Capítulo 9 - Bruno

- Serena!– Ele a chacoalhava. Serena se debateu entre os braços dele, sentando-se de supetão. - Droga, Serena...

Ela arquejava repetidas vezes com a mão no peito, de tão esbaforida que estava. Bruno apertou de leve o ombro dela constatando o quanto ela estava trêmula e suada. Ele se sentou ao lado dela, tão esbaforido quanto.

Quando Serena disse que as empresas olhavam pra ela e viam problemas, com certeza não era mentira. Já era a segunda noite dela ali e ele mal conseguira pregar os olhos.

- Onde ele está? – Ela perguntou no escuro, parecendo engasgada.

- Ele quem? – Bruno massageou as têmporas. – Não tem ninguém aqui...

- Não. Ele estava aqui. Hector estava bem aqui. – A sombra dela murmurou, achegando-se ainda mais perto dele. Bruno acendeu o abajur ao lado e se virou pra ela, encarando os lindos olhos claros que estavam arregalados.

- Serena, foi só um pesadelo. – ele murmurou segurando o queixo dela. – Não tem ninguém aqui. Só eu e você.

Mas não adiantou. Ela parecia estar em outro lugar, vivendo outro momento. Bruno sabia bem o que era aquilo, já passara por duas vezes na vida.

- Serena...

- Não, Bruno! Ele estava...

- Serena foi só um pesadelo, ninguém esteve aqui. – ele repetiu, a paciência como um reles fiasco - O que aconteceu foi que você gritou feito uma louca e eu só vim pra cá porque sua gata estava arranhando a minha janela.

Ele soltou uma palavrão baixinho. Ainda tentando recuperar a respiração, ela olhou para Chicória, que a observava temerosa.

 - Bruno... Mas, se ele vier... você jura que não vai deixar?

- Deixar o quê?

- Eu não sei... Só não deixa ele me fazer mal... – Ela pediu. Bruno segurou o antebraço dela enquanto tentava conter um bocejo.

- Serena, enquanto eu estiver aqui, ninguém lhe fará mal. - Ele falou com tanta certeza que o corpo feminino relaxou. – Agora vem, deita aqui. - Ela se deitou com o corpo gelado na cama, e ele a cobriu. – Fecha os olhos.

- Eu acho que perdi o sono. – ela murmurou ajeitando o travesseiro. – Me desculpa....

- Você sabe que isso não é normal, né? – Ele perguntou, já sentado na beirada da cama. Bruno sabia que ela precisava pedir ajuda.

- Eu sei e já fui ao médico. Isso é...

- Estresse pós traumático. – Ele completou. Serena franziu o cenho.

- Como você sabe?

- Eu também recebi esse diagnóstico. – Bruno admitiu com os lábios apertados numa linha fina. Duas vezes. Duas malditas vezes em que teve de aguentar as sessões com a psicóloga. Serena ficou analisando a face dele iluminada pela luz amarelada.

- Como você lida com isso? – Ela indagou. Ele pendeu a cabeça.

A verdade era que ele não lidava. Toda momento que revivia o luto da perda do pai era tomado por culpa, e quando revivia a perda do irmão, a raiva e o desespero lutavam dentro dele.

Ele simplesmente não se conformava. Perder seu pai fora destroçador. Mas perder o irmão fora mais do que ter um vazio no peito...foi ter o coração arrancado do próprio corpo.

- Eu... – Bruno ficou sem palavras. E como as sobrancelhas de Serena se arquearam de surpresa, ele soube que isso era inédito pra ela. Ele raspou a garganta com um pigarro e tentou de novo. – Não lido... Ainda estou aprendendo a lidar.

- Posso perguntar uma coisa? – Ela indagou enquanto acariciava de leve a mão dele.

- Serena, você já me fez uma dúzia de perguntas. Acho que se não quisesse responder já tinha dito. – Ele deu de ombros. Bruno sabia que ela tinha perguntas, e por mais que falar e pensar em Henrique o fizesse querer socar meio mundo, ele teria que responder. Ela tinha direito a saber.

Serena sorriu sem mostrar os dentes, assentindo diversas vezes como se procurasse o modo certo de perguntar. Bruno deu um tempo a ela.

- Bruno, sei que não gosta de falar dele, mas eu preciso saber. Como Henrique se foi?

Serena mordeu os lábios enquanto esperava a resposta. Ele engoliu em seco, a indagação o atingindo com mais força que o previsto.

- Bruno... – Ela começou de novo. – Não precisa...

- Cardiomiopatia hipertrófica. – o nome da doença soou exatamente como a maldição que era. – É uma doença genética cardiovascular. Ele...herdou de nosso pai, e... – Bruno fechou os olhos e depois os abriu, encarando o rosto corado de Serena como se fosse a última coisa que existia na terra. – Henrique teve uma morte súbita devido a doença.

Ele finalmente soltou o ar do peito. Serena se sentou lentamente, com os olhos fixos na escuridão.

- Eu... sinto muito. – Serena murmurou baixinho, olhando-o por cima do ombro. – Muito mesmo.

Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha dela, e ele rapidamente a limpou.

- Tudo bem...Mais alguma pergunta? – soou um pouco grosso, mas ele precisava que ela parecesse com aquele assunto. Serena balançou negativamente a cabeça. – Muito bem então. – Bruno desligou o abajur. – Boa noite, Serena.

- Espera! – ela segurou a mão dele. Ele suspirou exasperado. – Eu sei que estou te chateando... Mas, será que você não pode ficar um pouco? Por favor, só até que eu adormeça...

Bruno franziu o cenho e dobrou os braços na frente do peitoral, postura que só deixou os olhos dela mais suplicantes.

- Só um pouco. – ele concordou, sem saída. Bruno girou nos calcanhares, e se deitou a contra gosto na cama, se cobrindo com a mesma coberta que Serena. Ela suspirou, parecendo se enclausurar na concha que estava antes. O silêncio da noite se apoderou por alguns minutos. 

- Como vou te esperar dormir se você não fecha os olhos? – Ele indagou, ciente da divagação dela. Serena virou-se um pouco para ele.

- Como sabe que estou de olhos abertos?

- Não importa, Serena. Só feche os olhos, ok?

- Eu não consigo. – ela abstraiu a patada dele. – Fechar os olhos é a mesma coisa que ver o rosto de Hector. - Bruno bufou em resposta. Ela fechou os punhos. – Não adianta ficar reclamando! Tem uma alternativa melhor?

- Tenho, mas não vai gostar. – Serena ficou boquiaberta, como se não tivesse acreditando no que estava sendo proposto. Bruno a cortou – Não é isso. Não quero transar com você.

- O que é então?

A cama afundou quando Bruno se apoiou no cotovelo e chegou mais perto dela. Muito perto. Serena apertou os lábios.

- O que você está fazendo?

- Confia em mim. – Ele murmurou, e seu pedido pareceu deixá-la mais alarmada. A perna dele encostou na dela, sobressaltando-a.

- Ai meu deus, você está de cueca?!

- Imagina que é uma sunga, sei lá. – Ele deu de ombros enquanto passava um dos braços por baixo da cabeça dela, aninhando-a junto ao peito.

- Não sei como isso vai ajudar. – Serena protestou.

- Feche os olhos, Serena. – Bruno ordenou, os braços musculosos e quentes a circundando.

Ela só precisava se sentir protegida, ele soubera disso desde o início. Fosse lá o que o tal do Hector tivesse feito, realmente havia quebrado aquela mulher. E isso era o suficiente para odiá-lo também.

Mas aquilo não era certo. Sei lá, o modo como estavam... Já havia dormido com muitas mulheres, mas nunca sentira nada além de desejo. Ali era diferente. Ele não sabia o quê, mas era.

É verdade que não sabia nada sobre relacionamentos, afinal, nunca tivera um. Mas Bruno sabia observar, bem como tinha ciência de tudo o que uma mulher gostava. E por mais que isso o fizesse se sentir estranho, ele se sentia compelido a ajudá-la.

Mas era duro observar que ele a conhecia a dois dias e já dera tempo de tudo. Inclusive assumir ficticiamente um filho. Até onde ele iria para ajudá-la? 

Caralho. Ela estava grávida. 

Ele conseguia sentir a barriga o cutucando de leve por baixo da coberta. Mas mais do que isso, conseguia sentir a pele quente dela. A respiração suave. O cheiro de baunilha nos cabelos dourados... que gosto ela teria?

Bruno se remexeu desconfortável. Pela ronco leve ao lado Serena já dormia profundamente. Era a deixa que ele precisava para ir. Mas quando fez menção de levantar, a gata subiu na cama ronronando. 

Ah não, de novo não.

Mas foi exatamente o que aconteceu. A gata subiu em cima dele, e se aninhou no lado do peito que Serena não estava.

Essas duas iriam matá-lo.

Ele tentou enxotar a gata, que reclamou, rugindo. Tá de brincadeira, né? Ele não se mexeu por alguns minutos, esperando a gata cair no sono também. Mas quem dormiu profundamente foi ele.

[...]

Bruno abriu os olhos com dificuldade. Aquele ambiente era muito claro... droga. Ele não tinha ido para a própria cama. Ele puxou o braço, que ainda estava embaixo de Serena. Mas dessa vez a tarefa parecia impossível.

Em que momento da noite eles ficaram de conchinha? Tinha que sair rápido dali. Ele levantou a cabeça um pouco, procurando pela gata. Nem sinal dela. Primeiro tirou a mão direita, que abraçava a barriga de Serena, e com esta mesma mão, levantou a cabeça dela um pouco, o suficiente para que pudesse puxar o próprio braço. Depois disso, foi descolando seu próprio corpo do dela.

Talvez nunca tivesse feito esforço maior. Os lábios avermelhados de Serena estavam entreabertos, uma mexa do cabelo dela estava caída suavemente em cima dos olhos. Bruno sentiu a mão coçar, num impulso desenfreado para colocá-la atrás da orelha dela.

Ele meneou a cabeça. A única coisa que devia fazer era sair logo dali. Aquilo não iria mais acontecer. Bruno levantou a coberta grossa, retirando lentamente as pernas da cama. Estava quase lá.

Serena se mexeu. Ele ficou paralisado. O corpo pequeno dela se espreguiçou, enquanto ela murmurou algo inaudível. Ele precisava ir. Agora.

Então todo aquele cuidado que fazia para sair de fininho se tornaram desespero quando se levantou rapidamente e quase pisou na gata deitada no tapete ao lado da cama.

- Putz. – murmurou baixo, sibilando um pedido de desculpas para a gata que o olhou de esguelha.

- Bruno – Serena disse com a voz embargada enquanto se sentava lentamente. A coberta caiu do corpo dela, exibindo o sutiã preto de renda que segurava os seios grandes. Ela massageou preguiçosamente os olhos, e quando os abriu, o olhou. E talvez ele ainda não tivesse visto nenhuma mulher tão linda. – Obrigada, tá?

- Pelo o quê?

- Por ter ficado. – Serena disse enquanto acarinhava a barriga. Os olhos dela desceram pelo corpo dele. Bruno sentiu os músculos retesarem. – Bruno! – o repreendeu. Ele conseguia sentir o pau duro e rijo dentro da própria cueca.

- Acontece. – ele explicou se preparando para ir. – Ereção matinal.

- Ah sim, Hector também... – Ela parou. - Não, eu simplesmente tenho que excluir esse nome da minha vida. – murmurou para si mesma, se corrigindo. Mas em nenhum momento parou de encarar o pau dele. Então, de repente, ela soltou um gritinho.

- O que foi? – ele já estava pronto para outro susto.

- O bebê... ele está mexendo! – Ela exclamou – Olha só! – Serena se ajoelhou na cama, posicionando-se a sua frente. – Bem aqui. – Pegou a mão dele, guiando-a até seu baixo ventre. Por baixo da pele quente dela, Bruno sentiu batidinhas contra a própria mão.

- Nossa... – Não sabia o que dizer. Os olhos de Serena estavam brilhante enquanto ela exibia um sorriso largo do rosto. – O que ele está fazendo? – as batidinhas ficaram um pouco mais fortes.

- Eu não sei... - Ela murmurou, parecendo analisar também. Ele sentiu a última batidinha, e depois a barriga dela se mexeu, como se ele estivesse...

- Ele está trocando de posição. – Bruno constatou quando a barriga se agitou um pouco mais.

- Fala alguma coisa! – Serena sussurrou a ordem para ele. Bruno a olhou perdido.

- Como o quê?

- Eu não sei... só continua falando... parece que é a sua voz... – ela sibilava também. Ele tentou, mas não conseguiu segurar a gargalhada que escapou quando se deu conta de que os dois estavam sussurrando, parecendo guardar segredos de um bebê que estava dentro da barriga. E para surpresa deles, ao som de sua gargalhada, a barriga dela explodiu em movimentos.

O bebê estava fazendo festa... pra ele? Bruno colocou a outra mão na barriga dela, acariciando a pele esticada.

- Oi bebê... – murmurou sem saber o que dizer. Em resposta, um chutinho. Foi a vez de Serena rir, enquanto colocava a mão em cima da dele para sentir também.

- Eu não estou conseguindo acreditar que ele gosta de você... – ela murmurou rindo. Os movimentos foram cessando vagarosamente. Bruno dobrou os braços na frente do peitoral.

- Por que ele não gostaria de mim? – indagou com uma sobrancelha arqueada. Ela deu de ombros.

- Porque eu não gosto. – ela revelou – Li um livro que diz que os bebês às vezes pegam ranço das pessoas que as mães não gostam...

- Você não gosta de mim? – ele perguntou com as sobrancelhas arqueadas. Está ai uma mentira descarada. Ele meneou a cabeça com um sorriso torto nos lábios.

- O que foi?!

- Serena, devia parar de mentir para si mesma.

- E por que acha que estou mentindo? – foi a vez dela indagar com as sobrancelhas juntas. 

Bruno tinha conhecido muitas mulheres na vida para saber quando uma gostava ou não dele. E Serena com certeza gostava, talvez não dele, mas gostava e muito do que via. 

– Olha, eu não tenho motivos para gostar de você, Bruno. Você é grosso e indiferente o tempo todo... quer dizer, não quando me socorreu quando eu passei mal, ou quando foi me buscar quando eu estava perdida ou quando dormiu comigo e prometeu... – a voz dela se esvaiu.

- É, acho que está parecendo que gosta de mim...


Mais um cap pessoal! Espero que tenham gostado <3 

Beijocas e até o próximo. 

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