantou as mãos para o céu. – Obrigada!
- O que é isso? – Perguntei rindo mais ainda.
- Demorou, né? Esse esconde-esconde de sentimentos que vocês estavam brincando já estava ficando cansativo... – Ela girou os olhos.
- Por que todo mundo tá dizendo isso?
- Pra você ver como tava cansativo! – Ela piscou o olho mais uma vez e eu debochei, a fazendo rir mais.
- Vocês só querem pegar no nosso pé!
- Filha, todo mundo percebia que não tinha só amizade entre vocês dois! – Ela segurou a minha mão em cima da mesa. – Eu espero que vocês construam um relacionamento tão saudável quanto a amizade de vocês! Que vocês continuem sempre os companheiros que foram! Amor todo mundo já vê que tem bastante entre vocês dois!
- Obrigada, mãe! – Sorri.
- Ele vem aqui hoje?
- Não. Ele foi com a família visitar a avó que não tá bem de saúde. Já tava marcado há um tempo essa viagem no feriado.
- Verdade! Tomara que ela se recupere logo!
- Também espero.
- Quer dizer que o feriado é só nosso? – Ela ergueu as duas sobrancelhas.
- Só nosso!
- Ótimo! Vamos terminar de almoçar, lavar a louça e fazer uma maratona de filmes românticos, então?
- Fechado!
O sábado com a minha mãe tinha sido perfeito! Já tinha um tempo que não ficávamos tão felizes fazendo um programa de garotas. No início da noite pedimos uma pizza e depois comemos o bolo que tínhamos preparado juntas durante a tarde. No total assistimos a cinco filmes e fomos dormir bem tarde. Foi tão envolvente o dia que eu nem me liguei que o meu celular não tinha apitado um única vez com uma nova mensagem ou ligação do Luís Felipe.
Apenas no domingo quando acordei que notei que não tinha nenhuma mensagem dele, só de algumas amigas antigas e da Fabiana querendo saber o que tinha acontecido na festa depois que eles nos deixaram e porque eu tinha sumido. Depois do café da manhã liguei para ela para conversarmos um pouco e ficamos nos falando até ela desligar para almoçar. Como ainda não tinha nenhuma mensagem do Luís, mandei uma perguntando se estava tudo bem e almocei com a minha mãe antes de irmos ao shopping dar uma volta. Voltamos para casa após o jantar e mandei uma nova mensagem, preocupada com o sumiço dele. Já começava a imaginar que a avó dele deveria ter piorado muito de saúde. Antes de dormir, ao me deitar, entrei novamente na conversa dele mas me segurei para não mandar uma nova mensagem. Com certeza ele teria uma boa explicação para o sumiço repentino, mas o monstro da insegurança estava conseguindo crescer de pouquinho em pouquinho dentro de mim.
Antes de deixar o celular de lado para não dormir mais uma vez em cima dele, percebi que as duas mensagens que eu tinha enviado não tinham sido entregues para ele ainda. Por um lado me senti mais tranquila ao saber que ele não estava me ignorando, ele não tinha como responder o que não tinha nem ao menos recebido. Por outro lado eu não sabia o porquê de não chegar as minhas mensagens para ele. O sinal no interior era mais complicado, provavelmente esse era o motivo dele não mandar mensagens e nem ligar... Só que o monstrinho que crescia cada vez mais plantou um pensamento nada agradável na minha cabeça: e se ele tivesse se arrependido de ter me beijado e estava fugindo de mim para ver se eu esquecia? Se o sinal da operadora estava ruim, ele podia enviar mensagem ou mandar um e-mail usando a internet! Isso tinha como ele fazer... Mas se ele desligou o celular para eu não conseguir entrar em contato com ele, ele não receberia nenhuma mensagem minha, exatamente como estava acontecendo.
Larguei o celular para não alimentar ainda mais a minha insegurança, mas o estrago já estava feito. Praticamente não dormi, só por pensar que o meu melhor amigo, o meu porto seguro, a pessoa que melhor me entendia nesse momento e que conseguia me animar quando eu ficava triste lembrando do meu pai e da separação deles, estava fugindo de mim. De manhã, eu já não aguentava mais ficar deitada, e para não continuar pensando em todas as possíveis situações ruins que eu passei a madrugada fantasiando, me levantei para tomar café da manhã antes de a minha mãe ir para o trabalho. Na escola nós íamos enforcar por conta do feriado de terça-feira, mas o trabalho da minha mãe ia funcionar normalmente. Consegui disfarçar o suficiente para ela só reparar que eu estava com olheiras e acreditar que eu não consegui dormir direito. Se ela desconfiou quando eu disse que eu simplesmente não conseguia dormir e que não sabia explicar o porquê, ela não demonstrou. Só me aconselhou a tentar voltar para a cama e dormir um pouco.
Segui o conselho dela, mas, antes de dormir, a minha insegurança que já tinha se alimentado bastante para se tornar um monstro enorme me fez mandar uma mensagem para o Luís Felipe dizendo que se ele estava arrependido com o que tinha acontecido na festa, que ele não precisava fugir de mim, pois podíamos esquecer e voltar a ser amigos como sempre fomos. Mandei tudo em uma única mensagem e só li depois de já ter mandado. Com certeza se eu lesse antes de enviar eu teria feito algumas alterações, provavelmente eu nem teria mandado. A verdade é que assim que eu li a mensagem eu me arrependi. Eu não precisava ficar correndo tanto atrás dele! Eu nem mesmo sabia o porquê do sumiço dele! Se a avó dele realmente tivesse piorado e ele estivesse no hospital ou pior?! Bufei irritada por ter agido por impulso, coloquei o celular para vibrar e deitei a cabeça no travesseiro concentrando na minha respiração para tentar pegar no sono. Pelo menos a minha tática funcionou e eu consegui dormir a manhã inteira.
Almocei quando acordei e preferi não olhar o celular. Já mais para o final da tarde, resolvi verificar o celular para ver se a minha mãe tinha tentado falar comigo e realmente encontrei duas chamadas perdidas dela e uma mensagem querendo saber se eu tinha conseguido dormir e se estava bem. Respondi, voltei a colocar o celular para tocar e liguei a televisão para assistir a um filme. No início da noite comecei a preparar um macarrão, que era a única comida que eu sabia fazer sozinha, para fazer uma surpresa quando a minha mãe chegasse em casa. Já estava com o molho no fogo e começando a lavar a louça que tinha sujado quando o meu celular tocou. Corri e atendi sem nem olhar o visor, imaginando que era a minha mãe avisando que já estava voltando para casa.
- Alô! – Atendi.
- Luciana! Que história é essa de esquecer tudo e voltar a ser amigos como éramos antes? – O Luís estava falando rápido e parecia chateado.
- Luís? – Perguntei surpresa com a ligação.
- Claro! – Ele bufou. – Por que você mandou aquela mensagem?
- Como a sua avó está?
- Tá bem. Ela melhorou bastante, ainda mais depois que chegamos.
- Que bom! – Estava feliz, mas a minha insegurança tinha aumentado ainda mais. Se a avó dele estava bem, porque ele estava incomunicável?
- É sim. – Ele fez uma pequena pausa. – Você ainda não me respondeu, por que mandou aquela mensagem?
- Esquece, Luís. Eu não devia ter mandado...
- Não, Luciana! Eu não vou esquecer de nada! Nem da mensagem e nem do nosso beijo! Aliás, beijos!
- Luís...
- Lu, por favor! Por que você mandou aquela mensagem? De onde você tirou que eu tô fugindo de você?! Você sabia que eu vinha visitar a minha avó!
- Sabia! Mas você disse que a gente se falava! Eu estava preocupada com a sua avó... Queria saber como ela estava... – Completei falando um pouco mais baixo. – E eu também tava com saudade de você!
- Desculpa, Lu! Não foi por mal! O sinal aqui é horrível, não pega o celular de ninguém lá de casa!
- Eu imaginei que talvez o sinal fosse ruim...
- E é! – Ele concordou rápido.
- Mas...
- Não, Lu! Também não tem sinal de internet! A internet da operadora não tá funcionando, e, acredite se quiser, na casa da minha avó não tem internet!
- O quê? – Perguntei surpresa.
- Exatamente! Foi a mesma reação que eu tive! Eu não sei como uma pessoa vive sem internet e tv a cabo, mas é exatamente assim na casa da minha avó!
- Então como você tá conseguindo falar comigo agora?
- Eu vim com o meu pai numa cidade próxima comprar algumas coisas que a minha avó estava precisando e que não é fácil de encontrar onde ela mora. Assim que eu consegui me afastar um pouco do meu pai para poder conversar com você eu vi que tinha mensagens suas e fui ler... Aí dei de cara com uma que eu não gostei nenhum pouco!
- Desculpa... – Falei sem graça.
- Tudo bem. Só nunca mais pensa isso!
- Até parece que você não me conhece e não sabe que eu sou bem insegura!
- Luciana! Não precisa NUNCA ficar insegura com relação a nós dois! Eu não te largo e você sabe disso! – Ele riu. – Eu sou completamente louco por você!
- Eu não sei como isso é possível, mas eu também sou completamente louca por você!
- Somos dois loucos apaixonados, então! Fica tranquila que vai dar tudo certo!
- Ok! – Sorri e corri para cozinha para apagar o molho que estava no fogo.
- Eu tenho que desligar agora, mas amanhã assim que eu chegar em casa eu vou passar aí pra te ver, combinado?
- Combinado!
- Enquanto isso eu vou te mandar o link de uma música e quero que você ouça toda vez que pensar em mim! Assim você não deixa esses pensamentos malucos voltarem a te atrapalhar, tá?
- Tá bem! Eu conheço a música? – Estava curiosa.
- Com certeza! – Ele sorriu e eu conseguia imaginar exatamente o jeito como ele estava sorrindo naquele momento. – Mas a partir de agora essa música vai ter um sentido mais especial para nós.
- Manda logo!
- Até amanhã!
- Até amanhã!
- Saudades!
- Também tô!
Pouco tempo depois que desligamos, uma nova mensagem entrou com o link da música que ele tinha mandado. Como eu já suspeitava, era mais uma da nossa banda preferida, mas só quando eu parei para prestar atenção na letra que eu entendi porque essa música teria um sentido especial depois do nosso beijo na festa de Halloween. Ouvi a música umas quatro vezes até a minha mãe chegar do trabalho e ficar surpresa e até um pouco emocionada por eu ter preparado o jantar para a gente. Ela tomou um banho, nós jantamos, assistimos um pouco de televisão e quando ela foi deitar, eu voltei a ouvir a música direto até pegar no sono.
Esse capítulo foi bem maior, mas achei melhor publicar assim mesmo do que dividir em dois que ficariam muito pequenos.
A música da Banda Malta que coloquei no início do capítulo é a que o Luís Felipe passou para ela ouvir. Gostaram?
Aguardo seus comentários e estrelinhas!
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