Capítulo 4 - Serena
Quando os braços dele a rodearam, Serena sentiu o corpo desfalecer. Tudo aquilo que vinha guardando há meses, tentando ser forte por si e seu bebê vieram à tona. Bruno a segurou firme contra o peito, e permitiu que ela chorasse.
Serena viu quando a enfermeira fez menção de entrar no quarto, mas quando percebeu o momento íntimo, retirou-se.
Ela tentava não chorar, mas Bruno era como uma válvula de escape que permitia que todas as suas emoções deslizassem porta a fora.
- Shh... – A mão bruta dele acarinhava seu cabelo enquanto ela soluçava. A camisa de Bruno estava colada ao seu rosto por causa de suas lágrimas. Serena fungou tentando se recompor. – As coisas...vão melhorar. – Ele sussurrou em seu ouvido, parecendo dizer mais para si do que para ela. Serena respirou fundo.
- O-obrigada...Bruno. – Ela murmurou sem coragem de olhá-lo. A quentura dos braços dele deixaram seu corpo. – Me desculpa ter... desabafado com você. – finalmente o encarou, ele simplesmente deu de ombros. Um silêncio estranho pairou no ar e ele colocou as mãos no bolso da bermuda.
- O que você vai fazer agora? – Bruno cortou o gelo. Pensar naquilo fez com que os olhos de Serena ardessem novamente.
Ela tinha um plano que era infalível. Tudo o que precisou foi guardar suas economias e fugir de Hector, seu marido babaca. Se bem que, pensando bem, se fosse surpreendida com uma esposa que estava grávida de outro homem, talvez também fosse capaz de se rebelar.
Mas pera lá, o casamente deles já não vinha bem há meses, prova disso fora sua vista grossa às ligações fora de hora e saídas dele. Era óbvio que Hector estava a traindo. E ela quase poderia apontar quem era a amante, uma amiga de trabalho que sempre arrumava desculpas para perguntar dele.
Hector e ela já não estavam casados de fato há tempos, ainda que residissem sob o mesmo teto. No fundo, sabia que a única coisa que o fez quebrar metade da casa deles foi a vergonha sobre a notícia da gravidez fora de casamento.
E tudo bem que Hector quisesse jogar toda culpa em cima dela. De fato, as longas viagens que ela se submetia à trabalho esfriaram o relacionamento, mas sua carreira de modelo foi a razão que os permitiram construir a mansão que eles tanto queriam.
Porém, nem se o papa estivesse dando à luz seria motivo para quebrar bens que foram comprados com tanto esforço, e ainda usar a traição dela para chantageá-la.
Sabe o pior? Jamais imaginaria que a pessoa que era seu amor de infância faria isso. Ela realmente quis acreditar no maravilhoso homem que Hector era, pensando que todo aquele circo montado seria desfeito quando ele se desse conta do que estava fazendo.
Mas não.
O fato dela não ter cedido as chantagens fizeram com que ele levasse a público. E se num belo dia seu casamento não ia bem, no outro, era acordada com tabloides e sites gaúchos especulando sobre sua vida privada. A exposição tomou tanta forma que ela fora demitida da Angels, companhia de modelos com que atuara por 5 anos.
E assim Hector destruíra toda a sua vida...tudo por ser um corno hipócrita.
- Serena?! – Bruno perguntou impaciente, a fazendo retornar das lembranças. Ela o olhou, perguntando o que ele queria através de um gesto das mãos. – Eu perguntei o que pretende fazer agora.
Serena abaixou os olhos.
- Vou sobreviver.
- Como assim sobreviver?
- O que quer eu diga?! – ela se sentou na cama com o cenho franzido. Os olhos de Bruno se arregalaram um pouco. – Argh! Por favor...
- Se você realmente estiver levando o filho do meu irmão...
- Eu estou levando o filho de Henrique. – Ela disse entredentes. Tudo o que não precisava era de outra pessoa duvidando dela. Bruno revirou os olhos e continuou:
- Se você realmente estiver levando o filho do meu irmão. – Bruno repetiu mais uma vez e a fez fechar os punhos. Ele deu um sorriso torto. – Precisaremos ver o que vamos fazer. - Uma das sobrancelhas de Serena se arqueou enquanto ela colocava as mãos na cintura.
- Como assim ver o que vamos fazer? Se você está pensando que vai pegar o meu filho de mim...
Bruno levantou as duas mãos, protegendo-se.
- Caramba mulher! Quero dizer que se a criança for da família gostaríamos de ter contato. Ninguém quer roubar seu filho não. – as sobrancelhas dele estavam unidas enquanto dizia. – Sei que não nos demos bem, mas pelo que você falou... – ele deu uma pausa. – Precisa de ajuda.
Serena o olhou dentro dos olhos.
- Não. Você não quer me ajudar.
- Tem razão, não quero. – Bruno soltou. A sinceridade dele a fez fechar ainda mais o semblante. – Mas estou fazendo isso pelo meu irmão... e pela minha mãe.
- Pela sua mãe?
- Olha... meu pai faleceu há três ano e meu irmão há dois meses, e quando minha mãe não está depressiva, está bipolar.Meu pai e meu irmão eram... o coração da nossa família. Eu não estou falando que a sua criança vai substituir eles, Serena. – ele já se antecipava a qualquer outra coisa que ela pudesse imaginar. – Só acho que um bebê sempre alegra as pessoas.
Aquela última frase a fez sorrir. O único sorriso sincero que dava em meses.
Aquele bebê que crescia em seu ventre era isso: esperança. Ele era o motivo que a movia à procura de um dia melhor. Era o motivo para tentar não se entristecer. Era o motivo para estar ali, tentando ajuda e não desistindo.
Antes de conhecer Henrique e engravidar, ela e Hector já tentavam revigorar o casamento... e nada.
E depois de tudo que passara, dava graças a Deus, pois sabia que as únicas duas semana que passara com o pai de seu bebê valera a pena.
Serena e Henrique se deram bem desde o primeiro momento em que ele chegou na praia de Bombinhas para fotografá-la. Henrique a tratara com graciosidade, respeito... tanto carinho. Despertara sentimentos que ela não sentia há anos estando casada.
Serena analisou Bruno. Se ele realmente fosse tudo o que tivesse restado da família, a mãe dele devia estar mal. Ela dobrou os braços a frente do peito.
- Por que está me analisando? – ele quis saber. Ela meneou a cabeça como se não valesse a pena dizer. Ele deu de ombros – Eu vou sair e chamar a minha mãe, ok? Talvez como avó ela possa entrar – Ele murmurou em um fio de voz e se encaminhou para a porta sem esperar uma resposta dela. Mas antes de sair, olhou por cima do ombro e disse: - Serena, eu sei que o que ela fez foi errado, mas tenho certeza que tinha boas intenções. Então... não a trate mal, ok?
- Pode deixar Bruno. Não a tratarei do mesmo modo que me tratou.
O corpo dele se deteve por alguns segundos na frente da saída. Ela achou que ele fosse se virar e lhe dar uma má resposta, mas tudo o que fez foi sair do seu quarto.
Quando finalmente Bruno saiu, ela pôde respirar e aproveitar um pouco mais o lugar que estava. Certamente a família de Henrique tinha dinheiro.
Ela observou o quarto, passeando com os olhos pelo chão translucido do ambiente. Havia uma porta à direita que indicava um banheiro privado. Ao seu lado, uma poltrona grande, para acompanhantes. Na mesinha embaixo da tv de tela plana tinha alguns pães. Na mesma hora a barriga formigou.
O dia fora tão intenso que mal se lembrara de comer. Serena se levantou, carregando consigo o tripé de soro. Ela pegou um pãozinho e mordeu, o alívio tomando conta do paladar. Depois de mastigar a comida, se serviu do líquido que estava na jarra ao lado, supondo que seria água.
Uma mulher elegante e com os olhos preocupados entrou no mesmo momento em que ela dava um gole.
- Serena. – A mulher disse. E como se não soubesse o que fazer com as mãos, colocou-as atrás do corpo. – Por favor, meu bem... me perdoe. Eu sei que fiz uma coisa impensável... absurda... – a senhora já andava de um lado para o outro dentro do quarto. – Mas...
- Mas você fez com as melhores intenções. – Serena completou com suavidade. Ela não sabia o porquê, mas aquela mesma pessoa que tinha se passado por seu filho morto lhe inspirara amizade desde o primeiro instante que surgira na porta. A senhora parou de andar e a encarou com os olhos redondos e negros.
- Então você me perdoa?
Perdoar era uma palavra muito forte e profunda, então sem saber o que dizer, ela assentiu com a cabeça. A senhora sorriu largamente parecendo deixar todo o peso que sentia ir embora, e num impulso, já estava a sua frente, lhe tascando um beijo na bochecha e a pegando de surpresa em um abraço.
Serena se assustou. Mas o abraço dela era tão apertado e genuíno que foi impossível não corresponder.
- Serena, temos tantas coisas a conversar! E eu me sinto tão envergonhada... – ela dizia cabisbaixa, então a soltou de repente, apertando as sobrancelhas. – Mas não tão envergonhada quanto me sinto em relação a Bruno. Meu deus! Eu nem posso imaginar o que ele deve ter te feito passar...
E a senhora continuou falando pelos cotovelos. Izabel, como se apresentou logo depois que se lembrou que não haviam sido apresentadas, já sabia de tudo. E como não poderia saber? Serena estava conversando há dois meses com ela enquanto pensava ingenuamente que falava com Henrique.
Mas ainda que um tanto estranho, parecia ter sido mais fácil. Conversar com dona Izabel foi como falar com um amiga, ela já entendia tudo o que Serena sentia, e por vezes, até completava as suas frases. O papo estava tão leve que às vezes era possível soltar um sorriso.
Duas batidas delicadas foram ouvidas à porta.
- Desculpe incomodar, Sra...- A enfermeira olhou a prancheta que carregava a mão. – Serena. Seu marido já fez seu cadastro, e a Sra. Já está liberada, só pedimos que espere um instante que a Dra. Carla virá falar com a senhora.
Serena olhou assustada para Izabel quando a enfermeira se retirou.
- Marido?
- Meu deus, o que Bruno foi inventar.... – a mãe dele balançava a cabeça efusivamente. Quando dona Izabel virou para ela para continuar proferindo suas indignações, uma mulher baixa com um coque frouxe e óculos de grau na ponta do nariz fino adentrou o quarto.
- Sra. Serena... – a mulher segurou os óculos para se certificar que lera corretamente. – Que nome exótico! – soltou uma risadinha simpática. Ela sorriu de volta. – Sou a obstetra aqui do hospital, meu nome é Carla. Antes da senhora ir gostaria de trocar algumas palavrinhas.
Depois de meia hora, Serena tinha certeza que não era palavrinhas. O que levara fora um sermão. Ou muitos deles. Nada de se estressar! Precisa ter alguém por perto! Já fez o pré natal?! Precisa melhorar a alimentação! Coma mais folhas verdes e tome sol matinal. Beba muita água!
Argh.
Serena saiu de seu quarto aloprada por todas as coisas que deveria observar em relação a gravidez. Percebendo sua preocupação, Izabel apertou seu ombro e disse que ia se acostumar com o tempo, afinal ela mesmo gerara três bebês saudáveis e estava ali "inteirinha", fora os seios caídos.
Ela soltou um suspiro, sentindo-se um pouco mais leve, apesar de preocupada. Até chegar ao corredor e ver uma mulher alta de cabelos negros e longos a observando como se fosse um demônio. Quem estava do lado dela também era outra fator. Bruno estava largado na cadeira com o boné tampando o rosto, com certeza dormindo.
Quando elas iam chegando mais perto. A mulher balançou Bruno, que devolveu um olhar emputecido e avermelhado de volta.
- Quem é você? – ela apontou para Serena. E depois olhou para Bruno. – E por que você não me disse que iria ser pai?!
- Beatriz! – Izabel advertiu. – Falei com você que íamos conversar em casa. Será que não pode esperar um pouco?! Agora temos coisas mais importantes a tratar...Já são quase dez horas da noite. A Serena precisa de um lugar para ficar e Bruno precisa ir embora e descansar também. -Tudo que Bruno fez foi dar de ombros e continuar sentado. Beatriz semicerrou os olhos para Serena e assentiu desconfiada. – Ótimo... Serena, você vai para casa com Bruno.
- O quê?! – os olhos de Bruno se tornaram grandes orbitas negras.
- Ah Bruno, pelo amor de Deus. Você tem uma mansão com dezenas de quartos.
- São quatro quartos. – Ele corrigiu a mãe, que pouca importância deu.
- Se a Serena ficar com você, os dois terão privacidade. Com uma casa tão grande, mal vão se ver.
- Discordo plenamente. – Bruno era taxativo. A mãe dele lhe lançou um olhar, advertindo-o.
- Você é o único que poderá ajudá-la no caso de alguma urgência, Bruno. – Izabel pedia com mais jeito agora. – Beatriz é casada e tem filho, além de estar por fora do assunto. Eu até tenho lugar em casa, mas estou passando por problemas de saúde... Por favor, Bruno. Faça isso por Henrique.
- Não ouse usar o Henrique para justificar isso, mãe!
- Mas você sabe que ele faria o mesmo por você.
- Olha... – Serena resolveu se impor, todos os olhares se viraram para ela como se finalmente soubessem que estava ali. – Eu não quero atrapalhar ninguém...
- Você vai ficar comigo. – Bruno resolveu. A boca dela abriu em protesto.
- Ótimo. – disse Dona Izabel, interpelando-a. – Meu bem. – ela se virou para Serena, que ainda estava boquiaberta. – Não se preocupe, vou visitá-la toda semana. Você sabe por onde falar comigo. Quer dizer, não vou mais fazer o que fiz. – o rosto de dona Izabel era um pimentão. – Bruno vai te dar o número do meu telefone. – Izabel tomou a liberdade de lhe dar um beijo na bochecha. – Vamos, Beatriz.
A mulher morena a olhou sem jeito, antes de seguir dona Izabel que se despediu do filho com um olhar de advertência. Quando as duas saíram, ela e Bruno se entreolharam.
- Vamos. – ele começou a andar, e quando percebeu que ela não o seguiu, perguntou: - O que foi, Serena? Tem alguma alternativa melhor?
- Não, não tenho – ela foi sincera. Não fora seu plano desde o início, é claro. Mas precisava de um suporte antes de arrumar um trabalho e seguir sua vida. Contudo, Serena não podia simplesmente ir sem seu outro bebê, então disse: – Mas tenho uma condição.
Bruno deu um repuxão nos lábios em contragosto.
- Acho que não está na posição de fazer exigências...
- Só vou ficar provisoriamente na sua casa se você aceitar que eu leve a Chicória Maria também.
Ele franziu o cenho.
- Quem diabos é Chicória Maria?
O que estão achando, galera? Me contemmm. E não se esqueçam da estrelinha. É muito importante! É isso que me faz continuar a história.
Até a prox. Beijossss
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