Capítulo 44 - Bruno

- Ela disse que vai se mudar pra França. – Bruno repetiu a sentença de Serena, os olhos vidrados no horizonte da janela do apartamento de Bia. Um selva de concreto e prédios espelhados, situado em um condomínio da zona sul. – Luna e a gata também irão.

A irmã murmurou algo inaudível enquanto arrumava várias pastas na mesa. Ele franziu o cenho e se virou em sua direção.

- O quê?!

Bia tirou a tampa da caneta da boca, e repetiu:

- Eu perguntei o que você disse.

Bruno deu de ombros.

- Nada.

Beatriz virou o rosto tão rápido que ele pensou ter ouvido o crack dos ossos da nuca dela.

- Como assim, nada?!

- Não sei, Beatriz. – abriu os braços. - O que queria que eu dissesse?!

- ''Oh Serena, é claro que vou com você.'' Ou que tal: ''oh meu amor, eu irei para qualquer lugar que você for?!'' – a irmã imitou uma voz fina enquanto floreava os braços com exagero. Então do nada, ficou séria novamente. – Tem vezes que eu deveria dar uns cacetes em você, sabia?! Meu Deus, como é lerdo!

Bruno se assustou com as mudanças de humor repentinas da irmã, mas ainda assim continuou:

- Não posso fazer promessas, Beatriz! Estou passando por uma péssima fase no futebol... – ele perpassou a mão pelo cabelo. – Se fosse antes, quando as propostas estavam chegando...

- Ora, peça para Diogo refazer as propostas.

- Quem dera fosse assim. - meneou a cabeça. – Tenho que esperar a nova janela de transferências ano que vem. E depois...

- Sabe de uma coisa, Bruno?! Eu acho que você está arrumando desculpas para mascarar seu medo.

Ele ficou tão incrédulo que bufou, cruzando os braços.

- Medo de quê, Beatriz?!

- Sei lá. – a irmã ergueu os braços em dúvida. – Parece que quando a relação de vocês fica mais séria, você dá um jeito de frear. E olha que nem precisa ser a Sarah pra observar isso. Além de que...

- Beatriz?! – a mãe se intrometeu, entrando na sala onde eles estavam. – Onde está a mochila de Miguel?!

Bia parou o trabalho e a fala por um instante, correndo os olhos pela sala. E então, bateu levemente na testa.

- Droga, acho que ele esqueceu na casa do coleguinha. Calma aí, mãe. Vou ligar pra lá e confirmar. – Beatriz se apressou em direção ao corredor, levando algumas pastas a tiracolo.

Izabel meneou a cabeça, e se sentou no sofá.

- O trabalho e a ausência do William estão acabando com ela.

Ele acenou a cabeça, concordando. No entanto, Bia sempre gostara de uma vida agitada, onde ela pudesse agir sozinha, correndo atrás dos próprios objetivos. Não era à toa que, mesmo atrasada, ela sempre conseguia gerir o tempo e ainda ter lazer.

Sua mãe olhou pra ele, e bateu com a palma da mão no lugar vago ao lado dela, chamando-o para se sentar. Obediente, ele fez o que era pedido.

- Eu escutei a conversa de vocês.

Bruno pendeu a cabeça. Afinal, não era uma novidade. Se a mãe não xeretasse, saberia do assunto através da boca grande de Bia do mesmo jeito.

- E então? – ele perguntou qual sentença ela tinha para dar. Izabel pegou uma das mãos dele, emaranhando na dela cheia de anéis, e falou:

- Sabe que sua irmã está certa, não sabe? Você está procurando desculpas para afastá-la antes que ela se afaste de você.

- Mãe...

- É medo, Bruno. – os olhos negros da mãe cravaram-se nos dele. – Quando ela entrou na sua vida, você foi fazendo concessões, se tornando aos poucos no homem que é hoje. E...

- Está dizendo que eu mudei por ela?!

- Estou dizendo que o amor mudou você. – Ela frisou, continuando o discurso. – Pessoas não mudam pessoas. O que temos aqui. – o indicador apontou para seu coração. – E aqui. – depois para sua cabeça. – É o que nos muda.

Sem palavras, ele pressionou os lábios.

- Você levava um estilo de vida totalmente diferente. Dedicado ao futebol, à farra e as mulheres. Quando Serena entrou na sua vida, você a abraçou em todas as direções. Está fazendo sua própria família com ela. – sua mãe juntou o indicador ao polegar. – Agora falta isso aqui para que tudo dê certo, só depende de vocês. E nenhum distância pode separar o amor.

Só aquela palavra que ditava que um oceano estaria entre eles, já formava um nó em sua garganta.

Depois da conversa com Serena, ela estipulara um mês até ajeitar contratos e finalmente se mudar para França. E ele mal pudera concordar ou discordar.

Apenas ficara ali, anuindo para tudo o que ela dizia numa mistura de animação e receio. Sem forças ou vontade de dizer nada.

E agora, a exatamente um dia dela se mudar e seus tesouros escapulirem entre seus dedos, ele ainda não tinha tido reação alguma. Ficara paralisado no tempo, em algum lugar entre o presente e passado, pensando em como não conseguiria viver em um futuro no qual ela não estivesse fisicamente ao seu lado.

Um aperto no antebraço o tirou de suas divagações. Izabel suspirou e sorriu triste.

- Tenho que te falar uma coisa, filho.

Subitamente, seu coração se alertou.

- Sobre o quê?

Os olhos da mãe correram pela sala, perdidos, antes de voltar a ele.

- Seu pai. – a voz dela rareou, como se de repente fosse muito difícil falar daquele que era um dos grandes pilares da família deles. – Sabe... a doença que o consumia...

- A cardiomiopatia?

- Não... O câncer.

Bruno piscou, atordoado.

- Que câncer?!

- Ele estava tratando a cardiomiopatia quando descobriu o câncer no intestino. Foi de repente, e nós nem pudemos...

- Mãe. – sua voz saiu mais cortante do que gostaria. – Por que estou sabendo disso apenas agora?!

Uma lágrima grossa rolou pela bochecha de Izabel, quando ela segurou forte em suas mãos. Como se ele fosse o último bote salva vidas que sobrara no mar de desespero onde ela navegava por aquele período da vida.

- Ele não queria que vocês soubessem, Bruno.... na época, você estava estreando no profissional, realizando seu sonho. Bia estava começando a deslanchar na advocacia. E Henrique era amplamente conhecido como um maravilhoso fotógrafo. – ela levantou o dorso da mão, afastando o caminho molhado com delicadeza. – Além disso, tinha a parte mais difícil.

A garganta dele queimava tanto, que podia jurar que era incendiado de dentro para fora. Sua mãe continuou:

- O câncer já estava em um estágio muito avançado. E o tratamento da cardiomiopatia precisou ser interrompido para que ele entrasse em outro tratamento urgente na quimioterapia.

Bruno fechou os olhos, esfregando com força as palmas das mãos no rosto.

Agora se lembrava.

As ausências do pai. A mudança súbita de alimentação. A preocupação da mãe.... Como ele e os irmãos não perceberam? Certo. Quase não ficavam em casa, tão preocupados com suas vidas. Mas, aquele era um evento sério. Merecia a paralização total da vida de todos.

Sua mãe fungou, tomando força para continuar entre as lágrimas:

- Foi aí que ele decidiu parar.

A respiração dele também parou.

- Parar... o quê?!

- Os dois tratamentos. – sua mãe colocou a mão em cima do próprio coração. – Eu não concordei... Mas ele...

- Mãe, o que você está dizendo...

Izabel o interpelou, a voz saindo mais acelerada e abafada.

- Os médicos disseram que não tinha mais jeito, sabe... E as quimios o deixava tão cansado... – sua mãe desabava, mas não parou: - Ele decidiu parar os tratamentos e guardar as últimas forças para tentar viver um pouco mais ao lado de vocês três.

- Como assim?!

- Bruno... você, Bia e Henrique eram tudo na vida dele. – Ela explicou. No entanto, Bruno não sabia se estava entendendo bem. – Seu pai sabia que tinha pouco tempo de vida com ou sem o tratamento. E se os tratamentos o deixavam mal... ele optou por viver relativamente bem pelo tempo que pudesse. Mas isso durou apenas quatro meses e meio.

Ela parou por um instante, o semblante se clareando como nunca.

- Você lembra, filho?! Ele conseguiu estar presente em alguns dos seus jogos. Visitava Bia e Henrique quase todos os dias. E os almoços de domingo?! Eram tão alegres...

Então ele desabou também. Se lembrando como realmente, aqueles meses pareciam ter sido mágicos.

Foi nesse momento que Bia retornou, e no instante que olhou pra ele, soube.

- Você contou. Não foi, mãe? – a irmã veio correndo, se sentando ao lado e o abraçando. Bia o apertava forte enquanto ele soluçava sem parar. – Eu também fiquei sabendo a pouco tempo, Bru...

Bruno a separou de si de repente. Um desespero por aquela decisão do pai se misturando a raiva, dor e saudade.

Doía tanto saber daquele sacrifício por eles, que por um momento, ele preferiu não saber. Então perguntou:

- Por quê, mãe?! Por que estou sabendo disso só agora?! Por que você não o impediu?!

Izabel tomou suas mãos novamente, e murmurou:

- Porque você precisa saber que amar é isso: correr riscos. É se jogar de um precipício sem saber se seremos salvos. É sangrar e ainda assim sorrir. É ter medo ao mesmo tempo que se é se corajoso. – ela o encarou profundamente, como jamais havia feito. – E o amor entre você e Serena correu todos os riscos para chegar até aqui, onde só vocês dois podem decidir se seguem juntos depois de todas as provações.

- Mas...

- Eu sei. Os problemas não acabaram, tudo pode dar errado e você nem conseguir ser comprado ou negociado por algum clube Europeu, neste estágio da sua carreira. Mas a questão é: você assume todos os riscos para estar ao lado da família que está construindo com ela?

Bruno parou. E só de imaginar aquela mulher que era seu coração todo, não precisou de muito tempo para responder:

- Sim.

Sua mãe sorriu, e apertou seu ombro.

- Então você já sabe o que fazer. 


Oi oi, gente... olha eu aqui voltando depois de meses como se nada tivesse acontecido KKKK Mentira pessoal, aconteceram muitas coisas, e está tudo corrido demais pra mim. 

Mas o importante é: não abandonei Serena e Bruno, e espero que vocês também não os abandone. As postagens serão semanais, mas acontecerão. Acreditem! 

Obrigada por aqueles que me mandaram msg no privado perguntando se estava tudo bem e se iria continuar. EU VOUUUU!

A história está no fimzinho, e depois de termos trilhado tanto, ela merece um the end lindo. Vocês continuarão nesse barco furado cheio de amor que estou propondo a vocês? Digam que sim! <3 

Até o próximo cap! 

Não está revisado.:(

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top